Neo-Ateísmo, Um Delírio

Ceticismo e racionalidade na demolição da ilusão neo-ateísta

O grande perigo que o neo ateísmo pode trazer para a ciência

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O quê? Mas como pode ser? Richard Dawkins e sua turminha vivem dizendo que estão “defendendo” a ciência de um mundo de trevas. Portanto, como poderiam eles estarem prejudicando a ciência?

Primeiramente, vamos aos fatos.

Temos que transcender um pouco para entender como o neo ateísmo é danoso para a ciência.

Vamos avaliar o efeito desse tipo de atitude nas empresas.

Antes disso, cabe relembrar o modus operandi de grande parte dos neo ateus.

Tecnicamente, o neo ateu executa um “disfarce” de defensor de ciência.

Isso é parte do conjunto de técnicas que ele usa para divulgar um mantra aprendido pelos marxistas: o oponente está nas trevas, enquanto ele está em um mundo de tecnologia e ciência.

Mas isso é apenas a ponta do iceberg.

O discurso dele será recheado, então, de vários exemplos da ciência que “minaram” a espiritualidade e/ou deram “todas” as respostas, inclusive sobre o sentido da vida.

Daí ele apontará para pesquisas sobre extraterrestres, psicologia evolutiva, neurociência, gene egoísta, memética e antropologia, dentre outras. Vale tudo.

Um exemplo pode ser a alegação de que a “neurociência descobriu que não existe livre arbítrio”. Aí quando começamos a investigar os resultados notamos que esse pessoal está absolutamente a anos luz de distância de demonstrar resultados como os vistos no filme Minority Report. Ué, como eles podem afirmar a inexistência de livre arbítrio sem demonstrar a “programação” inerente aos seres humanos sob teste? E como eles poderiam demonstrar o passo-a-passo desse programa? Na verdade não podem.

Outros dizem que a genética comportamental já prevê os comportamentos com baixíssima margem de erro, mas até hoje jamais foi apresentado um resultado consistente mostrando a predição de escolhas e mapeamento das ações das pessoas sob análise. Por exemplo, daria para, avaliando o código genético, saber quais produtos as pessoas comprarão? Não, não dá, portanto atualmente as empresas precisam dos inputs da área de Marketing e CRM, e não de geneticistas. Sinto muito, mas essa é a realidade. Mais um caso de promessa não cumprida.

O problema é que nos casos avaliados, praticamente sem exceção, neo ateus quando fazem tal divulgação mentem deliberadamente, fornecem informações falsas e prometem mais do que a área em questão pode oferecer.

É aí que está o desastre.

Nas empresas, qualquer pessoa que atua com gestão sabe que não se pode, POR HIPÓTESE ALGUMA, cometer lisonja, isto é, dizer que os resultados apresentados são melhores do que realmente são. Outro termo para lisonja: elogio não merecido. Melhor ainda: falso testemunho.

Na verdade, a motivação sempre vem por resultados A SEREM ALCANÇADOS, e não por mentiras divulgando resultados que JAMAIS foram alcançados ou nem serão.

É claro que no mundo corporativo não é lícito dizer que serão entregues ao fim do ano 200 projetos com sucesso quando na verdade apenas 50 passarão pelos critérios de projetos com sucesso. O motivo para isso é a governança, suportada pela auditoria, que não permite a divulgação de informações falsas. Ou ao menos as informações falsas são descobertas na raiz.

Internamente, no entanto, a divulgação de informações falsas e implantação de falsas expectativas tem um outro efeito, mais aterrador, que é a desmotivação pela obtenção dos resultados.

Ora, a questão é simples: ao invés de prometer aquilo que não fez, é melhor FAZER e depois apresentar os resultados.

A busca por FAZER e depois apresentar os resultados é a força motriz das empresas.

Ao contrário de MENTIR dizendo que fez, quando realmente não fez.

São posturas opostas.

Na primeira, motivamos os resultados a acontecerem (algo como dizer “não quero ouvir conversas, e sim ver os resultados”), na segunda motivamos o relaxamento (pois se alguém acredita só nas promessas, para que realizar?).

Entretanto, para tentar decretar a “morte de Deus”, neo ateus, travestidos de divulgadores da ciência, inventam resultados que estão muito distantes de ocorrer. Os exemplos da neurociência e da genética comportamental são apenas dois dos muitos exemplos que podemos citar. (Obs: nada contra as áreas científicas, desde que avaliadas pelos seus resultados REAIS, e não por falsas promessas)

Quanto mais esses neo ateus pregam resultados inexistentes, mais perto da tragédia anunciada estamos: a criação de uma cambada de acadêmicos VAGABUNDOS que estarão desestimulados a produzir resultados, pois eles não PRECISAM produzi-los.

O motivo: uma cambada de picaretas MENTE e INVENTA resultados que estão muito longe de existir.

É mais fácil mentir e dizer que faz algo do que REALMENTE fazer esse algo.

Em outras palavras: para que lutar pela fama se a fama já vem antes mesmo da luta?

Grande parte das mentiras e falsas promessas ocorre, naturalmente, na área da mente.

Recomendo a leitura de “A Mente Desconhecida”, de John Horgan. O livro é praticamente como se fosse um “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, de Carl Sagan. Enquanto o livro de Sagan focava na investigação e desmascaramento de médiuns e pseudo-cientistas de todo o tipo, o livro de Horgan foca na investigação e demolição das expectativas de algumas pessoas envolvidas com neurociência, psicologia evolutiva, etc… Não é a demolição de todos, mas sim daqueles “profetas da neurociência” ou “profetas da psicologia evolutiva”, que dizem que já SABEMOS a natureza humana. Falso: não há nada disso em neurociência e nem na psicologia evolutiva ainda.

E a tal da Equação Drake?

Na tentativa de provar a existência de vida alienígena, muitos adeptos do neo ateísmo dizem “estamos próximos de descobrir vida alienígena”.

Perguntas: Próximo significa quanto? Conseguem dar uma data? Em uma empresa, uma data é o mínimo que se espera.

É claro que não precisam dar uma data, pois eles NÃO ESTÃO atrás de resultados, e sim de contar historinhas e inventar que produziram mais resultados do que realmente produziram.

Ressaltando: a maior devastação que o neo ateísmo pode causar à ciência é justamente essa. Criar uma geração de picaretas que preferem MENTIR sobre resultados que não existem ao invés de realmente buscar os RESULTADOS REAIS e somente depois disso apresentar.

E o criacionismo?

Vejamos: eu não concordo com o criacionismo, sei que está distante de ser ciência e jamais deveria ser ensinado como alternativa à evolução. Ponto.

Só que os criacionistas vivem procurando defeitos na teoria da evolução, enquanto que alguns neo ateus ESCONDEM quaisquer defeitos que porventura lá existam. Qual a vantagem de esconder os defeitos?

Aliás, e a idéia de que a teoria da evolução serve para explicar o comportamento humano e toda a cultura? Claro que é mais uma mentirinha que os neo ateus adoram divulgar, mas não há um resultado sequer que demonstre essa alegação deles.

Sendo assim, a auditoria que é necessária nesse tipo de pesquisa (evolução) é feita pelos oponentes da teoria e não pelos seus adeptos – principalmente por causa do viés que atualmente envolve tal polêmica.

É por isso que desconfio tanto de “divulgadores de ciência” tanto quanto desconfio de falsários e políticos corruptos, etc…

Ciência é uma área profissional. Profissionais apresentam RESULTADOS.

Não é preciso de propaganda e nem de venda de falsas ilusões.

O resultado é a única propaganda necessária.

Ou será que existe “divulgação de gestão de projetos”, “divulgação de auditoria”, “divulgação de administração”?

Claro que não, pois são áreas em que os RESULTADOS falam por si. Não é preciso nada mais que isso. E o mesmo vale para a ciência. Até hoje não conseguiram apresentar um argumento sequer dizendo por que é preciso existir “divulgação de ciência” mais do que existir “divulgação de gestão de processos” por exemplo.

Em suma, o que se pede é menos enrolation, e mais trabalho!

Isso, claro, se os neo ateus não atrapalharem. Pois ajudar que é bom até agora nada…

Nota Final: Claro que há outros perigos do neo ateísmo, como por exemplo a criação de uma falsa visão do que a ciência é, e ainda o risco de jogar o público mais ignorante contra a ciência (quando os neo ateus fingem que representam a ciência, alguns mais ingênuos podem acreditar que eles REALMENTE a representam). Entretanto, na visão deste blogueiro que vos fala, nada é pior do que ter MENOS resultados do que teríamos por questão de desestímulo dos profissionais.

Escrito por lucianohenrique

Dezembro 30, 2009 em 12:01 am

Deus, Um Delírio – Capítulo 3 – Pt. 7 – Dawkins exagera a aposta de Pascal

com 8 comentários

Um dos estratagemas mais óbvios e básicos, praticados ad nauseam pela patuléia neo ateísta, é a ampliação indevida. Ele funciona basicamente pelo exagero da declaração de um oponente, e então, diante dessa versão exagerada, é feita uma suposta refutação, fingindo que o argumento original foi refutado.

É basicamente essa a iniciativa de Richard Dawkins ao tratar da Aposta de Pascal.

Vamos então, às evidências:

O grande matemático francês Blaise Pascal achava que, por mais improvável que fosse a existência de Deus, há uma assimetria ainda maior na punição por errar no palpite. É melhor acreditar em Deus, porque se você estiver certo poderá ganhar o júbilo eterno, e se estiver errado não vai fazer a menor diferença. Por outro lado, se você não acreditar em Deus e estiver errado, será amaldiçoado para todo o sempre, e se estiver certo não vai fazer diferença. Pensando assim, a decisão é óbvia. Acredite em Deus.

Para começo de conversa, Dawkins mente ao dizer que Pascal vendia a decisão “Acredite em Deus”. Na verdade, Pascal em nenhum momento busca incentivar o comportamento do leitor, pelo contrário.

O que Dawkins chamou de um argumento para acreditar em Deus, é apenas um raciocínio lógico, e que Pascal escreveu para si próprio, e não para convencer ninguém. Está desmascarada aí a fraude de Dawkins relacionada à ampliação indevida.

Tanto que Pascal não publicou nada durante em vida. Esse pensamento foi publicado, junto com outros, na obra “Pensamentos”, somente após sua morte. Claro que alguns religiosos podem interpretar o argumento, mas é com esses que Dawkins deveria encrespar. E não com Pascal.

Dawkins no entanto se esqueceu de que a análise do raciocínio de Pascal, sem fazer juízo de valor, mostra que ele permanece lógico, tanto que vale para aplicação em quaisquer outros aspectos. Um exemplo é o Aquecimento Global. Vejam: “Se acreditarmos no Aquecimento global e estivermos certos, seremos beneficiados com possíveis medidas de contenção. Se acreditarmos no Aquecimento Global e estivermos errados, não teremos nada a perder. Se não acreditarmos no Aquecimento Global e estivermos certos, não teremos nada a perder. Se não acreditarmos no Aquecimento Global e estivermos errados, vamos todos nos estrepar”.

Ou seja, é um raciocínio meramente lógico, que passa pela cabeça de muitas pessoas. Por que então ele seria automaticamente inválido? Só se tornaria inválido se incluísse Deus? Dawkins não consegue sequer estabelecer um caso para isso.

Como raciocínio pessoal, e não um argumento, a iniciativa de Pascal é natural, assim como a transposição da Aposta de Pascal para o Aquecimento Global.

Tentar usar isso para comprovar o Aquecimento Global ou a existência de Deus seria um equívoco. Mas, de novo, não foi essa a idéia de Pascal.

Mas vejam que curioso:

Há, porém, alguma coisa claramente esquisita no argumento. Acreditar não é uma coisa que se possa decidir, como se fosse uma questão política. Não é pelo menos uma coisa que eu consiga decidir por vontade própria. Posso decidir ir à igreja e posso decidir recitar a novena, e posso decidir jurar sobre uma pilha de Bíblias que acredito em cada palavra escrita nelas. Mas nada disso pode realmente me fazer acreditar se eu não acreditar. A aposta de Pascal só poderia servir de argumento para uma crença fingida em Deus.

Como de costume, Dawkins dá várias voltas mas não sai do lugar.

E, como todo prolixo, Dawkins se estrepa justamente por suas palavras, pois tudo que ele expôs no trecho anterior NÃO é parte do argumento de Pascal, apenas uma intepretação bizarra feita por Dawkins. Para começar, a historinha nonsense de que “acreditar não é uma coisa que se possa decidir”. Como não? Qualquer argumento ou observação com tom de persuasão tem por fim… levar alguém a acreditar ou desacreditar de algo. Essa crença deverá ser por escolha pessoal.

Uma crença aceite por persuasão NÃO É necessariamente uma crença fingida, de forma que ele afirmar que a aposta de Pascal só poderia servir de argumento para “uma crença fingida em Deus” é apenas (mais) um erro lógico de Dawkins.

Vejamos como Dawkins segue:

E é melhor que o Deus em que você alega acreditar não seja do tipo onisciente, senão ele vai saber da enganação. A idéia absurda de que acreditar é uma coisa que se pode decidir fazer é deliciosamente ridicularizada por Douglas Adams em Dirk Gentlys Holistic Detective Agency, em que somos apresentados ao Monge Elétrico, um dispositivo muito prático que se compra para “acreditar por você”. O modelo de luxe é anunciado como “capaz de acreditar em coisas que ninguém de Salt Lake City acreditaria”.

De novo, um esperneio que só teria valia se uma crença aceite após persuasão (ou seja, quase todas) fosse automaticamente fingida. O argumento de Dawkins nem de longe comprova isso. Portanto, Dawkins apelar para um humorista como Douglas Adams para validar a idéia absurda dele de que crença é algo que NÃO se pode escolher não lhe salva a pele.

Mas ainda assim achei divertida a idéia do Monge Elétrico. Ele talvez sirva para acreditar nos argumentos de Dawkins. Pois já que ninguém racional acredita, talvez o Monge Elétrico acreditaria…

Vamos em frente:

Mas por que, então, estamos tão dispostos a aceitar a idéia de que o que é imprescindível fazer, se se quiser agradar a Deus, é acreditar nele? O que há de tão especial em acreditar? Não é igualmente provável que Deus recompense a bondade, ou a generosidade, ou a humildade? Ou a sinceridade? E se Deus for um cientista que considera a busca honesta pela verdade a virtude suprema? Aliás, o projetista do universo não teria de ser um cientista?

As perguntas que Dawkins faz transitam entre o bizarro e o infantil.

Vamos por exemplo, transpor a primeira pergunta do território da crença em Deus, para a crença em uma missão de uma empresa. Imaginando um novo funcionário: será que ele teria que estar disposto a aceitar a idéia de que é imprescindível, se quiser agradar à empresa, acreditar nela? Claro que é uma extrapolação, mas isso mostra que a crença em um empresa, por alguém que faz parte dela, é mais valorizada que a descrença. Suponho que Dawkins tente maquiar o termo “acreditar” por “acreditar cegamente”, o que não é aconselhado pela religião (ao menos a religião cristã).

Aí ele pergunta “o que há de tão especial em acreditar?”. Ora, se alguém não acredita que um estudo é viável, por que investiria tempo nele e não em outro? A necessidade de crença, não só para Deus, como para um investimento, um casamento, a aceitação de um emprego, a contratação de um funcionário, é essencial. O questionamento de Dawkins, de novo, falha o alvo.

Ele também fala que Deus deveria recompensar a bondade, generosidade, humildade ou sinceridade. Mas quem disse que Deus não recompensaria isso? Aliás, o fato de acreditar em Deus não exime o cristão de alimentar as outras virtudes. De novo: Dawkins precisa aprender a quando argumentar, considerar o Deus dos religiosos, e não o Deus que ele inventou. Talvez um Deus que ele tenha inventado diga que se alguém possui crença isso o exime automaticamente de ter outras virtudes. Mas vai ser difícil se Dawkins quiser provar que isso é realmente uma característica do Deus cristão.

As últimas questões são estúpidas, e como sempre falam de um Deus que ele inventou, e que é um problema do Dawkins, não dos religiosos. Um Deus “cientista” teria que necessariamente ser humano, e segundo a religião cristã, Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, o que não significa que Deus é um homem, em carne e osso. As perguntas anteriores foram bizarras, mas esta última foi demente, nada mais que isso. Seria uma pergunta até aceitável em uma pessoa em transe esotérico ou até mesmo durante uma sessão do Santo Daime. Quanto alguém está doidão, não exigimos coerência lógica dessa pessoa. Agora, se a pessoa não está em um estado alterado de consciência, questionamentos como esse do Dawkins merecem no mínimo camisa de força. Ou ao menos um “pedala” na cabeça…

E lá vem mais Dawkins, em sua eterna venda de idéias:

Perguntaram a Bertrand Russell o que ele diria se morresse e se visse confrontado por Deus, exigindo saber por que Russell não acreditava nele. “Não havia provas suficientes, Deus, não havia provas suficientes”, foi a resposta (eu quase diria imortal) de Russell. Deus não respeitaria Russell por seu ceticismo corajoso (sem contar pelo pacifismo corajoso que o colocou na prisão durante a Primeira Guerra Mundial), bem mais do que respeitaria Pascal por sua aposta cautelosa e covarde?

O engraçado é que Russell, assim como Dawkins, acredita em um Deus que iria realizar uma pergunta FORMAL: “Por que você não acreditou em mim?”. Ou seja, ele dá uma resposta para uma suposta pergunta de um Deus que ele inventou, talvez baseado em uma Bíblia em que ele inventou.

Outra coisa: ceticismo não implica em coragem. É só uma negação. Se o sujeito não acredita em Deus, não é um ato de coragem ser cético quanto a ele. Assim como alguém que não acredita em Aquecimento Global, não é um ato de coragem ser cético quanto a ele. Difícil seria acreditar no Aquecimento Global e DIANTE DISSO ser cético quanto a ele. Aí sim seria preciso coragem.

Difícil entender o que Dawkins entende por lógica…

OBS: Dawins afirma que foi o pacifismo corajoso que levou Russell a ser preso durante a Primeira Guerra Mundial. Falso. Foi a atitude baderneira, de distribuir panfletos contra o alistamento para a Guerra. Em período de guerra, atitude assim não é pacifismo, e sim tentativa de sabotagem de seu governo.

E lá vem falácia:

Você apostaria que Deus valorizaria mais uma crença fingida e desonesta (ou mesmo uma crença honesta) que o ceticismo honesto?

Aqui é só a famosa falácia do falso dilema. Inválida, como argumento.

Abaixo é só a ignorância tradicional:

Suponha que o deus que o confrontar quando você morrer seja Baal, e suponha que Baal seja tão invejoso quanto disseram que era seu velho rival Javé. Não seria melhor que Pascal não tivesse apostado em deus nenhum, em vez de apostar no deus errado? O próprio número de deuses e deusas em potencial em que se poderia apostar não corrompe toda a lógica de Pascal?

Ihh… danou-se o Dawkins. Se existir Baal, e ele for invejoso tanto quanto Deus, no qual acredito, então está ótimo, pois Deus não é invejoso. E por acreditar em Deus e conhecer um pouco do assunto, automaticamente eu acredito que outros povos tratam-no da mesma forma. Portanto, não existiria essa possibilidade de eu acreditar em Deus e desacreditar de Baal. Pelo contrário, eu acredito em Deus, que é tratado por Baal por outro povo. Logo, a lógica de Pascal não se corrompe. Detalhe: não estou validando a Aposta de Pascal como argumento, e sim a lógica de Pascal como um pensamento válido que ele poderia ter dito.

Seria o mesmo que duas versões do Aquecimento Global (como é uma teoria, existem variantes) poderiam corromper a lógica aplicada a ele. Claro que não corrompe.

Depois de tanto rodeio, ele talvez tenta não se comprometer, mas aí já é tarde. E mesmo assim, ele ainda escreve besteira:

Pascal estava provavelmente brincando quando promoveu sua aposta, assim como estou brincando para descartá-la.

O problema é que Pascal jamais “promoveu” sua aposta.

Detalhe: descartar uma lógica pessoal (e não um argumento) fugindo do assunto isso qualquer um faz. Mas assim como a Aposta de Pascal não era um argumento, esse esperneio todo do Dawkins TAMBÉM não é. De novo, ele apenas criou um inimigo imaginário e lutou contra ele. Mas um inimigo imaginário é só isso mesmo. Imaginário. Pior para Dawkins.

E por fim:

Será possível, por fim, argumentar em busca de uma espécie de antiaposta de Pascal? Imagine que assumamos que realmente haja uma pequena chance de Deus existir. Mesmo assim, seria possível dizer que você terá uma vida melhor, mais plena, se apostar na sua inexistência, e não na sua existência, para não desperdiçar seu tempo precioso adorando-o, sacrificando-se em nome dele, lutando e morrendo por ele etc.

Pelo menos o questionamento do Dawkins aqui é legítimo, mas ele vale para aplicações da Aposta de Pascal tanto para Deus, como para a pesquisa SETI e para o Aquecimento Global.

Sim, seria uma vida muito mais divertida se não precisássemos agir como se qualquer evento que quiséssemos desacreditar realmente não existisse. Mas isso não é argumento também.

Ah, eu acredito em Deus e não vejo desperdício de tempo algum. Dawkins não foi claro no que seria esse desperdício de tempo. Por exemplo, quando eu fui ateu eu considerei todas as argumentações que eu fazia antes um desperdício de tempo. Outro poderá dizer que as pregações do Dawkins é que são desperdício de tempo.

Sendo então a avaliação do tempo pessoal algo relacionado a uma hipotética Gestão de Tempo Particular, e de caráter subjetivo, o argumento de Dawkins é inútil.

Além do mais, ao final quando Dawkins diz “sacrificando-se”, “lutando por” e “morrendo por” não passa de uma versão estereotipada do teísmo.

Obviamente seria um argumento válido se a maioria dos religiosos fizesse isso, mas nem de longe ele conseguiu provar que fazem.

Isso tudo mostra que Pascal, como sempre, foi um bom pensador (mesmo que não tenha apresentado um argumento para a crença em Deus, e não foi essa a intenção dele), ao passo que Dawkins é medíocre e tem problemas básicos com lógica.

É claro que analisar um texto em que Dawkins tergiversa sobre Pascal iria resultar em uma situação em que não é raro sentirmos vergonha alheia pelo desempenho de Dawkins.

Escrito por lucianohenrique

Dezembro 29, 2009 em 3:07 am

Luiz Felipe Pondé e a obviedade suspeita do ateísmo

com 7 comentários

* Texto originalmente publicado no blog Hagia Ecclesia, de autoria de Luiz Felipe Pondé *

O “ASSUNTO Deus” é complicado. Em jantares inteligentes, é mais fácil você confessar que faz sexo com dobermans, prova de que seu gosto ultrapassou formas sexuais conservadoras. Mas, se falar sobre Deus, há risco grave de que não te convidem mais. E aí nunca mais aquela cozinha vietnamita. Melhor se dizer um budista light.

Mas a mania que muito religioso tem de achar que tudo na vida se deve a Deus (ou similares) é um saco! Isso fala mais de sua preguiça e medo do que de Deus.

Entendo o bode dos ateus com essa gente. Para mim, essa conversa é semelhante ao papo de que você tem câncer porque não resolveu adequadamente seus conteúdos emocionais. Ora bolas, isso quer dizer que, se todo mundo um dia for feliz, ninguém vai ter câncer? Ou que, pior, além de ter câncer, você é um babaca responsável pelo câncer porque não fez terapia? Conheço gente que se diz ateia (e com isso se acha mais inteligente, como de costume) e acredita nessa baboseira de que o amor cura câncer. Mas, desculpe-me, ateísmo é coisa banal. Quando eu tinha oito anos era ateu. O ateísmo é óbvio (por isso comecei a desconfiar dele), diante do lamentável estado da vida: somos uma raça abandonada (Horkheimer). Ateísmo não choca mais ninguém (pelo menos quem já leu uns três livros sérios na vida), porque ateus já são vendidos às dúzias em liquidações. E mais: ser ou não ateu não diz nada acerca de como a pessoa se comporta com os outros (ao contrário do que muitos ateus e não ateus pensam). Existem canalhas de ambos os lados do muro.

Deus, como se diz em filosofia, “é uma variável sem controle epistemológico”, isto é, não se testa Deus em um laboratório.

Mas, antes, uma pequena heresia.

Mais chocante hoje é alguém confessar que não crê no aquecimento global, pelo menos na versão que aconteceu nesse espetacular concílio bizantino em Copenhague, reunindo toda a gente legal do mundo.

Confesso minha fraqueza: sou um herege, não acredito que meu pequeno carro aqueça o planeta, mas já estou pagando mais imposto por isso e tenho certeza de que outros virão. Acho essa história uma mistura de ego inflado (disputamos com o Sol para ver quem aquece mais?) e tédio (que tal salvar o planeta? A vida está tão chata na Dinamarca!). Meu cachorro anda triste? Deve ser o aquecimento global.

Sei que dizem que é fato científico, mas, para mim, que sou um medieval, só acredito na ciência quando vem no formato de resultados de exames do Fleury ou do Delboni, e não quando tem a ONU no meio e gente ganhando milhares de euros salvando o planeta.

Para mim, Copenhague foi aquele tipo de concílio onde se discutia se a roupa de Jesus era dele ou não. Temperamentos autoritários gozaram de tesão em Copenhague.

E o ateísmo? A constatação de que o mundo é péssimo e, por isso, Deus não deve existir é razoável. A primeira vez que isso me ocorreu foi quando descobri que existiam colegas mais felizes do que eu na escola, e aí eu julguei o mundo injusto. Se Deus, como todo mundo me dizia, era bom, por que eu não era o cara mais forte do mundo? Decidi que Deus não existia. Ou não era bom. O ateísmo é uma conclusão óbvia, não há nenhuma grande inteligência nisso.Qualquer golfinho consegue ser ateu.

Anos mais tarde, fosse eu uma dessas pessoas legais que creem no marketing do bem, concluiria que o mais justo seria que todos fossem igualmente felizes, e aí Deus teria sido democrático. Graças a Deus nunca passei pelo ridículo de pensar assim. Quanto a Deus ser mau, concluí que melhor seria mesmo considerar o universo indiferente e cego e mecanicamente cruel. Naquele dia, tornei-me um trágico (antes de ler Nietzsche ou Darwin).

Poucos ateus não são descendentes de uma criança infeliz e revoltada (e, veja, 110% das crianças, esses pequenos lindos monstros malvados, são infelizes porque sempre existem crianças mais felizes do que você). A prova disso é que ateus gostam de falar mal da igreja (nunca superaram aquela freira azeda), de Deus (esse malvado que não me fez mais forte), ou do pai judeu (que me obrigou a só namorar judias).Ou acham que, se formos todos ateus, o mundo será melhor. Se você é assim e tem orgulho de ser ateu, você é um rancoroso.

Quando se deixa de acreditar em Deus, passa-se a acreditar em qualquer besteira (Chesterton): na Natureza, na História, na Ciência, na Dinamarca, em Si Mesmo. Essa última crença, eu acho, é a pior de todas. Coisa de gente cafona.

ponde.folha@uol.com.br

Escrito por lucianohenrique

Dezembro 28, 2009 em 12:01 am

Dawkins e Sagan: os Bozós da ciência

com 29 comentários

Quem tem mais de 30 anos com certeza vai se lembrar desse quadro do Chico Anyzio.

O Bozó era um personagem que tinha um único objetivo: usar de sua influência (suspeita) para obter benefícios. Basicamente era isso.

E não é absolutamente nada diferente do que fazia o Carl Sagan e atualmente faz o Richard Dawkins.

A atuação do Bozó, no vídeo, e de Sagan e Dawkins, nas academias, pode ser definida da seguinte forma: Engenharia Social.

Há dois contextos da Engenharia Social: um para as ciências políticas, e outro para a segurança da informação. Nos dois a essência é a mesma: usar de sua influência para manipular os outros, ludibriando-os, moldando comportamentos, e daí obter benefícios. A infiltração de acadêmicos marxistas nas universidades é um ato de Engenharia Social, no contexto político, assim como dizer que é amigo de um diretor, para obter uma senha e roubar informações sigilosas da mesma forma é um ato de Engenharia Social, agora no contexto de Segurança da Informação.

A atuação de Sagan e Dawkins fica num meio termo entre os dois contextos.

O objetivo desse tipo de gente é fingir que “representa a ciência” (não é diferente, por exemplo, do que dizer que “representa” a direção da empresa, sem na verdade representá-la), e em cima disso executar a agenda pessoal.

Uma das manifestações desse tipo é usar a picaretagem-mor que atende pelo nome de “divulgação científica”.

Basicamente, é um ato de dizer que “representa a ciência” e escrever matérias e livros em nome “da ciência” para leigos e incapazes.

Como são leigos, esses não perceberão que estão de um ato de engenharia social e a ciência lá demonstrada é bem diferente do que a ciência REALMENTE é.

Claro que não dá para acusar a “divulgação científica”, em si, de um ato de Engenharia Social. Mas é um MEIO que pode ser usado por esse tipo de picareta.

No caso, Dawkins e Sagan podem ser acusados, sim, de Engenharia Social.

Vejam, por exemplo, o que Carl Sagan escreveu em Pálido Ponto Azul:”Como é possível que praticamente nenhuma religião importante tenha olhado para a ciência e concluído: “Isso é melhor do que imaginávamos! O universo é muito maior do que disseram nossos profetas, mais grandioso, mais sutil, mais elegante”? Em vez disso, dizem: “Não, não, não! Meu deus é um deus pequenininho, e quero que ele continue assim”. Uma religião, antiga ou nova, que ressaltasse a magnificência do universo como a ciência moderna o revelou poderia atrair reservas de reverência e respeito que continuam quase intocadas pelas crenças convencionais.”

Não passa de tentativa de difamar a religião, e pregar o seu ateísmo, mas em nenhum momento isso tem qualquer coisa a ver com “divulgação de ciência”. Aliás, o conceito sob o qual Sagan trabalha é o do cientismo, que é até desmoralizante para a ciência.

É claro que não passa de execução de agenda pessoal. Para maiores detalhes de minha refutação à esse discurso do Sagan, recomendo o texto aqui, que faz parte da refutação a Deus, Um Delírio, de Richard Dawkins.

A melhor solução para desmascarar esse tipo de gente é AUDITORIA.

Nas empresas, eliminamos a engenharia social com auditoria. Se precisar, dá para ocorrer até demissão por justa causa ou até processos de ressarcimento.

Nos materiais escritos, por gente como Sagan e Dawkins, o negócio é AUDITAR os textos e expor ao público a picaretagem.

No caso do Bozó, a coisa era definitivamente engraçada.

No caso de Sagan e Dawkins, a coisa é preocupante. E deprimente.

Por isso, o melhor é prevenir, antes de ter que remediar.

Escrito por lucianohenrique

Dezembro 27, 2009 em 12:01 am

Refutando um “refutador” de Alister McGrath: começa o drama para Camilo Gomes Jr.

com 10 comentários

O duelismo argumentativo (não confundir com dualismo) é um exercício realmente interessante. Pessoas como eu, que gostam de um duelo de argumentos, acham prazenteiro encontrar outros que agem da mesma forma. Só que embora seja empolgante duelar com rivais que jogam de acordo com as regras (as boas práticas incluem não cometer falácias, não praticar erística, não distorcer informações, etc.), a coisa fica ainda mais divertida se os duelistas atuam como inimigos e são desonestos.

Este é o caso do blogueiro Camilo Gomes Alves Jr., que possui um blog chamado “A Voz da Espécie” e lançou seu texto “O Delírio de Dawkins?”, no qual diz que refuta e aniquila o livro homônimo, de Alister McGrath. Será? Vamos investigar…

Antes de começar a investigação do texto de Camilo, deixemos que ele se apresente: “Mineiro de Dom Cavati, no leste do estado. Depois de morar por quase 10 anos em Ouro Preto, vivo hoje em Campina Grande, Paraíba. Sou músico (compositor e vocalista da banda InArcadia, que atualmente encontra-se no estúdio, finalizando músicas próprias), escritor, professor de inglês e português, e estudioso de matérias nos campos da Neurociência, Psicolinguística, Psicologia Evolucionista e Antropologia.”.

Resumo da ópera: há grandes chances de estarmos diante de um baita de um picareta, no estilo daqueles marxistas radicais que infestam as universidades atuais. O fanatismo por Richard Dawkins é outro traço evidente em seu discurso. Essas minhas suspeitas se confirmaram durante a investigação de seu texto.

O resultado da investigação é o que vocês poderão ver a partir de agora.

Antes, atento também para algo divertidíssimo, que são os comentários às imagens (do post de Camilo) feitos por ele. São eles:

  • (1) “Richard Dawkins: um dos três intelectuais mais influentes do mundo.”. -> O problema é que o Camilo omitiu a informação de que isso é apenas opinião dos leitores da revista de esquerda Prospect.
  • (2) “O casal Alister e Joanna McGrath: texto crítico à obra de Dawkins que merece uma leitura ainda mais crítica.” -> Essa leitura não foi a de Camilo, que comete vários erros em sua suposta “refutação”. Faltou atenção e visão investigativa ao Camilo.
  • (3) “Antony Flew: crença num deus bem diferente do deus de judeus, muçulmanos ou cristãos.” -> Isso não ajuda o caso de Camilo, a não ser que McGrath tenha dito que o Deus concebido por Flew teria que ser igual.
  • (4) “Francis Collins: defesa da evolução e conversão delirante ao cristianismo.” -> Conforme mostrarei aqui, não há evidências de “conversão delirante”.
  • (5) “C. S. Lewis e seu livro “Cristianismo Puro e Simples” (“Mere Christianity”, em inglês): não é nenhuma grande obra teológica ou filosófica sobre o deus cristão, apenas uma reunião de palestras do autor trazendo mensagens tranquilizadoras em face do receio do mundo pós-Segunda Guerra, porém essa obra de autoajuda cristã foi catalizadora da conversão de Collins.” -> Camilo em nenhum momento comprova elementos de auto-ajuda na obra de C. S. Lewis.
  • (6) “Lênin: em seu livro, McGrath inventa e inverte palavras que o líder da revolução Russa teria escrito numa de suas cartas.” -> Mostrarei aqui que McGrath não inventou palavra alguma, e mostrarei as citações. Lenin queria, sim, trucidar os religiosos. E fez isso.
  • (7) “Capas das edições inglesa e brasileira do livro do casal McGrath: em português, em vez de uma indagação (“O Delírio de Dawkins?”), o título vem na forma de uma afirmação peremptória: “O Delírio de Dawkins”.” -> Também não serve como argumento contra McGrath, pois é natural que livros não tenham seus títulos traduzidos ao pé da letra.

Como se vê, até nos comentários das fotos Camilo se estrepa.

Segue então o texto de análise da auditoria do texto “O Delírio de Dawkins?”, feito em cima do caso apresentado por Camilo (não incluirei citações a todos os trechos, e sim aos mais relevantes e pertinentes):

Há mais de um ano, eu ainda tinha tempo e paciência para ficar na internet, discutindo com crentes que se esforçavam para me mostrar que o vírus da fé é mesmo incurável, pelo menos na maioria dos infectados com crenças que julgam ser a Verdade Absoluta do universo, mas que em nada diferem da crendice no poder mágico das ferraduras, na origem alienígena do chupa-cabras ou nas mulheres seduzidas pelo Boto, na Amazônia.

A idéia tola de “vírus da mente” já nos faz clarear a idéia de que as suspeitas de que estamos diante de um discípulo de Dawkins estão materializadas, definitivamente. Curiosamente, eu não conheço esses tais crentes que alegam ter crenças similares a Boto da Amazônia ou em Chupacabras. Se Camilo os conhece, isso é um problema basicamente dele. O que importa é que os leitores deste blog já saberão que ele partiu para atacar sem trazer evidências, o que já prejudica seu caso logo de abertura.

Vamos seguir, portanto:

Nesse verdadeiro “tempo perdido” da minha vida, durante mais uma discussão que tive numa sala de bate-papo em que o debate se centrava no tema “Ciência vs. Religião”, uma garota (bem, ao menos o nickname era de garota), assim que mencionei o nome de Richard Dawkins, partiu para cima de mim, com visível sede de briga. “O quê? Dawkins?”, veio logo disparando. “Você está mesmo desatualizado, hein? Não sabe que Dawkins já caiu em descrédito? Ele já foi totalmente refutado por McGrath, em seu livro que, a propósito, foi elogiado por ninguém menos do que Francis Collins, sabia? Aliás… Você já leu McGrath, por acaso?”

A questão de “tempo perdido” é irrelevante ao escopo de qualquer caso, pois tal diagnóstico é subjetivo. Não serve, portanto, como acusação contra os religiosos. De qualquer forma, a alegação da “garota” apontada por Camilo fala que Dawkins já caiu em descrédito. Ela apenas demonstrou um fato, mesmo que os seus seguidores fiéis (os neo ateus) não liguem muito para isso. Mas Dawkins possui hoje uma base menor de apoio, e Alister McGrath é um dos responsáveis pelo desmascaramento de Dawkins. Não é o único, no entanto. E ele nem alegou ser o único, diga-se.

Vamos em frente:

Respondi-lhe prontamente que, sim, conhecia os textos de McGrath sobre aquele que se tornou seu alvo de críticas favorito (algo quase como uma obsessão, na verdade), e tentei contra-argumentar, mostrando à minha interlocutora que, por um lado, faltava-lhe uma melhor compreensão daquilo que chamava de “refutação de Dawkins”, tal como berrava no chat, como quem tinha em mãos o veredicto da Suprema Corte da Razão Plena e Inquestionável. Busquei ainda mostrar que ela estava redondamente enganada em sua absurda afirmação de que não mais encontravam sustentação alguma as teorias defendidas pelo autor de O Gene Egoísta, O Fenótipo Estendido, O Relojoeiro Cego, A Escalada do Monte Improvável e Deus, um Delírio, entre outras obras. Aliás, a impressão clara que tive foi a de que ela, na verdade, nem mesmo conhecia as obras de Dawkins, somente aquilo que delas falavam seus críticos cristãos, em seus próprios livros ou resenhas publicadas na internet.

Estranho, muito estranho.

Aqui Camilo chama de “obsessão” a atitude de McGrath pelo fato de Dawkins ser o alvo favorito de suas críticas. O esperneio de Camilo torna-se irrelevante pois caso contrário ele teria que aceitar também a idéia de que Richard Dawkins teria obsessão por Deus e pelos religiosos, pelo mero fato de dedicar mais de 400 páginas só para atacá-los. Se o fator que Camilo decide usar para MEDIR obsessão seria o número de páginas dedicadas, Dawkins pode muito mais facilmente ser acusado de obsessão do que McGrath Dawkins. Com certeza, Camilo não aceitaria isso. Ele não seria estúpido a esse ponto.

Camilo, portanto, deu um tiro no próprio pé.

E vocês acharam que eu estava brincando quando eu falei que seria divertido, não é?

E isso é só o começo, pois tem mais:

Pode ser que Dawkins, compreensivelmente, não conte com a simpatia de McGrath nem de outros tantos cientistas teístas (bem como outros não crentes “politicamente corretos”, que temem arriscar seu prestígio e, talvez, seu emprego, cutucando o vespeiro fanático da religião que, trazendo em si o ranço de seu poder de influência de séculos passados, ainda tem pretensões de se manter eternamente “intocável” pela crítica). Mas isso não significa, de forma alguma, que o trabalho de Dawkins tenha caído em descrédito em meio à comunidade científica — embora, com certeza, aqueles de manifesta credulidade religiosa farão de tudo para defender sua perspectiva, mesmo que não sejam bem-sucedidos em oferecer uma alternativa plausível para a crítica que o biólogo britânico faz às religiões, que dirá uma alternativa (baseada em evidências e sólida teoria) para sua abordagem dos mecanismos biológicos da evolução.

Infelizmente, para Camilo, tudo que ele escreveu acima não é verdade. Dawkins realmente não goza de prestígio entre a elite da comunidade científica, e suas 3 teorias (gene egoísta, fenótipo científico e memética) jamais se tornaram “aceitas” a ponto de serem utilizadas em pesquisas formais. Chore Camilo o quanto quiser, pois ele não mudará essa situação trágica de seu ídolo.

Outra evidência é este link, que desmascara absolutamente todo o discurso de auto-ajuda de Dawkins apelando para a falsa dicotomia entre ciência e religião. É fato: a Academia Nacional de Ciências NÃO APÓIA o discurso no estilo Dawkins.

Outros exemplos incluem biólogos de elite como o já falecido Stephen Jay Gould e Michael Ruse, que nem de longe concordam com os delírios de Dawkins. Ambos são cientistas. Ambos são biólogos. Ambos são… ateus. De forma que a alegação de que “Dawkins não conta com a simpatia de cientistas teístas” cai por Terra. A defesa de Camilo só surtiria efeito se os únicos que discordam de Dawkins fossem cientistas teístas.

Até Ursula Goodenough, que foi citada por Dawkins como se ela estivesse em favor de seu caso, já ridicularizou não só o Dawkins como posturas semelhantes à dele. Ver aqui.

Sem motivo justificável, ele tenta apelar à Prospect:

A esse respeito, a propósito, a prestigiada revista britânica Prospect (em parceria com a revista estadunidense Foreign Policy) publicou, em 2005, o resultado de uma pesquisa de opinião sobre quem eram os 100 maiores intelectuais do mundo atual: o nome de Richard Dawkins aparece em 3º lugar, atrás apenas de Umberto Eco (2º) e Noam Chomsky (1º). Se McGrath, tal como afirmam seus admiradores, realmente desbancou Dawkins, tornando-o lixo descartável, por que então seu nome aparece em posição de destaque nessa lista recente, enquanto os nomes de McGrath ou de Francis Collins, que teceu elogios a sua obra, não surgem nem sequer na 100ª posição, como intelectuais de peso e influência? Afinal, até aquele ano em que a consulta foi feita, McGrath já havia publicado dois livros atacando o ateísmo e, nominalmente, Richard Dawkins, a saber: The Twilight of Atheism [O Crepúsculo do Ateísmo] e Dawkins God [O Deus de Dawkins].

O que é isso? Para tentar salvar a pele de Dawkins tentando dizer que ele seria “respeitado na comunidade científica” o sujeito me aparece com uma pesquisa da revista Prospect? Aliás, Prospect é uma publicação de ESQUERDA. E não é uma publicação de ciência.

Será que Camilo sequer desconfiou disso ao ver o nome de Dawkins ao lado de gente suspeita como Umberto Eco e Noam Chomsky? Santa ingenuidade… Bem, pelo menos já sei que Camilo não tem perfil para adentrar em áreas como investigação científica, auditoria, etc.

O fato é que qualquer resultado de pesquisa na revista Prospect NÃO SERVE como evidência de que alguém possui relevância na comunidade científica. A não ser que na revista o público fosse principalmente a comunidade científica, o que está longe de ser verdade. Portanto, a citação de Camilo é impertinente e mais prejudica do que ajuda seu caso.

E depois do “plim, plim”, a diversão prossegue:

A propósito, McGrath cita a supracitada pesquisa já na introdução de seu livro. Comenta a opinião do revisor de Deus, um Delírio num artigo posterior escrito na mesma Prospect. E, por fim, sugerindo que a pesquisa ocorreu antes do lançamento da primeira edição do livro de Dawkins, à página XI da introdução de O delírio de Dawkins, McGrath diz: “Não estou sozinho em meu desapontamento aqui. Deus, um Delírio alardeia o fato de que seu autor foi recentemente eleito um dos três principais intelectuais do mundo. Essa pesquisa ocorreu entre os leitores da revista Prospect em novembro de 2005. E o que foi que a mesma revista Prospect fez do livro? Seu resenhista ficou chocado com este livro ‘indolente, dogmático, vago e autocontraditório’.” Todavia, é preciso atentar para alguns fatos: (1) Como sabemos pelo jornal The Guardian, na edição de 18 de outubro de 2005, o resultado da pesquisa já havia saído no início daquele mês — McGrath parece ter problemas em checar seus dados, o que não vai acontecer apenas desta vez. (2) A pesquisa foi feita por duas revistas em parceria; não apenas a Prospect, mas também a Foreign Policy, onde não houve essa mesma opinião crítica. (3) A opinião de um crítico não reflete a opinião dos editores da revista. (4) A opinião de um crítico não reflete a opinião dos inúmeros leitores das duas revistas que responderam à pesquisa. (5) Fato mais relevante: o autor da crítica em questão é Andrew Brown, colunista sobre “assuntos religiosos”, e que simplesmente parece ter birra de Dawkins, com certeza por conta da visão crítica do biólogo acerca da religião, já que sabemos que, na mesma revista Prospect, na edição de junho de 1996, Brown escreveu uma resenha negativa a outro livro de Dawkins, Escalando o Monte Improvável, em que falou tudo o que bem quis sobre o livro, e ninguém deu muita bola para a sua opinião, pois o livro foi e continua sendo um sucesso de vendas. Brown parece ter apenas ficado bem irritado com o fato de que, apesar de suas críticas a Dawkins, este acabou sendo eleito um dos três maiores intelectuais do século 20, principalmente entre leitores da própria revista para a qual trabalha e onde fez suas críticas aos livros do biólogo da Universidade de Oxford.

Camilo comete o erro grosseiro de colocar a crítica feita na Prospect por Andrew Brown como PONTO CENTRAL do argumento de McGrath, e isso é completamente falso.

Qualquer um que souber ler e não for um analfabeto funcional saberá que McGrath meramente citou a resenha de Andrew Brown como um dos exemplos de resenhas contra Dawkins. Mas não para invalidar a pesquisa da Prospect.

De qualquer forma, já que McGrath não fez, eu faço: a pesquisa na Prospect é INÚTIL para comprovar qualquer coisa em favor de Dawkins. Além do mais, pesquisa sobre “intelectuais” feita por povão? Pesquisa por povão para eleger a mulher mais sexy, ou o programa “mais legal”, até aí tudo bem. Mas para eleger intelectuais? Ah, faça-me o favor.

Citar a revista Prospect, que é uma publicação de esquerda (assim como a Foreign Policy), só serve para derrubar o caso de Camilo.

Obs: Não é o fato da revista ser de esquerda que invalida a análise. Mas é fato que isso configura VIÉS, e portanto a análise tem que ser catalogada como suspeita. Pode ser, por exemplo, que os leitores de esquerda tenham votado em Dawkins não por sua intelectualidade, mas sim pela execução de uma agenda em favor da mentalidade marxista. Lembremos: o neo ateísmo é apenas uma manifestação de coisas vistas antes, como materialismo dialético.

Para deixar Camilo em situação ainda mais embaraçosa, ele aponta os itens (2) A opinião de um crítico não reflete a opinião dos editores da revista e (3) A opinião de um crítico não reflete a opinião dos inúmeros leitores das duas revistas que responderam à pesquisa. Alguns itens podem ser adicionados: (6) Se Camilo afirma que os leitores são “inúmeros”, como então a qualificação pôde ser realizada (a qualificação de alguém em pesquisa só pode ser feita se os elementos são numeráveis)?, (7) A opinião dos leitores da revista não configura a opinião da elite intelectual, (8) A opinião dos leitores da revista não configura a opinião da elite da comunidade científica.

E agora, Camilo, what about now? What comes next?

Vejamos:

Além do mais, voltando à questão do livro de McGrath ter desbancado as obras de Dawkins, se isso é mesmo procedente, então por que o documentário criacionista Expelled, de 2008, emprega tanto esforço desesperado em atacar principalmente esse cientista. Outra coisa: por que o documentário em questão não economiza um pouco de munição, apenas citando esse suposto “nocaute” de McGrath em Dawkins, o que seria de extrema relevância para os “argumentos” do filme? Ben Stein, o apresentador do documentário, poderia simplesmente dizer, ao entrevistar McGrath: “Este homem aqui escreveu um livro que acaba com Dawkins. Leia-o! Dawkins já era! Depois que McGrath o detonou, ninguém mais fala nesse sujeito nem lhe dá ouvidos no mundo científico!” E fim de papo!

Detalhe: Camilo em MOMENTO ALGUM conseguiu validar o prestígio de Dawkins na comunidade científica. Ele tentou apenas espernear alegando a pesquisa da Prospect, que, como já mostrei, não significa ABSOLUTAMENTE NADA nesse sentido.

Não deixa de ser bizarro, no entanto, usar um estratagema erístico tão infantilóide conforme o acima. O argumento de Camilo é tão ruim, tão ruim, que a única forma lícita de tratá-lo é com a paródia. Vamos então reescrever o argumento de Camilo: “Passando à questão do livro de Dawkins ter desbancado a religião, se isso é mesmo procedente, então por que vários documentários neo ateístas empregam tanto esforço desesperado em atacar principalmente a religião? Outra coisa: por que esses documentários em questão não economizam um pouco de munição, apenas citando esse suposto “nocaute” de Dawkins na religião, o que seria de extrema relevância para os objetivos de tal empreitada. Bill Maher, Pat Condell e outros, poderiam simplesmente dizer, entrevistando Dawkins: ‘Este homem aqui escreveu um livro que acaba com a religião. Leia-o! A religião já era! Depois que Dawkins a detonou, ninguém mais fala da religião e nem lhe dá ouvidos pelo mundo científico e pelo mundo afora. E fim de papo!”.

Em suma, é isso que Camilo chama de argumentação?

Como sempre, a única coisa que Camilo provoca é um sentimento de pena. Argumentos como esse do Camilo merecem compaixão, e não refutação. Basta parodiá-lo que o argumento já é auto-refutável por natureza.

Vamos em frente, portanto:

Aliás, o filme de Mark Mathis poderia resumir simplesmente a isso o que tinha a dizer sobre Dawkins, poupando os espectadores dos recorrentes e estúpidos ataques diretos contra ele, até mesmo por meio de desenhos animados representando-o em situações ridículas. Com a vantagem adicional de que o filme teria, pelo menos, uma piada engraçada, já que as tentativas de Stein de fazer rir, durante o longa, só funcionam com retardados. “Dawkins já era!” — isso me faria rir, com certeza!

De novo, a forma de provocação de Camilo não surte efeito, tanto que é de novo facilmente parodiável. Vejam: “Aliás, o filme de Bill Maher, ‘Religulous’, poderia resumir simplesmente a isso o que tinha a dizer sobre a religião, poupando os espectadores dos recorrentes e estúpidos ataques diretos contra os religiosos, até mesmo por meio de entrevistas fraudadas tentando representá-los em situações ridículas. Com a vantagem adicional de que o filme teria, pelo menos, uma piada engraçada, já que as tentativas de Maher de fazer rir, durante o longa, só funcionam com retardados. “Religião já era!” — isso me faria rir, com certeza!”

Ou seja, de novo a argumentação de Camilo é facilmente esmagável somente pela paródia, tamanha a ingenuidade dele.

Avante:

Quanto aos livros, uma primeira coisa a chamar a atenção é o fato de que, a fim de responder às 416 páginas em que Dawkins procura expor sua visão crítica da religião com paciência e didática (na edição brasileira, são mais de 500 páginas!), o casal McGrath vale-se de apenas 96 páginas, num dos livros mais finos que já li na minha vida. A esse respeito, Alister McGrath procura fugir à questão de que lhe parece ter faltado fôlego para prolongar a discussão, tentando usar a espessura do livro de Dawkins como algum tipo de prova de suas más intenções.

Incrível é o fato de Camilo se ater ao número de páginas do livro para criticá-lo. Vejamos então o que McGrath disse, e que Camilo omitiu de seu caso: “No entanto, embora cada distorção e exagero de Dawkins possam ser objetados e corrigidos, um livro que só oferecesse tal ladainha de correções seria catatonicamente enfadonho. Assim, supondo que Dawkins apresenta igual convicção em todas as partes de seu livro, só o refutarei nos pontos representatitivos”.

Pronto, danou-se aí o Camilo.

Qualquer alegação de “falta de fôlego” não passa de um fricote de Camilo, e, portanto, irrelevante para o seu caso.

Engraçado que ele diz que McGrath tenta usar a espessura do livro de Dawkins como algum tipo de “prova de suas más intenções”.

Onde é que foi que McGrath disse isso?

Será que Camilo tentou ler a mente de McGrath. Esses telepatas… como sempre, uns picaretas.

Desta forma, essa é apenas uma das muitas mentiras identificadas de Camilo.

Mais:

Na página 7 de The Dawkins Delusion?, ele escreve: “… o fato de Dawkins ter escrito um livro de 400 páginas declarando que Deus é um delírio é, por si só, muito significante. Por que um livro desse tipo ainda é necessário?”. Eu continuo querendo saber por que é tão conciso um livro que tem a ambiciosa pretensão de analisar minuciosamente e refutar por completo uma obra bem mais volumosa e explicativa, sobretudo por ter sido o livro dos McGrath encarado como capaz de responder a todas as dúvidas dos crentes que se sentiram incomodados com as proposições de The God Delusion [“Deus, um Delírio”, na versão brasileira].”

Pegar fraudador profissional é complicado. Só que desmascarar fraudador amador é uma moleza. É por isso que está sendo tão fácil…

Mais uma vez Camilo mente deliberadamente, pois como mostrei anteriormente, McGrath disse que optou por refutar Dawkins naquilo que ele considerou “pontos representativos”. Em nenhum momento McGrath afirmou que tinha a “ambiciosa pretensão de analisar minuciosamente” e “refutar por completo”.

Esse tipo de mentira é típico desse tipo de mente.

Esse tipo de gente, meio marxista, meio adepto do materialismo dialético, tende geralmente a isso. A mentir sobre seus oponentes.

Em suas duas tentativas de ataque ao McGrath até o momento Camilo mentiu em boa quantidade.

É exatamente igual aqueles marxistas de universidade, que ficam mentindo deliberadamente contra “a burguesia”. Não adianta dialogar com eles, pois eles fantasiam coisas que seu oponente jamais escreveu, e ficam refutando essas versões que eles inventaram. Basta entender o padrão da mente de Camilo e notar que ele repetirá sua mania de mentir compulsivamente, até de forma psicótica.

Duvidam?

Então vejam:

Já no primeiro capítulo, Alister McGrath tenta desbancar a hipótese de Dawkins de que a fé em Deus está relacionada a uma atitude de credulidade infantil, não muito diferente da crença em Papai Noel ou na Fada dos Dentes. Em The God Delusion, Dawkins chama a atenção para o fato de que, à medida que vão crescendo e tornando-se capazes de refletir com base nas evidências disponíveis, é comum que as pessoas, no entanto, abandonem suas crenças infantis em fadas e sei lá o que mais. McGrath concentra-se nesse ponto da analogia de Dawkins para contra-atacar, buscando diferenciar entre os dois tipos de crenças: “Quantas pessoas você conhece que começaram a acreditar em Papai Noel quando adultas? Ou que acharam a crença na Fada dos Dentes algo consolador na velhice?] (pág. 03)” Em sua argumentação, concluirá que, se Dawkins estivesse certo em sua analogia, como explicaria o fato de que muitas pessoas se convertem quando já são adultas, inclusive alguns ateus, como o próprio McGrath alega ter sido um dia. Agora, antes de respondermos a essa pergunta, vejamos o que mais ele diz neste exato momento de sua argumentação: “Tem-se um bom exemplo recente em Anthony Flew (nascido em 1923), o célebre filósofo ateu que começou a acreditar em Deus quando já estava na casa dos oitenta anos de idade.] (pág. 03)” Quis citar mais este trecho porque é exatamente nesta parte que muitos crentes batem palmas e dizem: “Aleluia!” Mas, para sua tristeza, terei de jogar um pouco de água fria em seu fervor religioso, já que o nosso teólogo está dando uma de espertinho para cima de seus leitores pouco informados.

Engraçado que talvez Camilo tenha alucinado e visto “crentes batendo palmas”, pois até o momento estávamos tratando de uma discussão entre dois acadêmicos, e não algo em culto sensacionalista.

Como eu falei, Camilo tem a mania de fantasiar e mentir.

Curiosamente, ele diz que vai jogar um “pouco de água fria”. Será mesmo?

Eu duvido, mas vejamos:

Para início de conversa, Flew — cujo primeiro nome se escreve sem “h” (Antony), a propósito — não começou a acreditar em Deus, tal como McGrath tenta ludibriar seus leitores, fazendo com que enxergassem, em suas mentes, uma linda cena de aceitação de Jesus Cristo como seu senhor e salvador. O que  aconteceu é que, a partir de suas reflexões filosóficas acerca do atual conhecimento do mundo, ele tornou-se um deísta aristotélico: Flew crê numa “Causa Primeira”, segundo a visão de Aristóteles. Em outras palavras: um deus, sim; agora, nada a ver com o deus dos cristãos. Ou seja, a história era bem diferente do que McGrath, decerto não inocentemente, dá a entender aos leitores de seu livro. E, para quem ainda tem alguma dúvida quanto à visão religiosa de Antony Flew, eis o que ele disse numa entrevista que deu, no final de 2004, depois de abandonar sua antiga visão ateísta: “[Penso num Deus muito diferente do Deus dos cristãos e muito mais longe ainda do Deus do Islã, pois ambos são retratados como déspotas onipotentes do Oriente, cósmicos Saddans Husseins.] (In: “Atheist Philosopher, 81, Now Believes in God”, matéria de Richard N. Ostling, Associated Press, 10/12/2004.)”.

É, eu tinha razão em duvidar. O Camilo realmente é um mitômano profissional.

Onde foi que McGrath disse que Flew acreditava em Deus de maneira EXATA à qual os cristãos acreditam? Resposta: em lugar algum.

Aliás, quem disse que Camilo sabe qual a concepção de McGrath em relação à Deus para fazer essa comparação? Talvez, Camilo tenha tentado telepatia de novo.

De qualquer forma, a questão levantada por McGrath segue incólume, pois o que Camilo supôs refutar é apenas um espantalho da declaração original.

Ele segue, tal qual fanáticos marxistas ou neo ateus acadêmicos já malucos, protestando:

Obs.: Notem que a imprensa, tal como adora fazer nessas situações por motivo de puro sensacionalismo barato, apesar do conteúdo da entrevista, coloca na manchete: “Filósofo ateu, de 81 anos, agora acredita em Deus”. Pelo visto, ou McGrath agiu de má-fé ou só leu a manchete dessa matéria, o que também é desonestidade, levando-se em conta o que escreveu em seu livro.

O fato é que que a manchete não é nem um pouco sensacionalista. Acreditar em Deus não implica em acreditar no mesmo Deus dos cristãos. Quer dizer, a manchete está CORRETA e não adianta Camilo fazer beicinho.

Aliás, Flew, mesmo que não acredite no mesmo Deus dos cristãos, já demonstrou respeito pelo cristianismo: “Na verdade, eu acho que o cristianismo é a religião que mais claramente merece ser honrada e respeitada, quer seja verdade ou não sua afirmação de que é uma revelação divina. Não há nada como a combinação da figura carismática de Jesus com o intelectual de primeira classe que foi São Paulo. Praticamente todo o argumento sobre o conteúdo da religião foi produzido por São Paulo, que tinha um raciocínio filosófico brilhante e era capaz de falar e escrever em todas as línguas relevantes” (Antony Flew, There is a God, p. 185, 186)

Só que Camilo não desiste nunca:

Seja como for, voltando ao problema levantado por McGrath, este não tem mais nada a oferecer como argumento contra a analogia proposta por Dawkins, ao passo que esta, por sua vez, diferentemente do que nosso teólogo afirma, pode ser facilmente compreendida.

É justamente o contrário. Todas as afirmações de McGrath em relação a Antony Flew estão corretas, e portanto a analogia de Dawkins está demolida. Claro que Camilo, como não apresentou um argumento em contrário (tentou refutar apenas um espantalho que ele inventou), McGrath segue indestrutível em seu argumento.

Como age feito retardado, Camilo não poderia deixar de mostrar que ainda possui idade mental baixa, como é evidente em seu parágrafo a seguir:

Analisemos os detalhes: 1) o presente deixado misteriosamente sob a cama, somado à confirmação dos pais de que foi mesmo o Papai Noel que o trouxe, fornece evidências ao cérebro da criança, que, então, aceita e assimila a existência do folclórico velhinho; 2) à medida que cresce, toma contato com novas evidências que contradizem a sua crença, com o que, racionalmente, abandona sua antiga visão das coisas — neste sentido, até mesmo a autoridade dos pais costuma assumir novo papel ativo, uma vez que, via de regra, confirmam ao filho, nesse estágio, que o velhinho do Pólo Norte, de fato, não existe. Todavia, aqui, vem à tona a questão ímpar da fé: por que ela também não se vai assim, tão facilmente? A verdade é que deixar de acreditar em Papai Noel não é algo que encontre resistência sociocultural, como acontece com a questão da fé, numa sociedade de valores moldados, em grande parte, por milenares princípios religiosos, desde tempos remotos, de parcos conhecimentos científicos, onde a visão mística da natureza se impunha, praticamente sem enfrentar oposição racional.

Aí é que está. Justamente isso é o que mostra que Camilo está totalmente errado.

Ele disse que a criança conhece Deus, e depois, com a idade adulta, essa crença não se vai.

Obviamente, ele mente.

A criança conhece uma “variante” da concepção de Deus, que não tem praticamente nada a ver com a concepção de Deus vista na forma adulta. Essa variante infantil (tratada pelas crianças como “papai do céu”) é ridicularizada por qualquer cristão adulto.

O argumento de Camilo só seria válido se a MESMA concepção que a criança tem de Deus, na infância, fosse mantida até a vida adulta.

É, Camilo, a vida de um neo ateu deve ser triste, muito triste… Sempre fantasiando sobre o que os inimigos pensam. E jamais acertando.

Que venha mais diversão, portanto:

Assim, essa pressão reacionária, contrária à negação da fé religiosa, torna a ideia do ente divino mais profundamente enraizada em nossa mente. Ocorre, não raro, uma combinação dos fatores pressão cultural + o padrão pelo qual nossos cérebros processam a computação do que assimilamos por dado verdadeiro ou falso (vide: HARRIS, S., SHETH, S. A. & COHEN, M. S. “Functional neuroimaging of belief, disbelief and uncertainty”. Annals of Neurology, Vol. 63, nº 2, 2008, págs. 141-147). Por fim, é comum a conseguinte manifestação de uma atitude que remete à analogia que Dawkins faz com uma das definições de delírio, que encontra no dicionário do Microsoft Word: “Crença falsa e persistente, mantida em face de fortes evidências em contrário, principalmente como sintoma de transtorno psiquiátrico.” A primeira parte captura a fé religiosa com perfeição.] (The God Delusion, pág. 05)”

Mais um motivo para mostrar que a definição de “delírio”, aplicada a Deus, é totalmente errada.

Só é possível catalogar algo como delírio se isso for definido como crença FALSA.

Por este motivo, a crença em Deus não pode ser catalogada como delírio. Talvez Dawkins e Camilo TORÇAM e POSSUAM FÉ CEGA de que Deus não existe definitivamente, e só aí seria crença falsa. Como não possuem tal evidência, Deus não pode ser catalogado como crença falsa.

Achar que Deus é um delírio mostra não só analfabetismo funcional, como também, aí sim, uma situação de delírio persistente, tanto em Dawkins como em seu seguidor, Camilo.

Resta a nós ridicularizarmos essa patuléia…

O delírio de Camilo prossegue:

Portanto, a resistência externa que há contra o abandono da fé fortalece a impressão desta a tal ponto que, cegamente, as evidências que a contradizem vão sendo, quase sempre, ignoradas, numa atitude delirante, conforme tal acepção do termo. E, uma vez que tais evidências não são assimiladas, essa crença teísta infantil, em particular, permanece nas pessoas, mesmo em sua fase adulta.

De novo a insistência dele, mas sem ele conseguir provar que a concepção que o cristão adulto possui de Deus é a MESMA que a criança de 5 ou 6 anos possui, NÃO VALE NADA.

Camilo está agora tentando vencer por ad nauseam, mas não adianta. O que vemos aqui é que ele erra continuamente, apenas isso.

Agora o delírio de Camilo tenta considerar Francis Collins:

Geneticista de nome reconhecido mundialmente por ter sido diretor do famoso Projeto Genoma Humano, Collins é um cientista importante, nisso McGrath está coberto de razão. Por outro lado, cumpre salientar que sua função no PGH foi mais administrativa, visto que o projeto foi um trabalho conjunto de vários geneticistas de diferentes partes do mundo, que foram os que de fato fizeram o trabalho pesado nos laboratórios. Além disso, o que tanto McGrath quanto sua leitora bitolada que discutiu comigo na internet esquecem é que Collins é também um ser humano, sujeito a todas as fraquezas humanas, inclusive aos fortes baques emocionais e as sequelas que podem deixar.

Engraçado. Agora Camilo tenta desqualificar Francis Collins?

Vejamos as informações que Camilo omitiu: Ele se tornou diretor o National Center for Human Genome Research, em 1997. Não foi um funcionário: e sim diretor. Além disso ele recebeu honrarias do Instituto de Medicina (Institute of Medicine) e a Academia de Ciências Norte-Americana (National Academy of Sciences). Pelo menos ele citou que Collins foi escolhido por Barack Obama para se tornar o chefe do Institutos Nacionais de Saúde  (NIH). Em suma, muito mais do que Dawkins jamais conseguirá.

Vejamos como se dá o duelo de Camilo com Collins (prevejo boas risadas):

O atual diretor dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla inglesa), que recentemente escreveu um livro em que declara sua conversão a uma visão teísta cristã, revela alguns dados interessantes para o leitor atento, nesse seu relato. O livro em questão se intitula The Language of God (Free Press, 2006 — já publicado em português: A Linguagem de Deus, 2007, Ed. Gente, embora eu não tenha lido a tradução para saber se está tudo nos conformes). Aqueles que o lerem terão a chance de descobrir uma coisa que McGrath (o grande malandrão) não deixa transparecer em seu livro: Collins faz uma defesa vigorosa da evolução darwiniana nesta obra, ao passo que critica a visão criacionista.

E qual o problema de Collins defender a teoria da evolução? Será que a mitomania de Camilo é tão patológica a ponto de supor que McGrath seria criacionista? Aliás, eu mesmo critico o criacionismo, mas da mesma forma dou risadas sádicas de crentes em memética e gene egoísta.

De novo, Camilo mostra a mania de marxista fanático.

Com marxistas loucos é mais ou menos assim. Se você discorda deles, eles te chamarão de “fascista”. Com leitor louco de Dawkins (que não passa de uma nova variante do materialismo dialético, de Marx), se você discorda deles, eles te chamarão de “criacionista”.

Eles são definitivamente malucos.

O caso é que até o momento Camilo não comprovou que Collins teria tido um “delírio”.

Vejamos se ele consegue mais a frente:

Isso mesmo! Nas partes em que usa seu conhecimento científico para avaliar a evolução, ele a corrobora, discorda da posição dos crentes criacionistas, bem como dos defensores do “design inteligente”, e apenas justifica que sua compreensão genética dos mecanismos da evolução o conduziu ao que se pode chamar de evolucionismo teísta, mas que ele prefere chamar de “BioLogos” — que seja! O que importa é que, analisando a evolução, do ponto de vista de seu conhecimento científico, Collins confirma a teoria evolutiva de Darwin e assina em baixo. Menos um ponto para os criacionistas!

De novo a esquizofrenia do Camilo. Se ele está dizendo que é “menos um ponto” para os criacionistas, provavelmente ele está adicionando isso em uma crítica em lugar errado, pois até o momento ele não provou que McGrath era criacionista.

Sendo assim, ele está lutando contra quem? Só se for um inimigo imaginário que ele criou.

A coisa segue feia para Camilo:

[...] Primeiro, Collins confessa que passou por alguns momentos em sua vida que tiveram forte impacto emocional sobre ele — o estupro da filha e o trabalho com pacientes terminais num hospital são bem destacados e dizem-nos muita coisa. É em face desses dramas que ele começa a refletir sobre o sentido de sua vida — outro dado muito significativo. A aceitação da ideia de um deus onisciente, onipotente, onipresente começa nessa fase.

Aqui é um novo tipo de falácia. O Camilo, como bom erístico e criador de factóides, agora tenta dizer que se alguém inclui uma reflexão em momento de trauma isso seria um fator para invalidar a reflexão configuraria um argumento contra qualquer conclusão oriunda após isso? Hmm… sendo assim, vários casos de ateus que se “revoltaram com Deus” após a perda de um ente querido seriam um caso contra o ateísmo? Claro que não. Aquilo que não vale para o teísmo não vale para o ateísmo também. Em todo o caso, coloquei o exemplo somente para mostra como o argumento de Camilo é nonsense.

Vejamos o diagnóstico do “estudioso” em Neurociência (embora eu desde o começo suspeitasse de extrema picaretagem e charlatanismo dele):

Por fim, esse deus criador, que ele começa a esboçar no cantinho da credulidade em seu cérebro, passa a ganhar os longos cabelos e barbas de Jesus, sem qualquer fundamento racional que leve de uma coisa a outra, quando, depois de ler Cristianismo Puro e Simples de C. S. Lewis — nenhum especialista em filosofia ou teologia cristã, diga-se de passagem —, teve uma revelação: Collins relata que, numa bela manhã, nas montanhas, viu as águas congeladas de uma cachoeira — eram três torrentes congeladas, na verdade. Teve um insight: aquilo era um sinal, uma revelação de Deus. Ele acabava de descobrir a verdade da Santíssima Trindade! Na manhã seguinte, já se entregou a Jesus, reconhecendo o milagre de sua ressurreição. Nesse mesmo momento, as coisas se tornavam, enfim, “claras” em sua mente: a fé no Deus de Abraão, no Espírito Santo e no Jesus ressurreto, unidos em um só ser, era a resposta mais racional aos dados que a Biologia e a Física lhe haviam fornecido, ao longo de sua carreira científica. E concluiu: “de todas as perspectivas possíveis, o ateísmo é a menos racional”. Isso me fez lembrar uma música do cantor satírico Falcão, que ouvi outro dia, cujo refrão dizia: “Para mim, uma coisa é um padre, um menino e um jegue, e outra coisa é um pneu de caminhão.” Pelo visto, Collins discordaria — para ele, é tudo a mesma coisa!

Citar Falcão à essa altura do campeonato?

Reconheço o esforço de Camilo, mas a postura irritadiça, desesperada, inspirada no comportamento marxista, que ele desenvolveu em todo o seu caso são indícios de que ele luta por causa perdida.

Por exemplo, ele cita o momento da “revelação” que Collins teria dito. Ué, todos os seres humanos possuem “revelações”, ou então podem tomar decisões em cima de coisas que observam. Isso não torna uma crença verdadeira ou falsa. Portanto, até o momento Camilo não comprovou que havia algo de “delírio” na crença de Collins.

Ele também cita que Collins possui crença na ressurreição. Mas sem definir COMO é a crença na ressurreição, ele também não consegue implementar golpe algum em Collins.

A conclusão de que o ateísmo é a perspectiva menos racional é um direito do Collins, assim como é um direito de um neo ateu achar que a perspectiva teísta é a menos racional.

Isso ainda não configura delírio de nenhuma das partes.

Ou seja, até o momento Camilo não conseguiu sair do zero no placar.

E a citação de Falcão poderia também ser parodiada assim: “Para mim, uma coisa é um crente em meme, um menino e um jegue, e outra coisa é um pneu de caminhão.”. E pelo visto, Dawkins discordaria – “para ele, é tudo a mesma coisa!”

Essas paródias servem não como argumento, é claro, mas apenas para mostrar o quão baixo é o nível intelectual do Camilo. Agora entende-se por que Dawkins faz gato e sapato de gente assim e os ilude facinho. A mente deles é limitada.

Uma evidência dessa limitação mental do Camilo vem a seguir:

Bem, neste ponto, deixo Francis Collins de lado neste artigo. Afinal, qualquer um já deve ter entendido que o homem surtou. A sua conversão, ao contrário do que McGrath tenta fazer parecer, não prejudica em nada a visão darwinista da evolução, já que Collins confirma ainda mais a evolução pela seleção natural e sem design inteligente, e, ao mesmo tempo, ilustra muito bem o quadro da fé tal como sugerido por Dawkins: um tipo de delírio.

Engraçado é o diagnóstico de um “estudioso” de Neurociência (que não sabe nem qualificar o que é delírio) dizer que o Francis Collins “surtou”. Fica claro que isso não passa de delírio do Camilo, e não consegue sequer configurar uma acusação séria.

Outros pontos que prejudicam Camilo:

1 – Não prejudicar a seleção natural não implica em refutar McGrath, a não ser que McGrath fosse contra a seleção natural.
2 – Nenhum momento citado por Camilo comprova delírio em Francis Collins. Relembrando: delírio é uma crença FALSA. A crença em Deus só seria catalogada como delírio se fosse provado, definitivamente, que Deus não existe.

Mais um problema para Camilo: falta-lhe o básico de lógica. É por isso que todos os seus argumentos fracassam.

Em caso de ainda restarem dúvidas, vejam:

Alguém duvida que a conversão de Collins, psicologicamente vulnerável, em função das experiências de vida por que tinha passado, tenha sido exatamente isso, um delírio? Procurem o livro dele. Leiam os trechos em que ele descreve sua conversão. As palavras não deixam dúvidas: é uma descrição delirante, do primeiro ao último parágrafo em que ele narra tudo.

Aqui não passa da falácia do apelo à platéia, além da credulidade/incredulidade pessoal. Talvez alguns fanáticos leitores de Dawkins leiam o livro de Collins e ACREDITEM que Collins tenha tido um delírio. Duro vai ser PROVAR que ele teve um delírio. Isso é apelar para a platéia. Algo como dizer: “por favor, meus amiguinhos ateus, digam que leram o livro do Collins e que acreditaram que ele surtou”. Tradução: charlatanismo.

A sorte é que Camilo, como “adepto” da Neurociência, não passa de um curioso.

Ele desiste de Collins (e não conseguiu até agora causar nenhum arranhão nem em Collins e nem em McGrath), e retorna suas forças ao seu alvo principal:

Tentando fazer diminuir o crédito que as pessoas dão à erudição de seu rival, o autor escreve que Dawkins, em trabalhos anteriores a The God Delusion, costumava citar Tertuliano como tendo dito a notória frase “Credo quia absurdum” [Acredito porque é absurdo], a fim de mostrar que a atitude religiosa era algo totalmente descabido. McGrath, então, escreve o que deve ter feito seus leitores cristãos darem um risinho de satisfação difícil de conter: “Ele parou de citar isto agora, tenho o prazer de dizer, depois que eu lhe chamei a atenção para o fato de que Tertuliano, na verdade, não disse nada disso. Dawkins havia caído na armadilha de não checar suas fontes, e simplesmente repetir o que escritores ateus mais antigos haviam dito.] (pág. 5s)”.  Dawkins de fato citou equivocadamente Tertuliano como autor da frase acima, num ensaio chamado Viruses of the Mind [Vírus da Mente]. Sem dúvida um equívoco seu, já que o que Tertuliano escreve, em sua obra De Carne Christi [Sobre a Carne de Cristo], é o seguinte: “Nasceu o Filho de Deus; não tenho vergonha, porque é vergonhoso. E morto está o Filho de Deus; é imediatamente acreditável, porque é estúpido…” (cap. 2, verso 4). Parecido, em princípio, mas não a mesma coisa. Além do que, os versos de Tertuliano não querem dizer que ele acreditava no cristianismo porque fosse algo absurdo. A ideia, realmente, não tem a ver com o pensamento do autor cristão do século III. Por fim, a frase “Credo quia absurdum” tem origem desconhecida, podendo até mesmo remontar a uma citação errada e descontextualizada do verso de Tertuliano. Todavia, o curioso aqui é notar que, ao contrário do que diz McGrath, essa é a única vez em que Dawkins citou Tertuliano em algum de seus escritos. E a mentirinha de McGrath não para por aí. A primeira vez que notou o erro de Dawkins naquele ensaio foi em seu livro Dawkins God, de 2004. Acontece que já fazia 13 anos que Dawkins tinha escrito o tal ensaio, e nunca mais tinha usado o nome de Tertuliano em nada do que escreveu. Portanto, a historinha de McGrath, de que Dawkins parou de citar Tertuliano depois de ter sido corrigido por nosso teólogo malandrão, é mentira das mais deslavadas! Ele está, como de costume, tentando fazer fama em cima do nome de Dawkins.

Como advogado de acusação de McGrath (e ao mesmo tempo advogado de defesa de Dawkins), Camilo é realmente muito ruim.

Ele passa um longo parágrafo tentando implementar uma acusação em McGrath e erra completamente.

Vejam:

(a) McGrath disse que Dawkins costumava citar Tertuliano erradamente
(b) Camilo tentou maquiar isso para dizer que McGrath disse que Dawkins costumava citar Tertuliano EM SEUS ESCRITOS continuamente

Notaram a diferença?

McGrath realmente falou que Dawkins citava Tertuliano, de forma errada, várias vezes. Mas não disse que todas essas citações foram por escrito. E o que o Camilo faz? Finge que McGrath disse que essas citações erradas contínuas eram por escrito, e depois FINGE que refutou McGrath. Notem  o que Camilo diz: “essa é a única vez em que Dawkins citou Tertuliano em algum de seus escritos”. Mas quem disse que as citações só poderiam ser feitas por escritos?

Portanto, ao tentar acusar McGrath de mentiroso, vemos que o mentiroso em questão é Camilo.

Outros erros na acusação de Camilo:

(a) McGrath disse que corrigiu Dawkins quanto ao erro sobre a citação de Tertuliano, e então Dawkins parou de usá-la
(b) Camilo diz que McGrath corrigiu Dawkins por escrito em “Dawkins God”, de 2004, e portanto Dawkins não poderia parar de usá-la após a crítica de McGrath

O problema é que McGrath conhecia Dawkins pessoalmente, e já havia debatido anteriormente com Dawkins.

A acusação de Camilo, novamente, é inválida, pois McGrath só teria mentido se a crítica dele fosse SOMENTE a crítica feita no livro “Dawkins God”.

Não há nada ali que sustente que isso tenha ocorrido, pois a frase de McGrath (citada pelo próprio Camilo) inclui o seguinte: “depois que eu lhe chamei a atenção”, que teria sido dito por McGrath à Dawkins.

Ou seja, claros indícios de que existiu comunicação ALÉM dos escritos nos livros em questão.

Diante disso tudo, fica comprovada a desatenção de Camilo nessas duas tentativas de acusar McGrath.

Mas, como vocês puderam ver antes, não é a primeira vez que Camilo tenta esse estratagema.

Em seguida, vem o desespero: “Ele [McGrath] está, como de costume, tentando fazer fama em cima do nome de Dawkins.”

Isso é irrelevante para a acusação de Camilo. Até por que, se isso fosse verdade, teríamos também que acusar Dawkins de tentar fazer fama em cima do nome da religião.

Não passa de provocação infantil, e não configura argumento.

E, mesmo com esses deslizes grosseiros, o sujeito ainda quer dar consultoria sobre “elaboração de casos”. Querem ver? Notem:

Por sua vez, para quem quer se mostrar muito sabido, McGrath comete deslizes que Dawkins, tirando esse equívoco com Tertuliano naquele antigo ensaio, não costuma cometer em mais nem uma de sua obras. Vejamos alguns: “Lênin considerava a eliminação da religião como ponto central para a revolução socialista, e preparou medidas planejadas para erradicar as crenças religiosas por meio do ‘uso prolongado da violência’.] (pág. 48).Em The Dawkins Delusion?, McGrath faz a afirmação acima, mas não cita de onde tirou essa informação. Porém, num outro livro seu, The Twilight of Atheism, ele já tinha escrito o mesmo, acrescentando que a informação estava numa carta de Lênin, de março de 1922. Mas, nem mesmo ali, ele cita as palavras de Lênin na tal carta. Não importa! Uma versão em inglês da tal carta, datada de 19 de março de 1922, consta do livro The Unknown Lenin [O Lênin Desconhecido], de Richard Pipes. Coisa que não é de surpreender, ela não fala nada de erradicar a religião, mas, sim, propõe discutir com os membros do Politburo a necessidade de se tomar alguma providência contra o clero, que desafiava o governo ditatorial soviético, ao mesmo tempo chamando a atenção para não se arriscar a perder a simpatia dos camponeses, com a medida que viessem a tomar. O que importa, contudo, é que, sobre a questão da violência, Lênin escreve, fazendo uma menção a Maquiavel: [Um sábio escritor que tratou de questões concernentes à arte de governar acertadamente disse que, se for necessário apelar para certas brutalidades em nome da realização de certa meta política, estas devem ser perpetradas da maneira mais energética e no tempo mais breve possível, pois as massas não tolerarão a aplicação prolongada de violência.] Portanto, mesmo eu não sendo o que se poderia chamar de um simpatizante do antigo regime soviético, tenho que reconhecer que não havia nada nessa carta sobre o tema específico da eliminação da religião. Além disso, as palavras de Lênin, sobre o uso prolongado de violência contra os que desafiavam o governo socialista, eram exatamente o contrário do que McGrath escreveu. Ele estava advertindo contra o uso prolongado de qualquer medida violenta que se decidisse tomar contra aqueles clérigos insubordinados.

Como sempre, o estratagema básico de Camilo não muda.

Ele MODIFICA o argumento do oponente, e critica essa versão modificada. É claro que é picaretagem da pior qualidade.

Por exemplo:

(a) McGrath diz que Lênin considerava a eliminação da religião como ponto central para a revolução socialista
(b) Camilo assume que McGrath disse que a informação sobre eliminação de religião, por Lenin, teria que ter sido declarada em uma carta específica

Camilo erra em tudo, pois a menção à carta era em outro livro, e outro contexto. O negócio é manter o foco e considerar o livro “O Delírio de Dawkins”.

Sendo então irrelevante se Lenin disse isso em uma carta ou não, de onde Camilo tentou tirar a informação para inocentar Lênin? Resposta: de sua fé cega.

E vejam que coisa sensacional!

McGrath faz duas afirmações, que são:

(a) Lênin considerava a eliminação da religião como ponto central para a revolução socialista
(b) Lênin preparou medidas planejadas para erradicar as crenças religiosas por meio do ‘uso prolongado da violência’

Qualquer um que for atencioso notará que a declaração (a) fala de uma afirmação feita por Lênin, enquanto que a afirmação (b) fala de uma AÇÃO tomada por Lênin.

Ou seja, o fato de Lênin ter escrito que gostava ou não de ações rápidas NÃO SERVE para inocentá-lo de uma ação feita por ele e registrada historicamente. A sequência de mortos do regime comunista comprova a afirmação (b), mesmo que Lênin tenha escrito o contrário do que fez (o que não surpreende, vindo de gente com mentalidade conectada à Marx).

Já o item (a) é também verdadeiro, mesmo que não tenha sido em cartas específicas.

Vejam só: “Religion is the opium of the people: this saying of Marx is the cornerstone of the entire ideology of Marxism about religion. All modern religions and churches, all and of every kind of religious organizations are always considered by Marxism as the organs of bourgeois reaction, used for the protection of the exploitation and the stupefaction of the working class.” Essa declaração era de… Lênin. Um pouco mais pode ser lido aqui.

Por enquanto, conforme mostrei, McGrath não cometeu nenhum deslize (ao menos os que Camilo tentou apontar). Eu encontrei alguns deslizes na obra de McGrath, mas Camilo não identificou nenhum deles. [N.E. - Um deles, a meu ver, é ele atacar todos os ateus, ao passo que considero que atacar os neo ateus seria mais eficiente]

Depois de tantos desastres argumentativos, e não ter conseguido acertar nada até o momento, Camilo se apega ao irrelevante:

Em outra parte do livro, na página 3, para ser exato, McGrath menciona a participação de Dawkins no quadro “Thought for the Day” de um programa de rádio da BBC, em 2003. Dois erros: Dawkins participou do programa, mas não desse quadro — que não aceita a participação de não religiosos —, e foi em 2002, na verdade.

Quanto a isso não tenho certeza, mas a irrelevância disso é total, pois não serve para refutar os argumentos do McGrath. O livro de McGrath não é para dizer que Dawkins participou ou não de um programa. E, caso tenha errado o nome do programa, isso não configura erro do argumento.

De qualquer forma, esse foi o único acerto (possível) de Camilo até agora.

Novamente ele se apega ao irrelevante:

Na página 20, ele menciona um estudo acerca da descrença de muitos cientistas em Deus. Começa dizendo que o estudo foi realizado em 1916. Novo erro de data: foi em 1914. O livro em que é mencionanda a pesquisa é que foi publicado dois anos depois dela. Igualmente, na página 51, ele diz que a notória Madame Rolande, membro do partido girondista, durante a Revolução Francesa, foi guilhotinada em 1792. Ora, McGrath, consulte direito as suas fontes, cara! A execução foi em 8 de novembro de 1793, como informa qualquer enciclópedia. Para alguém que quis fazer piadinha de um erro de Dawkins, que nem mesmo está no livro The God Delusion, McGrath acaba dando um tiro no pé, com tantos deslizes no próprio texto em que faz sua crítica.

Engraçado que nenhum desses erros são PARTE do argumento de McGrath. Já o erro de Dawkins era PARTE  do argumento.

Dawkins queria usar a citação de Tertuliano para dizer que o religioso seria irracional. Estando a afirmação errada, o argumento de Dawkins cai. Aliás, caiu mesmo…

Já essas datas estando erradas (conforme Camilo apontou), nenhum argumento do McGrath cai.

Camilo falhou por não notar questões de pertinência em argumentação.

Vamos em frente, então:

Em outra passagem, McGrath conta outra mentirinha deslavada, que só não enxerga na mesma hora quem for uma besta deslumbrada com seu livro, ao ponto de nunca ler a obra criticada — atitude típica de gente bitolada. Pois, comentando o fato de que Dawkins discute as famosas cinco vias para demonstração da existência de Deus pela razão, postuladas por Tomás de Aquino na Suma Teológica, o autor tenta fazer parecer que Dawkins cometeu mais um equívoco, afirmando: “Dawkins entende equivocadamente demonstração a posteriori da coerência da fé e observação como sendo uma prova a priori da fé — um engano plenamente compreensível para aqueles que são novatos neste campo, mas um erro grave, todavia. (pág. 7-8)”. Lendo isso, fico pensando como pode um sujeito ser tão cara de pau. Afinal, basta ler o livro de Dawkins para se ver o quanto Alister McGrath é capaz de mentir para levar no papo os mal-informados que leem apenas a sua obra e declaram ao som de trombetas apocalípticas: “Dawkins foi refutado! Aleluia!” Na verdade, bem na página 80 de The God Delision, Dawkins diz exatamente o seguinte: “Argumentos em pró da existência de Deus entram em duas categorias principais, os a priori e os a posteriori. As cinco vias de Tomás de Aquino são argumentos a posteriori…”. Além disso, apesar de McGrath dizer que é um erro discutir as cinco vias tomistas como sendo argumentos para provar a existência de Deus, Dawkins as menciona em seu livro justamente porque, ao contrário do que afirma McGrath, a filosofia da religião vem usando as cinco vias como argumentos de demonstração da existência divina, desde a Idade Média até tempos bem recentes.

Ooooooo… o Camilo está nervosinho. Disse o seguinte: “só não enxerga na mesma hora quem for uma besta deslumbrada com seu livro, ao ponto de nunca ler a obra criticada — atitude típica de gente bitolada.”

Quer dizer, provocação de jardim da infância tão cedo?

Caramba, mas o sujeito está querendo começar na carreira de defensor do Dawkins e já começa se queimando e partindo para a baixaria tão cedo?

Deixando a histeria de Camilo de lado, voltemos ao caso, onde ele mostra uma incultura sem igual.

McGrath está certo ao dizer que Dawkins entendeu errado Aquino. Em caso de dúvidas, notem só como Dawkins comenta erradamente Aquino, pois está assim na página 112 da versão nacional de Deus, Um Delírio: “Esses três argumentos [...] assumem, sem nenhuma justificativa, que Deus é imune à regressão”.

Ô Camilo, burrinho, o que é isso senão tomar um argumento a posteriori por um argumento a priori?

É fato: Dawkins cometeu o erro sim. Mesmo que depois ele tenha citado que o argumento de Aquino é um argumento a priori, ele se confundiu antes e tentou argumentar como se o argumento de Aquino fosse a posteriori. Aliás, o comentário de Dawkins citado por Camilo ocorre somente na seção seguinte de Deus, Um Delírio, quando ele comenta o argumento de Anselmo. Para tirar as dúvidas, recomendo a consulta à seção “Index Reverso”, deste blog – o item 3.1 (As Três Vias de Dawkins) fala das críticas de Dawkins ao argumento de Aquino, e o item 3.2 (O Anacronismo de Dawkins em seu duelo com Anselmo). Críticas dawkinistas, como sempre, refutadas.

A tentativa de Camilo, portanto, não salva Dawkins, mas permite que eu explore o caso para aumentar o comprometimento da mensagem do neo ateu, que, como vocês podem notar, é nula.

Em seguida, ele critica McGrath, pois este disse que é um erro discutir as cinco vias tomistas como argumentos para provar a existência Deus.

Olhem o argumento de Camilo: “Dawkins as menciona em seu livro justamente porque, ao contrário do que afirma McGrath, a filosofia da religião vem usando as cinco vias como argumentos de demonstração da existência divina, desde a Idade Média até tempos bem recentes”.

Esse aí realmente se perde fácil, parece até que tem problemas de concentração.

Uma coisa é usar o argumento basicamente como prova (pois é o que Dawkins tenta criticar, pois ataca o argumento de Aquino isoladamente), outra coisa é usá-lo como UM DOS PRINCIPAIS argumentos, que devem ser avaliados em CONJUNTO com outros argumentos.

Portanto, Dawkins ignorou esse fato de como o argumento é usado, e, criando uma falácia do espantalho, tentou avaliá-lo em isolado.

É simples: McGrath foi impecável em sua refutação.

Camilo apenas não conseguiu perceber o tamanho do golpe recebido. Parece aqueles lutadores zonzos que acabaram de tomar um punch de direita, e estão, deitados na lona, ouvindo a contagem.

Todas as tentativas de refutação de Camilo (a não ser erros em relação a datas, ou a participação de Dawkins em um programa, que não afetam nenhum argumento de McGrath) fracassaram. Camilo apenas dá socos no vazio…

Mas ainda tem mais, agora de forma mais humilhante, pois Camilo tentará abordar a causa dos memes:

Mais adiante, ao comentar a hipótese dos memes — propostos por Dawkins como unidades de informação que se multiplicam de cérebro em cérebro, ou entre locais onde a informação é armazenada (tal como livros) e outros locais de armazenamento ou cérebros (q.v. O Gene Egoísta) —, McGrath diz: “In “Em Deus, um Delírio, Dawkins expõe a ideia dos memes como se fossem ortodoxia científica estabelecida.] (pág. 43)”. Outra acusação falsa de nosso religioso teólogo. Afinal, embora Dawkins tente mesmo defender a ideia dos memes, a qual propôs justamente por achar plausível, ele próprio escreve em The God Delusion — o grifo é meu: “[… o propósito principal da teoria dos memes, neste estágio inicial de seu desenvolvimento, não é fornecer uma teoria compreensível da cultura, no mesmo nível da genética de Watson-Crick.] (pág. 196)”

O padrão mental mitômano de Camilo se revela de novo.

Notem:

(a) McGrath diz que Dawkins expõe a ideia dos memes como se fossem ortodoxia científica estabelecida
(b) Camilo finge que McGrath tentava dizer que Dawkins tratava a idéia dos memes como se fossem ortodoxia científica estabelecida para ser TEORIA COMPREENSÍVEL DA CULTURA, no mesmo nível da genética de Watson-Crick

Como se nota, ao usar (b) Camilo mais uma vez maquiou a afirmação de seu oponente.

O estratagema principal de Camilo é a ampliação indevida, junto com a maquiagem de informações. Ele cria uma versão exagerada do argumento original, refuta esse argumento e FINGE que refutou a versão original.

O fato é que Dawkins não só toma a teoria dos memes como estabelecida (embora não tenha dito que era para ser teoria da cultura, mas nem McGrath afirmou que Dawkins disse isso), como também sua patota, incluindo Susan Blackmore, Daniel Dennett, etc.

E, como sabemos, é uma teoria que é facílima de ser ridicularizada.

O discurso de derrota de Camilo agora toma parte:

Bem, no mais, eu poderia ficar escrevendo várias outras refutações às inúmeras besteiras que McGrath escreveu em tão poucas páginas, mas isso muitos outros já fizeram, e eu estaria apenas chovendo no molhado. Gostaria, contudo, apenas de mencionar mais uma atitude desonesta desse autor festejado (sobretudo entre os cristão, é claro). Em várias partes de seu livreto, McGrath cita a obra The Limits of Science [Os Limites da Ciência], de Peter Medawar. E, para qualquer crente que leia apenas The Dawkins Delusion?, ficará parecendo que Medawar e McGrath são seres cujas perspectivas da vida e do mundo estão em perfeita sintonia. Contudo, aconselho que todos parem de ler apenas uma versão dos fatos e aprendam a checar as referências bibliográficas com mais atenção. A verdade é que há muita gente nesse meio disposta a distorcer os fatos de qualquer jeito, a fim de fazer prevalecer sua “verdadeira verdade”. Quando McGrath cita passagens do livro de Medawar, omite trechos que lhe parecem, digamos, incômodos. Por exemplo, ao falar das “questões transcendentes”, na página 17 de seu livro, McGrath diz que Medawar relega estas apenas ao campo da religião e da metafísica. Na verdade, ele omite que o autor coloca estas questões como sendo da alçada de uma das quatro seguintes alternativas: os mitos, a metafísica, a literatura imaginária ou a religião (The Limits of Science, pág. 88).

Ué, se Medawar releva questões transcendentes ao terreno da religião e da metafísica, então ele simplesmente concorda com McGrath. Nisso eu também concordo com Medawar.

Além do mais, quando McGrath cita Medawar, ele normalmente cita pontos nos quais há concordância. E não há problema nisso, mesmo que Medawar em alguns pontos inclusive seja ateu, panteísta, deísta ou qualquer outra coisa. Simplesmente isso não importa.

O que importa é a convergência no ponto EM DISCUSSÃO.

Estranho Camilo ter questionado isso, haja vista que em qualquer citação que é feita não é necessário o alinhamento absoluto de todas as idéias, mesmo as que não estejam sob discussão.

Como se vê, McGrath é honesto ao citar alguém nos pontos de concordância, e relevar pontos de discordância que não atentam contra o argumento.

Os ataques de Camilo ficam, como se nota, cada vez mais estéreis. Aliás, até o momento foram todos risíveis.

Por exemplo, ele cita Medawar de novo, tentando atacar os argumentos de McGrath:

Além disso, Medawar também diz algo que McGrath (por que será?) resolve não compartilhar com seus leitores: “Abrir mão do governo da razão e substituí-lo pela validação da crença com a rapidez e o grau de convicção com o qual a abraçamos pode ser perigoso e destrutivo”.

Mas onde que isso refuta McGrath em qualquer momento? A forma como McGrath busca a Deus, teologicamente, é pela razão. Por tanto, Medawar, assim como McGrath, concordam que abrir mão do governo da razão e substituí-lo pela validação da crença com a RAPIDEZ e o grau de convicção com o qual a abraçamos pode ser perigoso e destrutivo.

Camilo, aprenda. Quando for citar alguém, em um caso de acusação, CERTIFIQUE-SE de que essa afirmação irá DERRUBAR alguma afirmação de seu oponente.

Qual afirmação do oponente de Camilo (McGrath) é derrubada? Resposta: nenhuma.

O resuminho, ao final, é também engraçado:

Resumindo tudo: (1) O livro do casal McGrath tenta invalidar a teoria da evolução em face do criacionismo e não chega nem perto de causar qualquer arranhão a essa sólida teoria — aliás, podemos agradecer a McGrath por nos trazer o exemplo de Collins, que, por um lado, refuta o criacionismo e valida a evolução, enquanto, por outro, presenteia-nos com um exemplo perfeito de conversão adulta claramente delirante. (2) As críticas a Dawkins nem de longe tiram-lhe o prestígio que tem no mundo acadêmico e que McGrath está longe de conseguir, por mais que tente fazer carreira às custas de escrever livros e livros sobre Dawkins. Ademais, sua acusação de que a militância de Dawkins em defender sua visão filosófica ateísta constitui um tipo de fundamentalismo religioso é tão ridícula quanto dizer que seja um tipo de fundamentalismo religioso a militância política de Noam Chomsky ou a insistente campanha de Cristovam Buarque por uma revolução pela via principal da Educação. (3) Ao longo do finíssimo livro do casal McGrath, como muitos críticos não comprometidos com a missão evangélica cristã constataram, há muitas distorções de trechos do livro de Dawkins, frases citadas fora de contexto, omissões de pontos que Dawkins discutiu, mas que McGrath dá a entender que não, além da pilantragem de costume de se deturpar o que outras pessoas disseram, a fim de fazer parecer que suportam a visão criacionista. Isso, fora as falhas encontradas no texto de The Dawkins Delusion?, das quais citei apenas algumas. Muitos leitores acharam outras tantas. Eis o livro que veio com a pretensão de ser a obra que desbancaria Dawkins e suas ideias. Na verdade, só muito barulho por nada!

Não sei se “O Delírio de Dawkins” é o livro definitivo para desbancar Dawkins.

Não acho, pois McGrath é bastante caridoso, possui compaixão e não trata Dawkins com o mesmo desrespeito que ele trata os religiosos. Se Camilo quis tomar esse como “a obra que desbancaria Dawkins”, isso é um problema da neurose que é inerente ao neo ateu, mas não a McGrath.

Como McGrath mesmo disse no prefácio, e eu citei aqui, as pretensões não eram de “refutação de cada distorção e exagero” de Dawkins.

Entretanto, em todas as refutações que Camilo tentou “refutar”, o neo ateu se deu mal.

McGrath saiu incólume, e ainda mais fortalecido, deste ataque do Camilo.

E ainda ganhamos um brinde: um estudo de caso claro de como um neo ateu fanático (Camilo) pode FALSIFICAR frases de seus oponentes, exagerá-las, para tentar combatê-las.

A partir de agora, dá para se criar uma “vacina” contra esse tipo de estratagema.

Nós, os religiosos racionais que adoram humilhar Dawkins e seus leitores, utilizaremos isso a nosso favor. Quanto a isso, Camilo pode ter certeza.

O resumo dele, aliás, é constrangedor, pois:

(1) Ele não conseguiu demonstrar que McGrath queria “invalidar” a teoria da evolução, e a acusação de “criacionismo”, conforme mostrei, é apenas um fricote de Camilo, igual quando um marxista maluco histericamente grita “fascista”, para seus oponentes. Além do mais, o fato de Camilo dizer que a conversão de Collins foi “delirante” mostra que ele não conhece o conceito de delírio. Isso mostra que os estudos de Camilo sobre neurociência estão ainda engatinhando…
(2) Ele afirma que o livro não “tira o prestígio” de Dawkins no mundo acadêmico. É fato: alguns fanáticos, neo ateus, que estão no mundo acadêmico, continuarão a babar o ovo de Dawkins. Mas muitos, que estavam na dúvida, agora puderam notar que os argumentos de Dawkins são vazios, recheados de fanatismo, e as citações de McGrath demonstram isso. Sair dizendo que McGrath quer fazer “carreira escrevendo livros e livros sobre Dawkins” também não é um argumento válido, pois se fosse o próprio Dawkins seria derrubado (pois escreve livros e livros sobre Deus). A militância de Dawkins não constitui um tipo de fundamentalismo religioso, e sim um fundamentalismo ateísta. E que é deveras ridículo. O próprio comportamento do Camilo, como todos os leitores podem notar, são uma mostra desse fundamentalismo. Aliás, Noam Chomsky e Cristovam Buarque não são bons exemplos para serem citados como exemplo de não-fundamentalistas.
(3) Ele tenta acusar McGrath de deturpação, mas fracassou em todas as vezes. Camilo, na maioria das vezes, tentou maquiar os argumentos de McGrath, lembrando o discursinho daqueles estudantes terroristas panfletários dos anos 60, que maquiavam as informações sobre a “burguesia”, e diziam que eles publicavam textos que jamais publicaram. Em seguida, ele diz que McGrath tentou deturpar argumentos dos outros “a fim de fazer parecer que suportam a visão criacionista”. O problema, para Camilo, é que ele não demonstrou onde McGrath fez isso no livro. Nem o próprio McGrath é criacionista.

Diante disso, fica evidente que os delirantes (adeptos de uma crença falsa) são os seguidores de Dawkins – e olhe que não me refiro a todos os ateus. Há ateus sadios, e há ateus malucos (assim como na religião, há religiosos sadios e religiosos malucos). No ateísmo, os malucos atendem pelo nome de neo ateus e são os leitores de Dawkins.

As confusões mentais de Camilo ficaram evidentes.

Entretanto, Camilo está em boa companhia: Dawkins com certeza aprovaria o seu comportamento maluco e mitômano.

Se não existissem ateus com esse tipo de patologia, como é que Dawkins iria ganhar dinheiro com livros e palestras para eles, não é?

Escrito por lucianohenrique

Dezembro 26, 2009 em 12:10 am

A queda humilhante do neo ateu Alfredo Bernacchi

com 2 comentários

Na comunidade “Contradições do Ateísmo”, do Orkut, entrou um sujeito que atende pelo nome de Alfredo Bernacchi.

Ele mostrou que tem em seu “currículo” uns 7 livros escritos, embora nenhum deles tenha sido publicado. Todos foram lançados através da Internet. Todos sobre neo ateísmo.

O que importa é que Alfredo chegou dizendo que seus argumentos seriam uma leitura desafiadora para os foristas da Contradições do Ateísmo. Clique aqui para visualizar o tópico.

Gostei do tom desafiador dele, isso atiçou o duelo.

Não demorou para eu começar a investigação em um de seus livros, atividade que não levou mais que… 5 minutos.

Sim, eu escolhi o livro “Ateu, Graças a Deus”, dele, e de lá tirei várias afirmações dele que foram refutadas.

Obs.: Para facilitar a leitura, as afirmações foram retiradas diretamente do livro dele, e os questionamentos e/ou objeções são meus.

Detalhe engraçado: todas as afirmações foram retiradas da primeira página do livro. O que mostra que ele não precisa de mais do que uma página para se complicar definitivamente.

Afirmação 1: “Você pode ler, com a seguinte idéia. Eu estou te ajudando a raciocinar. Apenas isso. Fazer o que eu fiz. O mesmo caminho. Não quero te convencer de nada.”

Questionamento: “Como você provaria que a obra em questão traria um aumento de raciocínio ou ajuda em raciocínio? Isso é mensurável? Os resultados são mensuráveis como? Se não provar, fica como evidência anedota… “

Afirmação 2: “Eu sei que a pressão é muito grande. Como posso esquecer as advertências que a minha mãe faz, todo dia, nas melhores das intenções, quando ainda prevê desastres na minha vida, pela falta de adorar um Deus?”

Objeção: “Evidência anedota. Histórias pessoais assim não servem como evidência. “

Afirmação 3: “Essas advertências, esses maus presságios, acompanham a vida de todos: a minha, a sua, por toda a vida!”

Objeção: “Como é que o cara diz o que me acompanhou durante a vida? Ele só pode falar pela vida dele… (e olhem lá,pois é evidência anedota). “

Afirmação 4: “É bom ser livre. Ficar livre de regrinhas fantasiosas, ficar livre de medos infundados, temores divinos, ficar livre de acreditar em ajudas imaginárias, de proteções irreais, aguardando milagres que não virão jamais.”

Questionamento/Objeção: “Como ele prova que é mais “livre” do que seus adversários? Como ele mensura isso? Se ele tinha medos infundados, o problema é dele. E não dos oponentes. Enfim, mais besteiras sem evidências. Todos esses posts meus referem às besteiras que ele escreveu na primeira página… “

Afirmação 5 (essa é um combo): “Quando concluí que Deus não existia, houve um sentimento ambíguo: Em princípio uma frustração, pela fantasia quebrada. Um lamento, uma lástima. Poxa!… Quem não gostaria que tudo fosse verdade?! Em seguida o temor de se sentir sozinho nesse mundo, quando as dúvidas te assolam. Há um temor pela desobediência (e se eu estiver errado? – pensava no início) um medo de desrespeitar um Deus!… Claro! Porque assim foi enfiado na minha cabeça. Com o tempo, tudo isso se acabou. Em seguida, veio a confiança no meu acerto, o orgulho de ter vencido o preconceito, por me sentir mais capaz.”

Objeção (combo também): “1 – Como foi a conclusão? Tem com validar a conclusão?
2 – Ele diz que após a frustração por “fantasia quebrada”. Por que ele sentiu isso? Por que alguém deveria sentir o mesmo?
3 – Ele diz “Quem não gostaria que tudo fosse verdade?!”. Essa é uma petição de princípio, pois parte do princípio que a questão NÃO é verdade. Para isso, Alberto tem que provar (1).
4 – Supondo inexistência de Deus, e o alegado temor de se sentir sozinho nesse mundo.Quem garante que os outros se sentiriam dessa forma?
5 – Ele diz “Porque assim foi enfiado na minha cabeça”. Qual a relevância dessa alegação (pois ela não prova nada)?
6 – Ele diz: “Em seguida veio a confiança no meu acerto”. Como prova que é acerto? Lembrem-se que ele ainda não provou (1).
7 – Ele diz: “por me sentir mais capaz”. Alegação de se sentir mais capaz não prova nada. “

Após tudo isso, restou ao Alfredo postar a seguinte mensagem: “Acho que… Vocês não estão preparados para coisas inteligentes, assim com o eu não estou preparado para certo tipo de refutações. P que P! Nunca vi tanta imbecilidade! Retiro a mensagem com todo prazer. “

Como é? O sujeito entra na comunidade, desafiando, e depois DELETA a própria mensagem?

Isso não combina com a charge com roupa de super-homem que ele divulga por aí…

Para maiores informações da “figura”, sugiro ver este tópico da comunidade dele no Orkut. Lá fica fácil baixar os livros.

Para quem quiser refutá-lo, eu já aviso: é diversão garantida.

Ele consegue uma proeza: tornar o livro “Deus, Um Delírio”, de Dawkins, algo até legível. E isso NÃO é um elogio ao livro do Dawkins…

Escrito por lucianohenrique

Dezembro 25, 2009 em 4:01 pm

Deus, Um Delírio – Capítulo 3 – Pt. 8 – Dawkins entra em contradição: calcula-se ou não a probabilidade?

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Antes de tudo, preciso esclarecer: quando Steve Unwin lançou seu livro “A Probabilidade de Deus”, eu fui um dos que questionei essa abordagem, pois uma análise semiquantitativa dessa forma seria de difícil mensuração e o assunto era complexo demais para ser tratado dessa forma.

Curiosamente, Richard Dawkins, da mesma forma, critica-o. Mas isso é injustificável, pois é o próprio Dawkins que decide tratar de Deus na questão de probabilidade ou improbabilidade. Portanto, é contraditório da parte dele criticar Unwin.

Vejamos então como Dawkins inicia seu caso contra Unwin:

Acho que a tentativa mais estranha de tese sobre a existência de Deus que já vi é o argumento bayesiano, apresentado recentemente por Stephen Unwin em The probability ofGod. Hesitei em incluir esse argumento, que é mais fraco e menos incensado pela antiguidade que os outros. [...] Acredito que a existência de Deus, como hipótese científica, seja, pelo menos em princípio, investigável. Além disso, a tentativa quixotesca de Unwin de dar um valor numérico à probabilidade é bem divertida.

Não existe tentativa “quixotesca” no empreendimento de Unwin, que é basicamente o exercício intelectual de alguém focado em gestão de risco. Ou seja, é assim que Unwin realmente pensa e visualiza qualquer aspecto de probabilidade. Não há nada de quixotesco nisso. A tentativa de Dawkins em ofender Unwin fracassa justamente aqui.

Quixotesco é um termo normalmente usado para designar pessoas que perderam sua razão e adentraram em lutas imaginárias contra inimigos imaginários. Ao criar dezenas e dezenas de falácias do espantalho, é Richard Dawkins quem assume pretensões quixotescas neste embate. E não o Steve Unwin.

Isso fica claro até na avaliação que Dawkins faz dele, no início do parágrafo abaixo:

Unwin é um consultor de risco apaixonado pela inferência bayesiana e que muita contra métodos estatísticos rivais. Ele ilustra o Teorema de Bayes não usando um assassinato, mas a maior prova de todas, a existência de Deus. A idéia é começar com uma incerteza total, que ele quantifica determinando para a existência e para a inexistência de Deus uma probabilidade inicial de 50% cada. Em seguida ele lista seis fatos que podem influenciar a questão, dá um valor numérico a cada um deles, fatora os seis números dentro do mecanismo do Teorema de Bayes e vê que número aparece. O problema é que (repetindo) os seis pesos não são quantidades mensuradas, mas simplesmente os juízos particulares de Stephen Unwin, transformados em números só para se encaixar no exercício. Os seis fatos são: 1 Temos um senso de bondade. 2 As pessoas fazem maldades (Hitler, Stálin, Saddam Hussein). 3 A natureza faz maldades (terremotos, tsunamis, furacões). 4 Pode haver milagres de pequena dimensão (perdi minhas chaves e as reencontrei). 5 Pode haver milagres de grandes dimensões (Jesus pode ter ressuscitado de entre os mortos). 6 As pessoas têm experiências religiosas. Se é que isso vale alguma coisa (não vale, na minha opinião), no final da corrida maluca bayesiana, na qual Deus larga bem na frente, depois fica muito para trás, e depois consegue voltar à marca dos 50%, de onde partiu, ele por fim acaba, na estimativa de Unwin, com uma probabilidade de 67% de existir. Unwin decide então que seu veredicto bayesiano de 67% não é alto o suficiente e toma a bizarra decisão de aumentá-lo para 95% com uma injeção emergencial de “fé”.

É divertido investigar textos de diatribe, pois seus autores sempre inventam uma nova informação, falsa, na tentativa de atacar seus oponentes.

Neste caso, Dawkins inventou que Unwin tomou uma decisão de aumentar a estimativa para 95%. Isso não é verdade: o livro fala de 67% e só. Ainda que 95% tenha sido mencionado por Unwin, isso NÃO FAZ PARTE DA AVALIAÇÃO PROBABILÍSTICA dele, portanto o fato de Dawkins tentar usar isso contra a abordagem dele configura falácia do espantalho, juntamente com o estratagema da ampliação indevida, e, portanto, torna-se irrelevante como evidência dawkinista.

Ele ainda tenta se justificar, mas soa patético, apenas:

Parece piada, mas é assim mesmo que ele procede. Eu gostaria de justificar como ele faz isso, mas não há nada a dizer.

É importante que talvez tivesse DEMONSTRADO como ele fez isso através de citações (conforme aquelas utilizadas aqui). Ele não demonstrou.

Ele prossegue:

Já encontrei esse tipo de absurdo em outros lugares, quando desafiei cientistas religiosos, mas inteligentes, a justificar sua crença, levando em conta que eles admitiam que não há evidências: “Admito que não há evidência. Há um motivo para que isso seja chamado de fé” (essa última frase é dita com uma convição quase truculenta, sem sinal de nenhum tom de justificativa ou defesa).

Sem citar quem disse a frase, a alegação de Dawkins não tem valor de evidência. E dizer que “já encontrei esse tipo de absurdo” é uma evidência anedota também.

Vamos em frente, portanto:

De maneira surpreendente, a lista das seis afirmações de Unwin não inclui o argumento do design, nem alguma das cinco “provas” de Tomás de Aquino, nem algum dos vários argumentos ontológicos. Ele não quer nem saber deles: eles não contribuem nem um pouquinho para sua estimativa numérica da probabilidade da existência de Deus. Ele os discute e, como bom estatístico, descarta-os, classificando-os como vazios. Acho que ele deve levar o crédito por isso, embora seu motivo para descartar o argumento do design seja diferente do meu. Mas os argumentos que ele admite em seu portal bayesiano são, parece-me, tão fracos quanto.

Não se afirma um caso contra algo ou alguém dizendo “parece-me”. Ou são fracos ou não são, e isso deveria ser demonstrado analiticamente. Dawkins não fez esse esforço, e portanto fracassou de novo. Além do mais ele diz que a lista das seis afirmações não inclui as 5 vias de São Tomás de Aquino. Detalhe: por que deveria? Lembremos que são argumentos de natureza diferente.

As explicações de Dawkins seguem chinfrims:

Sem contar que os valores de probabilidade que eu determinaria para eles seriam diferentes, e, aliás, quem é que está interessado em juízos subjetivos? Ele acha que o fato de termos um senso de certo e errado pesa bastante a favor de Deus, enquanto eu não acho que isso devesse afetar a expectativa inicial. Os capítulos 6 e 7 mostrarão que não dá para defender a tese de que o fato de possuirmos um senso de certo e errado tenha alguma ligação clara com a existência de uma divindade supernatural.

Os capítulos 6 e 7 serão refutados em seu devido tempo, mas é evidente que não há origem de senso de certo e errado, em termos morais, sem a presença das religiões. Não há evidências disso, e é a explicação mais parcimoniosa.

O problema maior aqui é o erro grotesco de Dawkins em avaliações de probabilidades. Vamos esclarecer: existem 3 formas de se analisar risco. São elas: análise qualitativa, análise quantitativa, e análise semi-quantitativa. E não há como alguém fugir disso. Quando não há dados específicos (principalmente em bases de dados) para se fazer a análise quantitativa, deve-se fazer a análise qualitativa ou a semiquantitativa.

Portanto, a pergunta de Dawkins “quem é que está interessado em juízos subjetivos?” é de uma estupidez atroz, demonstrando uma ignorância profunda em análise de risco.

O risco é simplesmente uma incerteza quanto à ocorrência de um determinado evento. Quando existem dados suficientes, o risco pode ser medido de forma objetiva por técnicas como amplitude, desvio-padrão e coeficiente de variação. Quanto não existem tais informações, a avaliação do risco é subjetiva. Inclusive existem análises de pessoas que fornecem avaliações (subjetivas) sobre riscos: o otimista tende a perceber pouco perigo ou incerteza no resultado de um evento, já um pessimista tende a requisitar altas possibilidades de sucesso antes do início de uma ação. Todos esses perfis são levados em consideração, motivo pelo qual foi desenvolvida uma técnica nas organizações chamada Delphi, que justamente serve para CONSIDERAR que as avaliações subjetivas são possíveis. Para mitigar esse outro risco, cada um que fornece sua análise subjetiva NÃO CONHECE as avaliações dos outros.

Uma dica ao Dawkins: não fale do que não conhece.

E lá vem mais:

As pessoas com tendências teológicas são sabidamente e com frequência cronicamente incapazes de distinguir a verdade daquilo que gostariam que fosse verdade. Mas, para um crédulo em algum tipo de inteligência sobrenatural que seja mais sofisticado, é ridiculamente fácil superar o problema do mal. Basta postular um deus malvado — como aquele que recheia cada página do Antigo Testamento. Ou, se não gostar dessa hipótese, invente um outro deus malvado, dê a ele o nome de Satã e ponha na batalha cósmica dele contra o deus bom a culpa por todo o mal que há no mundo. Ou — uma solução mais sofisticada — postule um deus com tarefas mais grandiosas a fazer que se preocupar com o sofrimento humano. Ou um deus que não seja indiferente ao sofrimento, mas que o considere o preço justo a pagar pelo livre-arbítrio num cosmos ordenado. Podem-se encontrar teólogos comprando todas essas racionalizações.

É engraçado notar que ao final de alguns de seus casos, quando não tem argumentos contra seus oponentes, Dawkins opta pelo ataque histérico. Isso é claramente perceptivo quando notamos o estratagema 38 de Schopenhauer, em sua Dialética Erística. O estratagema menciona o seguinte: “Quando percebemos que o adversário é superior e que acabará por não nos dar razão, então nos tornamos pessoalmente ofensivos, insultuosos, grosseiros. O uso das ofensas pessoais consiste em sair do objeto da discussão (já que a partida está perdida) e passar ao contendor, atacando, de uma maneira ou de outra, a sua pessoa”.

É exatamente isso que Dawkins fez aqui. Ele não tinha mais como atacar seus oponentes e resolveu ofender os teólogos dizendo que são “sabidamente e com freqüência cronicamente incapazes de distinguir a verdade daquilo que gostariam que fosse verdade”.

O difícil vai ser Dawkins comprovar sua alegação, pois ele sequer consegue diferenciar um teólogo de um padre, por exemplo. Aliás, não é raro ele citar uma declaração de um religioso e sair chamando isso de “declaração teológica”. Se ele não conhece o que significa a teologia, como ele pode então tentar ler a mente dos teólogos e dizer se são capazes ou não de distinguir o que é ou não verdade. E quem teria a “verdade” para fazer esse teste? Richard Dawkins? A tentativa de Dawkins é mais um exemplo de que ele é o personagem quixotesco deste embate que ele criou. Para tornar a situação dele próprio ainda mais embaraçosa, ele cita teólogos em seu caso contra Unwin. Mas isso é totalmente nonsense, pois a idéia de Unwin é INDEPENDENTE da teologia.

Aí, diante de sua megalomania, ele aplica a técnica de consultoria, dando “conselhos” a seus oponentes. Ele disse que, para superar o problema do mal, “basta postular um deus malvado”, e cita o Antigo Testamento para isso. O problema é que ele nem sequer provou que no Antigo Testamento há um Deus malvado. Pelo contrário, não são feitos juízos de valor a respeito do “temperamento” divino. Dawkins não ter percebido isso mostra sua inaptidão para avaliações teológicas (obs: mais um motivo para duvidar de todos os diagnósticos que ele faz contra teólogos). Aí ele sugere algo alternativo: “basta inventar outro deus malvado, dê a ele o nome de Satã”. Mas quem disse para esse ignorante que Satã é um Deus? Realmente, ele consegue a proeza de não acertar absolutamente nada. Depois de seus dois erros, ele faz uma tentativa de dizer que a opção seria “postular um Deus com tarefas mais grandiosas a fazer que se preocupar com o sofrimento humano”. Embora ele não entenda absolutamente nada dessa concepção, a idéia de mencionar “tarefas a fazer” para Deus mostra a ignorância completa dele no assunto.

Como se nota, Dawkins não serve para comentar a Bíblia e nem como devemos interpretá-la. Ouvi-lo é o mesmo que ouvir um maluco de rua que fica gritando sandices na praça.

Engraçado é ele dizer que podem ser encontrados teólogos comprando “todas essas racionalizações”. O difícil vai ser Dawkins INTERPRETAR o que está sendo dito em qualquer uma dessas racionalizações. Em todo caso, esse parágrafo de Dawkins não apresentou caso algum em favor dele, e configura mais um desvio de foco na questão de seu ataque a Unwin.

Ele tenta justificar seu desvio de foco aqui:

Por essas razões, se eu fosse refazer o exercício bayesiano de Unwin, nem o problema do mal nem considerações morais em geral me afastariam muito, nem para um lado nem para o outro, da hipótese nula (os 50% de Unwin). Mas não quero discutir sobre isso porque, de qualquer maneira, não posso ficar inflamado demais com opiniões pessoais, seja as de Unwin, seja as minhas.

É mole isso que ele escreveu? Ele diz que se fosse refazer o exercício de Unwin, ele diz que dificilmente ficaria longe da hipótese nula. O problema é que ele NÃO FEZ o exercício, então como ele pôde prever isso? A resposta é uma só: fé cega. Ele repete também o seu erro a criticar as “opiniões pessoais”, mostrando a já observada ignorância em análises qualitativas e semiquantitativas.

Curiosamente, Dawkins esconde o fato de que a análise de Unwin não é definitiva. Unwin inclusive adicionou uma planilha em seu livro para que os leitores fizessem seus próprios cálculos.

A rejeição a priori de Dawkins pela tentativa de Unwin mostra que ele é apenas um fanfarrão quando tenta falar de probabilidade de Deus. Já que a única tentativa feita, a de Unwin (ainda que questionável), foi rejeitada a priori. Qualquer pessoa que já atuou em gestão de risco sabe que modelos como esse de Unwin são apresentados não para dar uma resposta definitiva, mas para desafiar outras pessoas a inserirem seus valores para as variáveis. Ou até sugerirem novos modelos.

Dawkins acabou contradizendo a si próprio. Ele demonstrou ao público que quer falar de probabilidade, mas foge de qualquer abordagem em que um NÚMERO é atribuído à probabilidade. Vejam o que aconteceu por exemplo quando Ben Stein, no documentário “Expelled”, solicitou que ele fornecesse um número para probabilidade de inexistência de Deus. [N.E. - Isso ocorre a partir do ponto 04:23 do vídeo]

Por fim, vem a propagandinha de sempre do tal “argumento poderoso” de Dawkins:

Há um argumento muito mais poderoso, que não depende de juízos subjetivos, que é o argumento da improbabilidade. Ele realmente nos afasta drasticamente do agnosticismo dos 50% [...] Já o mencionei várias vezes. O argumento gira em torno da conhecida pergunta: “Quem criou Deus?”, que a maioria das pessoas pensantes descobre por si só. Um Deus projetista não pode ser usado para explicar a complexidade organizada porque qualquer Deus capaz de projetar qualquer coisa teria que ser complexo o suficiente para exigir o mesmo tipo de explicação para si mesmo. A existência de Deus nos coloca diante de uma regressão infinita da qual ele não consegue nos ajudar a fugir. Esse argumento, como mostrarei no próximo capítulo, demonstra que a existência de Deus, embora não seja tecnicamente descartável, é muito, mas muito improvável mesmo.

Pelo contrário: esse argumento de Dawkins é que é TOTALMENTE subjetivo e, para piorar, completamente irracional. Vou comentar a estratégia dele no início da refutação ao capítulo 4, pois ele fica anunciando insanamente que apresentará o seu argumento “destruidor” ao final do capítulo 4. Se eu for refutar toda as vezes em que ele faz essa propaganda, eu me tornaria prolixo e repetitivo – o que seria cair na mesma vala em que Dawkins caiu, pois ele não se incomoda em ser repetitivo. Enquanto isso, o tal “argumento mais poderoso” é simplesmente esse aqui, que William Lane Craig humilhou.

Algo para causar vergonha eterna para qualquer admirador de Dawkins.

Escrito por lucianohenrique

Dezembro 25, 2009 em 12:01 am

Deus, Um Delírio – Capítulo 3 – Parte 5 – O fracasso de Dawkins em seu ataque às escrituras

com 3 comentários

Tecnicamente, sempre que Dawkins resolve duelar com teólogos e com especialistas em religião ele não se dá bem. Um exemplo evidente foi quando ele tentou destroçar os argumentos de São Tomás de Aquino e Santo Anselmo. Ele conseguiu fracassar nas duas vezes, e olhem que na segunda a vitória não seria tão difícil. Kant e  Aquino já haviam atacado o argumento de Anselmo e se deram bem.

Eis então que, totalmente confiante (movido por seu eterno delírio), Dawkins resolve atacar de frente as escrituras naquilo que ele chama de “argumento das escrituras”.

Como de costume, em sua apresentação de caso, Dawkins não deixa claro qual é o argumento (mais uma vez temos que adivinhá-lo, em sua estrutura formal), e nem quem são seus proponentes. Em suma, um trabalho de acusação típico de vagabundo, e que já seria rejeitado em qualquer debate sério.

Duvidam? Pois então vejam como ele começa a apresentar seu “caso”…

Ainda tem gente que é convencida a acreditar em Deus pelas evidências das Escrituras.

Tem gente? Quem? Ou não seria o fato de que alguns usariam as escrituras para avaliar a coerência da mensagem divina? Nesse caso, o foco seria diferente (e na verdade é). De novo, se Dawkins não formaliza a intenção de alguém em usar as escrituras, a acusação dele é desqualificada de imediato. Na verdade, as escrituras demonstram um ensinamento sólido, que naturalmente aparenta originar-se de pessoas de extrema sabedoria (que Dawkins jamais irá possuir, até pela limitação de sua mente), as quais são coerentes com uma mensagem divina. Já em sua abertura, portanto, Dawkins se embreta. Isso mostra que não é preciso mais do que uma linha para ele se complicar.

O que ele afirma logo a seguir é revelador:

O fato de as coisas estarem por escrito é persuasivo para pessoas que não estão acostumadas a fazer perguntas como: “Quem escreveu, e quando?”; “Como eles sabiam o que escrever?”; “Será que eles, naquela época, realmente queriam dizer o que nós, em nossa época, entendemos que eles estão dizendo?”; “Eram eles observadores imparciais, ou tinham uma agenda que influenciava seus escritos?”.

Essa insistência desse tipo de mente tosca em pedir “observadores imparciais” em cenários que não são contemplam esse tipo de análise beira o histrionismo.

Isso me lembra de um episódio de um grupo humorístico chamado “Os Melhores do Mundo”, falando sobre a invenção do futebol. Nesse quadro, eles apresentavam ao Rei da Inglaterra o novo esporte, e, a cada descrição, a Majestade perguntava: “Cadê o cavalo?”. Pacientemente, o membro da corte dizia: “Não, não tem cavalo neste esporte”. E a explicação prosseguia. De novo o rei perguntava: “E onde entra o cavalo?”. Novamente, o membro da corte diz: “Não, eu já disse que não tem cavalo. Basta prestar atenção, que tudo fica mais fácil”. Quando é dito ao rei como funciona a marcação de um gol, ele pergunta: “É agora que o cavalo aparece?”. O súdito se enerva, agarra o rei pelo pescoço e diz: “Não, eu já disse que não tem cavalo, cavalo morreu, ok?”.

Discutir com Dawkins deve ser mais ou menos algo nesse nível. O sujeito não entendeu o que é ciência, e como nela se encaixa a questão de observadores imparciais (para experimentos científicos), e agora pede “observadores imparciais” para a elaboração de um escrito antigo? Seria tão absurdo quanto pedir “observadores imparciais” para validar os escritos de Kant, Aristóteles, etc…

Não faz o menor sentido, e aparenta um caso sério de analfabetismo funcional. Diante de tamanha incompetência, fico surpreso com o fato desse sujeito ter conseguido um doutorado. Deve ter se esforçado muito.

Vamos então avaliar pergunta por pergunta:

  • “Quem escreveu, e quando?”: Basta estudar a origem da Bíblia, a partir da perspectiva histórica, para saber quem escreveu e quando. Obviamente que não há registros de hora exata, e mecanismos de direito autoral não existiam naquela época também. E daí, Dawkins?
  • “Como eles sabiam o que escrever?”: Existe algo chamado cérebro, que os humanos possuem. Pessoas tomam decisões a respeito do que vão escrever ou não. A pergunta é estúpida e ingênua.
  • “Será que eles, naquela época, realmente queriam dizer o que nós, em nossa época, entendemos que eles estão dizendo?”: Se o foco da bíblia é nos ensinamentos e valores morais, e eles são considerados atemporais, é óbvio que os valores ali tratados serão entendidos em qualquer época. Menos em um país marxista-leninista, claro.
  • “Eram eles observadores imparciais, ou tinham uma agenda que influenciava seus escritos?”: O conceito de “observadores imparciais” não se aplica nesse contexto. Isso não faz o menor sentido. Qualquer narrativa de um fato passado é subjetiva, sempre.

Aqui Dawkins nem entendeu o que significa “observador imparcial”.

Todas as perguntas de Dawkins mostram que ele ouviu o galo cantar mas não sabe onde.

Para aumentar o constrangimento dawkinista, em nenhum momento o argumento dele prova que o fato de as coisas estarem por escrito é persuasivo. É um raciocínio falacioso dizer que alguém tende a acreditar mais em algo por estar por escrito. Para validar isso, também, ele teria que fazer leitura mental.
Como ele não fez isso,vamos em frente:

Desde o século xix, teólogos académicos vêm defendendo que os evangelhos não são relatos confiáveis sobre o que aconteceu na história do mundo real. Todos eles foram escritos muito tempo depois da morte de Jesus, e também das epístolas de Paulo, que não mencionam quase nenhum dos supostos fatos da vida de Jesus. Todos eles foram copiados e recopiados, ao longo de muitas “gerações de telefones sem fio”, por escribas sujeitos a falhas e que, por sinal, tinham suas próprias agendas religiosas.

O conceito de “agenda” é um conceito usado normalmente também em auditoria. Para afirmar que alguém possui uma agenda, é preciso investigar tal agenda e demonstrá-la. Coisa que Dawkins não fez, portanto é mais uma alegação que vai pelo ralo.

A questão de “gerações de telefones sem fio” é uma afirmação absurda, que carece de evidências. Embora seja possível encontrar alguns pontos de diferença entre versões (o que será tratado mais a frente, e irá esmagar definitivamente Dawkins), não implica nenhum traço de similaridade com “telefones sem fio”. A qualificação de “telefone sem fio” implicaria que a mensagem final seria MUITO DIFERENTE da mensagem original. Quais as diferenças? Se Dawkins não apresenta as diferenças, não implica em comprovação de “telefone sem fio”.

O mais grotesco é quando Dawkins reconhece que os teólogos, há muito tempo, defendem a idéia de que os evangelhos não são relatos confiáveis da História.

Diferentemente de ajudar Dawkins, isso o ATRAPALHA em seu caso, pois todos os ataques dele em relação a historicidade do evangelho perdem efeito. Os golpes só surtiriam efeito se os teólogos afirmassem que a bíblia é para ser encarada como relato histórico direto. A própria cronologia que os povos antigos usavam dificultam muito o uso da Bíblia como registro histórico. E isso não conspira nem um pouco contra a Bíblia e nem contra a religião.

Lá vem mais:

Um bom exemplo da cor acrescentada pelas agendas religiosas é a tocante lenda do nascimento de Jesus, em Belém, seguida do massacre dos inocentes por Herodes. Quando os evangelhos foram escritos, muitos anos depois da morte de Jesus, ninguém sabia onde ele tinha nascido.

De onde será que Dawkins tirou a idéia de que “ninguém” sabia onde Jesus tinha nascido? Talvez ele tenha consultado especialistas em leitura na borra do café…

Seguiremos, portanto:

Mas uma profecia do Antigo Testamento (Miquéias 5, 2) tinha levado os judeus à expec-tativa de que o esperado Messias nasceria em Belém. À luz dessa profecia, o Evangelho de João afirma textualmente que seus seguidores ficaram surpresos com o fato de ele não ter nascido em Belém: “Outros diziam: Ele é o Cristo; outros, porém, perguntavam: Porventura, o Cristo virá da Galiléia? Não diz a Escritura que o Cristo vem da descendência de Davi e da aldeia de Belém, donde era Davi?”.

Ué… aqui seria algo a ser questionado do ponto de vista histórico. O problema é que esse caso não pode ser mais aberto por Dawkins, pois ele MESMO confessou que os estudiosos do evangelho (teólogos) não tentavam validar historicidade do evangelho. O único questionamento, depois dessa confissão do Dawkins, seria em relação a algum ensinamento contido na Bíblia. Ele não falou de nada disso…

Agora ele resolve pegar no pé de Lucas:

Além do mais, Lucas confunde as datas mencionando impensadamente eventos que os historiadores são capazes de verificar com independência. Houve mesmo um censo sob o domínio do governador Quirino — um censo localizado, não um que tivesse sido decretado por César Augusto para o Império inteiro —, mas ele aconteceu tarde demais: em 6 d. C., bem depois da morte de Herodes. Lane Fox conclui que “a história de Lucas é historicamente impossível e internamente incoerente”, mas solidariza-se com o empenho e o desejo de Lucas de fazer cumprir a profecia de Miquéias.

Mais uma vez ele incorre no erro de tomar a Bíblia pelo ponto de vista histórico. Outro problema: dizer que algo é historicamente impossível e internamente incoerente, sem apresentar detalhadamente a incoerência, prejudica a evidência de Dawkins. Nesse caso, a evidência dele é nula.

A ladainha prossegue:

Flynn sugere que o desejo de Mateus de fazer cumprir as profecias messiânicas (descendência de Davi, nascimento em Belém), pelo bem dos leitores judaicos, entrou em rota de colisão com o desejo de Lucas de adaptar o cristianismo aos gentios, e portanto de utilizar pontos conhecidos e populares das regiões pagãs helénicas (virgindade da mãe, adoração por reis etc.).

Será que o desespero tomou conta de Dawkins? Este poderia até torcer para que Lucas tivesse realmente feito uma adaptação, o que está muito longe de ser provado. Mas falta também a ele comprovar o “desejo” de Lucas em adaptar o cristianismo aos gentios. Isso seria leitura mental, e, como já demonstrado, é pseudo-ciência. Esse tipo de prova é irrelevante no caso de Dawkins, e pode ser rejeitada a priori.

Mas ele não desiste:

As contradições resultantes são evidentes, mas sempre minimizadas pelos fiéis. Cristãos sofisticados não precisam de Ira Gershwin para convencê-los de que “As coisas que você/ Pode ler na Bíblia/ Não são necessariamente assim”.

O problema é que até o momento Dawkins não aprsentou nenhuma contradição.

Vejam, por exemplo, o modelo BCMM. As contradições apontadas geralmente demonstram nível 2 no BCMM. Hm… isso explica talvez o fato de Dawkins ter se recusado a apresentar as alegadas evidências de contradições. Aliás, Dawkins exagera em sua megalomania ao dizer o que os cristãos precisam ou não. Que eu saiba, não estamos contratando consultoria de interpretação da Bíblia. Mesmo assim, se eu fosse contratar, seria um cristão de entendimento nível 5 no BCMM.

Mesmo sendo de tão baixo nível nesse tipo de conhecimento, ele tenta criticar cristãos “pouco sofisticados”:

Mas há muitos cristãos pouco sofisticados por aí que acham, sim, que elas são necessariamente assim — que levam a Bíblia bem a sério, como um registro literal e preciso da história, e portanto como evidência que sustenta suas crenças religiosas. Será que essas pessoas chegam a abrir o livro que acreditam ser a verdade literal? Por que não percebem essas contradições tão evidentes?

A resposta para isso é simples. Em uma interpretação literal, ou na Bíblia usada como registro histórico, talvez existisse contradição. Até em Nietzsche ou Platão isso existiria. Na verdade, em praticamente toda a literatura.

Mas supondo esses menos sofisticados, é possível que elas cometam erros de interpretação, ou interpretações simplórias. Em caso disso ocorrer, não é problema da religião.

Um exemplo disso é que os leitores de Dawkins são ateus simplórios, geralmente incapazes.

Eles não percebem também as várias contradições que existem até mesmo dentro da obra O Gene Egoísta. Desde lá, Dawkins não pára de cometer contradições e seus leitores não percebem.

Isso também não é culpa do ateísmo, mas da inépcia que lhes é inerente.

No caso de religiosos ultra-literais, que seriam o alvo da crítica de Dawkins, essa seria a explicação mais parcimoniosa.

Explicação, aliás, que destrói impiedosamente qualquer caso de Dawkins contra a religião.

E quando faltam recursos, ele tenta apelar ao Bart Erhman:

O acadêmico bíblico americano Bart Ehrman, num livro cujo subtítulo é Quem mudou a Bíblia e por quê, revela as imensas incertezas que obscurecem os textos do Novo Testamento. Na introdução do livro, o professor Ehrman traça de forma emocionante sua jornada educacional pessoal de crente fundamenta-lista na Bíblia a cético ponderado, uma jornada impulsionada pela esclarecedora constatação da enorme falibilidade das Escrituras. De modo significativo, conforme ele foi subindo na hierarquia das universidades americanas, desde o fundo do poço, no “Instituto Bíblico Moody”, passando pelo Wheaton College (um pouco mais elevado na escala, mas ainda a alma mater de Billy Granam) e o Seminário Teológico em Princeton, a cada passo que dava ia sendo advertido de que teria problemas para manter seu cristianismo fundamentalista diante do perigoso progressismo. Isso se comprovou; e nós, seus leitores, somos os maiores beneficiados.

Aqui Dawkins foi completamente irracional, de cabo a rabo.

Começou dizendo que a declaração de jornada educacional, feita por Ehrman, sria “emocionante”. Detalhe: no meio de um caso, dizer que acha algo emocionante, é irrelevante em termos argumentativos. Se Dawkins afirmou que seria “emocionante”, isso ainda não seria comprovação de que realmente era emocionante. Portanto, é inútil.

Aliás, a própria história de vida do Bart Ehrman é irrelevante, pois o que importa no caso são seus argumentos. Esse tipo de choradeira emotiva do Dawkins só serve para convencer leitores mais incapazes, mas torna-se ridícula perante alguém que possua o mínimo de aptidão para investigação argumentativa.

Da mesma forma, não há demonstração de que Ehrman hoje seja “ponderado”, e antes ele era “não ponderado”. Simplesmente, não há provas disso, e não serve como alegação. No entanto, caso Ehrman fosse fundamentalista antes, não haveria provas de que ele teria mudado sua forma de agir.

Um exemplo disso é o comportamento atual de Erhman, que hoje dedica a sua vida a lutar contra a religião, o que já o coloca no mínimo como suspeito. Detalhe: o sujeito declara ser agnóstico e sem filiação religiosa, mas é chefe de um departamento de religião. Que estranho isso. Seria o mesmo que um sujeito que acha que futebol é o ópio do povo virar diretor de alguma Confederação de Futebol. Não faz sentido e é no mínimo suspeito.

Dentro do comportamento de Erhman, existe a tática principal dele, que é dizer que existem muitas “variantes” dos manuscritos do Novo Testamento, e por isso ele seria falso. O estratagema é realmente ingênuo desta forma.

O problema é que esse argumento prejudica totalmente a causa de Erhman, pois o Rei James, em 1611, realizou um estudo com várias versões da Bíblia. E, quanto mais versões existem para comparação, mais próximo ficamos do texto original. Chegar a esse raciocínio é apenas falar o óbvio. É o mesmo que achar um fóssil de uma espécie, ou 250 fosséis. No último caso, pela análise comparada, teremos mais evidências de como a espécie original realmente era. As tais “variantes” da Bíblia, portanto, não conspiram contra a Bíblia que conhecemos hoje, pelo contrário.

E, na questão de variações serem usadas contra um texto, o próprio Erhman poderia ser desmascarado por seu estratagema.

Vejamos em seu livro “Misquoting Jesus”, alguns erros que lá existem (agradecimentos ao site Atheism is Dead):

  • (a) Na página 13, há referência a “Timothy LeHaye” e “Philip Jenkins”. O primeiro erro é que o primeiro nome de Timothy está errado, o correto seria apenas Tim. O segundo nome dele também está errado, pois é LaHaye, ao invés de LeHaye. O terceiro erro é que o primeiro nome de Jenkins não é Philip, e sim Jerry.
  • (b) Na página 110, “Timothy” é utilizado como se fosse o último nome de LaHaye.
  • (c) No índice, está novamente escrito Timothy ao invés de Tim. Novamente, LeHaye está escrito, ao invés de LeHaye.
  • (d)Na página 110, o nome de Hal Lindsey está escrito de forma errada. Está escrito como “Hal Lindsay”
  • (e) Na página 70, o nome Desiderius Erasmus está escrito de forma errada. Lá está escrito como “Desiderus Erasmus”.
  • (f) Na página 48 está escrito “scriptio continua” de forma errada. Lá está como “scriptuo continua”.
  • (g) Na página 91, está escrito “parablepsis” de forma errada. Lá ele escreveu como “periblepsis”. Ele repetiu o erro duas vezes.
  • (h) Na página 90, o erro mencionado em (f) se repete
  • (i) Na página 192, a citação se refere a Atos 17:27. Está errado. Ela deveria se referir a Atos 17:30.
  • (j) Na página 12, o nome de LaHaye é transcrito como LaHay.
  • (k) Na página 110, o erro (j) se repete.
  • (l) Nas páginas 12 e 110, o nome de Hal Lindsey está novamente transcrito de forma errada, tal qual no erro (d)
  • (m) Há um livro na imagem da capa da versão americana de “Misquoting Jesus”. O problema é que esse livro está em Hebreu. Que raios faz a língua hebraica na capa de um livro que avalia manuscritos gregos?

O importante é o seguinte. A maioria os erros são basicamente erros de transcrição, que não afetam o conteúdo do texto e certamente não afetam qualquer argumento que o livro tenta impor. Da mesma forma que a Bíblia. Os erros apontados por Erhman geralmente não passam disso, e portanto não servem para julgar se a Bíblia é válida ou não. Para isso, ele teria que demonstrar, dentre os principais ensinamentos da Bíblia, qual deles é modificado por uma de suas “variantes”.

Portanto, Dawkins ter citado Erhman em seu caso, não o ajuda nada. Pelo contrário, o prejudica. Erhman não passa de um picareta que arrumou um nicho para vender livros, mas não possui comprometimento algum com a verdade.

Dawkins, no entanto, tenta mais um golpe, e de novo falha:

Os quatro evangelhos que chegaram ao cânone oficial foram escolhidos, mais ou menos de forma arbitrária, dentre uma amostra maior de pelo menos uma dúzia, incluindo os evangelhos de Tomás, Pedro, Nicodemo, Felipe, Bartolomeu e Maria Madalena.

Faltou o principal, que é demonstrar que a escolha ocorreu de forma arbitrária. Simplesmente, ele IMAGINOU que seria, e saiu divulgando sua crença. Mas sem evidências não adianta…

Em frente:

Os evangelhos que não entraram no cânone foram omitidos por aqueles eclesiásticos provavelmente porque incluíam histórias que eram ainda mais embaraçosamente implausíveis que aquelas dos quatro canónicos. O infantil Evangelho de Tomás, por exemplo, contém várias passagens sobre o menino Jesus abusando de seus poderes mágicos como uma fada travessa, transformando descaradamente seus coleguinhas em bodes, ou transformando a lama em pardais, ou dando uma mão ao pai na carpintaria, estendendo milagrosamente uma peça de madeira. Alguém dirá que ninguém acredita mesmo em histórias de milagres brutos como as do Evangelho de Tomás.

Como sempre, Dawkins está errado. Sair dizendo o que “alguém dirá ou não” está fora do escopo deste tipo de análise. Para piorar, ele não conseguiu mostrar que o Evangelho de Tomás é infantil. No máximo, relatam-se eventos de quando Jesus era uma criança.

Entretanto, há quem diga que o Evangelho de Tomás foi rejeitado por não ser relevante, a não ser para denominações de qualificação gnóstica, o que não é o caso do protestantismo nem do catolicismo. Em todo caso, a análise de motivos de Dakwins, como sempre, falhou…

E, como um especialista em fracassos, Dawkins chafurda de novo:

Boa parte do que escreveram não representava de maneira nenhuma uma tentativa honesta de registrar a história, mas uma simples reciclagem do Antigo Testamento, porque os autores dos evangelhos estavam devotadamente convencidos de que a vida de Jesus tinha de cumprir as profecias do Antigo Testamento.

Vamos com calma… De novo essa história da Bíblia ter que ser uma tentativa de “registrar a história”? Mas não foi ele próprio que disse que os teólogos sofisticados já rejeitavam essa idéia? De onde Dawkins tirou a idéia de que a Bíblia teria como função ser registro histórico?

Mais ainda, agora errando de forma mais grosseira:

É até possível montar uma argumentação histórica séria, embora ela não conte com apoio total, para defender que Jesus nem chegou a existir, como já fez, entre outras pessoas, o professor G. A. Wells, da Universidade de Londres, em vários livros, como Did Jesus exist? Embora Jesus provavelmente tenha existido, académicos bíblicos respeitados em geral não acreditam que o Novo Testamento (e, obviamente, tampouco o Antigo Testamento) seja um registro confiável do que realmente aconteceu na história, e já não considerarei mais a Bíblia evidência da existência de qualquer tipo de divindade.

O principal erro dele é achar que Bíblia é usada para “validar existência de Deus”. Não, a Bíblia é um livro de ensinamentos que é coerente. Essa coerência e objetividade dos ensinamentos é um dos indícios de que o conteúdo possui inspiração divina. Para provar a existência de Deus, os teólogos e filósofos da religião utilizam-se de argumentos racionais. A análise dos ensinamentos da Bíblia é UM desses componentes. Portanto, em resumo: quando Dawkins afirma que se a “Bíblia não for um registro histórico” então “não pode ser considerada como evidência da existência de Deus”, ele erra duas vezes: (1) ao dizer que a Bíblia deveria ser válida historicamente; (2) e, em caso contrário, ela deixaria de validar a existência de Deus. No primeiro caso, a Bíblia não é um registro histórico (como ele próprio confessou). No segundo, o objetivo da Bíblia não é ser uma validação da existência de Deus, mas sim demonstrar o resultado de uma longa experiência religiosa de um povo que viveu em uma época.

Sem avançar nem um pouco em seu caso, Dawkins apela para o argumento no estilo grito de torcida:

O romance O código Da Vinci, de Dan Brown, e o filme feito a partir dele estão suscitando enormes controvérsias em círculos da Igreja. Os cristãos são incentivados a boicotar o filme e fazer piquetes nas salas que o exibem. É realmente uma fabricação do começo ao fim: ficção inventada, faz-de-conta. Nesse aspecto, é exatamente como os evangelhos. A única diferença entre O código Da Vinci e os evangelhos é que os evangelhos são ficção antiga, enquanto O código Da Vinci é ficção moderna.

É mole? Dá para chamar isso acima de argumentação séria? O cara está tão perdido que parte para uma provocação típica de moleques. O duro é que ele não acerta o alvo, pois boa parte do texto acima, no que toca em relação à comparaço coma Bíblia, poderia ser usada para atacar qualquer obra. Notem: “A única diferença entre O código Da Vinci e o livro O Gene Egoísta, de Dawkins, é que o livro de Dawkins foi escrito em 1976, enquanto O código Da Vinci veio décadas depois.”

Obviamente, que isso não serve como argumentação, assim como a ladainha de Dawkins não serve. É frase de efeito, que pode encantar a escória cultural, mas é irrelevante para cérebros mais treinados em avaliar boas argumentações.

Escrito por lucianohenrique

Dezembro 24, 2009 em 2:45 am

Aperitivos da Dialética Erística

com um comentário

Mats, comentarista deste blog, deu uma ótima sugestão, que seria a publicação de alguns dos estratagemas erísticos do Schopenhauer. A sugestão veio após a publicação da resenha do livro “Como Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão”, de Arthur Schopenhauer.

Vamos a alguns deles:

1. Ampliação Indevida

Aqui o foco do erístico será em levar a afirmação do adversário para além dos seus limites naturais, e fazer uma interpretação o mais geral possível dela. A idéia é que quanto mais geral uma afirmação se torna, é mais fácil atacá-la. Um exemplo é quando um religioso diz que “a fé amplia o entendimento espiritual”. Um neo ateu poderia tentar usar a estratégia da falsa dicotomia de ciência X religião e implementar o seguinte “a fé é irrelevante em um experimento científico”. Ou seja, o neo ateu teria aqui ampliado o uso original da expressão fé, utilizada pelo religioso, para tentar atacá-la, dizendo que ela teria que ser componente também em experimento científico para ser válida. Obs: nem experimento científico e nem qualquer processo organizacional, incluindo emissão de faturas, requer fé, e sim processos organizacionais ou métodos. Justamente por isso, a ampliação do exemplo realmente é INDEVIDA. Para aniquilar esse estratagema, basta expor ao oponente o contexto em que a afirmação foi feita e deixar ao público de forma explícita quais os limites dela.

2. Homonímia Sutil

Com este estratagema, o erístico usa a homonímia (dois conceitos designados pela mesma palavra) para tornar uma afirmação apresentada por ele extensiva também a algo que não tem muito em comum com a coisa de que se trata. Em seguida, é refutada com ênfase essa afirmação, para dar a impressão de se ter feito uma refutação à primeira. Um exemplo é o seguinte: “Pessoas se mudam, quando vão de uma casa para outra. Evolução é mudança. Evolução é fato.”. Obs.: Eu concordo que evolução biológica é fato, mas não é com esse tipo de argumento que um neo ateu (que pode usar uma versão extrapolada e fanática do evolucionismo) irá validá-la. O estratagema pode ser esmagado ao se mostrar ao erístico que o uso da homonímia é indevido.

3. Mudança de Modo

Tomar uma afirmação de um oponente, jogá-la em um contexto em que ela assume um contexto totalmente diferente, para depois refutá-la, é a essência desse estratagema. Um exemplo famoso é quando um religioso afirma a importância da religião para estabelecer os valores morais de nossa sociedade. Em seguida um neo ateu poderia aplicar o estratagema assim: “Quer dizer então que se não existisse religião você não teria valor moral?”. Nesse exemplo, o religioso falava de um contexto sócio-cultural, e não de seu comportamento em si. O neo ateu tentou aqui mudar o modo da discussão, com clara tentativa de ganhar o debate. Esse exemplo é diretamente retirado de uma tática aplicada por Richard Dawkins. Explicar a impertinência da mudança de modo, didaticamente, é uma das formas muito inteligentes de se demolir esse estratagema.

11. Salto Indutivo

O objetivo desse estratagema é habilitar o erístico a utilizar-se de uma indução, na qual o oponente admite os casos particulares em que esta se baseia. Em cima disso, o erístico não irá perguntar ao oponente se ele admite também a verdade geral que deriva desses casos, mas ele irá introduzi-la desde logo como se estivesse estabelecida e aceita. Um exemplo de fácil identificação é perguntar se o religioso acha que a Bíblia é correta. Caso o religioso responda afirmativamente, o neo ateu poderá dizer que na Bíblia existem situações em que crimes ocorrem, e, que, se o religioso acha a bíblia correta, deverá achar os crimes corretos também. Obviamente, é uma falácia. A aniquilação do estratagema às vezes pode ser trabalhosa, de acordo com a proporção da indução, mas é importantíssima que seja realizada. De preferência, mostrando em muitos casos a falácia que sustenta o estratagema. Nesse exemplo apresentado, é o reductio ad absurdum.

12. Manipulação Semântica

Aqui é um estratagema onde o erístico tentará escolher atributos de fácil ataque quando estiverem sido discutidos conceitos gerais que não possuem nome próprio e que precisam ser designados figurativamente por uma metáfora. A metáfora escolhida geralmente é a que favorece a tese do erístico. Quando um religioso diz que possui “busca religiosa”, o neo ateu, se quiser usar esse estratagema, poderá substituir por “busca fanática”. O intuito é claramente de difamação, neste caso. A refutação ao estratagema consiste em mostrar que a manipulação semântica é incorreta e nada tem a ver com a discussão em questão.

17. Distinção de emergência

No caso de um adversário acossar o erístico com uma prova contrária a sua, este último provavelmente tentará se safar com uma distinção sutil, caso a questão admita algum tipo de dupla interpretação ou dois casos diferentes. Um exemplo pertinente é a própria teoria da memética, que não obedece aos padrões do método científico. Um neo ateu que a defenda ao tentar incluir a teoria no rol das teorias científicas poderá dizer que “precisamos conhecer uma resposta”. Só que isso não é suficiente para a teoria ser científica. O neo ateu, neste caso, estaria fazendo uma distinção para que o oponente aceite que basta que “precisemos conhecer uma resposta” para que aceitemos que a teoria que dê essa resposta seja científica. Mostrar a irrelevância e/ou impertinência da distinção é a forma mais eficiente de destruir o estratagema.

26. Retorsio argumenti

Nesse estratagema, o erístico irá tentar utilizar o argumento que um adversário quer usar a seu favor, dizendo que, com mais razão, ele poderia ser usado contra ele. Um exemplo gritante é quando Dawkins, em seu livro Deus, Um Delírio, disse que o argumento da improbabilidade seria o “grande argumento” dos religiosos. Aí ele afirma: “Ele é realmente um argumento fortíssimo e desconfio que irrespondível – mas exatamante na direção contrária da intenção dos teístas”. Realmente, a estratégia do Dawkins possuiria forte efeito psicológico, principalmente em comunidades de neo ateus, mas como pôde pôde ser visto na refutação feita por William Lane Craig, o argumento de Dawkins estava totalmente errado. Dawkins simplesmente aplicou o Retorsio argumenti.

31. Incompetência Irônica

Quando o erístico não sabe opor nenhum fundamento aos do adversário, ele poderá implementar uma alegação irônica de incompetência. Detalhe: só funciona se a platéia já estiver a favor do erístico. Por exemplo, em comunidade de neo ateus radicais, um neo ateu se dá bem com esse recurso. Em território neutro, ele se daria mal, principalmente se o outro debatedor expor o erro de raciocínio dele. Aqui o exemplo é fácil. Basta ver a forma como José Saramago se refere a Deus, na Bíblia. Ele parte de interpretações literais, e diz que “pode entender assim, pois não tem estudo teológico”. Ou seja, ele assume em público uma incompetência, e ganha aplausos de neo ateus, que já estão a princípio a favor dele (independente do que ele disser). Para o público em geral, ficará claro que ele, ao ser refutado, simplesmente não sabia do que estava falando (ou fingia não saber). Se fingia não saber, isso configura a aplicação deste estratagema.

Nota: Caso você estiver em uma comunidade de neo ateus (ex. Richard Dawkins Brasil, UNA, STR, etc.), não será possível que você se safe desses estratagemas, pois eles usarão um estratagema que Schopenhauer não tratou, que é a técnica do Ataque em Bando. Vários neo ateus, nesse caso, se juntam, e, independente ou não da validade de seus argumentos, eles já irão proclamar vitória (aliás, é o estratagema 14 da Dialética Erística). Nesses ambientes, é recomendável não argumentar e buscar território neutro, ou comunidades em que eles não possuam apoio da moderação.

Nota 2: Escolhi apenas 8 exemplos. A leitura da obra completa, mostrando todos os 38 estratagemas, é que servirá como um baita antídoto contra a picaretagem não só de grande parte do discurso neo ateu, como da maioria dos discursos de mentalidades afins.

Escrito por lucianohenrique

Dezembro 23, 2009 em 3:40 am

Livro: Como vencer um debate sem ter razão em 38 estratagemas – Dialética Erística, de Arthur Schopenhauer

com um comentário

“Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão – em 38 Estratagemas (Dialética Erística)”, de Arthur Schopenhauer (Introdução, Notas e Comentários de Olavo de Carvalho), 260 páginas, Tamanho 12×21, Editora: Top Books.

Uma das melhores formas de se conhecer fraudadores é entender a mente deles. É por isso que existe, em Segurança, um foco em entender os perfis do comportamento criminoso e/ou danoso.

Por exemplo, livros sobre hackers. São extremamente relevantes, mas não apenas tentar ser um hacker, e sim entender como eles pensam.

Essa mesma regra deve ser aplicada aos debates argumentativos.

Como vocês podem notar por esse blog, quando se investiga o material divulgado pelos neo ateus, o que se encontra envolve normalmente um conjunto de fraudes intelectuais, distorções, manipulações semânticas, falácias e coisas do tipo.

Um dos principais componentes desse pessoal é a erística.

Erística é a arte de vencer um debate, sem ter razão.

O que defendo nesse blog é o oposto. Defendo que os religiosos que forem investigar os neo ateus entrem em debate para vencer, sim, mas com foco em ter razão.

Essa é a diferença que separa os erísticos daqueles que são apenas argumentadores high profile (cujo perfil defendo e apóio).

Ambos entram em campo para ganhar o debate, mas os erísticos não se importam em ter razão.

E, para entender o comportamento dos erísticos (e a campanha neo ateísta tem como principal recurso a erística), nada melhor que conhecer “Como Vencer Um Debate Sem Precisar Ter Razao Em 38 Estratagemas – Dialética Erística”.

Foi uma das obras que Arthur Schopenhauer, morto em 1860, não chegou a finalizar.

Várias décadas depois de sua morte, o trabalho foi redescoberto.

A edição lançada no Brasil, pela Top Books, inclui excelentes e pertinentes comentários de Olavo de Carvalho, praticamente um especialista em investigar falhas argumentativas de pseudo inteletuais no Brasil.

A princípio, não é uma leitura fácil. Quem for um pouco versado em argumentação filosófica, irá aproveitá-lo profundamente.

Mas mesmo que você não seja adepto da filosofia, ou praticante desse tipo de argumentação, há muito o que aproveitar ali.

O potencial de se conhecer os 38 estratagemas levantados por Schopenhauer é tamanho que, quando enraizamos o conhecimento desses estratagemas (para nos prevernirmos deles), é praticamente como se tivéssemos tomado a pílula vermelha.

Não dá para dizer que Schopenhauer incluiu todos os estratagemas possíveis, mas simplesmente aqueles que ele considerou mais relevantes.

Mas, pelo princípio de Paretto (o 80-20, da administração), a utilidade do livro já está garantida.

Muitos me perguntam quais são minha principais técnicas, e por que dificilmente deixo-me ludibriar pela argumentação de picaretas como Dawkins, Hitchens, Dennett e pessoalzinho do tipo.

Eu normalmente respondo que procuro usar lógica, ceticismo, técnicas de auditoria, conhecer os guias de falácias e… a dialética erística.

Esse é o livro fundamental para se compreender a dialética erística.

Pelo que vi, está baratinho, não mais que 30 reais. Vale muito mais que isso.

Aliás, gosto tanto dessa obra que tenho 2 cópias. Uma para ler (e já está um tanto danificada), e outra para guardar. Sim, é isso mesmo, eu trato essa obra como jóia preciosa.

Recentemente, assisti o filme “Avatar”, no cinema. Mudou minha forma de ver cinema. De forma parecida, ler “Como Vencer um Debate sem Ter Razão” mudou a forma como eu encarava um debate.

Depois de Schopenhauer, fica difícil um picareta me enrolar em debates.

Escrito por lucianohenrique

Dezembro 22, 2009 em 10:18 am