Neo-Ateísmo, Um Delírio

Ceticismo e racionalidade na demolição da ilusão neo-ateísta

Como a idolatria a Bertrant Russell pode levar a efeitos colaterais

com 6 comentários

Uma coisa que não é difícil para qualquer religioso que tenha compreendido a religião a fundo é se acostumar com a idéia de que pessoas não devem ser idolatradas.

Eu aprendi que, desde que eu idolatre a Deus, eu não preciso idolatrar pessoa alguma.

Isso nos torna mais céticos e evita que nos decepcionemos, depositando falsas esperanças em outrém.

Por exemplo, entre autores que eu costumo ler está Olavo de Carvalho, mas nem de longe eu concordo com tudo que ele escreve. Outro que citei há tempos é Robert Anton Wilson, mas atualmente gosto de apenas uma parte ínfima do que ele escreveu. E assim por diante…

Nenhum intelectual vivo ou morto merecerá, portanto, minha idolatria.

Entretanto, para quem tem um sistema de pensamento oposto, apto a idolatrar pessoas, deve ser difícil ver um de seus ídolos desmascarado.

Entendo, portanto, como Aurélio deve ter se sentido ao ler um texto meu de refutação a Bertrand Russell. Eu simplesmente atingi o seu ídolo. Como ele não está preparado para viver sem um ídolo, reage como se tivesse sido ofendido.

A reação de Aurélio ao meu texto “A ausência de senso críticos dos dawkinistas na avaliação de Bertrand Russell” foi completamente desproporcional e imatura. A começar pelo título, notem:

Ataques ineptos e desonestos a Bertrand Russell

O engraçado é que o julgamento de “inépcia” dele foi completamente subjetivo, como mostrarei mais a frente. Todas as tentativas dele me acusar de desonestidade intelectual irão, também, pelo ralo. Mas nada é pior do que ele usar a terminologia pueril “ataque a Bertrand Russell”. Oras, eu não fiz ataque a Russell, mas sim aos argumentos dele.

Vamos então ao “caso” de Aurélio.

Acusação 1 de Desonestidade

Afirma Aurélio que eu teria “selecionado” ou “picotado” trechos de períodos completos, tornando-os isolados do contexto.

Ele corretamente diz que a resposta completa de Russell à questão “Por que você não é um cristão?” é “Porque eu não vejo nenhuma evidência para os dogmas cristãos. Eu examinei todos os argumentos disponíveis em favor da existência de Deus e nenhum deles me parece ser logicamente válido.”. O problema é que em momento algum eu disse que a resposta de Russell havia sido diferente disso.

A acusação de que eu teria desonestamente separado a expressão “não vejo evidência” do resto, para então acusa-lo da falácia de incredulidade, não se justifica, pois QUALQUER SENTENÇA que inclua tal tipo de expressão (ex. “não vi”, “não encontrei”, “não acredito”, etc.), no contexto de histórias pessoais na tentativa de provar um ponto, implica em uma falácia da incredulidade pessoal.

Aurélio ainda diz que Russell DEMONSTROU a razão pela qual não crê em Deus, e portanto isso implica em inexistência da falácia da incredulidade. Obviamente, uma conclusão falsa de Aurélio.

Aurélio confunde dizer que tem uma razão com DEMONSTRAR essa razão. Aurélio confunde dizer que estudou todos os argumentos com efetivamente TER ESTUDADO todos os argumentos.

Não há como escapar: Russell cometeu falácia da incredulidade, pois não demonstrou a razão pela qual não crê em Deus. Russell apenas DISSE que tinha uma razão, assim como poderia ter dito que viu isso em uma bola de cristal. Ambas são alegações subjetivas, e, portanto, qualificam a falácia da incredulidade, e, principalmente, evidência anedota.

Acusação 2 de Desonestidade

Aurélio diz que minha crítica “ignora a forma do discurso de Russell, realizado em uma entrevista não direcionada a especialistas de lógica formal, metafísica e teologia, mas sim para o público em geral”.

Não, minha crítica não ignora nada disso. Na verdade, minha crítica não faz JUÍZO DE VALOR a respeito disso.

Mas já que ele comentou a respeito, eu devo dizer que me solidarizo com qualquer idéia que afirme que a participação de um filósofo em entrevistas de 4 minutos normalmente não faria justiça às idéias de qualquer pensador, pois tais idéias geralmente são complexas em termos de exposição. O detalhe é que ninguém obrigou Russell a ir ao programa. Se ele foi lá, ele era maior de idade para saber dos riscos de não conseguir se expressar com todo o detalhamento necessário.

Sendo assim, a minha crítica, de que a ausência de especificação prejudica Russell, é algo que Aurélio não conseguiu refutar.

Aurélio ainda afirma: “Luciano, portanto, perde o senso de ridículo ao dar a entender que Russell pelo menos especificasse de quais argumentos ele rejeitou em uma entrevista de pouco mais de 3 minutos, de modo algum uma entrevista técnica, mas informal. Eu me pergunto se tal atrocidade é falta de técnica ou pura má fé.”

Na verdade, quem perde o senso de ridículo é Aurélio, ao não perceber que ele no máximo JUSTIFICOU os problemas vistos na entrevista de Russell (no caso, pouco tempo para a entrevista).

De novo, eu até entendo a justificação, mas isso não salva a argumentação de Russell.

Na próxima acusação, Aurélio diz que eu “ignoro” a trajetória intelectual de Bertrand Russell, o que, conforme mostrarei, é um red herring da parte dele.

Acusação 3 de Desonestidade

Aurélio insiste que eu não deveria ter rotulado a declaração de Russell (de que ele teria estudado os argumentos) como evidência anedota.

Sinto desapontar Aurélio, mas ele precisa estudar um pouco mais de ceticismo em debates e muito mais de argumentação lógica.

Para demonstrar isso, vamos avaliar algumas, mas não todas, possibilidades:

(a) Russell pode não ter conhecido argumento algum, e mentiu
(b) Russell pode ter estudado a fundo e seriamente todos os argumentos
(c) Russell pode ter trabalhado apenas com versões espantalho dos argumentos que alega estudar

Das hipóteses acima, todas são possíveis, embora (b) e (c) sejam mais fortes que (a). Explico: a hipótese (a) é refutada pelo fato de que ao menos Russell transcreveu os argumentos, então ao menos um pouquinho ele conhecia.

De qualquer forma, quando Russell afirma (b), obviamente temos aqui uma evidência anedota. Precisaríamos ter FÉ em Russell para acreditar que a resposta definitivamente é (b).

Sendo assim, não adianta Aurélio escrever sobre o passado de Russell em filosofia, e até na questão de críticas à religião, que isso ainda NÃO RETIRA dele a pecha de evidência anedota.

Mais ainda: quando Aurélio afirma que eu possuo “ignorância e amadorismo” a respeito de Russell, é ele quem pratica mais uma falácia: no caso a falácia da credulidade pessoal. Aurélio provavelmente imagina que eu desconheça a obra de Russell na questão anti-religião, e desata a proclamar sua crença, sem o menor traço de ceticismo.

O problema é que este não foi o primeiro texto de refutação a Russell. Há não só “Pérolas da LiHS 2 – As babadas de Russell” como também a técnica “Bule de Russell”. Ademais, até mesmo o texto que ele afirma criticar tinha como sua parte mais importante não o comentário do vídeo, mas a reação de crença cega demonstrada e evidenciada em fãs de Dawkins, na análise do material de Russell, de forma idólatra.

Eu realmente acredito que Russell no passado já criticou argumentos sobre a existência de Deus, mas isso não prova que ele estudou a fundo tais argumentos. Ele poderia, como mostrei, ter trabalhado com versões espantalho dos argumentos. Qualquer tentativa de Russell em vencer a argumentação dizendo que “estudou tais argumentos” é apenas evidência anedota, goste Aurélio disso ou não.

Outro argumento terrivelmente ruim apresentado por Aurélio é o seguinte: “Temos então uma de suas obras mais famosas: História da Filosofia Ocidental, que colocou-o numa posição considerável de historiador da filosofia e de sucesso em vendas.Numa obra como essas, não é preciso ser muito inteligente para perceber que o escritor deve conhecer todo o arcabouço metafísico ocidental, ou seja, todos os argumentos a favor e contra a existência de Deus. Russell comenta todos, seja em Platão, Aristóteles, Epicuro, Agostinho, Boécio, Anselmo, Sto. Tomás, Scot, Descartes, Leibniz, Kant e Hegel. Não é preciso mais comentários: Russell reexamina os argumentos e os comenta, demonstrando sua posição já na idade madura.”

Em relação a isso, Aurélio vocifera: ” Temos aqui, por conseguinte, o zênite do amadorismo, ignorância e desonestidade intelectual de Luciano: alguém que desconhece por completo o legado russelliano e suas críticas aos argumentos.”

Ou seja, uma calamidade argumentativa em todos os níveis, já que:

(a) escrever um livro de história da filosofia ocidental não implica que alguém tenha estudado a fundo os argumentos sobre a existência de Deus
(b) não é também preciso conhecer profundamente todo o arcabouço metafísico ocidental, pois livros de “história da filosofia” são geralmente bastante genéricos
(c) nada impede que alguém que só trabalhe com falácias do espantalho sobre argumentos da existência de Deus escreva uma obra assim

Dessa forma, quando Aurélio afirma que eu “desconheço” o “legado russelliano” e suas “críticas aos argumentos” é apenas uma saída pela tangente dele, mas em que momento algum comprova que eu realmente desconheça as críticas de Russell aos argumentos.

Mais curioso ainda é quando ele comenta o debate de Russell com o padre Copleston. Aurélio, novamente exaltado, diz: “Luciano não sabe nada disso, e é duvidoso que queira saber.”

Sinto de novo desapontar Aurélio, pois eu conheço tal debate, e a tradução do mesmo está nos planos deste blog. [N.E. - Agradeço ao Francisco Razzo pelo envio]

Aurélio conclui essa terceira acusação dizendo que eu não teria “o direito de julgar “anedota” algo que Russell o fez por mais de 70 anos em vida”

Pelo contrário: eu não só tenho o direito, como o dever, em nome da lógica, de mostrar que qualquer declaração de “eu estudei isso a fundo, e portanto posso afirmar” é uma evidência anedota, venha de quem vier. Na questão de Russell, no entanto, a suspeita de fraude é ainda mais forte.

Vejam, por exemplo, a evidência a seguir.

Evidência: As “críticas” de Russell à causa primeira

No livro “Por que não sou cristão”, Russell diz que esse argumento é o “mais simples” de ser entendido.

Engraçado, pois ele comete um erro imperdoável, que é dizer o seguinte, citando John Stuart Mill: “Meu pai ensinou-me que a pergunta ‘Quem me fez?’ não pode ser respondida, já que sugere imediatamente a pergunta imediata: ‘Quem fez Deus?’” Essa simples sentença me mostrou, como ainda hoje penso, a falácia do argumento da Causa Primeira. “

Não é preciso ir muito distante para notar que William Lane Craig esmagou uma tentativa de Dawkins extremamente parecida com a de Russell.

Outro erro é quando Russell afirma “Se tudo tem de ter uma causa, então Deus deve ter uma causa”, entrando em contradição com ele próprio, que anteriormente interpretou o agumento assim: “Afirma-se que tudo o que vemos neste mundo tem uma causa e que, se retrocedermos cada vez mais na cadeia de tais causas, acabaremos por chegar a uma Causa Primeira, e que a essa Causa Primeira se dá o nome de Deus).”

Esperem… de uma hora para outra Russell substitui “tudo que vemos” por “tudo” assim, sem mais nem menos?

É claramente uma estratégia de manipulação semântica, que beira o amadorismo.

Enfim, essa evidência mostra que talvez Russell tenha estudado os outros argumentos (eu duvido), mas e em relação à esse? Talvez ele tenha tomado emprestado versões espantalho já praticadas por outros adeptos da anti-religião. Como cético, temos que questionar, naturalmente, e Russell nem de longe provou que estudou tal argumento, pois cometeu erros imperdoáveis. Talvez ele tenha estudado, mas não entendido. Em qualquer situação, o ceticismo é mantido e a acusação que fiz, de que a declaração de Russell ter estudado todos os argumentos é uma anedota, segue incólume.

Comentários adicionais de Aurélio

  • Aurélio diz que Russell “não afirmou em nenhum momento que “Não há Deus” na entrevista”. O problema é que Aurélio teria que jogar fora a frase em que Russel diz “não pode haver razão prática para acreditar no que não é verdade”. Detalhe: o que estava sendo discutida era a crença em Deus. Aurélio tenta salvar a pele de Russell dizendo que “em várias obras que leu, ele nunca afirmou tal coisa’. Capaz. Só que Russell estava em uma entrevista, na qual ele poderia ter cometido o ato falho de dizer que acha que Deus não existe.
  • Curiosamente, Aurélio em seguida diz que dou uma “intepretação duvidosa”. Estranhamente, em seguida, Aurélio diz o seguinte: “Concordo com Luciano que Russell não deveria ter dito isso, vide que, de fato, parte do ônus da prova passa a ser do próprio Russell, que deveria ter de demonstrar para o quê exatamente atribuiu o adjetivo ‘falso’.” Mas se ele concorda comigo que ele não deveria ter dito isso, então ele concorda que ao menos um equívoco ocorreu por parte de Russell. Foi esse equívoco o que apontei.
  • Ele ainda segue dizendo o seguinte: “Caso Russell tenha utilizado o termo ‘falso’ para se referir aos argumentos acerca da existência de Deus – embora saibamos que, dum ponto de vista mais técnico, se este é o caso, deveria ter usado o termo ‘inválido’ –, então não há qualquer contradição aqui.” Só que Aurélio fugiu do assunto real, pois o que estava sendo discutida era a crença em Deus, e não argumentos específicos a favor da existência de Deus. A defesa de Aurélio só seria válida se a repórter tivesse perguntado a respeito de alguns argumentos específicos que fossem inválidos. Dessa forma, Aurélio tentou inocentar Russell da contradição cometida, mas não conseguiu.
  • Quando eu falei a respeito de contradição entre a frase de Russell (“não se deve acreditar em algo por sua utilidade, apenas”) e o epicurismo, Aurélio diz que eu deturpo o pensamento russelliano. Só que ele não demonstra como eu faria tal deturpação. Mas, em todo caso, toda a obra “A Conquista da Felicidade” é baseada no paradigma epicurista (ex. “o que importa é buscar o prazer e fugir da dor”). Russell ainda lançou “The Philosophy of Logical Atomism”, em que levaria as idéias de Epicuro ao paroxismo. Estranho é alguém duvidar de que Russell e Epicuro tinham muita coisa em comum.
  • Aurélio, em seguida diz que eu estaria “provavelmente me referindo às crença de âmbito moral, e não filosóficas ou científicas”, dizendo que eu “deveria ter dito crenças morais”, mas em todas as tentativas de imaginar como penso Aurélio fantasiou. Curiosamente, mesmo com tanto delírio da parte dele, Aurélio ainda conclui com “é falta de técnica, Luciano?”. Se é falta de técnica minha, não sei, mas que é falta de ceticismo por parte de Aurélio, isso é um fato.
  • Aurélio desafia: “Se Luciano quiser conhecer as posições russellianas sobre a moral judaica-cristã e de outras religiões em que ele alegou ver malefícios, recorra às obras já supramencionadas”. Como já visto, eu citei uma delas, e o resultado não foi nada favorável ao “caso” de Aurélio.
  • Para defender uma das idéias de Russell, Aurélio diz, sobre um ateu: “um mesmo ateu pode defender os valores que herdara da tradição judaico-cristã sob à luz unicamente da razão”. Que é possível ele trazer os valores, eu concordo, mas daí a dizer que seria “à luz unicamente da razão” é uma alegação sem evidências. Geralmente, basta desafiar um alegador a dizer que chegou aos valores morais e mensurar a “razão” mensurada (em contraposição à “razão” alegada), que normalmente a coisa não sai da evidência anedota. Em suma, se um ateu tiver os mesmos valores que um religioso, isso não comprova que ele chegou “lá” por mais ou menos razão que um religioso.
  • Mais de Aurélio, a la Russell: “Abandonamos, portanto, esse conjunto de superstição antiga na qual os valores clássicos se baseavam: não precisamos desses mitos teológicos antigos”. Engraçado Russell (em versão emulada por Aurélio) tratar a questão por “necessidade”, sendo que antes ele falou que as crenças não deveriam ser avaliadas na questão da “utilidade”. Como eu falei, não é preciso muito para ele entrar em contradição com ele próprio.
  • Aurélio ainda cita as supostas “barbáries” da religião e aponta até “permissividade para escravizar índios e negros”. Quanto a isso, eu recomendo o livro “O Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”. Em relação “judeus mortos em Cruzadas” ou “maioria de guerras serem de origem religiosa entre Inglaterra e França”, é o tradicional exagero dawkinista de tentar dizer que várias guerras ocorreram POR CAUSA da religião, mas sem nenhuma demonstração efetiva disto.
  • Ele ainda diz que seria possível viver sob os valores judaico-cristãos, dizendo “não precisamos de sua teologia, vide que podemos fundamentá-los na razão”. O engraçado é que quando se exigem as alegações deles (de maior uso da “razão” na sustentação de seus valores), eles costumam fugir para a casinha. Em suma, de novo, não provou que um ateu, ao usar os valores judaicos-cristãos, usa a razão em maior quantidade que os não-ateus.
  • Mais evidência anedota, sobre Russell: “Abandonar a superstição que os sustenta é uma coisa, abandonar tais valores, é outra. Russell preferiu a primeira opção ao invés da segunda”. Estranho, pois se ele assumiu marxismo no futuro, ele não aceitou de todo os valores judaico-cristãos, principalmente o direito à propriedade. Detalhes…
  • Aurélio tenta defender a repórter, dizendo que ela concorda com a máxima de Políbio: “a religião serve como uma espécie de controle social”. O que é apenas um clichê usado futuramente por marxistas, mas nem de longe um argumento comprovado. Mas ele ainda defende Políbio: “não só Políbio convergiu para a mesma conclusão, mas quantos ao longo da cultura universal o fizeram?”, o que é uma falácia ad populum. Dá para supor que a quase totalidade dos marxistas concordem com esse discurso de Políbio, pois virou clichê de propaganda marxista. Mais divertido é quando Aurélio diz: “Luciano se surpreenderia com o número de grandes pensadores que, desde tempos imemoriais, concluíram que a religião encabresta, em grande parte pelo medo que impõem”. Não, eu não me surpreenderia. O difícil será dizer que são “grandes” pensadores, pois frases de efeito não servem como boa argumentação, e tal discurso não passa de frase de efeito. Depois de conhecer a Estratégia Gramsciana, nada me surpreende.
  • Aurélio tenta inocentar Russell da acusação de esquerdismo e anti-americanismo, dizendo: “A comparação não é válida, pois muito antes de Russell ter lido uma linha de Marx (ele refutou algumas posições do materialismo dialético em sua História da Filosofia), ele já tinha posições muito independentes de qualquer conclusão marxista anti-religiosa.” Aurélio erra, pois não estou julgando aqui o que Russell pensava, e sim o que ele ESCREVEU quando começou a pregar contra a religião. Nessa fase, sim, Russell já tinha conhecido Marx.
  • Ele ainda tenta salvar a pele de Russell dizendo que ele criticou Lênin. Ué, criticar uma implementação de Lênin até Gramsci já fez. O que não mostra desalinhamento com marxismo, pelo contrário. E sim a busca de uma implementação mais abrangente do mesmo. E mais perigosa.
  • Essa parte aqui é bizarra: “Sim, Russell era socialista, mas não um ‘esquerdista’ desonesto”. Difícil saber quais parâmetros Aurélio usou para definir honestidade que não seu gosto pessoal por Russell.
  • Esse rodeio de Aurélio é estranhíssimo, pois quando foi perguntado se o ateísmo traria mais “força”, Russell respondeu que “estava apenas engajado na busca do conhecimento”. Eu mostrei que a alegação era apenas, de novo, anedota. Aurélio protesta: “Dizer isso sobre alguém do calibre intelectual de Russell é um ato sórdido, que beira à puriedade. Russell foi, ao longo de quase seus 100 anos de vida, um dos maiores intelectuais do século XX”. Está aí um belíssimo exemplo de Red Herring. Eu estava comentando a postura de Russell em UMA QUESTÃO EM ESPECÍFICO (ateísmo como “força”), e Aurélio tentou falar da vida intelectual de Russell no geral, o que é no mínimo um ato desesperado. Ora, se Russell produziu algo de bom intelectualmente, isso não o salva de ter usado um argumento ruim para responder à repórter. E também não demosntra que NESSA QUESTÃO ele estava “em busca do conhecimento”.
  • Aurélio diz que Russell é “um polímata: matemático, lógico, exímio escritor (Nobel de Literatura, em 1950), ensaísta, moralista, historiador e comentador político”. A pergunta: no que isso salva Russell dos erros lógicos cometidos na questão específica de seus argumentos contra a religião? Resposta: nada.
  • Engraçado também foi, depois dessa ladainha, Aurélio afirmar: “Quem é Luciano?”. Será que ele está apelando ao famoso argumento infantil de dizer que alguém só pode criticar Russell depois de ganhar um prêmio Nobel? Não sei se é preciso, pois sem prêmios Nobel eu já mostrei a falta de lógica e racionalidade nas alegações russellianas. Imaginem se eu tivesse um Nobel então (risos).
  • Já apelando à platéia, Aurélio diz: “O intento de Luciano, evidentemente claro, foi denegrir a imagem do grande intelectual inglês”. Não, não foi. Eu apontei os erros lógicos de Russell em uma declaração específica. Pouco me importa a pessoa do Russell.
  • Momento espetacularmente cômico: “Você quer enfrentar o legado russelliano em qual frente, Luciano? O do Russell dos Principhia Mathematica, a maior contribuição às lógicas no século XX? O do Russell filósofo e historiador da filosofia? O do Russell ensaísta e crítico das superstições populares? O do Russell escritor, ganhador do Nobel em 1950? Vai precisar sair da crítica de entrevista de televisão e recorrer a assuntos mais técnicos nos quais, evidentemente, sua competência é duvidosa. Pode começar pela ‘The Bertrand Russell Society’.” Não. Eu só quero refutar o Bertrand Russell nas declarações anti-religiosas dele. Principalmente as que forem irracionais. O resto não me importa.

Conclusão

Está aí um exemplo de como um ateu, que até escreve bons textos por vezes, perde completamente a estribeira quando um ídolo seu é criticado. É importante que ele aprenda (até para evitar decepções), que nenhum intelectual é infalível. Reconheço que Russell pode ter produzido algum material bom, mas isso não o impede de realizar um argumento esdrúxulo e por vezes aparentar bastante ingenuidade. Os outros dois textos que citei aqui, envolvendo Russell, mostram isso. Tentar apelar à crença na honestidade de Russell, ou simplesmente acreditar em tudo que ele diz, independente de julgamento, não é a melhor forma de defender um argumento ceticamente. O que me surpreende, já que Aurélio discutia sobre ceticismo há muito tempo, e defendia o paradigma de James Randi. Hoje, para defender Russell, ele é obrigado a abandonar grande parte de seu ceticismo. Sua tentativa de defender Russell é prejudicada justamente por ser uma análise desprovida de ceticismo. Para mais detalhes, este texto explica como o ceticismo não convive bem com neo ateísmo.

Escrito por lucianohenrique

fevereiro 9, 2010 às 11:43 pm

6 Respostas

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  1. A ser correta a transcrição desse link (http://macroscopio.blogspot.com/2010/06/evocacao-de-bertrand-russel-o-maior.html) fica difícil crer que Russell tenha se aprofundado em temas de religião. Vejam esse trecho: “Sabeis, certamente, que a Igreja Católica estabeleceu como dogma que a existência de Deus pode ser provada sem ajuda da razão.”.

    Ora, até onde sei, o Concílio Vaticano I primeiro definiu exatamente o contrário, isto é, que o homem pode chegar à existência de Deus pela razão!!!

    Lampedusa

    setembro 30, 2010 em 3:12 pm

  2. a história da humanidade nunca passou por um período de ignorância absoluta ou conhecimento absoluto. o fato de russell ter conhecimento abrangente sobre várias matérias, não o torna irrepreensível. ou então seremos obrigados a admitir que ele é um ser divino. então, além disso, quem garante que ele não possa agir de má fé no que diz respeito a religião? ou seja, o cara pode ter mais conhecimento sobre D’us e religião do que nós todos. mas e daí? significa necessariamente que ele goste de D’us e de religião?? claro que não. ele vai vender aquilo que lhe é conveniente. por isso devemos estar atentos com o grau de estimação que temos pelos nossos referenciais. entra exatamente na questão que o luciano disse.

    natã

    fevereiro 13, 2010 em 12:29 am

  3. É isso mesmo, Pedro. Irrita os neo-ateus aperceberem-se que eles são tão ou mais crentes do que aqueles que eles mais detestam.

    Mats

    fevereiro 11, 2010 em 7:11 am

  4. Acho que há algo que faz estrago maior do que atacar as “figuras sagradas” do ateísmo: é desmascarar a falta de lógica dos neo-ateus.

    Neo-ateus geralmente idolatram seus expoentes. Porém, mais do que isso, idolatram o raciocínio lógico e o ceticismo que dizem ter, mas não têm.

    Acho que, mais do que atacar Dennet, Dawkins e cia., o que mais irrita um neo-ateu é desmascarar sua credulidade, ingenuidade e total falta de ceticismo. Isso quebra-lhe os joelhos. Pois mostra a ele a verdade crua, de que ele é mais crédulo e irracional do que seus adversários mais odiosos. É o que testemunhamos aqui muitas vezes.

    Pedro M

    fevereiro 10, 2010 em 10:25 pm

  5. Todo o ser humano foi criado com a necessidade de adorar “Alguém” (Deus). Quando nós sufocamos essa necessidade básica em nós, não nos tornamos “descrentes” mas sim idólatras. A nossa devoção centra-se, então, em outra coisa a quem nós conferimos autoridade “suprema”.

    Os ateus (ou, como dizes, neo-ateus) direccionam a sua necessidade humana para adorar a outros ateus, ao naturalismo, ou àquilo que eles julgam ser digno de devoçção total. Do mesmo modo que o cristão se ofende quando Deus é atacado (embora responda de forma diferente), o ateu se ofende quando o seu ídolo é escrutinizado.

    Há figuras dentro da religião ateísta que são, por assim dizer, “sagradas”. Não se podem contradizer, criticar, refutar ou corrigir a menos que sejas também um crente ateu como eles.

    Não é portanto de estranhar as respostas menos simpáticas dos crentes ateus quando um dos seus ídolos é cientificamente ou logicamente destruído.

    Mats

    fevereiro 10, 2010 em 5:43 pm

  6. “Temos então uma de suas obras mais famosas: História da Filosofia Ocidental, que colocou-o numa posição considerável de historiador da filosofia e de sucesso em vendas.Numa obra como essas, não é preciso ser muito inteligente para perceber que o escritor deve conhecer todo o arcabouço metafísico ocidental, ou seja, todos os argumentos a favor e contra a existência de Deus. Russell comenta todos, seja em Platão, Aristóteles, Epicuro, Agostinho, Boécio, Anselmo, Sto. Tomás, Scot, Descartes, Leibniz, Kant e Hegel. Não é preciso mais comentários: Russell reexamina os argumentos e os comenta, demonstrando sua posição já na idade madura.”

    - Infelizmente aqui, nesse momento, pois posso fazer isso num momento oportuno, não tenho como “provar”, mas meus professores de filosofia medieval – que são medievalistas de renome na academia, Carlos Artur R. do Nascimento, Francisco Benjamim de Souza Netto, César Ribas Cezar entre outros – costumavam apontar em aula erros grosseiros das análises de Russell apresentados na sua História da Filosofia Ocidental sobre filosofia medieval, principalmente às obras de Duns Escoto. Para se ter uma ideia, o que Russell escreveu sobre filosofia medieval só é levado em consideração pelos professores como exemplo para mostrar como não se deve fazer.

    Att
    Francisco

    Francisco Razzo

    fevereiro 10, 2010 em 1:47 pm


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