Luiz Felipe Pondé e a obviedade suspeita do ateísmo

* Texto originalmente publicado no blog Hagia Ecclesia, de autoria de Luiz Felipe Pondé *
O “ASSUNTO Deus” é complicado. Em jantares inteligentes, é mais fácil você confessar que faz sexo com dobermans, prova de que seu gosto ultrapassou formas sexuais conservadoras. Mas, se falar sobre Deus, há risco grave de que não te convidem mais. E aí nunca mais aquela cozinha vietnamita. Melhor se dizer um budista light.
Mas a mania que muito religioso tem de achar que tudo na vida se deve a Deus (ou similares) é um saco! Isso fala mais de sua preguiça e medo do que de Deus.
Entendo o bode dos ateus com essa gente. Para mim, essa conversa é semelhante ao papo de que você tem câncer porque não resolveu adequadamente seus conteúdos emocionais. Ora bolas, isso quer dizer que, se todo mundo um dia for feliz, ninguém vai ter câncer? Ou que, pior, além de ter câncer, você é um babaca responsável pelo câncer porque não fez terapia? Conheço gente que se diz ateia (e com isso se acha mais inteligente, como de costume) e acredita nessa baboseira de que o amor cura câncer. Mas, desculpe-me, ateísmo é coisa banal. Quando eu tinha oito anos era ateu. O ateísmo é óbvio (por isso comecei a desconfiar dele), diante do lamentável estado da vida: somos uma raça abandonada (Horkheimer). Ateísmo não choca mais ninguém (pelo menos quem já leu uns três livros sérios na vida), porque ateus já são vendidos às dúzias em liquidações. E mais: ser ou não ateu não diz nada acerca de como a pessoa se comporta com os outros (ao contrário do que muitos ateus e não ateus pensam). Existem canalhas de ambos os lados do muro.
Deus, como se diz em filosofia, “é uma variável sem controle epistemológico”, isto é, não se testa Deus em um laboratório.
Mas, antes, uma pequena heresia.
Mais chocante hoje é alguém confessar que não crê no aquecimento global, pelo menos na versão que aconteceu nesse espetacular concílio bizantino em Copenhague, reunindo toda a gente legal do mundo.
Confesso minha fraqueza: sou um herege, não acredito que meu pequeno carro aqueça o planeta, mas já estou pagando mais imposto por isso e tenho certeza de que outros virão. Acho essa história uma mistura de ego inflado (disputamos com o Sol para ver quem aquece mais?) e tédio (que tal salvar o planeta? A vida está tão chata na Dinamarca!). Meu cachorro anda triste? Deve ser o aquecimento global.
Sei que dizem que é fato científico, mas, para mim, que sou um medieval, só acredito na ciência quando vem no formato de resultados de exames do Fleury ou do Delboni, e não quando tem a ONU no meio e gente ganhando milhares de euros salvando o planeta.
Para mim, Copenhague foi aquele tipo de concílio onde se discutia se a roupa de Jesus era dele ou não. Temperamentos autoritários gozaram de tesão em Copenhague.
E o ateísmo? A constatação de que o mundo é péssimo e, por isso, Deus não deve existir é razoável. A primeira vez que isso me ocorreu foi quando descobri que existiam colegas mais felizes do que eu na escola, e aí eu julguei o mundo injusto. Se Deus, como todo mundo me dizia, era bom, por que eu não era o cara mais forte do mundo? Decidi que Deus não existia. Ou não era bom. O ateísmo é uma conclusão óbvia, não há nenhuma grande inteligência nisso.Qualquer golfinho consegue ser ateu.
Anos mais tarde, fosse eu uma dessas pessoas legais que creem no marketing do bem, concluiria que o mais justo seria que todos fossem igualmente felizes, e aí Deus teria sido democrático. Graças a Deus nunca passei pelo ridículo de pensar assim. Quanto a Deus ser mau, concluí que melhor seria mesmo considerar o universo indiferente e cego e mecanicamente cruel. Naquele dia, tornei-me um trágico (antes de ler Nietzsche ou Darwin).
Poucos ateus não são descendentes de uma criança infeliz e revoltada (e, veja, 110% das crianças, esses pequenos lindos monstros malvados, são infelizes porque sempre existem crianças mais felizes do que você). A prova disso é que ateus gostam de falar mal da igreja (nunca superaram aquela freira azeda), de Deus (esse malvado que não me fez mais forte), ou do pai judeu (que me obrigou a só namorar judias).Ou acham que, se formos todos ateus, o mundo será melhor. Se você é assim e tem orgulho de ser ateu, você é um rancoroso.
Quando se deixa de acreditar em Deus, passa-se a acreditar em qualquer besteira (Chesterton): na Natureza, na História, na Ciência, na Dinamarca, em Si Mesmo. Essa última crença, eu acho, é a pior de todas. Coisa de gente cafona.

Olá, há algum tempo venho mantendo um diálogo com os textos de Pondé em meu blog: http://www.criticaparnasiana.blogspot.com
O texto abaixo está no blog e pode interessar:
Avatar como romantismo para retardados.
Obviamente “Avatar” não merece o mesmo cuidado analítico que um filme europeu, e Pondé parece saber bem disso. Por isso evita tratar o filme em seus aspectos formais (absolutamente convencionais) e vai direto aos finalmentes. Não tem sentido fazer critica imanente aqui. “Avatar” é provavelmente o avatar de uma nova série de filmes com tecnologia 3D, mas sua estrutura narrativa, por exemplo, é basicamente a mesma de 2012 ou a de qualquer outro filme apocalíptico de Hollywood (“O dia depois de amanhã”, por exemplo). Portanto, não adianta criticar o Pondé por não compreender a forma fílmica ou qualquer coisa desse tipo. Por outro lado, não é apenas o investimento que garante o sucesso de um filme junto ao público, basta lembrar fracassos como os de “Pluto Nash” (2002) ou “Ricos, bonitos e infiéis” (2001), que pagaram um preço alto por não estarem em dia com a agenda ideológica hollywoodiana. Numa postagem futura falarei mais sobre isso, mas o teórico Fredric Jameson, em “Marcas do Visível” (Graal, 1995), explica de maneira bem satisfatória a receita do sucesso das megaproduções. Em linhas gerais, o filme não pode ser completamente falso: embora ideológico em sua fatura, contém gérmens de reivindicações legítimas. Isso Pondé parece ignorar. Vejamos como.
Pondé define Avatar como “romantismo para idiotas”, e nisso tem absoluta razão. Acerta ainda mais quando aponta a idealização presente no filme, que vê no retorno à natureza e a uma vivência comunitária uma solução para os impasses de nossa sociedade. Não devemos esquecer que a idéia de refundar uma “comunidade” (Gemeinschaft) foi e ainda é um dos pontos centrais do discurso nazista. Contudo, Pondé erra quando afirma que “a diferença na relação com a natureza sempre se definiu pela maior ou menor capacidade técnica de cada cultura em controlá-la.” Essa não é uma opinião unânime. Theodor W. Adorno, por exemplo, citado por Pondé como um filósofo romântico (certamente com uma pitada de ironia), tem como um dos pontos centrais de seu pensamento filosófico a possibilidade de uma relação não-identitária, no conhecimento, entre sujeito e objeto. No plano histórico isso implica uma crítica da relação homem/natureza ditada por parâmetros puramente abstratos. A relação puramente unilateral com a natureza seria uma das características da “Razão instrumental”, conceito partilhado pelos teóricos da escola de Frankfurt (principalmente Adorno e Horkheimer). Contudo, Adorno não propõe que voltemos a morar em palafitas. Pelo contrário, a única cura que o filósofo enxergava para o “esclarecimento” (ou iluminismo, no alemão Aufklärung, termo pelo qual se designa o projeto de modernidade, nas palavras de Kant, “a saída do homem de sua minoridade”) era ainda “mais” e não menos, esclarecimento. Heidegger, tido como filósofo de direita, também tece críticas em relação ao rumo que tomou o conceito de Entbergung ou “desocultamento” em nossa sociedade, que teria preservado apenas seu significado “instrumental”. Obviamente os dois filósofos divergem em muitos pontos e o resumo que fiz aqui não faz jus à complexidade das questões que, infelizmente, não são nosso objeto aqui.
É por isso que Pondé tem alguma razão quando afirma: “Ninguém está disposto a abrir mão da liberdade individual moderna em nome de qualquer comunidade, por isso toda tentativa de “re-fundar” comunidades fracassa, apesar da admiração de muito pós-moderno bobo por culturas que não conheciam a roda. Não basta ter um filtro de barro em sua casa na Vila Madalena pra você conseguir viver em paz na comunidade da deusa natureza.” O erro de Pondé está em não dar dignidade filosófica a pergunta sobre quais seriam os parâmetros de nossa relação com a natureza, o que o levaria talvez a questionar o próprio conceito de “natureza” como um par antitético de “cultura” ou “história”. Pondé decide responder a questão de modo peremptório, por meio do que eu definiria como um darwinismo romântico:
“Preste atenção: a relação com a natureza é de vida ou morte, ou ela ou nós. A expressão “lei da selva” não foi inventada pela avenida Paulista e seus bancos, mas sim como descrição da natureza e seu horror.
Isso não significa que não existam limites para a exploração da natureza, mas isso tampouco significa que exista uma coisa que seja “a doce Natureza”. ”
O que falta ao darwinismo de Pondé, vejam só, é justamente rigor científico. A teoria desenvolvida por Darwin partilha de um ideal utópico que está na origem de nossas ciências materialistas. Se “a idealização do que seria uma comunidade é uma das marcas dos idiotas utópicos”, não devemos concluir daí que todo ideal utópico seja idiotice. Afinal, isso seria chamar de idiotice todo o projeto moderno, erigido sobre uma promessa utópica de felicidade. Para comprovar o que disse, transcrevo a seguir o trecho de um texto do orientador de Pondé na USP, Franklin Leopoldo e Silva entitulado “Conhecimento e Razão Instrumental”:
(…)”se nos detivéssemos numa análise mais precisa deste pensamento que se constituiu na alvorada dos tempos modernos, duas coisas poderiam talvez causar inquietação. A primeira é o caráter utópico de certas propostas de organização social do trabalho científico que acompanham e mesmo ilustram a pretensão de domínio racional. Em Bacon, textos como a Nova Atlântida descrevem, na forma da utopia, uma civilização extremamente equilibrada, totalmente calcada na busca e organização do saber em todos os domínios, do que resulta o estado de felicidade desfrutado por todos os habitantes. O segundo motivo de inquietação deriva da maneira como Descartes pretendia integrar as várias partes que compõem a totalidade unitária do saber humano, definindo a vinculação do empreendimento teórico com as suas aplicações práticas através do termo sabedoria. A esta perfeita integração entre a teoria e a prática é assinalado o mesmo objetivo proposto por Bacon: a consecução da felicidade humana.” (disponível na íntegra em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65641997000100002).
Como todo pensamento conservador, o de Pondé possui raízes pré-modernas. Não é por outro motivo que vimos, em outros textos, o filósofo tecer elogios à Idade Média. No entanto, é interessante notar como Pondé não é um conservador clássico. Ao lado da defesa da liberdade individual há a alusão a um “limite” que a “exploração da natureza” deve respeitar. Fica evidente o paradoxo. Afinal, como jogar fora todo o projeto moderno de “Afklärung” sem se recorrer a algum tipo de instância mística ou tabu proibitivo? Acho que a resposta de Pondé seria tipicamente brasileira: mudemos um pouco o rumo das coisas para que elas, ao fim e ao cabo, permaneçam as mesmas. Mas isso não se pode afirmar com certeza, pelo menos não ainda, pois mal começamos a desconstruir o embróglio que é o pensamento de Pondé.
A ideologia de “Avatar” é realmente coisa de retardado. Mas, então, por que o filme faz tanto sucesso? Afinal, se “ninguém está disposto a abrir mão da liberdade individual moderna em nome de qualquer comunidade” por que tantos aplaudem o filme efusivamente e insistem justamente em que o filme tem uma “grande mensagem a nos transmitir”? Ao contrário de Pondé, penso que a ideologia de Avatar tenha se tornado poderosa, mas disso falarei em outra ocasião.
Cronópio
fevereiro 10, 2010 em 12:11 am
“Luciano, voce não diz coisa com coisa.
Muito bem: Deus criou o homem no paraíso…
E depois, o que é que aconteceu?”
Minha hipótese para o que aconteceu:
Muito tempo após Deus ter criado o homem no paraíso começaram a surgir ateus incrivelmente toscos e grotescos, esperando que alguém formule Deus em termos humanos para que possam então “acreditar” Nele. Afinal, segundo os supremos toscos, se Deus não pode ser reduzido ao estupendo e extraordinariamente magnífico conhecimento humano então Ele não existe…
Eduardo Araújo
janeiro 5, 2010 em 5:06 pm
Luciano, voce não diz coisa com coisa.
Muito bem: Deus criou o homem no paraíso…
E depois, o que é que aconteceu?
Diogo
dezembro 29, 2009 em 1:00 pm
Diogo
Bom, um bebé nascer, ser embrulhado nuns trapos e atirado a um rio também é uma forma de morrer (para que então a pessoa adentre a vida espiritual eterna). Isto faz sentido, Luciano. Porque não cria Deus vidas espirituais eternas logo à partida? Sem o sofrimento absurdo? Porquê a necessidade do tormento? Deus é um sádico?
De acordo com a Bíblia, Deus criou o homem no paraíso…
Seu argumento foi-se por aí.
O problema de sua forma de pensar (que é pueril, ao extremo) é que você cria situações e premissas que só estão na tua cabeça, mas não são justificáveis. Obviamente,sua conclusão termina sendo distorcida.
Seu argumento não passa de uma cópia do argumento de Epicuro, que, como todos sabemos, não possui um raciocínio lógico.
Por enquanto você está dando motivos pessoais e só vê sofrimento no mundo (o que me causa pena de você, apenas), mas nem de longe o que vc apresenta é uma argumentação RACIONAL contra a existência de Deus.
Você mesmo sabe que seu argumento é infantil, pois quando o Razzo lhe pergunta “como você faria o mundo de forma diferente?”, você apenas foge da pergunta. Como você está VENDENDO A IDÉIA de que “Deus não existe” ou “se Existe, é mau”, você deveria responder as perguntas de seu comprador.
Como não responde, a idéia de que seu produto é muito ruim.
lucianohenrique
dezembro 29, 2009 em 2:10 am
Lucianohenrique: «Morrer de fome e na idade infantil é UMA das formas de morrer. Segundo a Bíblia, a vida carnal não é eterna, então ela precisa ter um TÉRMINO, para que então a pessoa adentre a vida espiritual eterna.»
Bom, um bebé nascer, ser embrulhado nuns trapos e atirado a um rio também é uma forma de morrer (para que então a pessoa adentre a vida espiritual eterna).
Isto faz sentido, Luciano. Porque não cria Deus vidas espirituais eternas logo à partida? Sem o sofrimento absurdo? Porquê a necessidade do tormento?
Deus é um sádico?
Diogo
dezembro 28, 2009 em 8:14 pm
Carlos
Luciano, espero que um dia você dedique um post especialmente para o marxismo/materialismo dialético, pois vejo muitos amigos meus tendo a mente infectada por essas doutrinas.
Ótima dica. Com certeza publicarei não só um (mas uma série) de posts abordando esse tema, principalmente sob a estratégia de propaganda do marxismo e o materialismo dialético dentro das universos. Aliás, o epicurismo também, que é uma das bases desse pessoal.
lucianohenrique
dezembro 28, 2009 em 7:37 pm
Diogo
A existência de um Deus não permitiria que uma criança morresse de fome.
Que Deus é esse de que vocês falam? De um cego, surdo e mudo que criou o mundo para brincar com ele? Para se divertir com as novelas que lá se passam, seja uma alegre festa de casamento, seja a morte de 50 milhões de pessoas numa Guerra Mundial?
Ué, que raciocínio é esse?
Morrer de fome e na idade infantil é UMA das formas de morrer. Segundo a Bíblia, a vida carnal não é eterna, então ela precisa ter um TÉRMINO, para que então a pessoa adentre a vida espiritual eterna.
Logo, pessoas MORRENDO não implicam em uma negação de Deus.
Seu argumento cai justamente por isso.
Talvez você acredite em um Deus (ou ao menos trabalhe com essa definição, sem acreditar) que OBRIGATORIAMENTE garante que as pessoas não morram. Aí se uma criança morre de fome, esse Deus naturalmente não poderia existir.
Mas não é o Deus no qual eu acredito. E duvido que um religioso acredite nesse Deus que você inventou.
Regra básica do debate filosófico: discuta o OBJETO segundo a concepção do seu oponente, mas não a concepção que você atribuiu a esse objeto.
lucianohenrique
dezembro 28, 2009 em 7:36 pm
Um texto sem pés nem cabeça.
A existência de um Deus não permitiria que uma criança morresse de fome.
Que Deus é esse de que vocês falam? De um cego, surdo e mudo que criou o mundo para brincar com ele? Para se divertir com as novelas que lá se passam, seja uma alegre festa de casamento, seja a morte de 50 milhões de pessoas numa Guerra Mundial?
Diogo
dezembro 28, 2009 em 7:01 pm
Ateísmo (mais especificamente neo-ateísmo) é a grande moda intelectual dos jovens de hoje. Parece que basta ficar entediado numa missa pra sair alardeando que Deus não existe e que os religiosos são uns trouxas.
Luciano, espero que um dia você dedique um post especialmente para o marxismo/materialismo dialético, pois vejo muitos amigos meus tendo a mente infectada por essas doutrinas.
Carlos
dezembro 28, 2009 em 4:52 pm