Neo-Ateísmo, Um Delírio

Ceticismo e racionalidade na demolição da ilusão neo-ateísta

Arquivo para outubro 2009

Luiz Felipe Pondé: “ateísmo militante é auto-ajuda para ateus inseguros”

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Luiz_Felipe_Ponde

Há mais gente que concorda com a visão de que o neo ateísmo (ou ateísmo militante) não passa de auto-ajuda.

Em uma entrevista publicada neste link (fonte: Usininos) o filósofo ateu judeu Luiz Felipe Pondé fala sobre a ilusão dessa patuléia seguidora de Dawkins e turminha.

Leiam a seguir:

IHU On-Line – Poderia explicar com detalhes sua idéia de que o livro de Dawkins não passa de um libelo político? O que quer dizer com isso?

Luiz Felipe Pondé – Não há idéias novas no sentido da biologia darwinista ou sua concepção cosmológica; sua intenção é convencer a neo-esquerda (mistura de iluminismo anti-clerical + foucaultismo das minorias oprimidas) de que o darwinismo não tem a política “de direita” do darwinismo social, mas sim é uma teoria que liberta do medo da opressão metafísica de uma autoridade louca como Deus. O ateu pode sair do armário, como ele diz, e será feliz. Essa idéia é melhor apresentada por gente como Nietzsche, Rosset , Gracian , e todos os trágicos, sem a tentativa de cooptar os pequenos desejos de felicidade banal da gente contemporânea. Seu iluminismo é aquele que pensa que a confessionalidade atéia nos deixa mais felizes. Por definição, não levo a sério ninguém que associa suas idéias e venda de alegria, mesmo que supostamente dolorida.

IHU On-Line – Vivemos numa época na qual se corre o risco de abandonarmos a crença em Deus para abraçarmos uma crença antropocêntrica? O que isso demonstra a respeito de nossa sociedade?

Luiz Felipe Pondé – Nada além da tendência do pecado (falando teologicamente). Do ponto de vista judaico, pecar é errar o alvo: queremos acertar o alvo de sermos o centro do mundo e independentes de Deus, mas acertamos o alvo da coisficação (em hebraico clássico, ‘morte = o ques’… coisa, objeto…). Historicamente, o antropocentrismo é figura de nosso banal desespero em termos de um cérebro que pensa mais do que agüenta e, por isso, acaba buscando formas que o acalmem. Teologicamente, é idolatria. Filosoficamente, o antropocentrismo é simples empobrecimento epistêmico, Deus é o melhor de todos os conceitos, e o contato com Ele nos torna mais inteligentes. A prova é que o antropocentrismo foi obrigado a cair no Dawkins político e as variadas formas de auto-ajuda. Pessoalmente, só respeito a filosofia trágica, além, é claro, aquela que dialoga com Deus. Quanto à nossa socidedade, talvez uma coisa boa fosse pararmos de pensar em termos político-sociais. O futuro do antropocentrismo é a mania de políticas públicas + publicidade auto-ajuda. Isso é matemático.

IHU On-Line – A paixão pela razão pode ser um elemento explicativo para esse comportamento? Por quê?

Luiz Felipe Pondé – Só se pensarmos em “razão” no sentido reduzido de causa-efeito empiricamente perceptível e suas funções instrumentais.

IHU On-Line – O niilismo em suas diversas nuances é conseqüência dessa postura fundamentalista atéia que presenciamos?

Luiz Felipe Pondé – O niilismo ou é aquilo que Nietzsche critica (melancolia covarde de ressentidos sem fé) ou arrogância que vai do cinismo à mentira revolucionária do homem que se auto-funda (a neurose de Adão), niilismo russo descrito por Turgueniev e Dostoiévski. Acho que o niilismo pode ser um conceito essencial como experiência da transcendência para o nada, aquilo que a razão e a consciência encontram quando operam sua mecânica escatológica cética e percebem o não fundamento de si mesmas… a experiência do deserto: o olhar no olhos do vazio que nos habita. Nesse sentido, tanto psicológico quanto teológico, é terapêutico.

IHU On-Line – Como podemos compreender o “flerte” de Dawkins com alguns totalitarismos do presente?

Luiz Felipe Pondé – Nada além da repetição de tentarmos deduzir o mundo e suas múltiplas faces a partir de idéias que algumas pessoas têm em seus escritórios e acham que todo mundo deve se organizar a partir delas. Contra ele, Edmund Burke : temos os sofistas, calculadores da perfectibilidade humana e os economistas. Qualquer um que ache que exista uma lógica da felicidade passível de se formular em duas ideais é totalitário, principalmente quando oferece a ciência como fundamento: quando a ciência sai do laboratório, ela é sempre opressora.

IHU On-Line – O ateísmo chique de Dawkins reedita o embate fé-razão. Por que é importante definir quais dos dois campos está correto na explicação da origem da vida?

Luiz Felipe Pondé – Não acho que seja necessário uma explicação que opere em uma das pontas. Não partilho da idéia de que exista tal oposição, pelo menos nos moldes de como é colocado (esclarecimento x escuridão, por exemplo, o que é pra iniciantes que acreditam na utopia racionalista moderna). Dawkins não é elegante em seu ateísmo. O darwinismo é elegante em sua tentativa de negar o argumento de Aristóteles ao design inteligente, e acho que devemos enfrentar essa elegância. Nietzsche é um “ateu elegante”, Freud também. Esse livro do Dawkins é uma auto-ajuda para ateus inseguros.

IHU On-Line – Como você, pessoalmente, entende a relação entre esses dois campos? Como complementaridade ou exclusão?

Luiz Felipe Pondé – Como disse acima, não reconheço essa oposição. Proponho a leitura de Raison et foi, de Alain de Libera : essa oposição é típica das más soluções que a teologia do século XIII em diante deu para a relação com Aristóteles e sua herança medieval dos “filósofos artisans e não teólogos”. Como sempre, como diria Heine sobre os teólogos de sua época, “só se é traído pelos seus, assim como hoje vemos a teologia orar aos pés da sociologia e das modas políticas foucaultianas. Não há oposição entre fé e razão. Há uma relação de trabalho entre elas, ainda mais porque são centros de atividade do mesmo animal, o ser humano. O fato que alguns homens e mulheres têm fé e outros não é um problema da psicologia e da teologia da personalidade. Quando fé e razão estão postas na mesma pessoa, e aí não falta repertório ou não abunda o medo, o diálogo é sempre rico, mas nem sempre fácil.

IHU On-Line – Qual seria seu contra-argumento à afirmação de Dawkins de que as religiões são nocivas ao bem-estar da humanidade?

Luiz Felipe Pondé – A filosofia do bem-estar é utilitarismo. A preocupação com o bem-estar leva o homem à burrice e a ontologia da vida como empresa e eficácia. Não há evidências empíricas de que a humanidade sem a fé seria mais feliz. A humanidade é infeliz e, como eu disse antes, não levo a sério filósofos preocupados com o bem-estar na humanidade: afinal o que é isso? Vivemos há algum tempo já numa filosofia do bem-estar: TV a cabo, liberdades sexuais, suposição democrática, antibióticos. Falta ao bem-estar de Dawkins a sutileza de quem pensa o ser humano como animal ferido que é. Como diria Chesterton , não há problema em não se acreditar em Deus; o problema é que se acaba sempre acreditando em alguma besteira, como, por exemplo, no bem-estar da humanidade.

P.S.: Agradeço ao Luiz Fernando, do blog Lúdico Medieval, pela dica em relação à entrevista.

P.S.2: Agradecimentos ao Francisco e ao Guilherme pela dica: o Luis Felipe Pondé é judeu, e não ateu.

Escrito por lucianohenrique

outubro 31, 2009 em 12:18 am

Como demolir o castelo de cartas neo ateísta: questionando a auto-ajuda

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auto_ajuda

Que o neo ateísmo era auto-ajuda para ateus isso eu já sabia faz tempo, pois há 8 anos debato com esse tipo de antas, e cada vez mais as patologias deles ficam evidentes.

A questão é que as vezes até eu me surpreendo com o tamanho da patetice deste séquito de Dawkins e Sagan.

Recentemente o Ludwig Krippahl, do blog de propaganda neo-ateísta Que Treta, entregou o ouro de forma até surpreendente.

O sujeito seguiu a cartilha do comportamento do leitor de auto-ajuda e saiu pregando feito um vendedor da Herba Life.

Ele começou indicando o vídeo de Lawrence Krauss, em uma “palestra sobre cosmologia” (link aqui).

Qualquer cético de verdade já começa a questionar o vídeo, claro: Quem é Lawrence Krauss? Uma pesquisa mostra que o sujeito, mesmo não sendo um leigo em sua área de atuação, é também envolvido fortemente com pregação de neo ateísmo. Outro motivo para suspeita é o apresentador do vídeo. Ninguém menos do que Richard Dawkins. Ihh… o sinal de alerta de que estamos diante de auto-ajuda para ateus desesperados já é aceso.

E todas as minhas suspeitas se confirmam, no decorrer do vídeo.

Claro que não o assisti completamente, pois desprezo qualquer tipo de material para fracos desde que ganhei de presente uma série de palestras de auto-ajuda que fui assistir há uns quatro anos atrás. Fui só para fazer networking e por caridade. Posso dizer com segurança: raras vezes encontrei um grupo de pessoas tão fracas quanto nesse evento.

Curiosamente, os leitores de auto-ajuda começam a colecionar livros de auto-ajuda de vários tipos. Tem de tudo.

Assim como a variação de livros de auto-ajuda para ateus. E autores também.

É por isso que os caras vão assistir uma palestra de “auto-ajuda cosmológica” depois de uma de “auto-ajuda biológica”, tudo em cima do pacotão da “auto-ajuda ateísta”, mesmo que nas palestras de “cosmologia” e “biologia” falem mais de religião do que as disciplinas em si.

A coisa funciona basicamente assim: mesmo que o sujeito seja um nerd, um fraco, um incapaz, ele sempre ouvirá frases de conforto de seus autores, e a partir disso ele os idolatrará.

Claro que é uma idolatria completamente oposta à da religião.

A grande diferença, que coloca o religioso em superioridade a eles, é que se um religioso pratica idolatria, esta idolatria é somente em relação a Deus. No caso dos leitores de auto-ajuda, a idolatria é orientada aos gurus, como sempre todos marketeiros.

Naturalmente, é possível que uma boa parte dos seguidores da religião também a interpretem erradamente e a vejam como auto-ajuda.

Geralmente é a atitude da empregadinha doméstica que vai na Igreja do Bispo Edir Macedo.

Aí sim, e SOMENTE aí,o religioso se assemelharia a um neo ateu.

Talvez seja por isso que quando os neo ateus saem pregando sua palavra eles sempre criticam a religião considerando o comportamento da empregadinha doméstica. Eles só citam o cidadão comum, que, em vários casos, vai atrás de auto-ajuda.

Na verdade, eles estão buscando os DUPLOS de si mesmos, pois, ao procurarem auto-ajuda através de Dawkins e sua patota, eles entendem que TODOS deveriam fazer o mesmo.

É por isso que com o mínimo de ceticismo (o maior fator de esmagamento da auto-ajuda), todo o castelo de cartas dessa escória pode desabar muito fácil.

Por exemplo, vejam como Ludwig apresenta a palestra do Lawrence Krauss:

É uma palestra do Lawrence Krauss sobre cosmologia. Quando tiverem uma hora para ver televisão, vejam isto. Seja o que for que esteja a dar, isto é de certeza melhor.

O título do post dele é “Física sem Hermenêuticas”, obviamente uma alusão à hermenêutica utilizada pelos teólogos para compreender a Bíblia e qualquer livro sagrado. Na verdade, dá para se utilizar para compreender qualquer texto complexo.

Já de cara fica evidente a falsa concepção do que é Física e do que é Hermenêutica, pois Ludwig trata de um atributo que NÃO pertence à Física, e coloca-o em uma sentença onde menciona Física.

A frase não tem o menor sentido senão o de uma frase de efeito para auto-ajuda.

Seria o mesmo que dizer coisas como “Almoço sem filosofia”, “Scorecard sem Teoria”, etc.

Talvez ele quisesse dizer que “A Física é boa por não ter hermenêutica”. O que, naturalmente, também seria estupidez, pois o fato de algo não ser imprenscindível para disciplinas como Física, não significa que não o seja para Teologia e Filosofia, por exemplo.

Outro exemplo é quando esse pessoal geralmente também escreve coisas como: “Se há respostas, estas estão na ciência, e apenas lá”. O que é uma demência.

Vá dizer isso ao Diretor de Controladoria ou o Diretor de Governança, que possuem diversos sistemas com base em Balanced Scorecard e Mapeamento de Indicadores Correlatos, que não só dão respostas em relação a TUDO que é necessário saber sobre a organização, como também as OUTRAS organizações, para o Benchmark. Só um conselho: antes disso, comece a distribuir o seu currículo já com antecedência no mercado, pois você não vai durar muito no emprego. Detalhe: o Balanced Scorecard independe das ciências naturais. Mas toma por base os levantamentos estatísticos, obviamente.

E é assim mesmo: grande parte do discurso da patuléia da auto-ajuda não tem muito sentido.

Se já falei do uso de frases de efeito, característica típica da lavagem cerebral promovida pelos gurus de auto-ajuda, agora segue um outro exemplo, agora de falsa dicotomia, um dos RECURSOS PREFERIDOS dos “brainwashers” que o Ludwig lê:

Uma citação para guardar, e emoldurar: «Knowing the answer means nothing. Testing your knowledge means everything.»

Quer dizer, qualquer pessoa que não é um retardado sabe que a citação é patética e infantil. Mas olhem o que Ludwig afirma: “para guardar, e emoldurar”.

Aquilo que causaria vergonha para qualquer pessoa sadia mentalmente causa ORGULHO para ele.

Mas é exatamente esse o comportamento de um fanático por auto-ajuda. Ele ouve aquela defecação verbal do guru e acha que deve “guardar e emoldurar” essas frases de efeito, principalmente de falsa dicotomia.

Pessoas normais e inteligentes normalmente dizem: “O Six Sigma é a metodologia mais estabelecida para a qualidade e funciona como um modelo de gestão, ao passo que o antigo TQM não oferecia a mesma visão gerencial com orientação ao portfolio, embora também fosse focado na qualidade”. Como se vê, sem enrolação. Olhem o que um leitor de auto-ajuda escreveria: “Six Sigma significa tudo, TQM significa nada”. Obviamente, é uma frase mais curta mas é só enrolação. Só serve como frase de efeito, suportada pelo recurso de falsa dicotomia, mas não tem utilidade prática e não significa algo minimamente válido.

Imaginem só a situação hipotética: o Gerente de uma área de Negócios é convocado pelo Diretor executivo e deve dar uma resposta à respeito do atendimento ou não das metas da área de negócios, que seria uma redução percentual de 5% em custos no primeiro semestre. De novo, se a resposta for “Saber a resposta não significa nada. Testar o seu conhecimento significa tudo” o negócio é fazer isso, mas já ter distribuído o currículo antes.

Obviamente que as pessoas mentalmente sãs riem nas costas do infeliz. As vezes até riem pela frente.

Talvez isso explica por que os neo ateus andam tão agressivinhos ultimamente.

Mas, pelo que se nota, grande parte da auto-ajuda neo ateísta acaba servindo para pessoas que buscam um emprego mais modesto, na área acadêmica, e, portanto, não precisam lutar contra parte das dificuldades do mundo real (que é muito mais emocionante que o mundo acadêmico).

Outra característica do leitor de auto-ajuda mais fanático, como o Ludwig, é que eles sempre tentam vender gato por lebre.

De novo, é como os vendedores da Herba Life ou a turma do Lair Ribeiro.

No exemplo do Ludwig, ele tentou vender ao leitor a palestra do Lawrence Krauss como se fosse sobre cosmologia, certo? Errado. A palestra é de auto-ajuda neo ateísta, em que o sujeito pratica a falsa dicotomia entre ciência e religião o TEMPO TODO (aliás, a suspeita surgiu quando apareceu o Richard Dawkins no início), e usa como “ganchos” argumentações sobre a cosmologia.

Mas a palestra não tem nenhum sentido de informação científica, e sim de “divulgação científica” (algo que também geralmente é vendido em formato de auto-ajuda, como Carl Sagan fazia), e uso de manipulações semânticas e frases de efeito anti-religião.

Em suma, mais do mesmo.

A coisa é tão vergonhosa para os neo ateus que, com o crescente conhecimento que os cristãos estão adquirindo das táticas (e fraquezas) deles, talvez seria interessante que eles pensassem em uma estrutura de graus, como uma ordem iniciática, e escondessem o seu material do público externo.

Motivo: evitar que todo o seu corpo de conhecimento seja ridicularizado. Já que a facilidade com que se pode ridicularizar os discursos de gente como Ludwig, e seus gurus, é impressionante.

Pensando bem, é melhor que eles continuem assim.

Será mais divertido ainda.

Escrito por lucianohenrique

outubro 30, 2009 em 8:15 am

Uma requisição de neo-ateus: o direito de ser idiota

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Recentemente, José Saramago, ao defender o seu livro “Caim’, saiu alegando que usava uma interpretação literal da bíblia. Quando questionado a respeito disso, sua argumentação foi apenas aquela que já virou um clichê: “não tenho um teólogo ao meu lado, portanto interpretarei literalmente”.

Vários outros autores neo-ateus já usaram o mesmo recurso, principalmente Richard Dawkins.

O estratagema é bem simples: o sujeito finge que entendeu da forma mais pejorativa possível e critica ESSE entendimento. E ainda por cima tem a cara de pau de criticar aqueles que entenderam de outra forma, através de muito mais estudo, cultura, aptidão e discernimento.

A tática dos neo-ateus nesse caso se baseia em dizer: “não há uma interpretação oficial, portanto escolho a interpretação que eu quiser, e vai ser essa. E fim”.

Naturalmente, a interpretação escolhida será aquela tradicionalmente feita pelas crianças religiosas de 10 anos, no máximo.

Entretanto, o trunfo que aparentemente está nas mãos dos neo-ateus, se for analisado criticamente, seria motivo de vergonha para eles.

Pois na verdade eles CLAMAM pelo direito de interpretar da forma mais infantil possível. Não passa da luta pelo direito de ser burro.

A atitude deles é tão risível que seria similar a um sujeito que resolvesse questionar o Big Bang e dissesse que o ovo cósmico não implica em uma galinha (apenas em sua versão literal). Aí os físicos questionariam o infeliz dizendo que a interpretação dele é pueril. Bastaria então ele juntar uns amiguinhos e afirmarem em uníssono que “se há ovo cósmico, deveria ter uma galinha” e insistir no fricote, de forma histérica.

Claro que as autoridades no assunto ririam da cara do sujeito, e saberiam que ele é um incapaz.

Simplesmente os estudiosos sabem o que é metáfora ou não. E mesmo que discordem de alguns pontos específicos (o que é natural em toda área de conhecimento humano), nenhum físico decente irá sair interpretado que o ovo cósmico é um ovo que devia ter se originado de uma galinha.

Mas é claro que o estúpido poderá em público lutar pelo direito de sair dizendo que “eles estão interpretando o ovo cósmico metaforicamente, para não ter que apresentar a galinha”. E até poderão dizer que “passaram a interpretar o ovo cósmico metaforicamente SOMENTE depois que se descobriu que no início foram formados predominantemente átomos de hidrogênio, e então posteriormente o hélio”.

A partir daí o ignóbil neo-ateu, que já tem a informação que necessita para não mais interpretar mais a palavra literalmente, começa a se orgulhar em permanecer irredutível. E com estratagemas para DEFENDER o direito de sua irredutibilidade.

Mas nem precisariam insistir, pois,  tecnicamente, qualquer pessoa pode interpretar QUALQUER coisa do jeito que quiser.

Só que, em público, todos os capazes poderão notar que sua interpretação refere-se à mente de uma pessoa dotada de alta parvoíce, ao invés de alguém culto.

Para atacar a Bíblia, o jeitão deles é agir feito um néscio.

Naturalmente, nesse caso, não atacam ninguém e só dão munição para qualquer argumentação contra o conhecimento deles no assunto.

Mas, como diria a religião cristã… é a escolha deles posarem de idiotas.

Esse é o livre arbítrio. Por exemplo, alguém pode ser ignorante ou sábio quanto a qualquer assunto.

Não que eu ache que eles também sequer ENTENDAM o que livre arbítrio significa, pois, como diria o Barão de Itararé, de onde menos se espera, daí mesmo é que não sai nada.

Escrito por lucianohenrique

outubro 29, 2009 em 12:41 am

Deus, um Delírio – Os Prefacios da Baixaria 2 – Os consolos de Dawkins

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chorando

Ainda no prefácio à edição de bolso de “Deus, um Delírio”, Richard Dawkins segue com o show de pérolas que ele iniciou na primeira metade desta introdução. Aquela parte já foi comentada neste texto aqui.

Se lá ele se embretou ao cometer erros grotescos ao falar sobre o fundamentalismo, nessa segunda metade do prefácio ele se dedica a um dos clichês mais tradicionais desde os tempos de Karl Marx: chamar a religião de consolo (Marx dizia que era o “ópio do povo”, o que dá quase no mesmo).

Como se vê, de novo apenas a gororoba requentada do materialismo dialético.

Dawkins já começa simulando alguém lhe perguntando sobre o que fazer “sem a religião” (notem que ele assume “religião como consolo”):

O que você vai colocar no lugar dela? [religião] Como você vai consolar quem perde um ente querido? Como vai suprir a carência? Quanta condescendência! “Você e eu, claro, somos inteligentes e cultos demais para precisar de religião, Mas as pessoas comuns, a patuléia, o proletariado orwelliano, os semi-idiotas deltas e ípsilons huxleanos, eles precisam da religião”.

Mas quem disse para ele que a religião precisaria de um substituto neste caso?

Supondo que alguém ache que religião é “consolo” (o que é um absurdo completo, como será mostrado ainda aqui), essa pessoa poderia colocar qualquer coisa como “consolo”.

Pois, se alguém usa a religião como o consolo, o problema é desta pessoa. Não da religião.

Mais divertido ainda é Dawkins sugerir uma suposta “carência”. De novo, só se for carência da pessoa. Mas não por causa da ausência da religião.

O cômico no final é a simulação da consultoria, em que Dawkins diz “quais pessoas” precisam da religião.

Quer dizer… agora será que a Biologia (área do Dawkins) versa também sobre consultoria de gostos pessoais?

A obsessão de Dawkins por sair de sua área de especialização (e errar retumbantemente) é desmedida.

Mas ele não larga de seu osso. Notem:

Voltando a necessidade de consolo da humanidade, ela existe, é claro, mas não há alguma infantilidade na crença de que o universo nos deve um consolo, como de direito? [...] É impressionante, além do mais, a quantidade de gente que não consegue entender que “X é um consolo” não significa que “X é verdade.

Essa parte do “ela existe [necessidade de consolo], é claro” vem apenas da fé de Dawkins.

Mas vamos supor a hipótese infantil de Dawkins, de que a religião seria para “consolo”. [obviamente não acredito nessa tolice, mas vamos considerar a questão, a título de argumento]

Que raio de idéia maluca é essa de dizer que se um consolo é buscado em algo, isso seria oriundo de uma “dívida” do universo?

Como um universo impessoal teria dívidas?

Só no mundo maluco de Dawkins…

E, adotando a perspectiva agnóstica (só a título de debate, novamente, pois eu poderia adotar a perspectiva teísta, que é a minha), como o sujeito pode confundir a defesa de algo como útil para a humanidade com algo ser universalmente válido para a humanidade?

A justificativa de Dawkins (possibilidade de “não ser a verdade”) para execrar a religião, portanto, é inválida.

Talvez Dawkins poderia alegar que foi erro de digitação.

Pensando bem, não pode não, pois ele repete o erro a seguir:

Citando um crítico canadense: “Os ateus podem estar certos sobre Deus. Vai saber. Mas, com Deus ou sem Deus, fica mais claro que há algo na alma humana que demanda a crença de que a vida tem um objetivo que transcende o plano material. Era de imaginar que um empiricista do tipo mais-racional-que-vós como Dawkins reconhecesse esse aspecto imutável dar natureza humana [...] Será que Dawkins acha mesmo que este mundo seria um lugar mais humano se todos nós procurássemos a verdade e o consolo em Deus, um Delírio e não na Bíblia?” Na verdade, sim, já que você mencionou “humano”, sim, acho, mas devo repetir, mais uma vez, que o potencial de consolo de uma crença não eleva o seu valor de verdade.

De novo a historinha de religião como “consolo”?

E de novo levar a discussão sobre “utilidade” da religião para a humanidade com “valor de verdade”?

Ridículo, pois uma discussão é sobre UTILIDADE. Outra discussão é sobre VALOR DE VERDADE.

Quando alguém fala da utilidade ou não da religião, isso não tem nada a ver com valor de verdade ou não da religião. Ou de qualquer outro conceito sob discussão.

O fato de Dawkins ter cometido o mesmo erro de achar que um argumento sobre utilidade é o mesmo que a discussão sobre valor de verdade já mostra o despreparo filosófico do mesmo.

Mas notem só quem busca consolo…

Depois de ler Deus, Um Delírio, o dr. David Ashton, um médico britânico escreveu-me contando da morte inesperada, no Natal de 2006, de seu adorado filho Luke, de dezessete anos. Pouco antes, os dois haviam conversado elogiando a entidade sem fins lucrativos que estou montando para incentivar a razão e a ciência. No enterro de Luke, na ilha de Man, seu pai sugeriu à congregação que, se alguém quisesse fazer algum tipo de contribuição em memória do filho, deveria enviá-la a minha fundação, como Luke gostaria. Os trinta cheques recebidos somaram mais de 2 mil libras, incluindo mais de seiscentas libras arrecadadas num evento no pub local. O garoto obviamente era muito querido. Quando li o livreto da cerimônia fúnebre, chorei, literalmente, embora não conhecesse Luke, e pedi permissão para reproduzi-lo no richardawkins.net.

Ou seja, Dawkins acabou de descrever o pai de um leitor seu que buscou consolo no ateísmo após a morte do filho. Quem dizer, o argumento de Dawkins de “religião como consolo” saiu prejudicado aqui…

Para piorar, é uma confissão de que Dawkins recebe seus dízimos…

Hmm… Cada vez as descobertas sobre Dawkins e seus leitores ficam mais divertidas.

Melhor é o seguinte:

É óbvio que há exceções, mas suspeito que para muitas pessoas o principal motivo de se agarrarem à religião não seja o fato dela oferecer consolo, e sim o de elas terem sido iludidas por nosso sistema educacional, e não se darem conta de que podem não acreditar. Decerto é assim para a maioria das pessoas que acham que são criacionistas. Simplesmente não ensinaram direito a elas a impressionante alternativa de Darwin.

De uma hora para outra, o argumento era sobre religião.

Talvez esperando que o leitor mais atento não prestasse atenção, Dawkins RETIROU a discussão da questão religião x ateísmo e jogou para a discussão criacionismo x darwinismo.

Que palhaçada é essa?

Obviamente que o erro argumentativo é tão grotesco que o texto acima não passa por qualquer exame lógico.

Alguém deveria ensinar ao Dawkins que Darwinismo NÃO É OPOSIÇÃO à religião.

Só na cabeça de Dawkins. E de Dennett, claro. E da patota deles.

Mas, concluindo, o grande erro de Dawkins é mesmo associar a religião a consolo.

Nota-se isso no fato de que Dawkins ignora que o livre arbítrio é um dos paradigmas principais da religião.

E o livre arbítrio é o fator mais DESALENTADOR que há na religião.

Quer dizer, quando se acredita em livre arbítrio, é transferida à pessoa responsabilidade plena por suas ações e seus RESULTADOS.

Com isso, não há mais tanto com o que se confortar, pois para quase todas as decisões erradas que a pessoa tomou, ela precisa ouvir a verdade nua e crua: “Você escolheu”.

Tudo isso sem transferir a responsabilidade a coisas como genes egoístas e infantilidades afins.

Não há que se transferir responsabilidade, e sim ASSUMIR responsabilidade.

O único consolo que existe talvez seja para Dawkins e seus leitores.

Ao acreditarem na ilusão de que a religião é um consolo.

Por enquanto, a crença no gene egoísta é um consolo. É uma crença para fracos.

A crença em livre arbítrio é uma crença para fortes.

Coisa que Dawkins jamais será.

Escrito por lucianohenrique

outubro 27, 2009 em 9:05 pm

A “moral” neo-ateísta observada no caso de Gunther Link

com 26 comentários

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A comunidade do Orkut “Richard Dawkins Brasil” mostrou um exemplo do estado moral deplorável em que alguns fãs de tal autor se encontram.

Ironicamente, grande parte da campanha de Dawkins se baseia em FINGIR que é possível se desenvolver uma moral mesmo distante do teísmo.

Talvez alguns participantes da comunidade dele não conseguiram fingir direito e mostraram ao público o que realmente são.

Eles comentaram, em um tópico entitulado “HAHA”, o caso de alguém que supostamente teria ido à uma igreja ‘agradecer’ por ter escapado da morte, e então teria morrido por lá, esmagado por um altar de pedra.

A bizarrice de tudo é tamanha que preciso comentar isso em duas partes:

Parte 1 – A credulidade neo-ateísta

A notícia é a seguinte:

O austríaco Gunther Link, um católico devoto de 45 anos, escapou da morte quando ficou preso em um elevador. Em seguida, foi a uma igreja agradecer a Deus, mas o altar de pedra caiu sobre ele e o matou, segundo o jornal britânico “Telegraph”. O caso ocorreu na Igreja Weinhaus, em Viena, capital austríaca. Link teve morte instantânea, segundo o jornal. “Ele era um homem muito religioso, ficou assustado quando ficou preso no elevador e rezou para se livrar”, disse Roman Hahslinger, porta-voz da polícia. “Pouco depois, ele saiu do elevador e foi direto à igreja para agradecer”, disse o policial. “Ele aparentemente abraçou um pilar de pedra em que o altar estava apoiado, e o altar caiu sobre ele, matando-o na hora.” O corpo de Link foi encontrado por paroquianos que chegaram à igreja no dia seguinte para assistir a uma missa. As impressões digitais da vítima foram encontradas no altar. O caso vai ser investigado. (fonte: Globo.com, a partir da fonte original: Telegraph)

Notem que primeiro deveria ser investigada a idoneidade do jornal. Supondo que o jornal seja de esquerda, grandes suspeitas surgem sobre a notícia.

Em segundo, deveria ser investigado o nome do jornalista. Se for comunista ou ateu, é possível que ele tenha maquiado a reportagem. [N.E. - Sempre prestem atenção ao VESTED INTEREST]

Parece muito suspeito o fato de Gunther ter ido à igreja AGRADECER por sair de um elevador. Não parece que há motivo suficiente.

Até por que o sujeito ficou preso no elevador, mas não há indícios de que ele tenha corrido risco de vida, ou até ACHADO que tenha corrido risco de vida. A notícia não mostra nada disso.

Notem que a frase do porta-voz da polícia, Roman Hahslinger, NÃO DÁ NENHUMA PISTA de que a pessoa teria ido à Igreja para rezar explicitamente POR ter saído do elevador.

Mais um problema seríssimo da notícia é que não há nenhuma relação entre a hora do evento em que Gunther Link ficou preso no elevador, e a hora em que Gunther foi à igreja.

Sendo assim, a morte de Gunther Link pode ser uma fatalidade, mas não HÁ EVIDÊNCIA ALGUMA de que a “ironia” afirmada pelos neo-ateus (“o sujeito vai rezar para agradecer e morre”) ocorreu.

Ou seja, para encontrar tal “ironia” é preciso de FÉ CEGA por parte dos neo-ateus.

Isso sim é que é uma ironia…

Parte 2 – A ausência de moral

Agora, não tão irônico, mas pateticamente torpe, é a atitude de se RIR da morte de alguém.

Convenhamos,  até o fato de RIR é justificável, por desatenção. Mas JUSTIFICAR essa risada continuamente, conforme ocorreu no tópico, são outros 500.

A cara de pau dos neo-ateus que riram é tamanha que alguns chegaram a comparar isso com o fato de se rir de alguns sketches do grupo inglês Monty Python, em que satirizam a morte. Curioso que em qualquer um desses sketches ninguém morre de verdade. Se eles não prestaram atenção, são apenas encenação de mortes, e não mortes reais.

Justiça seja feita, no tópico há uns 2 ou 3 ateus (talvez não sejam neo-ateus, mas não tenho certeza) que criticaram a atitude da absoluta maioria dos neo-ateus do tópico.

Ora, nós sabemos que o respeito pelos outros, mesmo que não conheçamos, é necessário para uma sociedade estável.

Mas vejam o que algum deles escreveu:

Além da falta de interpretação de texto, por não entenderem que não é morte da pessoa que é engraçada, agora somos julgados com sem bom senso, sem caráter e que não merecem respeito. Sabe o que isso tá parecendo? Deixa ver… ah, sim! Religião.

O cara acabou, sem querer, elogiando a religião!

Com certeza, são os valores da religião que ensinam que o respeito aos outros é uma virtude. Diferentemente do que ocorre na China, nos quartos da morte, em que o respeito aos outros é desnecessário. Até condenável, diga-se.

Mas, conforme Tim Keller já afirmou, a base do comportamento neo-ateísta é o desrespeito à religião e AOS RELIGIOSOS.

Logo, a postura dos neo-ateus deste tópico não é nada mais que previsível.

Só que, sem querer, acabaram dando motivos para suspeitar de quase todo o capítulo 6 de “Deus, Um Delírio”, que tenta achar as origens para a moralidade a partir da evolução.

Se for a moralidade desses neo-ateus que deram risada do fato de alguém morrer, até pode ser.

Mas não tem nada a ver com a moralidade de pessoas civilizadas…

E como diria Thomas Woods, a Igreja Católica é quem construiu a nossa civilização.

Sorte nossa!

Escrito por lucianohenrique

outubro 27, 2009 em 8:18 am

Deus, um Delírio – Os Prefacios da Baixaria 1 – Rejeição à crença na crença e erros sobre fundamentalismo

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fundamentalismo

Última atualização: 26 de outubro de 2009 – [Index Reverso][Página Principal]

Se você já leu, neste blog, a crítica ao livro “Deus, Um Delírio”, de Richard Dawkins, poderá talvez se interessar em conhecer profundamente todos os erros e bizarrices contido em tal obra.

Nesse texto, comentarei parte das esquisitices cometidas no “Prefácio à Edição de Bolso”, que está na mais recente edição do livro. Não comentarei o segundo Prefácio, pois ele aborda todos os temas deste no decorrer dos capítulos do livro (que serão criticados aqui também, em seu devido tempo).

Dawkins começa criticando aqueles intelectuais que “acreditam na crença”.

Essa idéia veio de Daniel Dennett, e Dawkins apenas faz uma emulação dela.

Quem “acredita na crença”, segundo a dupla, é alguém que mesmo não tendo uma crença, consegue respeitá-la.

Notem o que Dawkins escreve:

[...] um número desconcertantemente grande de intelectuais “acredita na crença”, embora não tenham eles mesmos a crença religiosa. Esses fiéis de segunda mão são frequentemente mais zelosos que os originais, o zelo inflado pela tolerância simpática: “Ora, não tenho a mesma fé que você, mas respeito-a e me solidarizo com ela” [...] “Sou ateu, mas…” A continuação é quase sempre inútil, niilista ou – pior – coberta por uma negatividade exultante.

A crítica de Dawkins é explícita: o respeito à crença de outrém é um erro.

Ele chega a chamar estas pessoas de “fiéis de segunda mão”.

Seria o mesmo que chamar alguém que não é Administrador de Empresas, mas respeita a profissão, de um Administrador de Empresas de segunda mão. Ou alguém que não é casado, mas respeita o casamento, de um casado de segunda mão.

Como se vê, falta lógica a Dawkins em sua tentativa pífia de xingamento.

Além do mais ele afirma que a tolerância em si destes “fiéis de segunda mão” traria mais ZELO do que os “fiéis originais”.

Particularmente acho difícil, mas se Dawkins trouxesse alguma evidência disso, a coisa ficaria mais clara.

Só que Dawkins não traz NENHUMA evidência a seu favor. Assim fica difícil.

A conclusão também é bizarra, pois ele diz que a afirmação “Sou ateu, mas…” acaba trazendo uma “negatividade”.

Claro que não, pois em muitos casos afirmar que não se é parte de algo e incluir um “mas” pode simplesmente significar que esta pessoa queira afirmar que mesmo diferente, respeita o outro.

Qual a negatividade, por exemplo, em dizer que “não se é gay, mas respeita os homossexuais”?

Dawkins não consegue sustentar nenhum argumento em favor de que incluir o “mas” seja algo intrinsecamente negativo.

O começo, como pode se notar, mostra que Dawkins mais usa o instinto do que a razão para escrever.

Mais pífio ainda é o seguinte:

[...] a maioria de nós desqualifica sem problemas as fadas, a astrologia e o Monstro Espaguete Voador, sem precisar afundar em livros de teologia pastafariana, e assim por diante [...]

Isso foi escrito em complemento a um texto de um amigo de Dawkins, PZ Myers, que teorizou ironicamente a respeito do seguinte: para Myers (assim como para Dawkins) não é preciso ter conhecimento de uma área para criticá-la.

Em seguida ele afirma que muitos “desqualificam” as fadas, a astrologia e o Monstro Espaguete Voador.

Ridículo, claro, pois muitos sequer PRESTAM ATENÇÃO à existência de tais entidades.

Muito diferente de Richard Dawkins, que PRESTA EXCESSIVA ATENÇÃO (embora não aprenda nada sobre) a Deus.

Qualquer que seja a relação de um religioso ou ateu tradicional com as fadas,  a astrologia e o monstro espaguete voador, ela não possui nenhum componente de OBSESSÃO assim como é a relação de Dawkins com Deus.

Em relação à essas entidades, os religiosos simplesmente as IGNORAM.

A desculpinha de Dawkins, portanto, é inútil.

Deve-se notar, também, a ignorância do autor ao citar ao fato das pessoas não se “afundarem” a respeito da “teologia pastafariana” (a do Monstro Espagueti Voador).

Como se afundar em algo que sequer existe?

Seria impossível estudar textos que não existem, até por que o Monstro Espagueti Voador não passa de piadinha. Não há estudo teológico sobre piadinha.

E, de novo, não fazemos campanha contra o Monstro Espaguete Voador.

Simplesmente o desprezamos. Como fazemos com qualquer piadinha infantil.

A seguir, Dawkins justifica a sua “ferocidade” contra os religiosos afirmando que os religiosos “fanáticos” são maioria.

Vejam:

Se o predomínio fosse só dessa espécie sutil e amena de religião, o mundo sem dúvida seria um lugar melhor, e eu teria escrito outro livro. A melancólica verdade é que esse tipo de religião decente e contido é numericamente irrelevante. Para a imensa maioria de fiéis no mundo todo, a religião parece-se muito com o que se ouve de gente como Robertson, Falwell ou Haggard, Osaba bin Laden ou o aiatolá Khomeini. Não se trata de testas-de-ferro; são todos influentes demais e todo mundo hoje em dia tem de lidar com eles.

Mas que porra é essa?

O sujeito afirma que defende a razão e o ceticismo e vem afirmar que “a imensa maioria dos fiéis” é radical ou fanática e não traz NENHUMA amostragem estatística disso?

A irracionalidade está, portanto, na alegação de Richard Dawkins.

Por enquanto, o autor inglês não comprovou a “imensa maioria”.

Mas a obra prima da irracionalidade do pensamento de Dawkins vem no próximo parágrafo. A quantidade de estultíces é tão grande que não é possível analisar o  parágrafo sem apontar, com números, os pontos contestáveis em seu argumento. Dessa forma, incluí os números entre colchetes para facilitar o acompanhamento.

Divirtam-se quando Dawkins comenta sobre o questionamento sobre ele ser também um fundamentalista:

Não, por favor, é fácil demais confundir uma paixão capaz de mudar de opinião com fundamentalismo, coisa que nunca farei [1]. Cristãos fundamentalistas são apaixonadamente contra a evolução [2], e eu sou apaixonadamente a favor dela. Paixão por paixão, estamos no mesmo nível. E isso, para algumas pessoas, significa que somos igualmente fundamentalistas [3]. Mas, parafraseando um aforismo cuja fonte eu não saberia precisar, quando dois pontos de vista contrários são manifestados com a mesma força, a verdade não está necessariamente no meio dos dois [4]. É possível que um dos lados esteja simplesmente errado. E isso justifica a paixão do outro lado [5]. Os fundamentalistas sabem no que acreditam e sabem que nada vai mudar isso [6]. A citação de Kurt Wise, na página 366, diz tudo: “[...] se todas as evidências do universo se voltarem contra o criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, mas, continuarei sendo criacionista, porque é isso que a Palavra de Deus parece indicar. Essa é a minha posição”. A diferença entre esse tipo de compromisso apaixonado com os fundamentos bíblicos e o compromisso igualmente apaixonado de um verdadeiro cientista [7] com as evidências é tão grande que é impossível exagerá-la [8]. O fundamentalista Kurt Wise declara que todas as evidências do universo não o fariam mudar de opinião. O verdadeiro cientista, por mais apaixonadamente que “acredite” na evolução, sabe exatamente o que é necessário para fazê-lo mudar de opinião: evidências [9]. [...] Cunho aqui minha própria versão contrária ao manifesto de Kurt Wise: “Se todas as evidências do universo se voltarem a favor do criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, e mudarei de opinião imediatamente[...] Minha paixão baseia-se nas evidências. A deles, que ignora as evidências, é verdadeiramente fundamentalista”. [10]

1 – Começou mal, pois a afirmação “coisa que nunca farei” não prova absolutamente nada. É uma evidência anedota. O fundamentalismo é observado a partir de comportamento, e não por declaração do que se fará. Outra coisa: talvez Dawkins tenha confundido fundamentalismo com fundamentalismo religioso, o que seria manipulação semântica. Notem aqui, no Wikipedia, como é possível o fundamentalismo ser secular também. Observação: o fundamentalismo, em si, não fala nada de IMPOSSIBILIDADE de se mudar uma idéia.

2 – Aqui ele afirma que cristãos fundamentalistas são apaixonadamente contra a evolução. Não há sentido nisso, pois é possível que um cristão até liberal seja contra a evolução. Por vários motivos. Um deles pode ser a absoluta falta de necessidade da pessoa lidar com a teoria da evolução, então ela poderá negá-la somente por orgulho. Algo como dizer que “o universo surgiu quando eu nasci, e vai terminar quando eu morrer e BUM”. Isso pode ser dito mesmo sem uma pessoa ser fundamentalista. Outra possibilidade é que alguém diga que é contra a evolução apenas por não conhecer a teoria da evolução. Mais uma possibilidade é que alguém negue o evolucionismo impressionado pelo falatório fundamentalista de gente como Dawkins e Dennett sobre darwinismo, e então negue isso, achando que isso representa a evolução (quando, na verdade, não representa). Ou seja, existem vários motivos que podem levar à negação da evolução sem que seja o cristianismo fundamentalista.

3 – A questão é que realmente são fundamentalistas da mesma forma, considerando o fundamentalismo como aderência ESTRITA a princípios de uma doutrina, ideologia, etc.

4 – Isso aqui não tem absolutamente nada a ver com ser ou não fundamentalista. Existindo possibilidades de acerto ou erro (como em teorias), a declaração de Dawkins é ÓBVIA, mas não implica que a paixão por qualquer uma das possibilidades teóricas seja automaticamente livre da acusação de fundamentalismo somente por isso.

5 – A conclusão não é suportada pelas premissas. Qualquer coisa pode justificar uma paixão. A declaração de justificativas de paixão é aberta, baseada em declarações de crença pessoal, e não seguem a princípios estritos de investigação. Logo, a paixão sempre se justifica por si própria. O melhor é dizer que a paixão NÃO PRECISA de justificação. E não deixa de livrar a cara de alguém ou não de acusações de fundamentalismo. É importante que Dawkins não entendeu que o fundamentalismo não é baseado em motivos subjetivos, e sim no COMPORTAMENTO observado. Ficar justificando ad aeternum os motivos ou contar historinhas como ‘ah, eu mudarei de opinião se vier evidência em contrário’ não mudam absolutamente nada a acusação de fundamentalismo de alguém.

6 – Essa declaração de Dawkins é totalmente baseada em crença pessoal dele, NÃO É VERIFICÁVEL. Até por que todo fundamentalista pode alegar que NÃO é fundamentalista, e apenas segue o que as evidências lhe dizem.

7 – A questão de “verdadeiro cientista” é uma alegação totalmente anedótica, e portanto irrelevante. O que já desqualifica o argumento de Dawkins. O método científico existe INDEPENDENTE do fato de um cientista decidir OU NÃO mudar de opinião. Vejam o exemplo de Dawkins. Não há evidências a favor da teoria da memética, e ele acredita nisso há mais de 30 anos. Crença por crença, não é crença diferente das crenças cegas e inquestionáveis de alguns religiosos mais radicais (que, convenhamos, não representam a totalidade dos religiosos).

8 – A afirmação de que é “impossível exagerar” o compromisso de um cientista é completamente falsa. Basta ver os trabalhos de Dawkins e Dennett, que exageram a teoria da evolução além de qualquer limite aceitável por alguém racional. Quanto mais Dawkins tenta se engasgar para dizer que não é fundamentalista, MAIS FICA EVIDENTE o quanto ele não possui argumentos em favor de sua tese de que ele NÃO é fundamentalista (“só os outros”, segundo Dawkins).

9 – Não há evidências de que um cientista mude de opinião quando surjam evidências em contrário. Tanto que nenhuma teoria científica possui “consenso” absoluto. Sempre há dissidentes, justamente pelo fato de que cientistas podem ficar APEGADOS às suas crenças. O exemplo em questão, que falseia a alegação de Dawkins, nem sequer seria necessário, pois depois do item [7], o argumento dele já está demolido. Mas sempre dá para dar um chutinho a mais nos castelos de areia do autor inglês.

10 – Declaração de como funcionará a mente de Dawkins ante a possíveis evidências contra sua crença são IRRELEVANTES como argumento. Não há evidências de que a paixão de Dawkins se baseie em evidências (lembrem-se que Dawkins não defende só o evolucionismo e sim um evolucionismo EXAGERADO, que inclui até sandices como gene egoísta, fenótipo extendido e memética, nem um pouco suportados por evidências).

Quer dizer, Dawkins não consegue em momento algum provar que NÃO é fundamentalista, e para piorar o COMPORTAMENTO dele é tipicamente fundamentalista.

A justificativa dele, em forma de argumento, é recheada de erros lógicos, falácias de evidência anedota e manipulações semânticas (confusão entre “paixão” com “fundamentalismo” foi a pérola-mor).

É assim que começa o prefácio da edição de bolso de “Deus, Um Delírio”.

E é importante notar: esses foram os comentários referentes somente à PRIMEIRA METADE do prefácio – quando nos adentrarmos em cada um dos 10 capítulos do livro, a quantidade de erros é até maior. É por isso que o total dos artigos de refutação à esse livro estão planejados para superar o número de 30.

Em tempo: o próximo artigo falará sobre os “consolos” alegados por Richard Dawkins para a religião. Só se forem os “consolos” para o Dawkins.

Escrito por lucianohenrique

outubro 26, 2009 em 12:07 am

Além da auditoria: o self-assessment religioso para debates

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SelfAssessment

Que este blog transcende a perspectiva do mero ceticismo para o âmbito da auditoria e da investigação de fraudes, isso já deve ter ficado notório aos leitores.

Ademais, um dos objetivos aqui é mostrar práticas de auditoria para que os religiosos possam AUDITAR os argumentos apresentados pelos neo-ateus, e então apresentem refutações estruturadas destes.

Mas o foco deste post é outro: é buscar olhar um pouco para nós mesmos.

E mostrar como a aplicação de uma “pré-auditoria” pode ser útil até internamente. Isso significa que o teísta poderá investigar os seus próprios argumentos a serem apresentados, ANTES que os argumentos sejam publicados ou divulgados.

É o princípio do self-assessment, também utilizado (muito) nas organizações.

Nas empresas, o self-assessment se baseia em uma revisão compreensível e sistemática das atividades da organização, e seus resultados, em comparação com um modelo de excelência (para referência). Isso tudo realizado pelos próprios responsáveis pelas atividades, antes que chegue à alçada da auditoria interna ou externa.

Transcendendo isso para o mundo dos debates, é basicamente checar e avaliar os seus próprios argumentos antes de apresentá-los.

O motivo para isso é um só: assim como você pode refutar fácil muito dos argumentos neo-ateus, um neo-ateu (ou até um ateu tradicional) pode refutar os seus argumentos, caso você tenha incluído neles componentes facilmente refutáveis. Esses componentes são erros argumentativos básicos, falácias e estratégias erísticas, além da divulgação de informações fraudulentas.

Notem como eu pego um texto de um neo-ateu (há vários exemplos neste blog). Geralmente o sujeito aparece com o textinho dele e acha que vai passar pela checagem. Quando eu começo a encontrar os erros no argumento, o neo-ateu começa a fraquejar, e logo vai para a lona. A partir daí, torna-se presa fácil.

O mesmo pode ocorrer caso um teísta apresente argumentos com tais tipos de falhas lógicas.

Notem esse exemplo, em que um teísta tentou dizer que a ciência não substitui  a religião:

A ciência consegue mudar a vida de uma pessoa pra melhor? Consegue converter o coração de uma pessoa má e torná-la melhor? Consegue dar a paz que as pessoas precisam em um mundo tenebroso como o que enfrentamos hoje? Vocês deviam ler por exemplo as Bem-Aventuranças, que é a maior lição que Jesus deu a todos.

É correto o fato de que a ciência não substitui a religião, mas ele deveria ter feito isso apresentando os OBJETIVOS tanto de ciência como de religião.

Ele optou pelo caminho inverso e recheou o seu discurso de falácias e erros lógicos.

Vamos a eles:

  • (1) A ciência consegue mudar a vida de uma pessoa pra melhor?: A pergunta dele perde o efeito, pois a ciência consegue mudar a vida de não só uma pessoa para melhor como também de muitas pessoas. E de forma diferente que a religião, mas consegue. Logo, isso não ajuda em nada o argumento dele.
  • (2) Consegue converter o coração de uma pessoa má e torná-la melhor?: A questão do “coração de uma pessoa” é subjetiva, e não poderia ser alegada. Seria melhor considerar governos com ou sem religião, e observar os efeitos em larga escala, até de forma científica. Mas o questionamento à ciência aqui é também inútil, e apela a um objetivo que NÃO é da ciência. Erro grosseiro.
  • (3) Consegue dar a paz que as pessoas precisam em um mundo tenebroso como o que enfrentamos hoje?: A questão da “paz” é também subjetiva, portanto não deve ser alegada. Carl Sagan dizia que olhar para as estrelas do universo lhe dava a “paz de coração” que necessitava. Logo, qualquer um pode dizer que retira tal “paz” de onde quiser. Não serve como argumento.
  • (4) Vcs deviam ler por exemplo as Bem-Aventuranças, que é a maior lição que Jesus deu a todos.: Eu sou católico, e acho que realmente é a maior lição. Mas nem todos são cristãos, então o argumento dele só seria válido se o outro interlocutor fosse cristão.

Mas o pior de tudo é que o argumentador ainda por cima ASSUMIU que ciência e religião eram opostos, e portanto deveria haver uma ESCOLHA.

Ele caiu na armadilha desejada por qualquer neo-ateu: aquela que diz que há conflito entre ciência e religião.

Obviamente que eu afirmei ao debatedor ANTES que qualquer neo-ateu se expressasse: “você já perdeu esse debate”. E perdeu mesmo. Qualquer um refuta isso fácil, e não demorou meia hora para o refutarem.

E, detalhe, não era preciso que o outro fosse neo-ateu para ter vontade de refutar isso tudo que o teísta escreveu. Até um ateu tradicional iria fazê-lo. EU MESMO já me disponibilizei para refutar.

A lição que fica é: o direito de cometer erros lógicos e ser ignorante em relação aos conceitos básicos do que é ciência e religião, além do que é lógica e argumentação, é democrático: tanto pode acontecer com um religioso ou com um ateu.

E todos se tornam vulneráveis no debate após cometê-los.

Por isso, o conhecimento básico antes de qualquer debate que envolva religião e ciência é:

  • (1) Saber o que é religião e teologia
  • (2) Saber o que é ciência e epistemologia (mas nada de Carl Sagan, por favor, e sim Popper, Kuhn, Descartes…)
  • (3) Saber o básico de lógica e argumentação
  • (4) Conhecer o ceticismo e seus limites
  • (5) Saber auditar e investigar fraudes de possíveis argumentos oponentes
  • (6) Praticar o self-assessment

Até por que, independente do responsável por um argumento ser teísta ou ateísta, meus olhos ou ouvidos não são penico.

Escrito por lucianohenrique

outubro 25, 2009 em 12:49 am

As informações que os neo-ateus escondem: os quartos da morte na China

com 10 comentários

Esse vídeo tem um tempinho já.

Cada vez mais fica claro que o governo chinês, por ser de orientação comunista (ao invés de um socialismo mais “light”, como na França), acha uma maravilha tudo aquilo que Karl Marx escreve.

Oras, Marx era um dos primeiros neo-ateus que surgiram. O objetivo de Marx não era viver sua vida sem religião, mas viver CONTRA a religião.

O resultado de uma cultura baseada em seus escritos é isso aí: uma NEGAÇÃO COMPLETA dos valores religiosos.

Isso explica por que a China é um país praticamente não-civilizado.

Muitos ateus citam que EXEMPLO de país ateu seria a Suécia. Seria? A Suécia sequer tem o governo oprimindo religiões. No máximo, é um país DIVIDIDO entre a religião e o ateísmo.

Mas justiça seja feita. Para mim, a China não é apenas um país ateu. Mas sim um país neo-ateu. [N.E. - Portanto, não há nada neste post que possa ofender a um ateu]

E o vídeo mostra justamente a negação dos valores básicos da espécie humana, ensinados à nossa civilização pelas religiões.

Na China, o que existe é apenas o mundo de Epicuro, de Marx, etc…

Nada que ocorre no vídeo é surpreendente.

É simplesmente previsível.

Escrito por lucianohenrique

outubro 25, 2009 em 12:14 am

A ignorância bíblica de Saramago

com 7 comentários

jose_saramago

Como já noticiado por várias fontes, José Saramago resolveu pegar carona no movimento neo-ateísta e lançou o livro “Caim”, em que derrama todo o seu rancor contra a Bíblia e Deus.

Segue a notícia do dia 20 de outubro, da Express:

A Aliança Evangélica Portuguesa (AEP) recordou hoje, a propósito das declarações do escritor José Saramago, o valor “fundamental e inalienável” da liberdade de expressão, mesmo quando as ideias mostram “ignorância, preconceito e agressividade acerca da Bíblia e acerca de Deus”.

A AEP, que reúne várias denominações cristãs não-católicas, reagiu assim às declarações de José Saramago sobre a Bíblia, a propósito do lançamento do seu último livro, “Caim”.

O Prémio Nobel da Literatura afirmou, em entrevista à Lusa, que “a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”, acrescentando que não existe nada de divino na Bíblia nem no Corão.

Segundo a Zenit, no mesmo dia 20 alguns expoentes da Igreja falaram sobre as sandices de Saramago:

O biblista Fernando Ventura, capuchinho português, considera que a polêmica despertada pelas declarações do escritor José Saramago são um “golpe publicitário” que atinge um meio marcado por uma “atroz ignorância bíblica”.

O biblista concedeu declarações à Agência Ecclesia, do episcopado de Portugal, que ouviu expoentes da Igreja no país após Saramago, no contexto do lançamento de um novo livro, ter classificado a Bíblia como “um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade”.

Pe. Fernando Ventura afirmou que José Saramago teria a exigência intelectual de se informar antes de escrever. “A Bíblia pode ser lida por alguém que não tem fé, mas supõe alguma honestidade intelectual de quem o lê”, afirmou, acusando Saramago de “uma falta gigantesca” dessa honestidade. Mais grave, acrescentou o capuchinho, é o desconhecimento “do que são gêneros literários” ou do lugar do “mito” na literatura, o que considera especialmente negativo num escritor que se debruçou “sobre um âmbito que não domina”.
“Não saber situar o texto no contexto é imperdoável para um escritor”, assinala.

O biblista espera que esta polêmica sirva como “provocação” para que os católicos se questionem sobre a melhor maneira de responder a esse golpe publicitário. Já o bispo do Porto, D. Manuel Clemente, responsável pela área da cultura na CEP (Conferência Episcopal Portuguesa), disse que “uma personalidade como José Saramago, que tem mérito literário inegável, deveria ser mais rigoroso quanto fala da Bíblia”. Segundo o bispo, “bastaria ler a introdução a qualquer livro da Bíblia, nomeadamente o Gênesis, para saber que são leituras religiosas acerca da história de Israel”, depois recolhidas como “história bíblica para todos os cristãos e todos os crentes”.

D. Manuel Clemente diz que Saramago utilizou um discurso de “tipo ideológico, não histórico nem científico” e revela uma “ingenuidade confrangedora” quando faz incursões bíblicas. Já o Pe. Manuel Morujão, secretário da CEP, lamentou a “superficialidade” com que Saramago se debruçou sobre a Bíblia, considerando que “entrar num gênero de ofensa não fica bem a ninguém”, sobretudo a quem tem um estatuto de prêmio Nobel da Literatura. Pe. Morujão disse que esperava “mais” do prêmio Nobel, “independentemente da sua ideologia”. Recomendou “humildade” nas opiniões, para que estas não se apresentem como “pseudodogmas”. O sacerdote desejou ainda que se promova “muito mais a cultura bíblica”.

Como se nota, a figura de Saramago beira o patético.

A ingenuidade do escritor português fica evidente neste debate com o Padre Carreira das Neves.

O que é mais curioso nisso tudo é a cara de pau com que Saramago assume que a Bíblia tem que ser interpretada literalmente.

E ainda fica de cara feia quando se mostram interpretações mais sofisticadas.

Aliás, a tal interpretação literal eu não faço desde os 8 anos de idade.

Não que o Padre que debateu com ele seja dos melhores. Achei até manso demais.

Mesmo assim, não é preciso muito para mostrar como NÃO se interpretar a Bíblia.

Do jeito que Saramago interpreta com certeza não é.

Escrito por lucianohenrique

outubro 24, 2009 em 1:25 am

Técnica: Então é Deus!

com um comentário

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Última atualização: 23 de outubro de 2009 – [Índice de Técnicas]- [Página Principal]

Tecnica utilizada em quantidade impressionante, principalmente pelos neo-ateus que preferem focar mais na argumentação expandida do darwinismo (aquela em que o darwinismo é aplicado a tudo, incluindo a explicação da cultura humana). Só que mesmo vista com maior frequência nesses debates, o estratagema pode ser utilizado também em qualquer outro tipo de diálogo em que a questão divina esteja sendo discutida.

O conhecimento desta técnica é importante pois ela é a força motriz de grande parte do capítulo 4 do livro “Deus, um delírio”, de Richard Dawkins, que, como se sabe, é o suporte psicológico desse pessoal.

O foco desta técnica é tentar dizer que o religioso usa praticamente toda e qualquer avaliação de eventos para justificar a existência de Deus.

Para isso, o neo-ateu precisará FINGIR que o adversário cometeu um exagero, praticando um salto indutivo. Após isso, dirá que o religioso afirmou algo do tipo “Então é Deus!”, ao final da argumentação. Mesmo que em nenhum momento o religioso tenha dito isso.

Em cima deste fingimento, o neo-ateu irá então ridicularizar a argumentação religiosa com algo do tipo:

  • Vocês, religiosos, são todos iguais. Basta encontrarem a complexidade no DNA que já saem dizendo que é Deus.
  • Vocês, religiosos, encontram uma lacuna em uma explicação científica e já saem dizendo que é Deus.

E assim seguem, ad aeternum. E esses são apenas alguns exemplos, pois as “maquiagens” podem ser as mais variadas possíveis. Mas sempre elas contém o “salto” em que se finge que o teísta afirmou diretamente que a conclusão era a existência de Deus, sem que ele tenha na verdade afirmado isso.

O estratagema é adaptado da técnica 23 citada em Dialética Erística, de Schopenhauer, descrita pelo alemão desta forma:

[...] exagerar para além do que é verdade uma afirmação, que, em si e em certo contexto, pode ser verdadeira; e, uma vez refutado o exagero, é como se tivéssemos refutado também a proposição original.

Olavo de Carvalho sugere alguns cuidados importantes, inclusive este abaixo:

O estratagema 23 é de natureza puramente psicológica, funciona por provocação, quase por indução hipnótica (a programação neurolinguística tem meios muito eficazes para obter este resultado), e nada tem a ver com qualquer absurdidade intrínseca (lógica) contida na tese do adversário. Trata-se, na verdade, de uma mudança de gênero em discussão: transposta para além dos limites do gênero sobre o qual versa, qualquer afirmação se mostra absurda.

Exemplos do “truque”:

(1) Um teísta diz “O ordem do universo me sugere um design por trás de sua ordenação”. O neo-ateísta retruca: “Essa é a mente religiosa, que diz que se há uma ordem no universo, então é Deus!”.
(2) Um teísta afirma: “A complexidade de algumas formas de vida não pode ser explicada pela seleção natural”. O neo-ateísta confronta: “Quer dizer então que aquilo que não é explicado pela seleção natural (uma lacuna) explica o teu Deus?”.

Note que nos dois exemplos, é talvez possível que o teísta use (1) ou (2) para, após novas sequências de operações lógicas (em conjunto com outros argumentos), chegue então à conclusão da existência de Deus. Mas a afirmação ou o argumento em si não faz tal salto indutivo. Só que o neo-ateu pode fingir que o salto indutivo realmente ocorreu, torcer para que ninguém perceba o logro, e então já sair refutando o exagero.

O mais estranho é que vários teístas, durante o debate, não percebem tal armação, e seguem no diálogo, o que é um erro gravíssimo, pois, se o neo-ateu não foi corrigido, isso significa que o teísta ACEITOU o estratagema imposto pelo seu adversário, que é desonesto e mal intencionado.

Com esse estratagema, é praticamente certa a vitória do neo-ateu no debate.

Caso o estratagema seja desmascarado em público, o neo-ateu terá que refazer toda a sua argumentação, e provavelmente ficará em maus lençóis.

Dessa forma, aceitar ou não que o adversário pratique o estratagema, é quase como decidir se você quer ou não perder o debate.

Refutação

A forma de refutação tem que se apoiar no esclarecimento do exagero cometido pelo neo-ateu. Exemplo:

  • NEO-ATEU: Vocês, religiosos, são todos iguais. Basta encontrarem a complexidade no DNA que já saem dizendo que é Deus.
  • REFUTADOR: Seja específico, pois, que eu saiba, eu não disse nada disso.
  • NEO-ATEU: Mas você usou o argumento da complexidade do DNA.
  • REFUTADOR: Sim, eu citei. E uso como argumento de que a seleção natural básica não explica tudo. Eu não falei que isso “é Deus”, no argumento.

[Talvez o neo-ateu tente outras variações e ainda assim insista, mas basta somente expor ao público que os saltos indutivos propostos pelo neo-ateu na verdade não ocorreram e não eram parte intrínseca do argumento questionado por ele]

Conclusão

Técnica de alto efeito psicológico, usada em uma quantidade enorme de debates pelos neo-ateus. Conhecendo-a, pode-se quebrar toda uma argumentação erística e desonesta que um neo-ateu tenta realizar. Aparentemente, os neo-ateus usam o estratagema um grande número de vezes, pelo fato dele ser eficiente como provocação e difamação, e pelo fato de que muitos não percebem o logro à primeira vista. Após acostumados para descobrir estratagemas erísticos deste tipo (e espero estar contribuindo com a base de conhecimento das técnicas dos neo-ateus com essa seção do blog), o efeito argumentativo  dessa tática reduz-se a pó. Para aqueles que debatem em busca da verdade, sem desonestidade intelectual, desmascarar estratagemas desonestos é essencial.

Escrito por lucianohenrique

outubro 23, 2009 em 3:14 am

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