Como a idolatria a Bertrant Russell pode levar a efeitos colaterais

Uma coisa que não é difícil para qualquer religioso que tenha compreendido a religião a fundo é se acostumar com a idéia de que pessoas não devem ser idolatradas.
Eu aprendi que, desde que eu idolatre a Deus, eu não preciso idolatrar pessoa alguma.
Isso nos torna mais céticos e evita que nos decepcionemos, depositando falsas esperanças em outrém.
Por exemplo, entre autores que eu costumo ler está Olavo de Carvalho, mas nem de longe eu concordo com tudo que ele escreve. Outro que citei há tempos é Robert Anton Wilson, mas atualmente gosto de apenas uma parte ínfima do que ele escreveu. E assim por diante…
Nenhum intelectual vivo ou morto merecerá, portanto, minha idolatria.
Entretanto, para quem tem um sistema de pensamento oposto, apto a idolatrar pessoas, deve ser difícil ver um de seus ídolos desmascarado.
Entendo, portanto, como Aurélio deve ter se sentido ao ler um texto meu de refutação a Bertrand Russell. Eu simplesmente atingi o seu ídolo. Como ele não está preparado para viver sem um ídolo, reage como se tivesse sido ofendido.
A reação de Aurélio ao meu texto “A ausência de senso críticos dos dawkinistas na avaliação de Bertrand Russell” foi completamente desproporcional e imatura. A começar pelo título, notem:
O engraçado é que o julgamento de “inépcia” dele foi completamente subjetivo, como mostrarei mais a frente. Todas as tentativas dele me acusar de desonestidade intelectual irão, também, pelo ralo. Mas nada é pior do que ele usar a terminologia pueril “ataque a Bertrand Russell”. Oras, eu não fiz ataque a Russell, mas sim aos argumentos dele.
Vamos então ao “caso” de Aurélio.
Acusação 1 de Desonestidade
Afirma Aurélio que eu teria “selecionado” ou “picotado” trechos de períodos completos, tornando-os isolados do contexto.
Ele corretamente diz que a resposta completa de Russell à questão “Por que você não é um cristão?” é “Porque eu não vejo nenhuma evidência para os dogmas cristãos. Eu examinei todos os argumentos disponíveis em favor da existência de Deus e nenhum deles me parece ser logicamente válido.”. O problema é que em momento algum eu disse que a resposta de Russell havia sido diferente disso.
A acusação de que eu teria desonestamente separado a expressão “não vejo evidência” do resto, para então acusa-lo da falácia de incredulidade, não se justifica, pois QUALQUER SENTENÇA que inclua tal tipo de expressão (ex. “não vi”, “não encontrei”, “não acredito”, etc.), no contexto de histórias pessoais na tentativa de provar um ponto, implica em uma falácia da incredulidade pessoal.
Aurélio ainda diz que Russell DEMONSTROU a razão pela qual não crê em Deus, e portanto isso implica em inexistência da falácia da incredulidade. Obviamente, uma conclusão falsa de Aurélio.
Aurélio confunde dizer que tem uma razão com DEMONSTRAR essa razão. Aurélio confunde dizer que estudou todos os argumentos com efetivamente TER ESTUDADO todos os argumentos.
Não há como escapar: Russell cometeu falácia da incredulidade, pois não demonstrou a razão pela qual não crê em Deus. Russell apenas DISSE que tinha uma razão, assim como poderia ter dito que viu isso em uma bola de cristal. Ambas são alegações subjetivas, e, portanto, qualificam a falácia da incredulidade, e, principalmente, evidência anedota.
Acusação 2 de Desonestidade
Aurélio diz que minha crítica “ignora a forma do discurso de Russell, realizado em uma entrevista não direcionada a especialistas de lógica formal, metafísica e teologia, mas sim para o público em geral”.
Não, minha crítica não ignora nada disso. Na verdade, minha crítica não faz JUÍZO DE VALOR a respeito disso.
Mas já que ele comentou a respeito, eu devo dizer que me solidarizo com qualquer idéia que afirme que a participação de um filósofo em entrevistas de 4 minutos normalmente não faria justiça às idéias de qualquer pensador, pois tais idéias geralmente são complexas em termos de exposição. O detalhe é que ninguém obrigou Russell a ir ao programa. Se ele foi lá, ele era maior de idade para saber dos riscos de não conseguir se expressar com todo o detalhamento necessário.
Sendo assim, a minha crítica, de que a ausência de especificação prejudica Russell, é algo que Aurélio não conseguiu refutar.
Aurélio ainda afirma: “Luciano, portanto, perde o senso de ridículo ao dar a entender que Russell pelo menos especificasse de quais argumentos ele rejeitou em uma entrevista de pouco mais de 3 minutos, de modo algum uma entrevista técnica, mas informal. Eu me pergunto se tal atrocidade é falta de técnica ou pura má fé.”
Na verdade, quem perde o senso de ridículo é Aurélio, ao não perceber que ele no máximo JUSTIFICOU os problemas vistos na entrevista de Russell (no caso, pouco tempo para a entrevista).
De novo, eu até entendo a justificação, mas isso não salva a argumentação de Russell.
Na próxima acusação, Aurélio diz que eu “ignoro” a trajetória intelectual de Bertrand Russell, o que, conforme mostrarei, é um red herring da parte dele.
Acusação 3 de Desonestidade
Aurélio insiste que eu não deveria ter rotulado a declaração de Russell (de que ele teria estudado os argumentos) como evidência anedota.
Sinto desapontar Aurélio, mas ele precisa estudar um pouco mais de ceticismo em debates e muito mais de argumentação lógica.
Para demonstrar isso, vamos avaliar algumas, mas não todas, possibilidades:
(a) Russell pode não ter conhecido argumento algum, e mentiu
(b) Russell pode ter estudado a fundo e seriamente todos os argumentos
(c) Russell pode ter trabalhado apenas com versões espantalho dos argumentos que alega estudar
Das hipóteses acima, todas são possíveis, embora (b) e (c) sejam mais fortes que (a). Explico: a hipótese (a) é refutada pelo fato de que ao menos Russell transcreveu os argumentos, então ao menos um pouquinho ele conhecia.
De qualquer forma, quando Russell afirma (b), obviamente temos aqui uma evidência anedota. Precisaríamos ter FÉ em Russell para acreditar que a resposta definitivamente é (b).
Sendo assim, não adianta Aurélio escrever sobre o passado de Russell em filosofia, e até na questão de críticas à religião, que isso ainda NÃO RETIRA dele a pecha de evidência anedota.
Mais ainda: quando Aurélio afirma que eu possuo “ignorância e amadorismo” a respeito de Russell, é ele quem pratica mais uma falácia: no caso a falácia da credulidade pessoal. Aurélio provavelmente imagina que eu desconheça a obra de Russell na questão anti-religião, e desata a proclamar sua crença, sem o menor traço de ceticismo.
O problema é que este não foi o primeiro texto de refutação a Russell. Há não só “Pérolas da LiHS 2 – As babadas de Russell” como também a técnica “Bule de Russell”. Ademais, até mesmo o texto que ele afirma criticar tinha como sua parte mais importante não o comentário do vídeo, mas a reação de crença cega demonstrada e evidenciada em fãs de Dawkins, na análise do material de Russell, de forma idólatra.
Eu realmente acredito que Russell no passado já criticou argumentos sobre a existência de Deus, mas isso não prova que ele estudou a fundo tais argumentos. Ele poderia, como mostrei, ter trabalhado com versões espantalho dos argumentos. Qualquer tentativa de Russell em vencer a argumentação dizendo que “estudou tais argumentos” é apenas evidência anedota, goste Aurélio disso ou não.
Outro argumento terrivelmente ruim apresentado por Aurélio é o seguinte: “Temos então uma de suas obras mais famosas: História da Filosofia Ocidental, que colocou-o numa posição considerável de historiador da filosofia e de sucesso em vendas.Numa obra como essas, não é preciso ser muito inteligente para perceber que o escritor deve conhecer todo o arcabouço metafísico ocidental, ou seja, todos os argumentos a favor e contra a existência de Deus. Russell comenta todos, seja em Platão, Aristóteles, Epicuro, Agostinho, Boécio, Anselmo, Sto. Tomás, Scot, Descartes, Leibniz, Kant e Hegel. Não é preciso mais comentários: Russell reexamina os argumentos e os comenta, demonstrando sua posição já na idade madura.”
Em relação a isso, Aurélio vocifera: ” Temos aqui, por conseguinte, o zênite do amadorismo, ignorância e desonestidade intelectual de Luciano: alguém que desconhece por completo o legado russelliano e suas críticas aos argumentos.”
Ou seja, uma calamidade argumentativa em todos os níveis, já que:
(a) escrever um livro de história da filosofia ocidental não implica que alguém tenha estudado a fundo os argumentos sobre a existência de Deus
(b) não é também preciso conhecer profundamente todo o arcabouço metafísico ocidental, pois livros de “história da filosofia” são geralmente bastante genéricos
(c) nada impede que alguém que só trabalhe com falácias do espantalho sobre argumentos da existência de Deus escreva uma obra assim
Dessa forma, quando Aurélio afirma que eu “desconheço” o “legado russelliano” e suas “críticas aos argumentos” é apenas uma saída pela tangente dele, mas em que momento algum comprova que eu realmente desconheça as críticas de Russell aos argumentos.
Mais curioso ainda é quando ele comenta o debate de Russell com o padre Copleston. Aurélio, novamente exaltado, diz: “Luciano não sabe nada disso, e é duvidoso que queira saber.”
Sinto de novo desapontar Aurélio, pois eu conheço tal debate, e a tradução do mesmo está nos planos deste blog. [N.E. - Agradeço ao Francisco Razzo pelo envio]
Aurélio conclui essa terceira acusação dizendo que eu não teria “o direito de julgar “anedota” algo que Russell o fez por mais de 70 anos em vida”
Pelo contrário: eu não só tenho o direito, como o dever, em nome da lógica, de mostrar que qualquer declaração de “eu estudei isso a fundo, e portanto posso afirmar” é uma evidência anedota, venha de quem vier. Na questão de Russell, no entanto, a suspeita de fraude é ainda mais forte.
Vejam, por exemplo, a evidência a seguir.
Evidência: As “críticas” de Russell à causa primeira
No livro “Por que não sou cristão”, Russell diz que esse argumento é o “mais simples” de ser entendido.
Engraçado, pois ele comete um erro imperdoável, que é dizer o seguinte, citando John Stuart Mill: “Meu pai ensinou-me que a pergunta ‘Quem me fez?’ não pode ser respondida, já que sugere imediatamente a pergunta imediata: ‘Quem fez Deus?’” Essa simples sentença me mostrou, como ainda hoje penso, a falácia do argumento da Causa Primeira. “
Não é preciso ir muito distante para notar que William Lane Craig esmagou uma tentativa de Dawkins extremamente parecida com a de Russell.
Outro erro é quando Russell afirma “Se tudo tem de ter uma causa, então Deus deve ter uma causa”, entrando em contradição com ele próprio, que anteriormente interpretou o agumento assim: “Afirma-se que tudo o que vemos neste mundo tem uma causa e que, se retrocedermos cada vez mais na cadeia de tais causas, acabaremos por chegar a uma Causa Primeira, e que a essa Causa Primeira se dá o nome de Deus).”
Esperem… de uma hora para outra Russell substitui “tudo que vemos” por “tudo” assim, sem mais nem menos?
É claramente uma estratégia de manipulação semântica, que beira o amadorismo.
Enfim, essa evidência mostra que talvez Russell tenha estudado os outros argumentos (eu duvido), mas e em relação à esse? Talvez ele tenha tomado emprestado versões espantalho já praticadas por outros adeptos da anti-religião. Como cético, temos que questionar, naturalmente, e Russell nem de longe provou que estudou tal argumento, pois cometeu erros imperdoáveis. Talvez ele tenha estudado, mas não entendido. Em qualquer situação, o ceticismo é mantido e a acusação que fiz, de que a declaração de Russell ter estudado todos os argumentos é uma anedota, segue incólume.
Comentários adicionais de Aurélio
- Aurélio diz que Russell “não afirmou em nenhum momento que “Não há Deus” na entrevista”. O problema é que Aurélio teria que jogar fora a frase em que Russel diz “não pode haver razão prática para acreditar no que não é verdade”. Detalhe: o que estava sendo discutida era a crença em Deus. Aurélio tenta salvar a pele de Russell dizendo que “em várias obras que leu, ele nunca afirmou tal coisa’. Capaz. Só que Russell estava em uma entrevista, na qual ele poderia ter cometido o ato falho de dizer que acha que Deus não existe.
- Curiosamente, Aurélio em seguida diz que dou uma “intepretação duvidosa”. Estranhamente, em seguida, Aurélio diz o seguinte: “Concordo com Luciano que Russell não deveria ter dito isso, vide que, de fato, parte do ônus da prova passa a ser do próprio Russell, que deveria ter de demonstrar para o quê exatamente atribuiu o adjetivo ‘falso’.” Mas se ele concorda comigo que ele não deveria ter dito isso, então ele concorda que ao menos um equívoco ocorreu por parte de Russell. Foi esse equívoco o que apontei.
- Ele ainda segue dizendo o seguinte: “Caso Russell tenha utilizado o termo ‘falso’ para se referir aos argumentos acerca da existência de Deus – embora saibamos que, dum ponto de vista mais técnico, se este é o caso, deveria ter usado o termo ‘inválido’ –, então não há qualquer contradição aqui.” Só que Aurélio fugiu do assunto real, pois o que estava sendo discutida era a crença em Deus, e não argumentos específicos a favor da existência de Deus. A defesa de Aurélio só seria válida se a repórter tivesse perguntado a respeito de alguns argumentos específicos que fossem inválidos. Dessa forma, Aurélio tentou inocentar Russell da contradição cometida, mas não conseguiu.
- Quando eu falei a respeito de contradição entre a frase de Russell (“não se deve acreditar em algo por sua utilidade, apenas”) e o epicurismo, Aurélio diz que eu deturpo o pensamento russelliano. Só que ele não demonstra como eu faria tal deturpação. Mas, em todo caso, toda a obra “A Conquista da Felicidade” é baseada no paradigma epicurista (ex. “o que importa é buscar o prazer e fugir da dor”). Russell ainda lançou “The Philosophy of Logical Atomism”, em que levaria as idéias de Epicuro ao paroxismo. Estranho é alguém duvidar de que Russell e Epicuro tinham muita coisa em comum.
- Aurélio, em seguida diz que eu estaria “provavelmente me referindo às crença de âmbito moral, e não filosóficas ou científicas”, dizendo que eu “deveria ter dito crenças morais”, mas em todas as tentativas de imaginar como penso Aurélio fantasiou. Curiosamente, mesmo com tanto delírio da parte dele, Aurélio ainda conclui com “é falta de técnica, Luciano?”. Se é falta de técnica minha, não sei, mas que é falta de ceticismo por parte de Aurélio, isso é um fato.
- Aurélio desafia: “Se Luciano quiser conhecer as posições russellianas sobre a moral judaica-cristã e de outras religiões em que ele alegou ver malefícios, recorra às obras já supramencionadas”. Como já visto, eu citei uma delas, e o resultado não foi nada favorável ao “caso” de Aurélio.
- Para defender uma das idéias de Russell, Aurélio diz, sobre um ateu: “um mesmo ateu pode defender os valores que herdara da tradição judaico-cristã sob à luz unicamente da razão”. Que é possível ele trazer os valores, eu concordo, mas daí a dizer que seria “à luz unicamente da razão” é uma alegação sem evidências. Geralmente, basta desafiar um alegador a dizer que chegou aos valores morais e mensurar a “razão” mensurada (em contraposição à “razão” alegada), que normalmente a coisa não sai da evidência anedota. Em suma, se um ateu tiver os mesmos valores que um religioso, isso não comprova que ele chegou “lá” por mais ou menos razão que um religioso.
- Mais de Aurélio, a la Russell: “Abandonamos, portanto, esse conjunto de superstição antiga na qual os valores clássicos se baseavam: não precisamos desses mitos teológicos antigos”. Engraçado Russell (em versão emulada por Aurélio) tratar a questão por “necessidade”, sendo que antes ele falou que as crenças não deveriam ser avaliadas na questão da “utilidade”. Como eu falei, não é preciso muito para ele entrar em contradição com ele próprio.
- Aurélio ainda cita as supostas “barbáries” da religião e aponta até “permissividade para escravizar índios e negros”. Quanto a isso, eu recomendo o livro “O Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”. Em relação “judeus mortos em Cruzadas” ou “maioria de guerras serem de origem religiosa entre Inglaterra e França”, é o tradicional exagero dawkinista de tentar dizer que várias guerras ocorreram POR CAUSA da religião, mas sem nenhuma demonstração efetiva disto.
- Ele ainda diz que seria possível viver sob os valores judaico-cristãos, dizendo “não precisamos de sua teologia, vide que podemos fundamentá-los na razão”. O engraçado é que quando se exigem as alegações deles (de maior uso da “razão” na sustentação de seus valores), eles costumam fugir para a casinha. Em suma, de novo, não provou que um ateu, ao usar os valores judaicos-cristãos, usa a razão em maior quantidade que os não-ateus.
- Mais evidência anedota, sobre Russell: “Abandonar a superstição que os sustenta é uma coisa, abandonar tais valores, é outra. Russell preferiu a primeira opção ao invés da segunda”. Estranho, pois se ele assumiu marxismo no futuro, ele não aceitou de todo os valores judaico-cristãos, principalmente o direito à propriedade. Detalhes…
- Aurélio tenta defender a repórter, dizendo que ela concorda com a máxima de Políbio: “a religião serve como uma espécie de controle social”. O que é apenas um clichê usado futuramente por marxistas, mas nem de longe um argumento comprovado. Mas ele ainda defende Políbio: “não só Políbio convergiu para a mesma conclusão, mas quantos ao longo da cultura universal o fizeram?”, o que é uma falácia ad populum. Dá para supor que a quase totalidade dos marxistas concordem com esse discurso de Políbio, pois virou clichê de propaganda marxista. Mais divertido é quando Aurélio diz: “Luciano se surpreenderia com o número de grandes pensadores que, desde tempos imemoriais, concluíram que a religião encabresta, em grande parte pelo medo que impõem”. Não, eu não me surpreenderia. O difícil será dizer que são “grandes” pensadores, pois frases de efeito não servem como boa argumentação, e tal discurso não passa de frase de efeito. Depois de conhecer a Estratégia Gramsciana, nada me surpreende.
- Aurélio tenta inocentar Russell da acusação de esquerdismo e anti-americanismo, dizendo: “A comparação não é válida, pois muito antes de Russell ter lido uma linha de Marx (ele refutou algumas posições do materialismo dialético em sua História da Filosofia), ele já tinha posições muito independentes de qualquer conclusão marxista anti-religiosa.” Aurélio erra, pois não estou julgando aqui o que Russell pensava, e sim o que ele ESCREVEU quando começou a pregar contra a religião. Nessa fase, sim, Russell já tinha conhecido Marx.
- Ele ainda tenta salvar a pele de Russell dizendo que ele criticou Lênin. Ué, criticar uma implementação de Lênin até Gramsci já fez. O que não mostra desalinhamento com marxismo, pelo contrário. E sim a busca de uma implementação mais abrangente do mesmo. E mais perigosa.
- Essa parte aqui é bizarra: “Sim, Russell era socialista, mas não um ‘esquerdista’ desonesto”. Difícil saber quais parâmetros Aurélio usou para definir honestidade que não seu gosto pessoal por Russell.
- Esse rodeio de Aurélio é estranhíssimo, pois quando foi perguntado se o ateísmo traria mais “força”, Russell respondeu que “estava apenas engajado na busca do conhecimento”. Eu mostrei que a alegação era apenas, de novo, anedota. Aurélio protesta: “Dizer isso sobre alguém do calibre intelectual de Russell é um ato sórdido, que beira à puriedade. Russell foi, ao longo de quase seus 100 anos de vida, um dos maiores intelectuais do século XX”. Está aí um belíssimo exemplo de Red Herring. Eu estava comentando a postura de Russell em UMA QUESTÃO EM ESPECÍFICO (ateísmo como “força”), e Aurélio tentou falar da vida intelectual de Russell no geral, o que é no mínimo um ato desesperado. Ora, se Russell produziu algo de bom intelectualmente, isso não o salva de ter usado um argumento ruim para responder à repórter. E também não demosntra que NESSA QUESTÃO ele estava “em busca do conhecimento”.
- Aurélio diz que Russell é “um polímata: matemático, lógico, exímio escritor (Nobel de Literatura, em 1950), ensaísta, moralista, historiador e comentador político”. A pergunta: no que isso salva Russell dos erros lógicos cometidos na questão específica de seus argumentos contra a religião? Resposta: nada.
- Engraçado também foi, depois dessa ladainha, Aurélio afirmar: “Quem é Luciano?”. Será que ele está apelando ao famoso argumento infantil de dizer que alguém só pode criticar Russell depois de ganhar um prêmio Nobel? Não sei se é preciso, pois sem prêmios Nobel eu já mostrei a falta de lógica e racionalidade nas alegações russellianas. Imaginem se eu tivesse um Nobel então (risos).
- Já apelando à platéia, Aurélio diz: “O intento de Luciano, evidentemente claro, foi denegrir a imagem do grande intelectual inglês”. Não, não foi. Eu apontei os erros lógicos de Russell em uma declaração específica. Pouco me importa a pessoa do Russell.
- Momento espetacularmente cômico: “Você quer enfrentar o legado russelliano em qual frente, Luciano? O do Russell dos Principhia Mathematica, a maior contribuição às lógicas no século XX? O do Russell filósofo e historiador da filosofia? O do Russell ensaísta e crítico das superstições populares? O do Russell escritor, ganhador do Nobel em 1950? Vai precisar sair da crítica de entrevista de televisão e recorrer a assuntos mais técnicos nos quais, evidentemente, sua competência é duvidosa. Pode começar pela ‘The Bertrand Russell Society’.” Não. Eu só quero refutar o Bertrand Russell nas declarações anti-religiosas dele. Principalmente as que forem irracionais. O resto não me importa.
Conclusão
Está aí um exemplo de como um ateu, que até escreve bons textos por vezes, perde completamente a estribeira quando um ídolo seu é criticado. É importante que ele aprenda (até para evitar decepções), que nenhum intelectual é infalível. Reconheço que Russell pode ter produzido algum material bom, mas isso não o impede de realizar um argumento esdrúxulo e por vezes aparentar bastante ingenuidade. Os outros dois textos que citei aqui, envolvendo Russell, mostram isso. Tentar apelar à crença na honestidade de Russell, ou simplesmente acreditar em tudo que ele diz, independente de julgamento, não é a melhor forma de defender um argumento ceticamente. O que me surpreende, já que Aurélio discutia sobre ceticismo há muito tempo, e defendia o paradigma de James Randi. Hoje, para defender Russell, ele é obrigado a abandonar grande parte de seu ceticismo. Sua tentativa de defender Russell é prejudicada justamente por ser uma análise desprovida de ceticismo. Para mais detalhes, este texto explica como o ceticismo não convive bem com neo ateísmo.
O que é a postura agnóstica para debates?

Não raro eu sou questionado a respeito da postura agnóstica em debates, mesmo com o fato de eu ser teísta de orientação católica.
Já vi neo ateísta chamando essa atitude de hipocrisia, o que, é claro, uma tremenda injustiça, e principalmente ignorância.
Ignorância, no caso, a respeito do que é um debate e do que é o ceticismo.
É natural, por exemplo, assumir posturas em um debate, principalmente quando o interesse é motivar a discussão adiante. O ceticismo, por sua vez, é melhor executado quando alguém questiona uma alegação da outra parte, e não quando duas partes com propostas opostas são apresentadas ao mesmo tempo.
Para demonstrar como é perfeitamente normal adotar posturas de debate, eu vou transcender a questão para a existência de vida alienígena.
Embora em termos práticos duas opções principais sejam explícitas (1 – acredito em vida alienígena, 2 – não acredito em vida alienígena), é possível a postura de dúvida, ou, melhor dizendo, suspensão de juízo. É a famosa coluna do meio.
Eu praticamente não acredito que existam os “coluna do meio” em qualquer coisa, mas utilizar tal postura em um debate é conveniente até para estimular a discussão e evitar perda de foco.
A principal perda de foco que poderia ocorrer é tratar de duas alegações simultaneamente. Mas quando um dos debatedores assume oficialmente (mesmo que não interiormente) uma postura de dúvida, a outra parte terá então que definir se quer levar adiante ou não sua alegação.
No suposto debate entre crédulo e cético em vida alienígena, teríamos uma pessoa que teria que trazer evidências de vida alienígena, e outro que teria que trazer evidências de que não há vida alienígena.
Obviamente, isso configuraria perda de foco, principalmente pelo motivo de que cada alegação teria que ser solidificada por evidências, e cada evidência teria que ser avaliada. Daí para perder o foco é um pulo. Além do mais, o tempo gasto tende a ser excessivo.
Ao invés disso, mantemos uma alegação só, sob discussão, sendo justamente a da parte que quer vender a idéia. No caso, um alegador que diz que a vida alienígena existe OU daquele que diz que a vida alienígena não existe. A segunda parte no debate seria então o cético, que suspenderia o juízo, e assumiria a postura neutra, para então avaliar as alegações de quem afirma existir ou não a vida alienígena.
A mesma coisa vale aqui.
Como optei por investigar as alegações neo ateístas, eu não vou focar em tentar provar a existência de Deus em um debate, mesmo que nele eu acredite. Mais do que isso: eu SEI que Deus existe.
No debate, no entanto, até para não prejudicar a investigação, eu assumo a postura de dúvida, que no caso é o agnosticismo absoluto. A partir daí julgarei a alegação de quem diz que Deus não existe.
E quanto a provar que Deus existe? No máximo eu recomendo as leituras de São Tomás de Aquino e William Lane Craig.
Executo isso como um teste de interesse da outra parte. Se a outra parte não estiver disposto a conhecer tais obras e discuti-las, por que eu deveira me importar com essas pessoas?
Como até agora não encontrei neo ateus interessados em discutir a questão de Deus a sério, simplesmente eu assumi INTERESSE ZERO em provar a existência de Deus para elas.
Neste caso, para os debates que participo, geralmente com neo ateus,a perspectiva que uso é agnóstica.
Notem que é totalmente diferente de eu ser agnóstico. Realmente no passado eu já fui agnóstico, mas atualmente eu não mantenho tal ponto de vista.
O agnosticismo em debates é diferente, obviamente, do agnostismo do dia-a-dia.
Esse agnosticismo em debates traz vários benefícios, dos quais o principal deles, como já disse, é a diminuição do risco da perda de foco.
Se assumo a perspectiva agnóstica no debate isso significa que um oponente não pode “brecar” o debate dizendo “então me prove a existência de Deus”.
Isso é importante, pois já presenciei vários debates sobre vários assuntos diferenciados (e não diretamente relacionados à existência de Deus) em que o neo ateu tentou “parar” o debate.
O curioso é que isso ocorria em muitas situações em que a existência de Deus não estava sob discussão. Como exemplos:
- religião aumenta ou não incidência de violência?
- religião envolve fé cega ou não?
- religião resulta em homens bomba em maior proporção que ausência de religião ou não?
E daí por diante. Como já dito, cada uma dessas discussões é independente da discussão da existência de Deus.
Curiosamente, muitos neo ateus, quando encurralados e sem provas, apelam para “aha, então me prove que Deus existe”, sendo que isso às vezes não tem nada a ver com a discussão.
Para evitar que ele use esse recurso, basta dizer que “neste debate, me veja como agnóstico”.
Isso resolve a maioria dos problemas, e faz com que ele enfrente a seguinte situação: ou ele prova suas alegações ou não prova.
O segundo benefício é que isso automaticamente evita qualquer acusação de proselitismo que o neo ateu tente fazer.
Normalmente costumo deixar claro para ele que se ele quiser apresentar argumentos contra Deus, que o faça, pois eu no máximo o mandarei estudar as obras citadas.
Um terceiro benefício é que a discussão vai testar quem está mais interessado em convencer o outro.
Normalmente, eu mostro que não estou minimamente interessado na conversão dele, ao passo que, se ele desejar, deverá vender a idéia dele para mim (e para o público).
Claro que algum neo ateu mais malicioso poderá dizer que eu não tive “coragem” de declarar minha crença.
Mas como não, se eu de imediato digo que sou católico? Ou seja, eu AFIRMO minha escolha pessoal.
O que não implica que em todos os debates que eu faça eu tenha que sair defendendo a existência de Deus, principalmente diante de um adversário suspeito (lembre-se que eu posso aplicar o teste de interesse).
O agnosticismo de uma das partes no debate abre a oportunidade para que a outra parte possa elaborar livremente o seu caso, e que a partir daí então a análise seja feita de início ao fim de toda a proposta apresentada, incluindo-se aí toda investigação necessária tanto das evidências apresentadas como do argumento em si.
É uma postura também que irá obrigar muitos neo ateus a saírem de sua zona de conforto e então realizarem a apresentação de sua proposta, ao invés de apenas seguir atacando a crença do outro.
É como eu sempre digo. Se os neo ateus se incomodam tanto com a crença religiosa, eles que corram atrás.
Que sejam avaliados.
Presidente da ATEA e suas sandices – Capitulo final – Um neo ateu de bunda suja
Talvez nem todos se lembrem, mas logo no início deste blog postei 3 partes das refutações à uma entrevista dada por Daniel Sottomaior, presidente da ATEA, ao programa Brasil das Gerais.
Para quem não se lembra, os links para as 3 partes estão aqui: [1], [2] e [3].
O caso é que fiquei devendo a parte 4 (que traria as refutações às partes 4 e 5 do programa, respectivamente).
Um dos motivos para eu ter atrasado é a desmotivação em tratar tal tipo de material, que seriam os discursos de Sottomaior. Naturalmente é um material “fecal”, e, pior, infantil.
Tecnicamente, ele consegue a proeza de ser muito pior que Richard Dawkins, por exemplo.
Mas, é claro, eu não poderia deixar de concluir a série.
Eis que, então, com quase 6 meses de atraso, segue a parte final da refutação à entrevista de Daniel Sottomaior (obs: como de costume eu ignorei a participação de Eduardo Aquino, pelo fato dele estar ali só para servir como encosto de porta).
Vídeo 1
0:15 – Há um vídeo com o Pastor Magib Saab, da Igreja Batista Central. Eu já vi argumentos religiosos ruins, mas dificilmente encontrei um tão ruim quanto o dele. Basicamente, ele diz que todos acreditam em Deus, e que se alguém não adora a Deus, então vai ter outro “Deus” para adorar, que pode ser dinheiro, time de futebol, e até ateísmo. Claro que é uma sandice total. Seria mais lícito apresentar algum religioso de maior inteligência (Magib não a possui), que citaria Chesterton, por exemplo.
02:09 – Daniel começou refutando as besteiras do Magib, o que qualquer criança de 10 anos faria. Ele fez corretamente, mas isso não é mérito algum. O bizarro veio quando ele tenta encaixar uma “teoria das mudanças pessoais”, e relaciona isso a psiquiatria. Ele cita a história de Phineas Gage, um sujeito que vivei de 1819 a 1861 e teve a cabeça perfurada por uma barra de ferro. Gage continuou vivendo, mas teve o seu sistema límbico profundo afetado, e existiu uma mudança de comportamento. O problema é Sottomaior ter citado isso para explicar as “mudanças de comportamento”, o que é totalmente irracional. Uma mudança de “ateísmo para teísmo” ou “teísmo para ateísmo” não pode ser explicada pelo mesmo evento que ocorreu com Gage, pois nem todas as mudanças de comportamento envolvem traumas cerebrais. Outro problema é que Sottomaior parece ter confundido mudança de comportamento com mudança de crença.
03:02 – Aqui Sottomaior se perde de novo, ao dizer que a questão do mal de Alzheimer seria algo contra a existência de almas. Segundo ele, “se as pessoas são movidas por almas”, como é que elas perdem a memória na questão de doenças degenerativas? Primeiro, há o erro dele em dizer que a pessoa seria “movida por alma”. Os religiosos dizem que são eles próprios que se movem, e são conscientes disso. Essa consciêncai está relacionada à alma. A alma não é considerada algo externo à pessoa, e sim parte intrínseca da pessoa. Em segundo, a alma independe do corpo físico, portanto, uma inaptidão do corpo físico, não implicaria em um dano à alma. Não estou querendo fazer juízo de valor se a alma existe ou não, pois não é o meu objetivo nesta argumentação. Mas que o argumento de Sottomaior contra a existência de alma é inválido, isso é óbvio.
03:15 – Sottomaior ainda tenta seguir com o seu argumento, envolvendo até “mudança de moral”. Segundo ele, se há mudança de moral, a mudança está no cérebro da pessoa. Capaz. Mas cadê as evidências dele para isso?
03:20 – Daniel agora apela à histeria, dizendo “Quanto a esse Deus, o suposto Deus que é amor, ele disse entre outras coisas, quanto porém esses meus inimigos, que não quisessem que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e executai-os na minha presença”. Ele conclui dizendo: “que amor é esse, hein?”. O problema é que Sottomaior errou tudo, pois tal citação é da parábola dos talentos, e fala da narrativa de jesus a respeito de um nobre. Esse nobre é que faz tal afirmação, que ainda assim faz parte de uma parábola alegórica. Quer dizer, não há nada dizendo sobre “atrocidades de Deus” nesta parábola. Daniel ouviu o galo cantar mas não sabe onde.
03:30 – Sobre o “sentido da vida”, Sottomaior diz: “é o sentido que nós quisermos dar”. Claro que não é obrigatório que alguém aceite a crença em Deus, mas ele assume o sentido da vida como algo que cada um quiser dar à sua vida. Ué, sendo assim, como ele poderia criticar os religiosos? Se cada um escolhe o que quiser, usando o relativismo dele, nada poderia ser condenado. Nota-se que Daniel não presta muita atenção no que diz..
04:00 – Sobre educação das crianças, ele é perguntado se os filhos dele tem o direito de escolher uma crença. Daniel responde: “toda [a liberdade]“. Aí é ele que está afirmando, mas não há evidências. Curiosamente, em seguida ele sai atacando os pais religiosos, dizendo que o que eles fazem é doutrinação, pois segundo ele “as crianças acreditam em tudo que os pais delas dizem”. Em resumo, tudo que Daniel afirma é clone daquilo que Dawkins já fez, portanto é melhor citar este artigo cá. Mais um problema para Daniel: nem todas as transmissões de valor pai-filho são feitas por pais religiosos. Um exemplo é esse vídeo aqui.
05:00 – Sottomaior apela à Sigmund Freud, que alegou que as divindades seriam “substitutos dos pais”. Obviamente uma teoria bizarra e sem evidências, mas que Daniel, sem o menor senso crítico, aceitou sem questionar. Para maiores detalhes sobre neo ateus que aceitam sem questionar qualquer bizarrice que seus gurus afirme, veja aqui.
Em seguida, Eduardo Aquino continua com seu show de bobagens e apelos emocionais, que me recuso a comentar. Ele é um representante da corrente “O Segredo”. Não é isso o que o torna alguém nulo, e sim sua postura de coitadinho e excesso de evidências anedota que ele traz.
Video 2
1:01 – Chega a ser engraçado e contraditório. O Daniel passa o programa todo ofendendo e difamando a religião e os religiosos, usando de escárnio, e depois reclama que a revista Veja publicou uma pesquisa dizendo que a população tem maior rejeição por ateus do que em relação a qualquer outro grupo. Mas que estranho, será que Daniel quer votos daqueles que despreza? Isso não faz o menor sentido. No momento em que se chega para escarnecer um povo, como um todo, usando estratégias de retórica, obviamente este povo entende a mensagem. Claro que não são todos os ateus que fazem isso que Daniel fez, mas principalmente os neo ateus. O problema é que tais grupos de neo ateus (ATEA, UNA, LiHS) dizem que REPRESENTAM os ateus. O povo, naturalmente, vai entender a mensagem. A mensagem é simples: cabe ao neo ateu todo o desrespeito possível que ele conseguir imaginar em relação à religião e aos religiosos. A lógica tem que ser reversa: cabe ao religioso todo o desrespeito possível que ele conseguir imaginar em relação aos neo ateus e o neo ateísmo. Obviamente, que eu prefiro votar em uma prostituta de rua do que em gente como Daniel Sottomaior para qualquer cargo público. E isso NÃO é discriminação contra ateus. O draminha dele, portanto, não serve.
2:05 – Em seguida, Daniel fala das campanhas dos ônibus. O problema é que as mensagens que ele defende são todas patéticas, conforme comentadas cá neste texto, do início deste blog.
4:06 – Esse é o momento mais patético de Sottomaior em todo o debate. Ele diz “Faço um desafio, se Deus existir, ele que venha entortar o meu dedo. Para ele, que é onipotente, deve ser fácil fazer isso. Se ele não vier, concluirei que ele não existe”. É o tal argumento do bunda suja. É assim: o ateu vai ao banheiro, faz suas necessidades, e sai com a bunda suja. Ele resolve então pedir que Deus limpe a bunda dele. Como ele continua com a bunda suja, ele diz que Deus não existe. É claro que na visão infantil de Sottomaior e desse pessoal, ele deve pensar em Deus como um ente controlado por controle remoto.
5:36 – Ao final, Sottomaior solta mais uma pérola, dizendo o seguinte: “Sempre que a ciência cria conhecimento a respeito da religião, ela o nega”. Engraçado que ele não consegue mostrar nenhum exemplo disso, mostrando, como em quase tudo que ele diz, credulidade patética e irracionalidade absoluta.
(*) Sottomaior ainda comenta sobre a concordata do Brasil com o Vaticano, mas como não li a íntegra do acordo ainda, não comentarei a este respeito.
A ausência de senso crítico dos dawkinistas na avaliação de Russell
Em homenagem aos 40 anos da morte de Bertrand Russell, o blog da LiHS, Bule Voador, segue com manifestações de idolatria (injustificada) em relação a ele. A última delas foi postar um vídeo mostrando uma declaração de Russell à uma jornalista, em 1959.
Segue uma análise cética do vídeo:
0:19 – Russell responde que “não vê” nenhuma evidência para os dogmas cristãos. Evidentemente é uma falácia da incredulidade pessoal. Obviamente, a pergunta foi “Por que você não é cristão?”, portanto há um atenuante para Russell. Nos próximos pontos, não há atenuante algum.
0:22 - Ele disse que “examinou todos os argumentos disponíveis” para a existência de Deus, o que é evidência anedota. Ele conclui dizendo que “nenhum deles” parece ser logicamente válido para ele. Aqui, a falta de especificação é suficiente para comprometer seu discurso.
0:38 – Ele afirma que NÃO PODE (friso no “Não pode”) “haver razão prática para acreditar no que não é verdade”, no caso a existência de Deus. Se ele afirma que não é verdade, então ele está certo da inexistência de Deus. Dessa forma, caberia a ele provar a inexistência (lembremos: o ônus da prova é do alegador).
0:46 - Ele ainda diz “se é verdade, você deve acreditar, se não é você não deve”, concluindo com “se você não pode descobrir se é verdade ou não, você deve suspender o juízo”, mas ele entra em contradição com que disse na declaração anterior, em que ele afirma que não se pode acreditar no que NÃO É verdade. Portanto, ele não suspendeu juízo algum. Notem que não é preciso menos que 1 minuto de prosa para ele se complicar.
1:07 – Ele diz que é desonestidade intelectual “ter uma crença por que pensa que ela é útil e não porque pensa que é verdadeira”. Nisso eu concordo com ele. O problema é que o paradigma de Russell é completamente sustentado pelo paradigma de Epicuro, que defende que as crenças devam ser aceitas por conveniência, e não por seu valor de verdade. Russell não estava particularmente bem nesse dia ou ele era sempre ilógico assim? Aposto na segunda opção.
1:26 – Quando a jornalista lhe pergunta a respeito de alguns cristãos que acham que não existiria código de conduta sem a religião, Russell diz: “Essas regras são geralmente equivocadas, e muitas vezes fazem mais mal do que bem”. Novamente, ele é falho por não ser específico em quais equívocos, embora possamos suspeitar que é basicamente a chorumela que Dawkins tentou. Clique aqui para ver as refutações de Dawkins a argumentos para a existência de Deus (são os itens 3.1 a 3.7 das refutações a “Deus, Um Delírio”).
1:39 – Russell prossegue dizendo que as pessoas “provavelmente conseguiriam uma moralidade racional pela qual viver, se abandonassem essas moralidade irracionais e tradicionais de tabu que vieram de eras selvagens”. Mais uma afirmação sem evidências, naturalmente, e uma teoria que é falseada com o exemplo de países que fizeram o “abandono” de tal moralidade (ex. Rússia, China).
1:58 – Que a repórter é burra demais, e quase retardada, isso muitos concordariam, pois ela diz que as pessoas “precisam ter algo externo que seja imposto sobre elas”, e sem isso não teriam tanta “força moral” quanto Russell. Ou seja, ela assume que as besteiras de Russell são válidas. O engraçado é quando ele diz: “não acho que isso seja verdade, o que é imposto externamente não tem nenhum valor, não conta”. Divertido, pois quando entramos em uma organização, existem várias regras impostas externamente a nós. Se formos viver no paradigma de Russell, simplesmente não sobreviveríamos em organização alguma. Detalhes…
2:15 – Quando perguntado sobre quando ele decidiu não mais ser um religioso, ele segue: “Eu nunca decidi que não queria continuar um crente. Eu decidi, entre 15 e 18 anos de idade, gastar quase todo o meu tempo livre pensando sobre os dogmas cristãos e tentando descobrir se havia razão para acreditar neles. E quando eu tinha 18 anos eu descartei o último deles.”, O duro é que ele não conseguiu especificar nenhum. Curiosamente, os “argumentos” que Russell diz ter descartado eram apenas versões espantalho (como os que referenciei acima, na versão de Dawkins), o que provavelmente sugere outro fator para o descarte (ex. marxismo). O marxista assume, a princípio, que a religião é má, e depois sairá difamando-a e inventando versões espantalhos da mesma para negar tais espantalhos. Há fortes evidências de tal postura de Russell, inclusive quando ele assumiu militância esquerdista e de anti-americanismo.
2:40 – Quando perguntado sobre se o ateísmo lhe traria mais “força” (confesso que foi uma pergunta idiota da repórter), ele diz “estava apenas engajado na busca do conhecimento”, mas isso é uma declaração que serve para qualquer coisa. Qualquer um pode dizer que “buscou conhecimento”, só que isso não torna a alegação verdadeira.
3:22 – A repórter pergunta-lhe sobre ateus e agnósticos que se converteram no leito de morte. Ele diz: “Bem, não é nem um pouco tão frequente quanto pensam os religiosos, porque os religiosos, a maioria deles, pensam que é um ato virtuoso mentir sobre os leitos de morte dos agnósticos e etc. Na verdade, não acontece com tanta frequência”. Como sempre, só sandices, pois ele não mencionou a “frequência” para definir que seria menor do que a frequência apontada por alguns relgiosos, que ele define como “maioria”, mas não atribui novamente o número. E mesmo que alguns religiosos estivessem enganados quanto a isso, raramente eles afirmam que é uma virtude mentir. Ele assume que se alguém deu uma informação falsa, que automaticamente essa pessoa assume que é uma “virtude” executar uma mentira, o que é uma ampliação indevida grotesca dele.
Três análises foram feitas para avaliar o senso crítico de neo ateus. A primeira foi na comunidade do Orkut “Richard Dawkins Brasil”, do Orkut, em que todas as amostras pós-publicação endossaram o vídeo por completo, mesmo com todos os erros lógicos demonstrados acima. As duas outras análises foram feitas utilizando-se da seção de comentários do blog da LiHS, Bule Voador.
Avaliação 1 – Testemunhos na comunidade “Richard Dawkins Brasil”
Na “Richard Dawkins Brasil”, os 7 “ratos de laboratório”, neste experimento, deram sua declaração:
- Juarez: “Valeu pelo vídeo. Que o Grande Bule de Chá te abençoe.”
- Renato: “Aplausos para o grande herege!”
- Adriana: “Sereno, tranquilo, seguro…Ele, nesse vídeo, é um exemplo do que a velhice (maturidade, como gostam hoje) deveria ser para todos. Um período de servir de exemplo, de ser referência, de ser porto. Não um período de “aproveitar o que não aproveitei”, de “a idade está na cabeça” e outras fugas que alguns utilizam quando se veem velhos e vazios… (Viajei!!!).”
- William: “Aplausos para o grande herege! [2] Esse foi o cara.”
- Roberto: “”Aplausos para o grande herege!”[3]“
- Vinícius: “Um dos melhores conjuntos de todos os conjuntos que se contêm a si próprios como membro.”
- Avelino: “Uma aula de consciência e razão.”
Resultado: 100% de aprovação.
Avaliação 2 – Testemunhos no blog da LiHS, Bule Voador
Conforme pode ser visto nesta matéria deles (onde o vídeo foi citado a primeira vez), seguem os testemunhos dos adeptos, na seção de comentários:
- Marcelo Druyan: “Show de bola!”
- Raphael Bastos: “Fantástico!”
- Catupiry: “Video sensacional. Conversão de ateus no leito de morte é uma mentira que os religiosos adoram contar uhauhahuahuahua”
- Francisco Maxilimiano da Silva: “Russel mandou bem! Mas para os convictos (fazer o que) ele deve ter falado grego. A entrevistadora (não sei se inferi corretamente) me pareceu estranhar, não aceitar de todo, ou não compreender os argumentos de Russel. Mas enfim, posso estar enganado.”
- D. Prado: “Valeu Bule!!! Adorei o Vídeo”
- Gerson B.: “Lógica simples e elegante! Valeu!”
- A. Rodrigues: “A propósito da conversão na hora da morte: Um ateu estava agonizando e a esposa, que era evangélica, mandou chamar um pastor evangélico para o confortar na morte. Então ele pediu que chamassem também um padre católico e queria um de cada lado da cama. Quando estavam os dois, um de cada lado, o homem disse: “Agora sim já posso morrer, como morreu Jesus Cristo, entre dois ladrões.”
Resultado: 100% de aprovação.
Avaliação 3 – Testemunhos no blog da LiHS, Bule Voador, a respeito de um texto similar
Como se as duas amostras acima não fossem suficientes, vocês se lembram do texto anterior (publicado aqui), que mostrava várias babadas de Russell? No blog Bule Voador, também ocorreu apoio unânime.
- Marcelo Druyan: “Fantástico!”
- catupiry: “Eu preciso ler mais Russell… To com o “Ensaios Céticos” e “No que Acredito” em casa. Acho que começo hoje.”
- José Netto: “Fantástico! [2]“
- Junior: “Ótimo artigo. Vou procurar mais sobre Russel.”
- Homero: “Obrigado ao Bule por lembrar deste que foi um de meus ídolos na juventude (na verdade ainda é, claro, mas comecei a ter contato com as idéias dele muito tempo atrás). Uma mente poderosa, e um ser humano fantástico. Parabéns..:-)”
- jorge: “ESSE É O CARA!”
Resultado: 100% de aprovação.
Conclusão
Mesmo que seja um texto completamente irracional (assim como o vídeo), recheado de falácias, evidências anedota, distorções e erística, o neo ateu irá aceitar o texto sem qualquer senso crítico. Isso ajuda a refutar a idéia que eles inventaram, de que o religioso aceita as coisas sem questionamento. Pelo contrário, há religiosos que criticam os religiosos radicais e fundamentalistas, e até falaciosos. Entre os ateus, é possível que exista algum deles que critique textos irracionais de Richard Dawkins, Bertrand Russell e patota. Entretanto, entre os neo ateus, como todas as amostragens evidenciaram, NÃO HÁ nenhum senso crítico deles para o aceite de idéias, como foi visto em 100% das amostras. O que gente como Russell e Dawkins disser, para eles, receberá apoio irrestrito. Não deixa de ser irônico ver que, em momentos que eles alegam serem os “portadores da razão”, temos exemplos de que eles agem instintivamente, sem nenhum traço de racionalidade. É muito mais fácil, usando de retórica e PNL, enganar um neo ateu do que enganar um religioso.
Pérolas da LiHS II – As babadas de Bertrand Russell

Alguns neo ateus afirmam que se você acha Richard Dawkins radical, é só consultar a fonte, que seria Bertrand Russell, para ver visões semelhantes mas com menos radicalismo.
Seja lá como for, o blog Bule Voador, da LiHS, neo ateísta até a medula, divulgou algumas citações de Bertrand Russell (parece que eles estão comemorando os 40 anos da morte dele).
E o nível (ao menos dessas citações) é similar ao de Dawkins, ou seja, nenhum. É sempre a mesma conversinha, misturada com induções PNL, auto-ajuda, erística, distorções e falácias. Não há um traço de racionalidade, ao menos nesses itens cá citados.
Citação 1: “Acredito que quando morrer apodrecerei e nada do meu ego sobreviverá.[1] Não sou jovem e amo a vida. Mas desdenharia estremecer de pavor diante do pensamento da aniquilação. A felicidade não deixa de ser verdadeira porque deve necessariamente chegar a um fim; tampouco o pensamento e o amor perdem seu valor por não serem eternos. [2] Muitos homens preservam o orgulho ante o cadafalso; decerto o mesmo orgulho deveria nos ensinar a pensar verdadeiramente sobre o lugar do homem no mundo. [3] Ainda que as janelas abertas da ciência a princípio nos façam tiritar, depois do tépido e confortável ambiente familiar de nossos mitos humanizadores tradicionais, ao fim o ar puro nos confere vitalidade, e ademais os grandes espaços têm seu próprio esplendor.” [4] (What I Believe [No que acredito] – 1925.)
1 – Aqui, ao invés de usar o ceticismo, ele afirma uma certeza. Não há questionamento, e sim uma fé na idéia de que nada do ego dele sobreviverá.
2 – Estranho, pois agora ele duela com um inimigo imaginário, no caso um religioso que teria afirmado que felicidade seria falsa ou que pensamento e amor não teriam valor caso não fossem eternos. Em suma, ele viajou na maionese.
3 – Notaram o raciocínio de guru? Ele e a turma dele pensam “verdadeiramente” sobre o lugar do homem no mundo. Argumentos para isso? Nenhum.
4 – Isso aqui não passa de um conjunto de frases de efeito, totalmente emocionais, mas sem dizer nada de concreto.
Citação 2: “Toda infelicidade depende de algum tipo de desintegração ou falta de integração; há desintegração interna do eu através da falta de coordenação entre a mente consciente e a mente inconsciente; há falta de integração entre o eu e a sociedade quando ambos não se unem pela força de interesses objetivos e afeições em comum.[1] O homem feliz é aquele que não sofre de qualquer uma dessas falhas de unicidade, cuja personalidade não é nem dividida contra si mesma nem atirada contra o mundo. [2] Tal homem sente-se um cidadão do universo, desfrutando livremente o espetáculo que o universo oferece e as alegrias que proporciona, imperturbável pelo pensamento da morte porque não se sente realmente separado daqueles que virão depois de si. [3] É nesta profunda união instintiva com a fluxo da vida que a maior felicidade é encontrada. [4]” (The Conquest of Happiness [A Conquista da Felicidade] – 1930.)
1 – Estranho, pois para alguém faminto, a felicidade é um pedaço de pão com presunto e queijo, por exemplo. Alguém poderia dizer que isso é felicidade momentânea, e não felicidade “global”. Tudo bem, só que neste caso ele cria um novo conceito de infelicidade, que envolve, por exemplo, gostar de algo que a maioria não gosta.
2 – A definição de “homem feliz” dele é uma das coisas mais ridículas e simplórias possíveis. Dá no mesmo que dizer que o homem feliz é aquele que não sofre de apreços desajustados por itens não-objetivamente avaliados e não-definidos por consenso. Claro que o que eu disse foi apenas uma frase inventada de última hora, nonsense, mas tem a mesma valia argumentativa que a de Russell.
3 – Notaram aqui a despersonalização do indivíduo? Claro fruto das ideologias marxistas que ele amava.
4 – Ele se contenta com pouco na hora de definir aonde será encontrada a maior felicidade. Talvez dizer coisas como essa seja a maior felicidade para ele.
Citação 3: “Algumas pessoas idosas se afligem com o medo da morte. Nos jovens há uma justificativa para este sentimento. Rapazes que têm motivos para temer que serão mortos em batalha podem justificavelmente padecer no pensamento de que foram privados das melhores coisas que a vida pode oferecer. Mas num homem idoso que conheceu as alegrias e mágoas humanas, e que atingiu alguma obra que estivesse propenso a realizar, o medo da morte é algo abjeto e ignóbil. A melhor maneira de superá-lo – ao menos assim me parece ser – é tornar seus interesses gradualmente cada vez mais amplos e mais impessoais, até que pouco a pouco os muros do ego se afastem, e sua vida se torne crescentemente fundida à vida universal.
A existência de um indivíduo deve ser como um rio – pequeno no começo, estreitamente contido em suas margens, e correndo apaixonadamente através de pedregulhos e quedas. Gradualmente o rio se alarga, as margens se afastam, as águas correm mais calmas, e no fim, sem uma quebra visível, as águas misturam-se com o mar; e sem dor perdem sua individualidade. O homem que, na idade avançada, pode ver sua vida dessa forma, não sofrerá com o medo da morte, pois o que é importante para ele continuará.
E se, enquanto a vitalidade decai, o cansaço cresce, a ideia de descansar será bem-vinda. Devo desejar morrer enquanto ainda trabalho, sabendo que outros continuarão o que não mais posso fazer, e satisfeito com o pensamento de que o que era possível foi feito.”
(How to Grow Old [Como Envelhecer], em Portraits From Memory And Other Essays [Retratos da Memória e Outros Ensaios] – 1956.)
Aqui é puramente discurso de auto-ajuda, sem validade argumentativa.
Citação 4: “Não são argumentos racionais, mas emoções, que causam a crença numa vida futura [após a morte]. [1] A mais importante dessas emoções é o medo da morte, que é instintivo e biologicamente útil. [2] Se nós acreditássemos genuina e sinceramente na vida futura, deveríamos parar completamente de ter medo da morte. [3] Os efeitos seriam curiosos, e provavelmente seriam tais que a maioria de nós deploraria. Mas nossos ancestrais humanos e sub-humanos lutaram e exterminaram seus inimigos através de muitas eras geológicas e foram beneficiados pela coragem; é portanto uma vantagem para os vencedores da luta pela existência a capacidade de ocasionalmente superar o medo natural da morte. [4] Entre animais e selvagens, a belicosidade instintiva é suficiente para este propósito; mas num certo estágio de desenvolvimento, como os maometanos provaram pela primeira vez, a crença no Paraíso tem valor militar considerável para reforçar a belicosidade natural. [5] Devemos, portanto, admitir que os militaristas são sábios ao encorajar a crença na imortalidade, sempre supondo que esta crença não se torne tão profunda ao ponto de produzir indiferença para com as questões mundanas.”[6] (Do We Survive Death? [Sobrevivemos à Morte?] em Why I Am Not a Christian [Por que não sou cristão] – 1957.)
1 – Não deixa de ser divertido ver um ateu dizendo os MOTIVOS pelos quais existiria a crença na vida após a morte. O difícil, claro, é ele conseguir provar.
2 – Engraçado é que cientificamente ele está distante de provar isso.
3 – Esse é um erro que nem o Richard Dawkins cometeu. Dawkins lembrou que alguém, mesmo que acredite na vida após a morte, pode ter medo da sensação de morrer. Russell não aventa nem essa possibilidade.
4 – Detalhe que ele não provou que os que acreditam em crença numa vida após a morte teriam mais medo da morte que ele.
5 – Como sempre, alegação sem evidências. Mas deu para notar de onde Dawkins tirou as idéias para praticamente dizer que para ser homem bomba é preciso ser religioso.
6 – Isso é o estratagema do falso motivo. Ele inventa que os militares encorajam a crença na imortalidade, para se aproveitarem dos soldados. O problema é que a tese mostrando que religiosos possuem medo da morte quebra essa alegação do Russell.
Citação 5: “Desejo que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas sejam espalhadas e desejo que não haja qualquer cerimônia fúnebre.”
(Testamento datado de 18 de novembro de 1966.)
Estranho é isso ter sido mencionado como uma “citação” relevante lá no Bule Voador. Pergunta: qual a relevância dessa citação?
Citação 6: “Contaram-me [1] que os chineses disseram que me enterrariam próximo ao Lago Ocidental e construiriam um templo em memória a mim. Tenho um leve arrependimento de que isto não tenha acontecido [2], pois eu poderia ter me tornado um deus [3], o que teria sido muito chique para um ateu.” (The Autobiography of Bertrand Russell [A Autobiografia de Bertrand Russell] – 1968.)
1 – Engraçado é que um pessoal “contou” a ele… e ele ACREDITOU!
2 – Ele não tem do que se arrepender, pois é uma história anedota. Além do mais, é um ato feito por outros, e não ele. Ninguém se arrepende por atos de terceiros…
3 – Ou seja, templo em memória de alguém elevaria esse alguém à condição de Deus. Isso é coisa que um intelectual escreva?
4 – Ué, Deus seria chique? Hm, Dawkins não teria aprovado essa.
Citação 7: “É duro ter que deixar este belo mundo.” (Janeiro de 1970, poucas semanas antes de morrer.)
Quer dizer, para Russell ter medo da morte não pode, mas ter pesar por deixar o “belo mundo” pode.
Agravante: Mesmo recheado de frases de efeito, argumentos esdrúxulos, auto-ajuda para domésticas e crenças cegas, a totalidade dos participantes do Bule Voador afirmou que as declarações de Russell são IRRETOCÁVEIS (ou coisa do tipo). Sinal de que senso crítico anda em falta para os neo ateus. Mais um motivo para a tese apontada aqui neste blog, que diz que para aceitar o neo ateísmo, deve-se jogar o ceticismo na lata do lixo. Russel, aliás, pode ser tudo, menos um cético.
A terrível contradição do neo ateu: abandono do ceticismo

Eu me lembro de alguns atuais neo ateus e a postura anterior de alguns deles, há uns 8 anos atrás, quando resolvi participar de alguns debates na Internet.
Foi nessa época que eu participei de alguns embates com alguns céticos que, curiosamente, hoje vestem a camisa na qual está estampada a mensagem “filhos de Dawkins”.
O que chega a ser surpreendente é a contradição ambulante que tais pessoas se tornaram, pois entram em conflito particular com alguns dos princípios que assumiram, ao menos no passado.
Explico. Originalmente os fóruns da STR e congêneres se dispunham a basicamente uma ação: lutar contra aquilo que chamavam de pseudo-ciência.
Assim, eles se posicionavam contra:
- leitura na borra do café
- quiromancia
- astrologia
- mediunidade
E daí por diante.
Para combater essas pseudociências, eles contavam principalmente com o framework de James Randi (que tratei aqui).
Eles sabiam de cor e salteado o Guia de Falácias, e sabiam quando alguém tentava cometer uma alegação falsa. Estavam prontos a desmascaram qualquer fraude intelectual que vissem pela frente.
E, então, o que aconteceu?
Atualmente, muitos destes antigos céticos resolveram virar neo ateus, talvez empolgados com o sucesso dos livros de Dawkins e patota.
Começam aí então os conflitos que devem ter torturado a mente deles na fase inicial de doutrinação.
Para assumir o ceticismo militante, eles não podiam cometer falácias, e não tolerariam nada que não passasse pelo estrito crivo cético.
Se uma alegação era feita, a respeito de um efeito (por exemplo, homeopatia), logo de imediato seriam solicitadas provas estatísticas e empíricas.
Foi nessa época, inclusive, que me inspirei a aprender o modelo de investigação de James Randi, e adotar o ceticismo para a investigação de alegações em debates. Se há uma área argumentativa na qual eu posso me dizer que me “sinto em casa” hoje, é na investigação de alegações suspeitas.
Ou seja, ironicamente, aprendi boa parte de minhas técnicas com alguns neo ateus (que não eram neo ateus na época, claro) que, hoje, abandonaram o ceticismo e a racionalidade, e optaram pela fé cega.
E é justamente aí que está a terrível contradição que se abate hoje sobre a mente deles.
Richard Dawkins e os outros cavalos do apocalipse efetuaram de tal forma sessões de lavagem cerebral nessa patuléia, que eles passaram a assumir uma porção de paradigmas, que eles passariam a adotar em sua militância. Como exemplo:
1. A religião causa aumento de violência, que não ocorreria em tal proporção sem ela
2. A teoria da evolução deve ser expandida para explicar toda a realidade
3. O religioso é alguém que acredita somente por que lhe orientaram, sem questionar
4. Memes existem
Como se nota, é uma série de alegações que não é diferente de, respectivamente:
5. A homeopatia causa melhoria gradativa do estado de saúde do paciente, em comparação com a alopatia, para X tratamentos
6. A teoria gaia deve ser expandida para explicar todo o comportamento humano
7. O cético é alguém que questiona somente por que tem raiva
8. O espiritismo é válido, e explica por que o ser humano toma determinadas atitudes
Claro que, em uma avaliação cética, os itens de 1 a 4 são exatamente iguais aos itens de 5 a 86 em termos de alegações sem evidências. E ambas as listas podem ser vítimas de um extenso e implacável questionamento cético, tornando a vida do crente nessas idéias algo difícil.
E o que o neo ateu faz? Simplesmente defende os itens e 1 a 4. Ou seja, eles vão na contra-mão de tudo que lhes foi ensinado por James Randi em termos de ceticismo.
E vejam como um cético de verdade trataria os itens de 1 a 4:
1. Se a religião causa aumento de violência, ou as provas estatísticas disso são apresentadas ou não são. E sem as provas, sem validação. Sorry.
2. Para cada área em que a teoria da evolução for expandida, uma grande quantidade de evidências deve ser fornecida, tanto quanto na teoria original. Sem essas evidências, sem chance para as extrapolações.
3. Para saber o comportamento do religioso, como “sem questionamento” para a crença, testes científicos devem ser feitos, para comprovar essa alegação. Infelizmente, hoje o PET SCAN ainda não captura intenções complexas, portanto qualquer alegação nesse sentido é puro chute, e não serve como evidência.
4. Não há evidência de que os memes existam. Os adeptos de tal crença devem isolar os memes e demonstrá-los. Enquanto isso não for feito, os memes não passam de mitos.
O resultado é que eles tornam-se figuras tão ridículas ante os olhos de um questionador religioso cético quanto para eles antigamente eram ridículos os médiuns e as pessoas que faziam leitura na borra de café.
Mas, em nome do novo paradigma, para eles o ceticismo deixa de ser importante, e eles assumem em público uma série de alegações que não podem provar.
O resultado, como se nota, é similar aos grupos extremistas de adeptos da pseudociência: começam a se unir em grupos em que eles ficam sozinhos, e lutam apenas por aprovação de seus pares de militância. Perante um grupo de questionadores céticos independentes, eles podem ser aterrorizados e humilhados.
Terrível para eles será o dia em que for difundido o ceticismo para uso dos religiosos (conforme defendo aqui), nos moldes do que James Randi fazia no passado. Basta um uso básico do framework de investigação “randiano”, juntamente com entendimento dos guias de falácias e checklist de dialética erística, que os argumentos e alegações deles ficam reduzidos a pó.
Fica evidente que o ceticismo não pode caminhar junto com o neo ateísmo. O neo ateísmo implica no aceite de vários paradigmas que não possuem evidências, e o cético não aceita alegações extraordinárias sem evidências.
Mais ainda: o neo ateu precisa ser o oposto de um cético.
Essa é a maior de todas as vulnerabilidades do neo ateísmo, um sistema de pensamento que pode ser destruído unicamente com o uso do ceticismo pela parte adversária.
Falta só os líderes religiosos descobrirem essa jóia preciosa: o ceticismo.
Os quatro cavalos do Apocalipse

Por Olavo de Carvalho (versão original aqui)
Jornal do Brasil, 28 de junho de 2007
“Quando quatro livros de autores famosos são publicados quase ao mesmo tempo, defendendo opiniões substancialmente idênticas por meio da mesma técnica argumentativa, é óbvio que não estamos diante de um festival de coincidências, mas de uma campanha destinada a prosseguir por meios cada vez mais abrangentes e a alcançar resultados bem mais substantivos do que o frisson publicitário de um momento.
Se, ademais, esse esforço vem junto com medidas legais tomadas em vários países para dar imediata realização prática ao mesmo objetivo que os livros propõem como ideal e desejável — expelir a religião da vida pública –, então é claro que o intuito dessas obras não é colocar nada em discussão, não é nem mesmo persuadir, é apenas legitimar a imposição de poder mediante uma camuflagem de debate público.
As contribuições pessoais dos srs. Sam Harris, Richard Dawkins, Daniel Dennett e Christopher Hitchens à guerra anticristã mundial destacam-se pela uniformidade com que apelam a uma técnica argumentativa inusitada, raríssima, tão contrastante com o seu prestígio, que a probabilidade de ter ocorrido espontaneamente aos quatro é de um infinitesimal tendente a zero. Chego a me perguntar se esses livros foram realmente escritos por seus autores nominais, se estes não se limitaram a dar acabamento a rascunhos preparados por algum engenheiro comportamental.
Esse modus argüendi , já conhecido dos antigos retóricos mas quase nunca usado em debates intelectuais, consiste em apresentar com ares de seriedade, e com o respaldo de uma credibilidade pessoal prévia, argumentos propositadamente indignos dela: vulgares, grosseiros e fundados numa ignorância monstruosa das complexidades do assunto.
À primeira vista o adversário (por exemplo Michael Novak na National Review de maio) imagina que os quatro ficaram loucos, que, arrebatados pelo ódio, abdicaram de toda sofisticação intelectual e resolveram dar a cara a tapa.
Mas o tapa não os atinge. A técnica que empregam não se usa para vencer uma discussão, e sim para impossibilitá-la. Nenhuma discussão é viável sem a posse comum de um corpo de conhecimentos fundamentais sobre a matéria em debate. Se um dos lados se furta propositadamente a tratar do assunto no nível intelectual requerido, o interlocutor sério não tem alternativa senão explicar tudo desde o princípio, alongando-se em sutilezas que darão a penosa impressão de embromações pedantes e que o auditório, fundado na confiança usual que tem na autoridade do outro lado, muito provavelmente se recusará a ouvir. William Hazlitt, num ensaio clássico, já falava das “desvantagens da superioridade intelectual”, mas não previu que elas se tornariam ainda maiores no confronto com a ignorância planejada. Nem mesmo os maiores trapaceiros ideológicos do século XX, um Sartre ou um Chomsky, se rebaixaram ao ponto de apelar a esse expediente e fazer da burrice uma ciência, como temia o nosso Ruy Barbosa. A vida intelectual no mundo teve de perder o último vestígio de dignidade para que pudessem aparecer, no horizonte dos debates letrados, os quatro cavalos do Apocalipse.”
Como se responde a um neo ateu

Isso aqui tem 10 anos já, e vem do site Montfort.
Orlando Fedeli ali mostrou como se trata um neo ateu (embora ele tenha chamado-o de ateu, nota-se que o discurso é praticamente aquilo que hoje identificamos como neo ateísmo.
Primeiramente, a mensagem do neo ateu, Luiz Fernando Fabris:
Prezados Senhores,
Li “ad nauseam” a maioria do conteúdo de vosso site.
Ao fazê-lo, constatei como o gênero humano pouco evoluiu filosoficamente, em milênios de existência.
Não creio que este seja o forum adequado para discussão de temas polêmicos, tais como a existência da divindade, coisa em que eu, pessoalmente, não acredito
Por outro lado, o site contém uma interessante resenha de tópicos que, por séculos, são a causa da intolerância do homem para com seu semelhante.
Como pode um site dito religioso fazer apologia da pena de morte, da inquisição, da inferioridade das mulheres, da infalibilidade papal (como se Galileu não houvesse existido) e outros temas de igual jaez, que já deveriam ter sido banidos ou superados em uma sociedade sadia e evoluída.
Causa-me espanto, também, que um professor de história “esqueça-se” de mencionar os milhões de mortos das cruzadas e da inquisição.
A igreja católica, mais do que outras instituições, tem as mãos profundamente manchadas com o sangue de inocentes, cujo único crime foi discordar da posição oficial.
A igreja católica adora mencionar seus mártires, mas, propositalmente, esquece-se de mencionar suas vítimas.
Luiz Fernando Fabris
PS.: Não acredito que vocês tenham coragem de publicar este mail. A covardia moral sempre foi uma característica da igreja.
Eis, então, a resposta de Fedeli:
“Ilustre”, intolerante e contraditório ateu, sr. Luis Fernando Fabris.
Salve Maria, a mulher que é a maior glória da humanidade.Apressei-me em lhe responder, passando sua carta adiante de outras. Fiz isso porque sua carta é … “saborosa”…
O senhor me desafia a publicar sua missiva, dizendo-me:
“Não acredito que vocês tenham coragem de publicar este mail. A covardia moral sempre foi uma característica da igreja.”Pois faço questão de publicar o que o senhor nos escreve. E, publicando sua missiva, esse seu último desafio já cai no ridículo.
Quem é que o senhor pensava ser covarde, seu Fabris?Agora, passemos a analisar suas acusações.
O senhor me assegura que leu a maioria dos textos de nosso site “ad nauseam”.
Fico contente por ter-lhe causado náuseas. Preocupar-me-ia se eles tivessem agradado uma pessoa atéia e tão tolerante quanto o senhor se revela. Pois fique sabendo que escrevo para agradar a Deus e causar ódio em seus inimigos.
Causar-lhes raiva e náusea.
Sua queixa me demonstra que atingi meu objetivo.O senhor se espanta que haja pessoas católicas como meus amigos da Montfort e eu mesmo.
Pois saiba que pessoas católicas assim, sempre existirão, porque a Igreja Católica é indestrutível, e ela sempre gera novos filhos.
Como, aliás, sempre existirão pessoas atéias como o senhor que, em nome da tolerância, são extremamente intolerantes contra o verdadeiro catolicismo. Em nome da tolerância, o senhor, se pudesse, nos faria ir para a arena, para a guilhotina, ou, mais modernamente, para o “paredón” cubano…A intolerância é uma característica essencial de todos os tolerantes.
E essa é uma primeira contradição sua.
Chamei-o de contraditório, sim. E é facil de dar-lhe novas provas disso.Todo ateu é contraditóorio. Mas, um ateu furioso cai ainda mais facilmente em contradição.
Quer que lhe prove?
Pois vá lá.O senhor começa sua “tolerante” missiva, dizendo que: “… constatei como o gênero humano pouco evoluiu filosoficamente, em milênios de existência.”
E com isso me lança, com todo o gênero humano, filosoficamente pelo menos, ao tempo dos trogloditas.
Mas, poucas linhas depois, o senhor contraditoriamente se espanta de que temas como os que defendo sejam publicados, pois que eles “já deveriam ter sido banidos ou superados em uma sociedade sadia e evoluída.”
Portanto, o senhor supõe que nossa sociedade seja “sadia e evoluída”. Como então afirmou que o gênero humano pouco evoluiu filosoficamente?
E esta é sua segunda contradição.Para o senhor, uma sociedade “sadia e evcoluída”, não deveria tolerar, mas deveria banir “os temas” que defendo.
Confesse, ó atualizado Robespierre: não são os temas que o senhor quer banir. O senhor quer é banir quem, nesses temas, defenda a Igreja Católica.
E onde ficou a tolerância em sua sociedade sadia e evoluída, ó candidato a tirano?
O senhor, se pudesse, instalaria uma Inquisição — no estilo em que o senhor pensa que a Inquisição teve, e não como ela realmente foi — para impor o ateísmo.
E o senhor me dá a lista dos temas que desejaria banir:
“Como pode um site dito religioso fazer apologia da pena de morte, inquisição, da inferioridade das mulheres, da infalibilidade papal (como se Galileu não houvesse existido) e outros temas de igual jaez, que já deveriam ter sido banidos ou superados em uma sociedade sadia e evoluída.”
Pois um site que expõe o que pensa de modo católico tem que defender a pena de morte que foi defendida pelos santos, pela filosofia tomista, e pelo próprio Cristo. O senhor deve ter lido as citações comprovantes do que afirmo, pois eu as escrevi ad nauseam.
E a Inquisição só é atacada de modo tão grosseiro por pessoas que, como o senhor, desconhecem a sua história, pois o senhor chega ao absurdo de dizer que foram milhões os mortos pela Inquisição e pelas Cruzadas.
E se atreve a dizer:
“Causa-me espanto, também, que um professor de história “esqueça-se” de mencionar os milhões de mortos das cruzadas e da inquisição.”Quem lhe forneceu essa estatística, ó preclaro historiador?
De onde o senhor tirou esses milhões de mortos?
O senhor os tirou de sua imaginação e de seu ódio.E quem disse que a mulher é inferior ao homem? Onde o senhor leu isso em nosos site?
O que dissemos é que a mulher é essencialmente igual ao homem, e que tem os mesmo direitos essenciais e naturais que o homem.
O que não significa defender o feminismo que propugna uma igualdade acidental do homem e da mulher, que vai contra a evidência.Finalmente, o senhor vem carregando o “espantalho” Galileu, pensando me assustar com ele.
Pois não me assusto nem um pouco.
Pelo visto o senhor deve estar saturado dos slogans que a mídia repete — ad nauseam — sobre o caso Galileu. Vai ver que pensas que Galileu foi queimado vivo pela Inquisição, como muitos ignorantes acreditam.
Pois saiba que ele morreu na cama.Recomendo-lhe que leia o livro “Galileu Herético”, de Pietro Redondi, sobre o caso Galileu, cujo nó central foi uma questão metafísica e não astronômica.
E que tem a ver o caso Galileu com a Infalibilidade Papal?
O Papa é infalível sim, quando fala “ex cathedra” — já expliquei o que é ex cahedra no site, se o senhor ainda não aprendeu, explico-lhe de novo — e, no caso Galileu, nunca houve um pronunciamento papal “ex cathedra”.Pois está aí, ó valente e destemido ateu, sau carta publicada e refutada. É uma primeira lição. Se quiser mais, escreva-me, ó valente Fabris, que o ajudarei na medida de minhas forças.
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli.
Em suma, sem meias palavras e sem aquele comportamento manso que alguns religiosos (por sorte, não todos) acabam mostrando em duelos contra neo ateus na web.
O mesmo respeito que o neo ateu fornece aos religiosos é o que deve ser fornecido a eles. Questão de justiça.
Quanto mais os religiosos responderem dessa forma, sem baixar a cabeça para crianças mimadas que fingem arrogância (mas não têm cacife suficiente para mantê-la quando são retrucados), mais respeito se estará obtendo.
A questão é simples: não devemos pedir que os outros nos respeitem. E sim EXIGIR.
E a melhor forma é o revide à altura.
Ensinando neo ateísmo para as crianças
Richard Dawkins já disse várias vezes que quer “proteger” as crianças da doutrinação religiosa.
Claro que se gente como ele tivesse poder para isso, Dawkins e sua turma impediriam as crianças de receberem valores dos pais, e automaticamente habilitaria os cérebros delas a receberem valores de professores desonestos e mal intencionados.
O vídeo acima mostra uma criança que supostamente teria recebido doutrinação neo ateísta dos pais.
Não tenho certeza se o vídeo é real ou apenas uma paródia, mas de qualquer forma pode-se imaginar um mundo com as crianças doutrinadas por professores de orientação revolucionária.
A questão é: será que os neo ateus, que lutam tanto contra a transmissão de valores dos pais para os filhos (mas só na questão da religião, claro), lutariam contra esse tipo de doutrinação?
Eu, sinceramente, duvido…
Era só o que faltava… apelo às moléculas complexas de Titã

Já citei mais de uma vez aqui a seguinte frase de Chesterton: “Quando um homem deixa de acreditar em Deus, ele passa a acreditar em qualquer coisa”.
Na primeira vez que ouvi tal afirmação, pensei: “ah, parece ser frase de efeito”.
Hoje vejo que a frase pode levar à praticamente uma teoria, extremamente corroborada pela credulidade observada em alguns adeptos de Dawkins e Sagan, que tem sido examinados por este blog.
Quando Chesterton disse que um ateu pode acreditar em qualquer coisa, isso significa QUALQUER COISA MESMO.
Um exemplo é o texto que me enviaram, relacionado a postagem de um neo ateu em uma comunidade dedicada a um certo autor… adivinhem quem.
A figura carimbada, que atende pelo nome de Roberto Ferreira, chegou a tal nível de credulidade que superou em irracionalidade os adeptos do gene egoísta e da memética, juntos.
Em seu post, reproduzido aqui, Roberto tenta usar o lançamento da sonda Cassini-Huygens na atmosfera de Titã para alegar que a “ciência” estaria definitivamente eliminando a possibilidade de Deus (não é para rir).
O resultado, claro, é grosseiro do ponto de vista lógico, totalmente irracional e até infantil.
Vamos avaliar:
MAIS UMA “PEDRADA” NO CRIACIONISMO
O título já é suspeito…
Aqui ele já tenta a falsa dicotomia entre ciência X religião, e o fingimento de que a única forma de religião é o criacionismo.
Mais:
Depois da publicação da teoria de Darwin/Wallace os religiosos entraram em convulsão, vendo refutadas as explicações bíblicas para a diversidade das espécies animais. Começaram então a combater com todas as suas forças o evolucionismo.
Como eu já disse em dois textos aqui ([1] e [2]), o neo ateu, usando também o framework “novo evolucionista”, executa as tradicionais mentiras. Aqui ele disse que “os religiosos entraram em convulsão” após a publicação da teoria de Darwin/Wallace. De novo, é só lembrar que isso já foi refutado aqui simplesmente com o fato de que a interpretação literal da Bíblia não era mais a interpretação padrão na época. Roberto luta contra um inimigo imaginário.
É possível que até existissem alguns criacionistas literais na época, mas estes nem de longe representavam a religião.
Roberto está, portanto, delirando. E vamos em frente:
Quando se redescobriram os estudos de Gregor Mendel, surgiu o neodarwinismo, ou “nova síntese”, que dominou quase todo o século XX, até que no final deste descobriu-se a estrutura do DNA. Desde então, o evolucionismo acumulou tantas toneladas de evidências que até mesmo a ultrareacionária igreja católica hoje admite que a evolução é um fato.
Como sempre, é no mínimo uma mentira por parágrafo. Eu sou capaz de apostar que esse sujeito é marxista também, pois ele não consegue dialogar sem praticar falácias do espantalho e até tentar reescrever a história.
Aqui ele finge que a Igreja Católica “hoje” admitiu que evolução é um fato, tentando enrolar a platéia para dizer que existiu um “recuo”. Falso, pois a Igreja Católica jamais condenou a teoria da evolução (um exemplo é esse texto aqui).
As fantasias dele prosseguem abaixo:
Os teístas, vendo que a batalha contra o evolucionismo era causa perdida, se entrincheiraram na origem divina da vida, contestando a teoria dos coacervados, de Oparin/Bungenberg de Jong, imaginando que por ser um processo que não deixa vestígios fósseis, jamais poderiam sofrer a contraprova que sofreram com a evolução das espécies.
De novo ele prossegue com a divulgação de informação falsa, e de novo aplicando o framework mental aprendido com Marx, criando uma história inexistente, apenas adequada à sua propaganda.
Não existe “entrincheiramento” na origem divina da vida, e nem seria racional contestar a teoria dos coacervados, de Oparin, pois ela jamais comprovou origem da vida. E mesmo que existisse um dia tal comprovação, nem assim a teoria conspiraria contra o teísmo. Aliás, para considerar a teoria de Oparin como evidência de origem da vida é preciso de uma mente tão fértil que faria do Calvin um personagem sem imaginação.
Como delírio pouco é bobagem, ele segue em sua sanha, mantendo a média de pelo menos uma fantasia por parágrafo, com pode ser visto a seguir:
Eis que caiu também esta fortificação, pois a “Cassini-Huygens é uma missão conjunta da NASA e da ESA – agências espaciais norte-americana e européia, respectivamente – destinada ao estudo de Saturno e Titã, com um veículo espacial interplanetário, constituído de um orbitador norte-americano – Cassini – e da primeira sonda interplanetária européia – Huygens: “Trata-se, na realidade, de uma seqüência ambiciosa do programa Voyager. Seu primeiro objetivo pode parecer simples, pois consiste, de início, em alcançar o planeta dos anéis e, em seguida, explorá-lo durante quatro anos. Na verdade, a sua complexidade está na segunda etapa: a introdução da sonda Huygens na atmosfera de Titã. O interesse em estudar a atmosfera deste satélite se justifica por sua enorme semelhança com a Terra primitiva, assim como pela constituição e extensão de sua atmosfera. Realmente, a exploração do satélite Titã será muito importante, pois a Voyager 1, ao sobrevoá-lo, em 1981, revelou a presença de moléculas complexas, muito análogas às que serviram para formar o ADN, suporte biológico básico da vida.”
Vamos com calma.
A parte do “caiu a fortificação”, que é ridícula, abordarei um pouco mais à frente.
Uma grande parte desse parágrafo acima (que está entre aspas) é apenas citação do artigo que ele referenciou (clique aqui para lê-lo). O artigo, em si, não possui problemas. Mas a interpretação ingênua e deslumbrada dele sim.
Vejamos aqui o que o artigo descreve, ao final da citação que ele adicionou:
- (1) Revelou a presença de moléculas complexas
- (2) Muito análogas às que serviram de fonte para formar o ADN
- (3) O ADN é suporte biológico básico da vida
Quer dizer, isso qualquer um que conhecia a teoria de Oparin já sabia. E sabia também que essas moléculas nem de longe significam organismos completos, e nem mesmo uma célula orgânica completa.
Os itens de 1 a 3 mostram que é preciso ainda de uma série de ad hocs para tentar usar tais moléculas complexas como uma proposta que dê margem à qualquer explicação de origem da vida.
Mais à frente a coisa fica ainda mais engraçada, pois a esperança dele é ingênua, e até emocionante, mas imbecil:
Pois bem, com o lançamento da sonda Huygens na atmosfera de Titã em 25/12/2004, encontramos os mesmos gases previstos na atmosfera primordial da Terra e, mais importante do que tudo, foi confirmada a presença de moléculas orgânicas de elevado peso molecular, da mesma forma como previa a teoria de Oparin, concluindo-se que Titã está em um estágio pré-coacervados, como a Terra de 3,6 bilhões de anos atrás, isto caso futuras sondas não encontrem e tragam de volta para a Terra coacervados “vivos”.
Ele conclui que a Titã está em um estágio “pré-coacervado” e já começa a imaginar que isso garantiria um estágio coacervado. Ou ao menos ele alimenta esperança disso.
Mas mesmo que ele ainda conseguisse arranjar os coacervados “vivos”, eles na verdade não seriam vivos (ao menos ele colocou a expressão “vivos” entre aspas).
Quer dizer, se coacervados não comprovam origem da vida, muito menos as tais formas pré-coacervadas.
Simplesmente, ele se ilude com muito pouco.
A parte que mais me deu vergonha alheia, no entanto, é como Roberto conclui seu testemunho:
Se o mérito pela derrocada do fixismo criacionista coube à biologia e à bioquímica, mormente na genética molecular, vemos que caberá à astronáutica acabar de vez com as divindades criadoras da vida. E o primeiro gol já foi feito, com as descobertas da missão Cassini/Huygens…
Vocês se lembram que lá atrás ele usou o termo “caiu a fortificação” que ele supunha existir para o teísmo? Lembremos: segundo ele, o teísmo dependia de criacionismo para existir.
Mas vejam que curioso… se antes ele usou o termo “caiu a fortificação” e agora ele usa “caberá à astronaútica”, ele está com um seríssimo problema de tempo verbal.
Ora, ou a fortificação caiu ou não caiu. Ou coube à astronautica ou caberá. E se caberá, significa que ainda não coube. E, assim, a fortificação não caiu. E isso qualquer criança do primário sabe.
Será que ele está com tanta esperança de que vai chegar à origem da vida com os achados em Titã? Só que aí ele só poderia dizer “eu espero que caia a fortificação” (que, de novo, só existe na cabeça dele, pois o criacionismo jamais foi suporte para teísmo). E isso seria uma falácia do wishful thinking.
Resumindo: ou ele tem esperança de que ocorra, ou então já ocorreu.
Mas como ele não tem nem coacervados em mãos (e nem isso lhe seria útil, pois não comprovaria origem da vida), e apenas os pré-coacervados (ou seja, wannabe coacervados, mas só na esperança ainda), como ele pode ter marcado um gol? Só se ele fosse o juiz da partida, é claro.
Mas no mundo da fantasia dele pode tudo, não?
Até mesmo achar que o lançamento da Cassini-Huygens vai ajudá-lo a provar que Deus não existe…
Conclusão: podem meter camisa de força no Roberto Ferreira.
P.S.: Há outro comediante na comunidade, que é um tal de Fernando (Deslock), que escreveu o seguinte: “Será que existirá a possibilidade de encontrarmos os replicadores, conforme Dawkins teoriza no “Gene Egoísta”?”. Por caridade, nem vou comentar isso…