Neo-Ateísmo, Um Delírio

Ceticismo e racionalidade na demolição da ilusão neo-ateísta

Desvendando a ilusão do neo ateísmo – Parte 5 – A Estratégia Gramsciana

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Se antes falamos do marxismo cultural, como um movimento integrado e organizado, e posteriormente falamos dos quatro estágios da subversão, chega o momento de tratarmos de um dos principais arquitetos da subversão, Antonio Gramsci. Logo, se antes tratamos do que era o marxismo cultural, e posteriormente como o jogo era jogado na perspectiva da subversão de um país, agora é importante saber como um dos principais teóricos do marxismo cultural arquitetou um modelo para implementação do marxismo.

Convém lembrar que já sabemos que muito provavelmente o objetivo final do marxismo não era alcançar a sociedade comunista, mas que alguns ideólogos marxistas e outros tipos de subversivos ACHASSEM que o objetivo era esse. O marxismo, nesse caso, seria apenas uma cortina de fumaça para motivar os subversivos. Neste caso, no entanto, tratarei Gramsci como alguém que acreditava no ideal marxista, ou seja, era, de certa forma, útil aos interessados na subversão.

Eliminando o estratagema da “teoria da conspiração”

Um dos motivos pelos quais eu decidi abordar a Estratégia Gramsciana é que nosso estudo poderia ser ferrenhamente atacado por marxistas e neo ateus (dentre outros grupos subversivos), simplesmente pela citação no artigo anterior feita a Yuri Bezmenov. Poderiam dizer: “Como devemos acreditar nas palavras de Bezmenov? Não pode ser um maluco? Uma idéia forjada? Em suma, sua alegação é teoria da conspiração”. Obviamente essa tentativa de atacar este estudo seria uma atitude totalmente torpe, conforme Olavo de Carvalho menciona:

O expediente usual de quem nada tem a responder a uma denúncia irrefutável é deformá-la por meio de um rótulo pejorativo — e “teoria da conspiração” é pejorativo o bastante para colocar o acusado sob suspeita de delírio paranóico.

Complementando, quem não tem nada a responder à uma denúncia que não pode ser refutada, e não tem nenhum parâmetro de moral (nesse caso, neo ateus e marxistas são exemplos perfeitos disso), obviamente a idéia é partir para a difamação do oponente. Muitos, de imediato, irão se lembrar do personagem maluquíssimo feito por Mel Gibson no filme “Teoria da Conspiração”, de Richard Donner. A idéia de propaganda é clara: se os leitores observarem qualquer estudioso como teórico da conspiração, não precisarão mais prestar atenção ao que ele disser.

Entretanto, já de cara antecipo esse possível estratagema e não posso deixar de lembrar, diante disso, que todas as declarações de Bezmenov estão amplamente amparadas por eventos históricos e a descrição coerente de como eles ocorreram. Mais ainda: quando foi falado do marxismo cultural, todos os autores citados descreveram suas intenções em livros. E, para concluir, todas as intenções de Antonio Gramsci estão em seus livros, de forma absurdamente explícita.

Oras, pela própria definição de “conspiração”, este é um arranjo entre uma ou mais pessoas físicas com o intuito de lesar outra pessoa ou organização, em um dado momento futuro, normalmente com pelo menos um ato secreto para fomentar essa combinação. Sendo que tudo que tratei nos 2 artigos anteriores é respaldado por eventos historicamente registrados, e que toda a estratégia de Gramsci, abordada aqui, está descrita em seus livros, o estudo vigente pode ser tudo, menos uma abordagem sobre conspiração. Os livros de Antonio Gramsci, embora não encontrados atualmente em catálogo no Brasil, tiveram várias edições, principalmente após o Golpe Militar de 64. Então, não falamos de algo secreto, mas sim publicado em livro, e lançado de forma oficial.

Sendo que qualquer tentativa difamatória de acusar este estudo de “teoria da conspiração” não pode mais ser levado à frente, podemos prosseguir.

O Cárcere

Antonio Gramsci nasceu em 1891, na Sardenha, Itália. Era um dos sete filhos de Francisco Gramsci, que teve, durante sua vida, vários problemas com a polícia. Gramsci, apesar da infância pobre, foi um bom estudante, tendo ganho um prêmio que lhe habilitou conseguir estudar literatura na Universidade de Torino. Durante seus estudos, Gramsci começou a frequentar as reuniões de grupos comunistas, em uma época que vários conflitos trabalhistas ocorriam naquela região.

Já filiado ao Partido Comunista italiano, Gramsci tornou-se jornalista, com vários de seus escritos publicados em jornais de esquerda, como Avanti, órgão oficial do Partido Socialista. Em 1919, ele fundou, junto com Palmito Togliatti, o jornal comunista L’Ordine Nuovo. Não demorou para Gramsci se tornar também um dos líderes do Partido Comunista Italiano (PCI, do qual foi um dos fundadores) em 1921. Em 1922,  viajou à Rússia, e lá conheceu sua esposa, Giulia Schucht, uma violinista. Com Giulia, Gramsci teve dois filhos. Na época em que esteve na Rússia, ocorreu o advento do fascismo na Itália. Na época, Gramsci considerou o fascismo apenas uma reação direitista trivial, sem maiores consequências, e retornou à Itália com a idéia de unificar os partidos de esquerda em uma luta contra o fascismo. Nessa época, a idéia de Gramsci já estava plenamente alinhada com sua estratégia, pois o objetivo da união dos partidos de esquerda era obter a hegemonia das forças de esquerda (até então centradas no Partido Socialista Italiano). Como o PCI era uma ala jovem e radical, acreditava-se que isso aumentaria o seu poder de influência. Mas a proposta encontrou resistência até de alguns comunistas. Uma das objeções era o fato de que uma coalizão comunista pudesse ficar alheia aos debates políticos da época, com o risco de ocorrer um isolamento da Esquerda.

Gramsci se tornou deputado pelo Veneto em 1924, quando começou a organizar o lançamento do jornal oficial do PCI, chamado L’Unitá. Nessa época, Gramsci vivia em Roma, mas sua família permanecia em Moscou. Em 1926, a polícia de Mussolini prendeu Gramsci e o condenou a 5 anos de reclusão. Foi durante esse período que Gramsci escreveu em vários cadernos suas idéias, e solidificou aí aquilo que conhecemos como Estratégia Gramsciana. Gramsci recebeu a liberdade condicional em 1934. Três anos depois, por motivos de saúde, ele faleceu, aos 46 anos. Curiosamente, mesmo tendo morrido três anos depois de ser libertado, Gramsci é até hoje tratado como mártir pela esquerda, o que é algo de que ele mesmo se orgulharia, pois, como veremos à frente, tudo que serve de propaganda ao “proletariado” é útil. Inclusive simular um suposto martírio de Gramsci.

O que preciso deixar claro, de antemão, é que tomo como princípio o fato de que Gramsci realmente acreditava em seus ideais de luta de classes e implementação do marxismo. Por mais torpes e maquiavélicos que fossem suas idéias de como fazer isso, não considero aqui a hipótese de Gramsci ser apenas um sujeito que ambicionava o poder, fazendo uso das massas. Como já fiz na parte 4, essa suspeita eu lanço claramente sobre Karl Marx, evidentemente, e, é claro, Lênin, Stálin, Castro, etc. Mas, em relação a Gramsci, tamanho esforço, dedicação e foco eu só posso dedicar a uma crença sincera nos ideais marxistas. Seja lá como for, a Estratégia Gramsciana foi e continua sendo usada até os dias de hoje como instrumento de manipulação de massas e reengenharia social por pessoas interessadas em conquistar o poder, de forma totalitária, e não implementadores de marxismo (que, como já trarei anteriormente, são apenas a camada subversiva da coisa).

Para entender as idéias concebidas por Gramsci, é importante salientar que o foco dele é principalmente no marxismo cultural. Como já tratado na obra de Giuseppe Fiori, “A Vida de Antonio Gramsci”, certa vez o sardenho foi abordado por correligionários do partido, comunicando-lhe que os revolucionários estavam a caminho. Gramsci questionou: “Quantos estão chegando?”. A resposta: “Cerca de 100 pessoas”. Resposta suficiente para deixá-lo emburrado. Desde esse ponto, fica evidente que o objetivo de Gramsci não era a luta armada, a princípio (embora ela fosse útil futuramente), mas sim um projeto de reengenharia social com foco na cultura. Não deixa de ser irônico notar que podemos tratar Gramsci como um dos arquitetos da destruição de nossa cultura, como veremos à frente.

Hegemonia e Poder

Gramsci desde o início era influenciado tanto por Marx como por Lênin. Ao analisar as obras do sardenho, notamos nele um alto grau de rancor contra as classes “burguesas”. Podemos considerar, tecnicamente, dois tipos de marxistas, quanto a sua origem: os que vieram da classe baixa, e os que vieram da burguesia. Podemos dizer que esses últimos são os marxistas “light”, como por exemplo José Saramago e Oscar Niemeyer. Já os marxistas que vêm do proletariado, e passaram dificuldades financeiras por sua vida, aparecem com uma carga maior de ódio, pois colocam nos “burgueses” todas as culpas pelas intempéries ocorridas durante a vida. Gramsci pode ser considerado esse segundo tipo de marxista.

E, como não poderia deixar de ser, a combinação do ódio natural de Gramsci, com suas influências culturais resultaram em uma estratégia absolutamente maquiavélica e amoral. E, como sói ocorre com esse tipo de mente, Maquiavel era uma de suas referências, como podemos ver abaixo:

Marx e Maquiavel. Esse tema pode dar origem a um duplo trabalho: em estudo sobre as relações reais entre os dois, enquanto teóricos da prática militante, da ação; e um livro que extraísse das teorias marxistas uma exposição coerente relativa à atualidade política, baseada no modelo do Príncipe. O tema seria: o partido político e suas relações com as classes e o Estado. Não o partido como categoria sociológica, mas o partido que quer fundar um Estado. [...] Maquiavel teorizou uma prática; ele pensou naquele que não sabe.

Para facilitar ainda mais o entendimento, vamos imaginar como funciona essa seguinte fórmula (ódio pela outra classe + maquiavelismo + marxismo-leninismo), e o resultado começa a ficar cada vez mais compreensível.

Antes de tudo, vamos relembrar o que disse Lênin:

Através do mundo civilizado, os escritos de Marx trazem a tona a completa hostilidade e ódio da ciência burguesa (tanto oficial como liberal), que trata o marxismo como um tipo de “seita perniciosa”. E nenhuma outra atitude deve ser esperada, poir não há ciência social imparcial em uma sociedade baseada em luta de classe. De uma forma ou de outra, toda ciência oficial e liberal defende a escravização salarial. Idealizar uma ciência como sendo imparcial em uma sociedade de escravização salarial é uma ingenuidade e tolice, assim como esperar imparcialidade de industriais na questão a respeito de se os salários dos trabalhadores devem ser aumentados ao passo que ocorra a diminuição dos lucros.

Obviamente, Lenin apenas mantém o tom de Marx em seu Manifesto Comunista. Vejam:

Na sociedade burguesa, o passado domina o presente; na comunista, o presente domina o passado. Na sociedade burguesa, o capital é independente e pessoal, ao passo que o indivíduo ativo não tem nem independência nem personalidade. À supressão dessas relações, a burguesia chama de supressão da personalidade e da liberdade! Com razão. Trata-se efetivamente da supressão da personalidade, da independência e da liberdade burguesas.

Aqui já temos dois fatores, sendo um o maquiavelismo, talvez advindo do ódio, e outro a influência de que a luta de classes deveria ser desleal, portanto o ideal era jogar deslealmente. Nos pensamentos de Lenin e Marx, bases da psicologia de Gramsci, toda a cultura atual, assim como a ciência social, era DESLEAL com os proletários, sendo então um conjunto de idéias burguesas apenas com a finalidade de manter o proletário um escravo. Interpretando isso tudo com Maquiavel a coisa fica mais ou menos assim: “Eles jogam sujo com a gente, e portanto jogaremos sujo com eles, pois não há outro jogo que não o sujo”.

Parece exagero? Vejamos então como Gramsci agia até em relação a sua própria filha. Aqui abaixo, em um excerpt retirado da obra “Antonio Gramsci. Uma Vida.”, de Laurana Lajolo (e citado por Olavo de Carvalho em “A Nova Era: Fritjof Capra e Antonio Gramsci”), com uma fábula escrita por Gramsci, na prisão, para sua própria filha:

“Enquanto um menino dormia, um rato bebeu o leite que a mãe lhe havia preparado. Quando o menino acordou, pôs-se a chorar porque não encontrou o leite; a mãe, por seu lado, também chora. O rato tem remorsos, bate a cabeça contra a parede, mas finalmente percebe que aquilo de nada serve. Então, corre à cabra para conseguir mais leite. Mas a cabra diz ao rato que só lhe dará leite se tiver capim para comer. Então, o rato vai até o campo, mas o campo é árido e não pode dar capim se não for molhado antes. O rato vai à fonte, mas esta foi destruída pela guerra e a água se perde; é preciso que o pedreiro conserte a fonte. O pedreiro precisa das pedras, que o rato vai buscar numa montanha, mas a montanha está toda desmatada pelos especuladores. O rato conta toda a história e promete que o menino, quando crescer, plantará novas árvores na montanha. E assim a montanha dará as pedras, o pedreiro refará a fonte, a fonte dará a água, o campo dará o capim, a cabra fornecerá o leite e, finalmente, o menino poderá comer e não chorará mais.”

Dá para perceber o tipo de lavagem cerebral contida nesta fábula. Em uma tacada só, Gramsci ensina à criança o processo de produção capitalista, e inclui nisso o ódio aos especuladores, juntamente com a esperança na utopia socialista (“onde todos os problemas sociais estarão eliminados”). Como diz Olavo de Carvalho:

O que Gramsci fez com sua própria filha, por que não o faria com os filhos dos outros? É preciso que a pregação comunista atinja os cérebros enquanto ainda estão tenros e indefesos, e, fechando-lhes o acesso a toda concepção de ordem espiritual, os encerre para sempre no círculo de ferro da mundanidade “histórica”. Gramsci revela aqui toda a mesquinhez da sua concepção do mundo, onde a economia é não só o motor da História, mas o limite final do horizonte humano.

A partir de agora, podemos juntar ao maquiavelismo e a filosofia de luta de classes (que, como está mais do que claro, tem tudo a ver com fomentação de ódio), uma preocupação que atingia Lenin, desde o tempo das “Obras Completas”. Vejamos, nas palavras dele:

É preciso encontrar a forma prática que permitiria ao proletariado exercer sua dominação. Essa forma é o regime dos soviets com a ditadura do proletarisado! A ditadura do proletariado!. Essas palavras até hoje eram latim para as massas. Graças à irradiação do sistema dos soviets no mundo, esse latim foi traduzido em todas as línguas modernas; a forma prática da ditadura foi encontrada pelas massas operárias. Ela se tornou compreensível para as grandes massas operárias graças ao poder dos Soviets na Rússia, graças aos spartaquistas na Alemanha, e as organizações análosas em outros países, tais como os Shop Stewards Committess na Grã-Bretanha.

O que nos deixa claro que o problema aqui tratado é na questão da dominação. Como estabelecer uma dominação, se não existir a hegemonia? Gramsci concordava plenamente com Lenin, como veremos:

O bolchevismo é o primeiro na história internacional da luta de classes a haver desenvolvido a idéia da hegemonia do proletariado, a haver colocado na prática os principais problemas revolucionários que Marx havia exposto teoricamente. A idéia de hegemonia do proletariado, na medida em que foi concebida histórica e concretamente, implicou na necessidade de buscar nos camponeses pobres um aliado da classe operária.

Vamos nos posicionar no tempo, para facilitar o entendimento. Coloque-se no lugar de Antonio Gramsci, recheado de filosofia de luta de classes na alma, juntamente com idéias maquiavélicas, e com esse problema nas mãos. E imagine-se tendo que resolver esse problema, justamente por que você IDEALIZOU que tem que resolvê-lo. É aí que começou a surgir a epifania de Gramsci:

O critério histórico-político, no qual devem basear-se as pesquisas, é o seguinte: uma classe domina de duas maneiras, isto é, ela é dirigente e dominante. Ela é dirigente em relação às classes aliadas e dominante em relação às classes antagônicas. Eis a razão por que uma classe pode (e deve) ser dirigente, antes de tomar o poder. Uma vez no poder, ela se torna dominante, mas continua também a ser dirigente.

Isso significa o seguinte. Gramsci já chegou a conclusão do que precisava ser feito. Ou seja, a classe proletária deveria se tornar primeiramente dirigente, e posteriormente dominante, o que significa primeiramente orientar as ações, e depois CONTROLAR as ações, com o uso do poder. Isso significaria obter a hegemonia, e, mesmo após a obtenção do controle formal, ainda existiria o domínio intelectual (obtido anteriormente). Gramsci considerava que esse modelo havia sido obtido pela Igreja Católica, por exemplo, tanto que ele sugere que a existência dos santos católicos era uma forma de manutenção deste poder intelectual. Neste caso, os santos representariam virtudes e valores, que influenciariam a população. Não surpreende, portanto, que entre as propostas de Gramsci estivesse a substituição dos santos católicos por imagens de Rosa Luxemburgo e outros revolucionários.

Em relação a combinação “dirigente-dominante”, Gramsci deixava também claro que não adiantava a classe proletária dominar culturalmente a classe burguesa, mas também conseguir o poder, como ele novamente deixa claro a seguir:

A hegemonia política pode e deve existir antes de se chegar ao governo; não se deve contar somente com o poder e a força material que ele dá, para exercer a direção ou hegemonia política.

Já é o momento de definir claramente o conceito de hegemonia e poder. Hegemonia é quando uma classe se torna dirigente, e poder é quando uma classe se torna dominante. Para Gramsci, é preciso obter a hegemonia, primeiramente, e depois o poder. Para manter o poder, após conquistá-lo, é preciso garantir a manutenção da hegemonia.

Se sabemos que até agora tudo para Gramsci é baseado na luta entre classes, e que os fins justificam os meios nessa conquista hegemônica, obviamente temos claro que a descoberta de Gramsci central é simples:

  • (a) A Luta entre classes é um fato, e proletários lutam contra burgueses
  • (b) A cultura é dominada pela burguesia
  • (c) Devemos remodelar essa cultura, agindo organicamente (falaremos disso a seguir)
  • (d) Nessa luta, todos os meios para “reprogramar” a mente das pessoas será útil.

E, se temos uma “mudança cultural”, quais seriam os novos elementos inseridos? E quais elementos culturais retirados? Se lembrarmos da parte 3, em que tratamos a base do marxismo cultural, em que tínhamos as 3 colunas (moral judaico-cristã, filosofia grega e direito romano) que deveriam ser destruídas para implementação do marxismo, podemos resumir claramente o programa gramscista da seguinte maneira:

  • (a) Enfraquecimento e ridicularização da religião
  • (b) Cultura de desprezo às instituições de direito, inclusive direito à propriedade
  • (c) Inserção de uma grande massa de “filósofos” anti-aristotélicos e anti-socráticos
  • (d) Endeusamento de revolucionários e subversivos de todos os tipos

Pelo item (a), não é nem preciso pensar muito para saber que chegamos, então, à parte central do nosso objeto de estudo, que é o neo ateísmo – como veremos à frente, teoricamente poderemos considerar até pares do neo ateísmo nessa luta. Em relação à (b), temos a atividade cultural de “intelectuais” da mídia idolatrando criminosos, revolucionários, e coisa do tipo, e a mesma iniciativa vale para o item (d). Em relação a (c), temos a presença na mídia de pseudo-filósofos como Foucault, Derrida e Rorty, que no máximo ficam publicando textos para tornar aceitável a idéia de que a busca da verdade, pilar dos 3 sábios (Sócrates, Platão e Aristóteles), era uma tolice.

Se compreendemos, então, uma base do programa de reeducação cultural gramsciana, devemos entender o MODELO DE ATUAÇÃO pelo qual ele é implementado.

Os Intelectuais para Gramsci

O que nós chamamos de senso comum, surgido de forma espontânea, e que constitui a nossa “base interna de conhecimento” para visualizar o mundo, para definir como reagimos às experiências percebidas, englobando costumes, hábitos, tradições, éticas e valores, dentre outros, é tratado por Gramsci de uma forma totalmente diferente. Primeiramente, ele não considera o senso comum como algo tão espontâneo assim. Pelo contrário, ele acha que todos nós somos programados para gostar daquilo que gostamos, inclusive ao escolhermos nossa religião, nosso sistema filosófico e coisas do tipo. Logo, para livrar-nos dessa “suposta” programação, orientada a partir de cima, essa nova programação tem que também ser orientada, e não espontânea. Deixemos a palavra com o próprio Gramsci:

A formação de uma consciência coletiva unitária demanda iniciativas e condições múltiplas. A difusão de um modo de pensar e de agir homogêneo, a partir de uma direção homogênea, é a condição principal para isso – mas ela não deve ser a única. Um erro bastante difundido é o de crer que qualquer camada social elabora sua própria consciência, sua própria cultura da mesma maneira, com os mesmos métodos, isto é, com os métodos dos intelectuais profissionais.

A partir do que está acima, a execução da Estratégia Gramsciana implica na remodelação do senso comum, justamente através daquilo que ele próprio define como intelectuais orgânicos. A importância dos intelectuais orgânicos está abaixo:

Certamente é importante e útil para o proletariado que um ou mais intelectuais adiram a título individual ao seu programa, à sua doutrina, se fundam ao proletariado e sintam-se parte integrante dele.

Notem como o intelectual orgânico não é necessariamente um proletário, mas sim uma pessoa, com cultura suficiente e capacidade de influência em seu meio, que se adeque à causa proletária. Um exemplo podem ser os vários “burgueses”, com boa educação e geralmente pertencente à uma boa universidade, que são doutrinados por revolucionários a aderir a causa deles. A utilidade dos intelectuais orgânicos é definida abaixo, novamente:

Hoje são os intelectuais como massa e não como indivíduos que nos interessam… É tão importante quanto útil que se opere na massa dos intelectuais uma ruptura de caráter orgânico, historicamente determinada: que se manifeste como formação de massa uma tendência de esquerda no sentido moderno do termo, isto é, uma virada em relação ao proletariado revolucionário.

Como ficou claro, a função deste novo intelectual não é ser uma pessoa produtora de conhecimento nos padrões que nos acostumamos a entender por produção intelectual. Esse tipo de intelectual não é tão interessante (pois é o que Gramsci chama até de inorgânico, sem capacidade de penetração nas massas). Este “novo” intelectual tem que ser alguém de influência para as massas, pois, como já sabemos, o trabalho dele é um só: remodelar o senso comum de acordo com o programa gramsciano. E o conceito de intelectual orgânico, para Gramsci, é bastante abrangente:

Por intelectual, cabe entender não somente essas camadas sociais tradicionalmente chamadas de intelectuais, mas em geral toda a massa social que exerce funções de organização em um sentido amplo; seja no plato da produção, da cultura ou da administração pública.

Quer dizer, qualquer um, desde que ajude na execução deste programa de remodelação é um intelectual orgânico. Muitas vezes um professor, que não editou livro algum, é um intelectual orgânico, como exemplo o Professor Carlão. Se ele escreveu um livro ou apresentou uma tese? Não importa. Ele está ajudando a moldar a nova cultura, então ele é útil. Se alguém cria uma comunidade no Orkut para criticar os conservadores, já executa a função de intelectual orgânico. Como veremos:

Enquanto historicamente necessárias, elas [as ideologias orgânicas] possuem uma validade que é uma validade “psicológica”, elas organizam as massas humanas, formam o terreno onde elas se movem, onde elas adquirem consciência de sua posição, onde elas lutam, etc. [...] Todos os homens, seja qual for sua origem, sua profissão, que trabalhem com as mãos ou com o cérebro, são a mesma espécie de intelectuais.

Gramsci era bem explícito em suas intenções: ideologias orgânicas possuem para ele uma validade, que é a validade “psicológica”, e deve servir para organizar as massas na direção esperada. Eis que o cético poderia perguntar: mas e a cultura, como fica nisso tudo? Gramsci não dá a mínima para isso também, pois para ele o que muitos tradicionalmente conhecem como “cultura” atende ao objetivo da classe burguesa, e portanto, não faz muita diferença. Vejam:

É através da crítica a civilização capitalista que se formou, ou que se está formando, a consciência unitária do proletário; e crítica significa ‘cultura’.

Que beleza não? Cultura para ele é irrelevante, o que importa é a consciência unitária do proletário (que ele, como já vimos, definiu de antemão, em perfeito alinhamento com as ideologias de Marx). Se hoje vemos uma decadência cultural sem precedentes em nosso continente (e inclusive nos Estados Unidos), temos que dar o mérito principalmente às implementações do marxismo cultural, das quais a mais importante é o Gramscismo. É possível notar que, como a cultura não é relevante para Gramsci, os intelectuais orgânicos usam e abusam de retórica, mas não se preocupam com a lógica, pois o que importa é a persuasão, mas não mais a busca da verdade (que deveria pautar a elite intelectual, ao menos).

Claro que Richard Dawkins também é um intelectual orgânico, e dos mais destacados (mesmo que talvez não seja marxista), o que importa é agir em ao menos um dos pontos que ajudem na execução do programa. Detalhe que na perspectiva de Gramsci, ele não está dando a mínima para os interesses de Dawkins, ou do Professor Carlão, e sim à agenda. O programa a ser executado é claro, não importa de que forma for.

E se Dawkins for liberal, isso não o retira da tropa de elite dos agentes de Gramsci (ou melhor, intelectuais orgânicos)? Não, pois há uma grande simpatia dos marxistas culturais pela agenda liberalista (em contraposição à agenda conservadora). Vejam novamente, nas palavras de Gramsci:

Naturalmente, os liberais (economistas) são pelo Estado vigilante e gostariam que a iniciativa histórica fosse deixada à sociedade civil e às diferentes forças que aí surgem, o Estado sendo um mero zelador da lealdade do jogo, das regras do jogo.

Concluindo, a seguir:

Permanecemos ainda no campo da identificação entre o Estado e o governo, identificação que é justamente uma representação da forma corporativo-econômica, isto é, da confusão entre socieadade civil e sociedade política; porque é preciso notar que a noção de Estado comporta elementos que devem ser vinculados à sociedade civil (no sentido de Estado – sociedade política + sociedade civil, isto é, “hegemonia encouraçada de coerção”).

Edouard Bernstein, autor de “Les Présupposés du Socialisme”, também provavelmente concorda que agendas liberalistas, de acordo com o contexto, são simpáticas a coisas como marxismo cultural. Segundo Bernstein:

No que se refere ao liberalismo como movimento histórico universal, o socialismo é seu herdeiro lógico, não somente do ponto de vista cronológico, mas também quanto a seu culto ideal.

Aliás, aqui é importante relembrarmos a “estratégia das tesouras”, proposta por Stálin. O objetivo era retirar do espectro político uma das forças, e criar novas forças, só que não tão opostas uma às outras. Isso significa que se temos hoje o conservadorismo, o liberalismo e o marxismo, sendo que o liberalismo fica na “coluna do meio”, uma iniciativa gramsciana não só pode, como DEVE, ser simpática à participação de liberalistas, desde que atuem como intelectuais orgânicos – a divisão, conforme a estratégia das tesouras, é entre liberalismo e marxismo, sendo o conservadorismo retirado da discussão. Vamos supor um diálogo imaginário de um novo intelectual orgânico na agenda de Gramsci:

  • ORGÂNICO MIRIM: Eu quero, de todo o coração, lutar contra a religião, extirpá-la da discussão pública. Dedicarei meu tempo todo a ridicularizá-los, de acordo com as obras de Sam Harris e Richard Dawkins.
  • ORGÂNICO MASTER: Mas que felicidade minha ao ouvir isso…
  • ORGÂNICO MIRIM: Mas não fique tão feliz! Eu não sou comunista, eu gosto até do capitalismo, embora eu seja meio liberal…
  • ORGÂNICO MASTER: Não tem problema, seja feliz, junto com a gente, vamos tomar uma cervejinha.

Isso é mais um exemplo em que podemos visualizar que as crenças pessoais de cada um não interessam, desde que ajudem à agenda. Um outro exemplo, que não podemos deixar de citar, como sempre, é a Teologia da Libertação. A venda, neste caso, é de religião (oposta à venda de Dawkins, que é anti-religião), mas é uma religião prostituída de forma a inserir vários elementos de luta de classes lá dentro e negação de valores como direito à propriedade. Para a estratégia de Gramsci, ambos são úteis da mesma forma. Essa é a grande família Gramsciana!

Tudo pela revolução

O que é possível notar, diante de tudo isso, é que coisas como cultura, verdade, intelectualidade, são todas concepções “burguesas”, e, portanto, não tem muita serventia para os gramscistas. Aliás, uma coisa importante é notar em todo esse pessoal como eles jogam fora o conhecimento adquirido no passado. Vejam, por exemplo, como alguns subversivos tratam a religião cristã e a religião judaica como crenças “inventadas” de última hora (aí dizem “aha, eu posso inventar uma também”). É claro que não podemos tirar uma parcela da culpa que reside no pós-modernismo, como um todo, mas que a Estratégia Gramsciana oficializou tal atitude como parte de seu programa de ação, isso é um fato. Mais, direto da fonte:

Tudo é político, inclusive a filosofia ou as filosofias, e a única “filosofia” é a historia em ato, ou seja, a própria vida. É neste sentido que se pode interpretar a tese do proletariado alemão como herdeiro da filosofia clássica alemã; e pode-se afirmar que a teorização e a realização da hegemonia, praticada por Lenin, foi também um grande acontecimento “metafísico”.

Para executar esse tipo de estratagema (anti-aristotélico até a medula), é preciso de um conjunto de ferramentas, que vai do desconstrucionismo até o historicismo absoluto, este último defendido pelo próprio Gramsci:

[...] um grupo social, que tem uma concepção própria do mundo, ainda que embrionária, que se manifesta na ação e, portanto, descontínua e ocasionalmente – isto é, quanto tal grupo se movimenta como um conjunto orgânico – toma emprestada a outro grupo social, por razões de submissão e subordinação intelectual, uma concepção que lhe é estranha; e aquele (o primeiro) grupo afirma por palavras esta concepção, e também acredita segui-la, já que a segue em “épocas normais”, ou seja, quando a conduta não é independente e autônoma, mas sim submissa e subordinada. É por isso, portanto, que não se pode destacar a filosofia da política; ao contrário, pode-se demonstrar que a escolha e a crítica de uma concepção do mundo são, também elas, fatos políticos.

O que significa que, para Gramsci, o que sabemos em termos históricos são elocubrações que foram influenciadas pelos “fatos políticos”. Pela subordinação à intelectualidade da “classe burguesa”, permitiu-se o estabelecimento de interpretações da história que geralmente não atendiam os interesses dos proletários. Diante disso, recursos para reinterpretar o passado terão que ser utilizados para remodelar a visão que se possui do passado, agora de acordo com o interesse da classe proletária.

Ou por que vocês acham que muitos professores de história contam uma história de “luta de classes” desde a época da chegada da colonização portuguesa – geralmente, os índios são apresentados como “povo oprimido”, escondendo-se o fato de que várias tribos de índios eram aliadas dos colonizadores, e sem tal aliança estes sequer conseguiriam se estabelecer no continente (para maiores detalhes, ler “O Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, de Leandro Narloch). De novo o que importa para os gramscistas não é a história em si, mas como ela pode ser divulgada de forma a ajudar na implementação do programa gramsciano.

Agora, um exemplo mais claro ainda, e não da história, mas do cotidiano, em que vemos uma reinterpretação dos fatos nos mesmos modelos do historicismo absoluto. Nesse link, do blog de Reinaldo Azevedo, temos um acontecimento bizarro. Resumindo: em uma greve dos professores, os grevistas (liderados por Bebel, em prol da campanha de Dilma, contra José Serra) saíram na briga com os policiais. Eis então que surge a foto mencionada no artigo, em que um homem carrega uma policial. Mas vejam como os blogs de petistas divulgaram a notícia:

(a) Um professor, da classe proletária, carregou UM policial, que lutava pela classe burguesa, e foi atingido pelos próprios policiais (que, obviamente lutavam pela classe burguesa), e nesse ato foi mostrado que os burgueses são cruéis, e os proletários solidários, e até carregam o representante do inimigo no colo.

É, alguns subversivos devem até ter chorado de emoção ao ler a notícia, mas vamos à verdade:

(b) Um policial à paisana, carregou UMA policial, que foi AGREDIDA por um dos grevistas. Nesse ato, foi mostrado o óbvio: subversivo é subversivo em qualquer lugar, e o comportamento é o padrão.

Em suma, o que vimos: os fatos apareceram, e a divulgação dos sites petistas era uma mentira. Mas por que não foram checar as fontes? Para eles, não era preciso, pois o objetivo era pegar a foto e contar a VERSÃO DE PROPAGANDA do que a imagem trazia. Aí retornarmos para aquilo que falamos na parte 2 deste ensaio: para o adepto da mentalidade revolucionária, os fatos não importam, e sim a teoria. Mas esperar o quê de alguém doutrinado por crenças como essa?

A filosofia de uma época não é a filosofia deste ou daquele filósofo, deste ou daquele grupo de intelectuais, desta ou daquela grande parcela das massas populares: é uma combinação de todos estes elementos, culminando em uma determinada direção, na qual sua culminação torna-se norma de ação coletiva, isto é, torna-se “história” concreta e completa (integral).

O que é, de novo, Gramsci tentando justificar que não há problema no fato dele maquiar a história para atender às conveniências de sua propaganda, pois, na visão dele, os BURGUESES já faziam isso antes. Ele estaria, apenas, “pagando na mesma moeda”.

Quem acompanha este blog há tempos, já notou que vários neo ateus maquiaram a história do passado para tentar vender a idéia de que “religião é influência principal para violência”, não? Para maiores exemplos, recomendo os links [1] e [2].

Fica claro que gente como Christopher Hitchens, Sam Harris, Daniel Dennett e Richard Dawkins são profissionais na prática do historicismo absoluto e desconstrucionismo. A bem da verdade, já é o momento de mostrar por que é lícito chamá-los, assim como à maioria do executores da estratégia gramsciana, de mentirosos profissionais. Isso não é uma ofensa, mas sim a constatação de um fato, através do estudo da ORIGEM do comportamento militante deles, e dos estrategistas desse modelo de comportamento. Para Gramsci, mentir é lícito, pois ele acreditava que outros mentiram no passado contra a “classe” dele. A partir disso, ele justifica que a história deve ser recontada de acordo com o interesse da “classe” (ou seja, não da verdade). O que é isso senão confissão de prática de mentira de forma estruturada? É por isso que profissionais que ganham a vida dessa forma são profissionais na prática da mentira. Se for útil à propaganda, está bom, principalmente se for mentira. Isso é o que diferencia um mentiroso ocasional de um mentiroso profissional. Um mentiroso ocasional, por exemplo, pode ser alguém que traiu a esposa e esconde a informação, se corroendo de culpa por dentro. Um mentiroso profissional sabe que pode até ganhar a vida com a prática da mentira, e o faz de forma estruturada, sem culpa. Por está que dando resultados! É assim que ele pensa. Gramsci ajudou a justificar tal tipo de comportamento.

E já que falamos de mentira, em termos de uso de propaganda, alguém já ouviu o argumento de que “a maioria dos cientistas são ateus, então o certo é ser ateu”, não? Se alguém já leu os livros dos neo ateus, é natural já ter esbarrado com tal argumento ao menos uma vez. É claro que, se estudarmos a estratégia Gramsciana (e o marxismo cultural como um todo), vemos que a base da doutrinação dos marxistas culturais está na universidade. Motivo? É mais barato e dá mais resultados doutrinar uma pessoa capaz de influenciar os outros do que doutrinar o povão. Depois de doutrinar acadêmicos, principalmente da ciência, esses farão o trabalho de modificar o senso comum. Isso ocorre exatamente conforme Gramsci solicitou:

Toda relação de “hegemonia” é necessariamente uma relação pedagógica, que se verifica não apenas no interior de uma nação, entre as diversas forças que a compõem, mas em todo campo internacional e mundial, entre conjuntos de civilizações nacionais e continentais.

Vocês se lembram de que eu falei das ambições globais das pessoas de mentalidade revolucionária, não? Como bom representante dos revolucionários, Gramsci não pensa em termos nacionais, mas globais. E, é claro, foca que o início do trabalho é nas relações pedagógicas. E, diante disso, como não pensar nas escolas? Principalmente as academias. Como se vê, a partir de agora começa a ficar mais cristalino o motivo pelo qual Richard Dawkins é tão interessado em retirar o direito dos pais educarem os filhos em seus valores religiosos. Motivo: facilitar a reformulação cultural da mente da criança. As escolas, principalmente as universidades, serão o terreno onde a doutrinação dos intelectuais orgânicos ocorrerá. Prestem atenção nessa análise detalhada, que Gramsci apresentou:

A organização acadêmica deverá ser reorganizada e vivificada de alto a baixo. Territorialmente, possuirá uma centralização de competência e de especializações: centros nacionais que se agregarão às grandes instituições existentes, seções regionais e provinciais e círculos locais urbanos e rurais. Dividir-se-á por especializações científicos-culturais, que serão representadas em sua totalidade nos centros superiores, mas só parcialmetne nos círculos locais. Unificar os vários tipos de organização cultural existentes: academias, institutos de cultura, circulos filológicos, etc., integrando o trabalho acadêmico tradicional – que se expressa principalmente na sistematização do saber passado ou em buscar fixar uma média do pensamento nacional como guia da atividade intelectual – a atividades ligadas à vida coletiva, ao mundo da produção e do trabalho. Controlar-se-ão as conferências industriais, a atividade da organização científica do trabalho, os gabinetes experimentais das fábricas, etc. Construir-se-á um mecanismo para selecionar e desenvolver as capacidades individuais da massa popular, que são hoje sacrificadas e definham em erros e tentativas sem perspectiva. Cada círculo local deveria possuir necessariamente a seção de ciencias morais e políticas, e organizar paulatinamente as outras seções especiais para discutir os aspectos técnicos dos problemas industriais, agrários, de organização e de racionalização do trabalho industrial, agrícola, burocrático, etc. Congressos períodicos de diversos níveis fariam com que os mais capazes fossem conhecidos.

Quanto a isso não há muito o que acrescentar. A organização acadêmica, como um todo, deve ser avaliada e até reorganizada para atender aos objetivos. Gramsci simplesmente entrega o ouro! Como já dito na parte 3, os hormônios estão em ebulição nessa fase, e é possível usar várias propagandas como “fuja da repressão, largue seus valores burgueses”, conforme Herbert Marcuse sugeriu. Marcuse nada mais fez do que implementar o que gente como Gramsci já arquitetou no passado, apenas com um ”gancho” para aumentar a eficácia da doutrinação. O importante aqui é sabermos que o fato de um alto número de pessoas de ideologia subversiva nas universidades não é motivo de orgulho e propaganda neo ateísta. Se avaliarmos com cuidado, é uma evidência da execução da estratégia gramsciana, exatamente conforme solicitado nos escritos dele. Para quem ainda tem dúvidas, vejamos mais, diretamente de Gramsci:

Seria útil possuir a lista completa das academias e das outras organizações culturais hoje existentes, bem como dos assuntos tratados em seus trabalhos e publicados em suas “Atas”: em grande parte, trata-se de cemitérios da cultura, embora eles desempenhem uma função na psicologia da classe dominante. A colaboração entre estes organismos e as universidades deveria ser muito estreira, bem como sua colaboração com todas as escolas superiores especializadas de qualquer tipo (militares, navais, etc.). A finalidade consiste em obter uma centralização e um impulso da cultura nacional que fossem superiores aos da Igreja católica.

Como se vê, listas completas de academias e das outras organizações culturais atualmente existentes. E, como sempre, a ambição não é pequena: superar a influência da Igreja Católica. Em relação a tudo isso, Gramsci conclui ainda com uma nota, em sequência às observações anteriores, que é essencialmente reveladora:

Este esquema de organização do trabalho cultural segundo os princípios gerais da escola unitária deveria ser desenvolvido, cuidadosamente, em todas as suas partes e servir de guia na constituição mesmo do mais elementar e primitivo centro de cultura, que deveria ser concebido como um embrião e uma molécula de toda a estrutura mais maciça. Mesmo as iniciativas notoriamente transitórias e experimentais deveriam ser concebidas como capazes de ser absorvidas no esquema geral e, ao mesmo tempo, como elementos vitais que tendem a criar todo o esquema. Estudar atentamente a organização e o desenvolvimento do Rotary Club.

Como ficou bem claro, Gramsci foi explícito ao sugerir que deve ser estudado atentamente a organização e o desenvolvimento do Rotary Club. Qual o motivo? Isso nos leva a parte final deste artigo, em que falaremos da execução da estratégia em si.

Executando a Estratégia

Quando se fala em Estratégia Gramsciana, a primeira pergunta que normalmente é feita é: quem é que organiza tudo isso? Há organizações mundiais financiando? Quem paga tudo isso? A pergunta, embora compreensível, não possui uma resposta imediata. Mas, diante da afirmação do próprio Gramsci de que era preciso estudar a organização e o desenvolvimento do Rotary Club, podemos ter uma pista. Por exemplo, é possível que a primeira estrutura de organização esteja presente na Itália, ou algum país da Europa? Isso talvez explique que o Velho Mundo esteja muito influenciado atualmente pelo liberalismo ou marxismo, mas com as bases conservadoras mais frágeis. É uma das explicações possíveis.

O que importa é que buscar definir um responsável central pela estratégia gramsciana, ou até um financiador externo, não é tão interessante no momento, pois isso poderá nos levar a elocubrações desnecessárias e elaboração de hipóteses também desnecessárias. A idéia da estrutura do Rotary é aquela na qual vou me apegar, pois é mais plausível e é uma explicação econômica.

A Fundação Rotária do Rotary Internacional é considerada uma das principais ONGs do mundo, sendo patrocinada exclusivamente por doações de rotarianos e outros que compartilham da mesma visão. Notem que não estou entrando no mérito das iniciativas rotarianas, estou tomando apenas a ORGANIZAÇÃO como modelo explicativo, por sugestão do próprio Gramsci. O que impediria, por exemplo, de, usando o mesmo modelo do Rotary, de criarmos grupos acadêmicos, centrados em universidades, aliados a várias ONGs, as quais recebem doações (da mesma forma que o Rotary), além da criação de estruturas de comando aliadas com o objetivo da propaganda Gramsciana? Em suma, é uma explicação que retira a necessidade de buscarmos agentes externos (por enquanto), e explica de forma bastante adequada o motivo pelo qual as iniciativas subversivas no Brasil e outros países tem sido tão resistentes, e baseadas em uma unidade comportamental (dos líderes).

Se sabemos a estrutura da execução, podemos então focar em um exemplo. Como anteriormente já listei, entre os objetivos do programa gramsciano está a desmoralização e retirada de influência da religião. Neste caso, o neo ateísmo é um movimento que caiu como uma luva, certo? Vários acadêmicos aderiram e cantam, em altos brados, o “orgulho de ser ateu”, e, é claro, não se esquecem de sempre focar na agenda da ridicularização da religião. Notem a declaração de um forista do Orkut [trecho foi coletado na comunidade Ateísmo e Anti-Cristianismo], que obtive recentemente, e explica bem essa postura:

“No ritmo das descobertas cientificas, nao irá se estender por muito tempo aquilo que precisamos para revelar a origem de tudo. Com isto acontecendo, nao tenho dúvidas que os teistas, por mais que queiram relutar pelo seu deus, terão que enfrentar humilhações por nao aceitarem uma verdade, porém isto so vai durar enquanto elas vão morrendo, pois as novas geracões já não serão mais educadas com mentiras. [...] Acho que uma verdade cientifica afetaria todas as religioes…o mundo inteiro. Nao lhe parece que seria vergonhoso para os religiosos, nao aceitarem uma verdade e procurar outras formas de crenças? Hoje justifica pela falta respostas, mas e com respostas? Alem de vergonha e humilhação, poderiam ser taxados de burros também. Seria o mesmo que negar que 2+2=4.”

No discurso dessa pessoa vemos, ao mesmo tempo, cientificismo, escárnio (incluindo planejamento de escárnio), ilusão a respeito do que é ciência, tentativa de ampliar a ciência para discutir Deus, uma visão utópica de um futuro onde a ciência explicou tudo (sem necessidade para teologia, epistemologia, etc.), e então DEFININDO como será o julgamento no futuro dos que não conhecerem “a verdade”, como ele mesmo diz. É esse tipo de mentalidade que compõe grande parte do discurso neo ateísta, como temos visto aqui, neste blog.

Notemos, no entanto, que esse discurso agressivo não é a única forma de ataque à religião. Se a estratégia Gramsciana permitir predições, podemos até já ter uma sugestão de novos movimentos culturais no futuro. Como exemplo, que tal o surgimento de uma oposição ecumênica ou ateísta ao neo ateísmo? Lembrem-se de que falei da estratégia das tesouras.

Vejamos como ela funcionaria nesse caso: após um certo tempo, a agressividade dos neo ateus geraria rejeição não só dos religiosos mas também de alguns ateus. Isso seria a brecha para a criação dos “ateus amenos pró-religião” ou “espiritualistas ecumênicos” (ou qualquer tranqueria deste tipo), com a aparência pública de dar uma resposta aos neo ateus, dizendo que a religião não é má, e que os neo ateus são radicais demais. Este novo grupo lançaria livros, e criaria um “debate” entre duas posturas sobre religião. Uma ecumênica e a outra neo ateísta. Uma a favor da religião (mas universal), e outra a favor da eliminação da religião. Este novo grupo poderia até extender umas idéias de Daniel Dennett do livro “Quebrando o Encanto” (pois ele, assim como Sam Harris, quer a religião universal). Em termos públicos, estes novos ecumenistas e os anteriores neo ateístas fariam os principais debates, retirando da discussão os cristãos tradicionais. Logo, Richard Dawkins debateria com um desses novos ecumenistas, mas não com William Lane Craig. O público veria “os dois lados” e se sentiria tentado a ir para um dos dois. Obviamente, nos dois casos a religião estaria sendo atacada, mas muitos nem perceberiam. [N.E. - Isso já está ocorrendo e um exemplo é este vídeo no qual Obama fala sobre religião, em uma visão ecumênica, mas executa vários estratagemas neo ateus, como dizer que o Deuteronômio manda matar, ou seja, execução de uma propaganda que não será chamada de anti-religiosa, mas ecumênica, mas no fundo é anti-religiosa]

Isso que mostrei é um exemplo de como a ideologia de Richard Dawkins, em si, não é importante na execução da estratégia gramsciana, mas sim a FUNÇÃO que as ações dele representam no objetivo de atacar a religião. Mas, se for preciso ampliar o ataque, novas estratégias precisam ser desenvolvidas, mesmo com a simulação de debate público entre dois lados “opostos”. Com isso, a estratégia das tesouras, de Lenin, aplicada atualmente na divisão entre liberais e marxistas (na Europa e no Brasil), seria aplicada também a discussão da religião. Na política, seria a existência de grupos que em ambos os casos atingissem os conservadores, e, na religião, seria o mesmo, para atingir os religiosos tradicionais.

O que importa, ao final, para a estratégia gramsciana, é que um dos objetivos seja atingido pela execução da estratégia gramsciana, no ambito religioso, que é o ataque fundamental à moral judaico-cristã. Deve-se notar que muitos dos ataques são sutis, como essa enquete. Dá para dizer que ela é uma enquete de um neo ateu? Claro que não, mas com certeza atende ao objetivo. Grande parte das implementações não é focada na discussão aberta, mas no terreno do sutil, como na enquete. Portanto, a partir do momento que estudamos a Estratégia Gramsciana, sabemos que o neo ateísmo é um braço direito do movimento revolucionário, mas não é o único participante nessa luta anti-religiosa. Provavelmente, ele terá que dividir terreno com outras variações da anti-religião, ou até distorções da religião.

Outra coisa que é importantíssima é entender que esse suposto cenário, da estratégia das tesouras aplicada à anti-religião, é basicamente descrito como limitação do universo de discussão. Isso pode ocorrer de outras maneiras, como por exemplo, na divulgação que o livro “Deus, um Delírio”, de Richard Dawkins, teve na imprensa nacional. Uma resposta à altura, como a obra “A Verdade Sobre o Cristianismo”, de Dinesh D’Souza, não teve um décimo da divulgação. É claro que a imprensa nacional (lembrem-se que muitos jornalistas estiveram no cenário acadêmico, e, portanto, alvos potenciais da doutrinação subversiva) tem sua função intelectual, e muitas vezes, por dar atenção excessiva a um, e retirar o espaço de uma outra parte, estão sendo impecáveis executores da estratégia.

Esses todos são apenas exemplos do que pode ser visto no cenário atual. O cinema nacional, por exemplo, visto sob a ótica Gramsciana pode ser interpretado de uma maneira completamente diferente (claramente, é hoje um cinema subversivo, na maioria dos casos). As novelas da Globo, várias matérias de revista, enfoque religioso em notícias (sempre de forma pejorativa), e daí por diante. Em vários níveis a estratégia pode ser executada. Tanto um jornalista marxista ou anti-religioso, como um cineasta que atenda aos mesmos princípios, ambos são igualmente úteis à estratégia. Se a pessoa atua com discussões polêmicas, tentando enfiar a sua ideologia goela abaixo do público. ou se atua no terreno do sutil (quase imperceptível, as vezes), tanto faz para os interessados na execução gramsciana. Ao final, se todos atendem ao ataque das 3 colunas e ao estabelecimento de uma mentalidade que aceite a visão revolucionária, isso significa que a estratégia está sendo executada com sucesso.

Conclusão

A Estratégia Gramsciana não é apenas uma teoria, mas um fato. A simples observação de várias publicações atuais, dos valores morais pregados nas novelas atuais, o excessivo espaço dado a movimentos subversivos em programas de TV e o espaço em mídia dado a livros subversivos e publicações de ódio (incluindo os autores neo ateus), dentre outros fatores, são evidências de que não há mais a ameaça gramscista, e sim um evento corrente, que, de acordo com o atual nível de conservadorismo da sociedade, pode ser contido (mas não eliminado) com maior ou menor facilidade. Uma sociedade mais conservadora, como a americana, tem maiores chances, já a sociedade européia ou a brasileira, está em situação em que a hegemonia já está praticamente consolidada. Se há ainda uma esperança na convivência com os subversivos em um cenário não hegemônico (para eles), essa esperança reside na criação de uma elite intelectual conservadora, que execute algo como uma estratégia “contra-gramsciana”, ou algo do tipo. Isso, é claro, é algo que não ocorre a curto prazo. Mas, se quisermos evitar a hegemonia pretendida por Gramsci, esse é o único caminho efetivo. Enquanto a criação da elite intelectual conservadora não ocorre, é importante tratar da conscientização dos conservadores (não só dentre os intelectuais, mas o povo em geral) que restam, em uma tentativa de reduzir (em parte) o risco dos efeitos de alteração do senso comum dentre esses conservadores, mas não nos que já estão aderentes às ideologias subversivas. Enfim, o mais importante, no momento, é conhecer o inimigo. Então, de início conviver com ele. E, depois, tentar lutar contra. Mas, de novo, sem jamais deixar de conhecer a estratégia dele e como ele pensa.

6 Respostas

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  1. Olá Acauã,

    Em relação ao misticismo cientificista, concordo plenamente contigo. Realmente, eu estava errado. Aliás, esse misticismo é aquele também defendido por John Horgan (o link para o livro está aqui http://www.amazon.com/Rational-Mysticism-Dispatches-Between-Spirituality/dp/0618060278), que por várias vezes endossou o neo ateísmo, principalmente Dawkins.

    Em relação às outras observações, achei-as pertinentes e agregam muito em relação ao estudo em elaboração.

    Muito obrigado,

    LH

    lucianohenrique

    abril 4, 2010 em 6:52 pm

  2. Jairo,

    Obrigado pelas reparações. Acho que no lugar de Saramago, no meu texto ficaria melhor adicionar o Cazuza, por exemplo.

    Obrigado de novo.

    LH

    lucianohenrique

    abril 4, 2010 em 6:40 pm

  3. Luciano, há aqui uma incorrecção:

    “Podemos considerar, tecnicamente, dois tipos de marxistas, quanto a sua origem: os que vieram da classe baixa, e os que vieram da burguesia.
    Podemos dizer que esses últimos são os marxistas “light”, como por exemplo José Saramago”(…)”

    Saramago, apesar de hoje estar “aburguesado”, veio da classe baixa. E discordo que ele seja um marxista ligh.

    Pode ver aqui o historial “light” do indivíduo:
    http://dn.sapo.pt/inicio/interior.aspx?content_id=620488

    Ainda hoje lamenta que a ala comunista das forças armadas não tenha sido bem sucedida no 25 de Novembro de 1975, dizendo que hoje teríamos uma “verdadeira democracia” em Portugal se isso tivesse ocorrido. Essa “verdadeira democracia” era o marxismo-estalinismo.

    Cumprimentos.

    Jairo Entrecosto

    abril 4, 2010 em 5:26 pm

  4. “Para gente como Sam Harris e Richard Dawkins, existem culturas superiores às outras e até uma objetividade moral – ainda que a fonte para eles sejam apenas biológico-sociais.”
    “É bom que isso seja dito porque eu tenho visto muitos sites e lugares falando que os neo ateus defendem o relativismo, quando isso não é verdade.”

    Acauã, defender uma fonte sócio-biológica para a moral é sempre relativismo. É impossível assim não ser.

    O que os gurus neoateístas fazem é defender a suas normas e condutas morais, à luz da teoria da evolução ou da sociologia, pressupondo objectividade científica/utilitária.
    Mas imaginando que toda a gente aceitava os códigos morais desses senhores como os melhores para sobrevivermos, isso, ainda assim, não seria objectividade moral, mas relativismo, e do puro.

    Afinal,apenas teríamos aceitado os valores morais construídos por meros animais, como os melhores para todos sobreviverem e terem conforto. Isso seria utilitarismo objectivo, mas nunca poderíamos chamar à transformação dos Deveres Morais em Utilidades de Sobrevivência uma noção de moral objectiva.

    Repare que eles não têm maneira de dizer que existem culturas superiores às outras, do ponto de vista moral, se admitem que a fonte da moral são razões sócio-biológicas. É que nesse caso, as culturas superiores são as dos indíviduos que sobrevivem e prosperam materialmente. Isso é moralmente relativo, porque há maneiras de sobreviver e prosperar baseadas em violações de códigos morais de outras culturas. Se quem é superior é quem tem bem-estar social e progresso civilizacional; isso seria um fim, que torna tudo moralmente relativo, logo, ninguém pode ser moralmente superior segundo uma moral universal como referência, mas apenas segundo a referência da estatística de prosperidade.

    O problema dos neoateístas na defesa do seu relativismo moral é que eles são humanos com discernimento moral.
    Assim, Dawkins admitiu no debate com Lennox que existe “somethhing in the air” que nos faz partilhar valores morais básicos; Lewis Wolppert respondeu a William Lane Craig que o Holocausto foi objectivamente errado. Isso não os torna defensores de uma moral objectiva, já que o fundamento que dão para estas suas afirmações ( quando encostados contra a parede) é, pela sua natureza, moralmente relativista.

    Ou seja, o relativismo moral é uma mentira/equívoco enorme e ninguém o consegue defender coerentemente, ele é contraditório nos seus próprios termos assim que começa a ser discutido com uma ligeira profundidade.

    Um neoateísta dizer que considera absolutamente imoral a tortura de crianças, e que isso não deve ser tolerado por questões de relatividade cultural, é perfeitamente compreensível, já que ele é um ser humano com discernimento moral. O problema é quando ele tenta justificar a noção de crueldade, de um ponto de vista utilitário.

    O que faz um relativista moral não é ele defender que certos valores e comportamentos deviam ser seguidos ou compreendidos por todos; mas as razões que ele invoca para que isso seja feito.

    Jairo Entrecosto

    abril 4, 2010 em 3:18 pm

  5. Agora eu sei, porque alguns de nós é tão grilado com os neo’s-ateus, eu estava – e estou – participando de uma comunidade no orkut, e tive um debate, e ali eu descobri como é o espírito de alguns neo’s-ateus.

    http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=48846165&tid=5455614137366849310&na=2&nst=20

    http://paulojuniodeoliveira.wordpress.com/

    http://clubesocratico.wordpress.com/

    Depois de algumas coisas vou precisar ir a um terapeuta!

    Obrigado,

    Pj

    paulojuniodeoliveira

    abril 4, 2010 em 1:36 pm

  6. Oi Luciano, tudo bem? Então, li esse texto da série – deve ter sido o maior até agora – e gostaria de comentar ele porque eu de certa forma vi alguns probleminhas pequenos na sua abordagem aqui no que tange a neo ateísmo como uma arma da subversão cultural gramsciana – além de confirmações à sua análise e questionamentos

    No que tange à “religião globalista” de Sam Harris, creio que você está bem errado quando diz que Harris quer instituir uma religião global para uma civilização global. Lembre-se que em “O Fim da Fé” e mais explicitamente em “Carta A Uma Nação Cristã”, Sam Harris deixa claro que as religiões são um obstáculo para a criação de uma civilização global. O que me parece, no entanto, que é o desejo de Sam Harris é a fundamentação de uma espécie de misticismo cientificista. Você que leu também “O Fim da Fé” dele deve se lembrar lá nos momentos finais do livro em que ele fala de meditação, yoga, busca-do-ser e todo aquele papo-furado dele, dizendo que a ciência pode, vai e deve investigar esse tipo de coisa e que cientistas deveriam pesquisar melhor os benefícios disso para a espiritualidade humana. O que Sam Harris gostaria é de promover uma espiritualidade global em benefício ao bem-estar humano, mas isso não pode ser considerado uma religião global de forma alguma – na minha opinião.

    Uma coisa que eu acho interessante, além de bizonha e hipócrita até, é que um dos alvos da retórica neo ateísta são justamente o multiculturalismo e o relativismo pragmático, em especial o de Richard Rorty. Para gente como Sam Harris e Richard Dawkins, existem culturas superiores às outras e até uma objetividade moral – ainda que a fonte para eles sejam apenas biológico-sociais. É bom que isso seja dito porque eu tenho visto muitos sites e lugares falando que os neo ateus defendem o relativismo, quando isso não é verdade. Mas isso me faz pensar se esse conflito ideológico entre neo ateísmo e multiculturalismo/relativismo pragmático não seria mais uma manifestação da estratégias das tesouras de Stalin. O que você poderia me dizer sobre isso Luciano.

    Richard Dawkins escreveu algum tempo atrás um texto de uma campanhazinha mixuruca dele de nome “Atheists for Jesus”, na qual ele tomava Jesus como um exemplo de moralidade a ser seguido em oposição ao egoísmo memético e fundamentalismo religioso. Não é novidade um calhorda como Richard Dawkins fazer algo do tipo já que qualquer ratazana imoral pega Jesus como símbolo de virtude para si mesmo subvertendo sua imagem (a última pessoa que eu me lembro que fez isso foi Hugo Chavez. Fidel, Hitler obviamente, Lula e outros tantos já fizeram o mesmo). Dá uma olhadinha nesse texto aí e me diz se ele de alguma forma corresponde a algo que voc~e escreveu ou se mesmo ele poderia lhe dar uma idéia de algo para escrever:

    http://richarddawkins.net/articles/20

    (ah sim: ignore os comentaristas do site do Richard Dawkins. Eles são mais idiotas, fanáticos e irracionais que os próprios líderes deles)

    Por fim, é fato que o que o neo ateísmo quer, de fato, é ridicularizar as religiões e os religiosos de tal forma – incluindo um certo segregacionismo moral – além de substituir os discursos religiosos aos poucos por discursos meramente científicos que, com o passar do tempo, religiões e religiosos sejam esquecidos ou lembrados apenas como “relíquias de estupidez humana” que existiram vergonhosamente no passado mas que “felizmente” não existirão mais no futuro glorioso da revolução neo ateísta. Veja por exemplo um trecho de uma entrevista aqui do Sam Harris:

    What is the most likely way that American society, if not the rest of the world, will eventually abandon irrational faith?

    I think this is a war of ideas that has to be fought on a hundred fronts at once. There’s not one piece that is going to trump all others.

    But I think we should not underestimate the power of embarrassment. The book Freakonomics briefly discusses the way the Ku Klux Klan lost its subscribers, and the example is instructive. A man named Stetson Kennedy, almost single-handedly it seems, eroded the prestige of the Ku Klux Klan in the 1940s by joining them and then leaking all of their secret passwords and goofy lingo to the people who were writing “The Adventures of Superman” radio show. Week after week, there were episodes of Superman fighting the Klan, and the real Klan’s mumbo jumbo was put out all over the airwaves for people to laugh at. Kids were playing Superman vs. the Klan on their front lawns. The Klan was humiliated by this, and was made to look foolish; and we went from a world in which the Klan was a legitimate organization with tens of millions of members—many of whom were senators, and even one president—to a world in which there are now something like 5,000 Klansmen. It’s basically a defunct organization.

    So public embarrassment is one principle. Once you lift the taboo around criticizing faith and demand that people start talking sense, then the capacity for making religious certitude look stupid will be exploited, and we’ll start laughing at people who believe the things that the Tom DeLays, the Pat Robertsons of the world believe. We’ll laugh at them in a way that will be synonymous with excluding them from our halls of power“.

    (http://www.truthdig.com/report/page5/20060403_sam_harris_interview/)

    Isso já está acontecendo. Basta se lembrar – ou conhecer, caso você e os outros leitores não o conheçam – de Pat Condell e seus populares vídeos ridicularizando cristãos, muçulmanos e outros. Tem até uma antologia dele em DVD patrocinada por… Richard Dawkins:

    http://www.patcondell.net/

    Por fim, as visões políticas dos membros da ideologia neo ateísta (por favor, peço que certos leitores PAREM de usar termos como “religião ateísta”) variam entre o liberalismo (Richard Dawkins), liberalismo de viés esquerdista (Peter Singer), socialismo (Michel Onfray – e Christopher Hitchens de certa forma) e globalismo (Sam Harris sem dúvida, e Daniel Dennett pelo que estou vendo). O que une TODOS eles também é um maior intervencionismo estatal na educação, cultura, sociedade e etc. Não é por acaso vermos tantos proponentes do grupo tendo simpatia pela criação da Nova Ordem Mundial.

    Uma coisa que chamou mais a atenção nesse texto seu é do ateísmo light que defende as religiões de certa forma, pelo menos contra o discurso abusivo neo ateu. Ainda que eu fale muito aqui deles, gente como Michael Ruse e John N. Gray defendem as religiões de uma forma muito diminutiva, fazendo até críticas a elas. Se, por exemplo, lermos essa crítica de “Missa Negra” que o Nivaldo Cordeiro escreveu ao livro, poderíamos considerar que esse ateísmo anti-neo ateísta já está em andamento? Não há nada que se possa defender desse tipo de ateísmo?

    (http://www.nivaldocordeiro.net/estupidezerudita)

    Enfim Luciano – e demais leitores -, tudo isso é algo que tem de ser debatido até para propormos mais ações à respeito. Comentem aqui ou algum outro canto a respeito de tudo isso caso tenham considerações a fazer.

    Bom final de páscoa à todos – cristãos ou não.

    Acauã K.

    abril 4, 2010 em 11:34 am


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