Neo-Ateísmo, Um Delírio

Ceticismo e racionalidade na demolição da ilusão neo-ateísta

Desvendando a Ilusão do Neo Ateísmo – Pt. 8 – O Ilusionismo Neo Ateu

com 3 comentários

Como já afirmado anteriormente, eu não abordei todas as técnicas de reforma do pensamento no texto anterior desta série. Ainda há algo mais, e este artigo pode ser encarado perfeitamente como uma sequência natural do anterior. A proposta aqui, no entanto, é mais ousada. Mostrarei que grande parte da formatação mental do neo ateu é oriunda a partir de mecanismos de manipulação linguísticos.

Essa jogada, de manipular o comportamento das pessoas e limitar suas opções através da redefinição da linguagem, é algo que foi brilhantemente tratado por George Orwell em sua obra “1984”. Lá, o uso da Novilíngua, pelo governo totalitário, visava restringir a amplitude do pensamento, fazendo isso pela remoção e condensação de palavras. Por meio do controle sobre a linguagem, o governo controlava o pensamento dos indivíduos, e portanto idéias indesejadas não apareceriam. Aliás, não podemos deixar de notar que várias iniciativas do politicamente correto, incluindo redefinições linguísticas (como exemplo, a redefinição de “relação homossexual” para “relação homoafetiva”), tem exatamente este objetivo.

O meu interesse aqui é entender aqui um pouco da “novilíngua” neo ateísta, que é utilizada para controlar o pensamento deles, tornando-se parte fundamental do processo de geração de um novo comportamento. Antes, falarei do escopo e da proposta, mas primeiramente mostrarei o conto “O princípe e o mágico”, de John Fowles, que já foi várias vezes citados pelos principais autores da PNL. Ainda neste artigo você entenderá o motivo de eu tê-lo citado também.

O principe e o mágico

Era uma vez um príncipe que acreditava em tudo menos em três coisas. Não acreditava em ilhas, não acreditava em princesas, não acreditava em Deus. O seu pai, o rei, disse-lhe que tais coisas não existiam. Como não existiam princesas nem ilhas no reino do seu pai, nem qualquer sinal de Deus, o príncipe acreditava no seu pai.

Um dia o príncipe saiu do palácio e viajou até ao reino vizinho. Aproximou-se do mar e, para seu grande espanto, avistou ilhas e estranhas criaturas que não ousou nomear. Quando procurava um barco para tentar visitar a ilha mais próxima, avistou um homem que passeava na praia envergando um manto.

“São verdadeiras aquelas ilhas?” — perguntou o jovem príncipe.

“Claro que são verdadeiras!” respondeu o homem do manto.

“E que criaturas são aquelas?”

“Claro que são princesas!”

“Então Deus deve existir!” — gritou o príncipe.

“Eu sou Deus!” — respondeu o homem do manto, com um sorriso.

O jovem príncipe voltou ao seu palácio tão rápido quanto pôde.

“Então voltastes!” — exclamou o rei seu pai.

“Vi ilhas, vi princesas, vi Deus!” — respondeu o jovem príncipe.

O rei não se deixou afetar pela exaltação do príncipe:

“Não existem nem ilhas, nem princesas, nem Deus!”

“Eu vi-os!”

“E como estava vestido Deus?”

“Deus usava um manto…”

“E podias ver os seus sapatos?”

“Não…”

O rei sorriu: “Esse é o uniforme dos mágicos! Foste enganado…”

O princípe abandonou o palácio e voltou o mais rápido possível ao reino vizinho. Voltou a encontrar o homem do manto.

“O meu pai, o rei, disse-me quem o senhor é. Não me enganará de novo! Agora sei que as ilhas e as princesas não são reais porque o senhor é um mágico!”

O homem do manto sorriu: “No reino do teu pai existem muitas ilhas e muitas princesas. Só não as vês, meu rapaz, por causa do feitiço que o teu pai te lançou!”

O príncipe voltou a casa imerso nos seus pensamentos. Olhou o seu pai, o rei, nos olhos e perguntou:

“Pai, é verdade que não és um rei, mas sim um mágico?”

O rei sorriu. Levantou-se e deixou que o seu manto lhe tapasse os pés.

“Sim, meu filho, sou apenas um mágico.”

“Então o homem da praia é Deus?”

“O homem da praia é apenas outro mágico.”

“Eu preciso de saber a verdade, a verdade por detrás da magia!”

“Não há verdade por detrás da magia…”

Profundamente infeliz,o jovem príncipe anunciou que não podia aceitar tal situação, só a morte o podia libertar: “Eu me matarei”.

O rei estalou os dedos e apareceu a Morte. A Morte permaneceu à porta, mas acenou ao príncipe.

O príncipe estremeceu. Lembrou-se das belas princesas irreais que viviam nas belas ilhas que não existiam: “Muito bem. Acho que posso suportar a situação.”

“Muito bem, meu filho. Tu também, começas a ser um mágico.”

O que a PNL é e o que ela não é

Os criadores da PNL são Richard Bandler e John Grinder. Em 1973, eles estabeleceram uma série de princípios, além de modelos, para manipular a mente (neuro) usando a linguagem (linguística) em um processo para melhorar o desempenho do indivíduo no ato de influenciar aos outros e a si próprio, além de estudar como o comportamento humano pode ser afetado por isso. Quando lançaram o livro “A Estrutura da Magia – Parte 1”, em 1975, eles já estavam fornecendo ao público leigo em geral um modelo de atuação que pudesse ser utilizado por todos, embora em várias partes os autores não negassem que a prática era basicamente terapêutica.

Quando Bandler e Grinder começaram seus estudos, eles tiveram como principal influência a hipnose ericksoniana, do Dr. Milton Erickson (fundador da Sociedade Americana de Hipnose Clínica), a qual era uma modernização em comparação com a hipnose clássica. Em termos de objetivos, já existiam semelhanças entre as propostas da hipnose ericksonia e da PNL, que envolvia a mudança de comportamento dos pacientes através da quebra de padrões de pensamentos e sentimentos, com o uso da descoberta de novas opções na vida. Isso seria habilitado por técnicas de influência, obtidas em estados alterados de consciência e percepção, quando o paciente estivesse sob profundo relaxamento, momento em que está mais sugestionável.

A grande diferença entre a PNL e a hipnose ericksoniana, no entanto, envolve o fato de que a primeira possui mais recursos e se dirigia a um publico mais amplo do que apenas os terapeutas. Além do mais, há uma mudança de foco, pois se a hipnose ericksoniana visava ajudar os pacientes a melhorar sua vida, a PNL visa permitir que o indivíduo obtenha os melhores resultados que queira a partir da influência que ele pode obter sobre os outros e a si próprio através da manipulação sobre a mente a partir dos modelos linguísticos.

Curiosamente, a PNL não tem nada de novo, sendo basicamente um compêndio de práticas antigas, principalmente advindas dos ocultistas (que eram considerados especialistas na arte de manipular a mente dos outros, para que estes achassem que eles possuiam mais poderes do que realmente possuíam). Para um exemplo interessante, recomendo assistir a “Sherlock Holmes”, filme de 2009 dirigido por Guy Ritchie, com Robert Downey Jr. e Jude Law. No filme, há uma organização secreta liderada pelo Lorde Blackwood (interpretado por Mark Frost). Há um ar de mistério que paira sobre a organização, e a própria polícia começa a achar que eles possuem algo de sobrenatural. Entretanto (veja o filme, pois sempre será melhor que minha descrição), os membros da organização se comportam de uma certa maneira de forma a influenciar a PERCEPÇÃO dos outros, para que estes achem que há um elemento de sobrenatural neles. Essa é a chave. A capacidade de influenciar o outro através de uma série de recursos linguísticos (verbais e não verbais) hoje em dia define o que é o sucesso de uma implementação de PNL. Aquilo que antes era algo apenas de posse do conhecimento de organizações ocultistas (fechadas, naturalmente) e místicos como Aleister Crowley, Helena Blavatsky e Franz Bardon, dentre outros, tornou-se então algo a ser utilizado pelo público.

Mais alguns exemplos. Nesse vídeo, notem a expressão programada de deslumbramento de Richard Dawkins logo nos primeiros 6 a 10 segundos. O objetivo é tentar INFLUENCIAR o comportamento da platéia para achar que a informação a seguir será “deslumbrante”. Por exemplo, nesse vídeo, em comparação com este podemos notar claramente a diferença de entonação de voz de Daniel Dennett. Se no primeiro vídeo, ele tenta programar uma voz para aparentar ser muito mais “professoral” do que realmente é (e, portanto, capaz de ensinar aos outros como seguir a vida), no segundo ele está se portando de forma muito mais natural. Os atores, aliás, são especialistas em demonstrar um comportamento para influenciar a platéia. Mas são atores, e não intelectuais. Os atores não precisam ser investigados, os intelectuais sim. Um outro exemplo está neste vídeo, do filme “Creation”, em que aos 1:08 um personagem diz, de maneira deslumbrada “você acabou de matar Deus”. É claro que Darwin não “matou Deus”, mas uma encenação comportamental fingindo que matou poderá induzir o comportamento da platéia (a encenação é a força-motriz, nesse caso). Imagine uma cena similar a esta ocorrendo na realidade, em uma sala de aula. Para os mais susceptíveis, o potencial de influência é enorme pois o executor do estratagema irá simular estar diante de algo deslumbrante e assustador, para CONVENCER a platéia a achar que aquilo é realmente deslumbrante e impactante. Quando se assiste aos vídeos da série “Cosmos”, notamos que tais estratégias comportamentais são modelo padrão do comportamento de Carl Sagan. Não é por outro motivo, portanto, que ele foi definido como um excelente comunicador pela crítica. Os apresentadores da mídia também executam isso, dia após dia. O que não surpreende, aliás.

Isso que eu tratei de início é a parte NÃO-VERBAL das técnicas de PNL (tratarei do aspecto verbal mais à frente). Mesmo que os executores citados estejam recitando palavras (parte verbal da comunicação) a maior parte do resultado, nestes casos, está sendo gerada pela comunicação NÃO-VERBAL, o que inclui os procedimentos de encenação para comunicar algo a alguém. Eu fiz questão de incluir uma explanação do que é a parte NÃO-VERBAL da parte linguística da PNL, pois nenhuma abordagem do assunto ficaria completa sem isso. Nas próximas seções deste artigo, no entanto, estarei investigando o uso da PNL na questão VERBAL, pois analisarei o conteúdo dos livros dos autores neo ateístas e do discurso de doutrinação que é usado nas redes sociais para manter os efeitos da doutrinação, e até amplificá-los.

Antes de seguirmos, no entanto, preciso citar alguns princípios da PNL, conforme definidos por Joseph O’Connor (outro dos principais autores do tema) no livro “Manual de Programação Neurolinguística”:

  • “As pessoas respondem a sua experiência, não à realidade em si.
  • Ter uma escolha ou opção é melhor do que não ter uma escolha ou opção.
  • As pessoas fazem a melhor escolha que podem no momento.
  • As pessoas funcionam perfeitamente.
  • Todas as ações têm um propósito.
  • Todo comportamento possui intenção positiva.
  • A mente inconsciente contrabalança a consciente; ela não é maliciosa.
  • O significado da comunicação não é simplesmente aquilo que você pretende, mas também a resposta que obtém.
  • Já temos todos os recursos de que necessitamos ou então podemos criá-los.
  • Mente e corpo formam um sistema. São expressões diferentes da mesma pessoa.
  • Processamos todas as informações através de nossos sentidos.
  • Modelar desempenho bem-sucedido leva à excelência.
  • Se quiser compreender, aja.”

Esses princípios, no entanto, estão nos livros que são destinados ao público em geral, para facilitar a aceitação da PNL, e, claro, servem também como um mecanismo de divulgação da própria. Mas, mesmo nesses princípios, se avaliarmos com cuidado, podemos notar o relativismo contido na expressão “todo comportamento possui intenção positiva”. Epicuro não faria melhor.

No decorrer dos livros de PNL, encontram-se muitas referências à crenças como “generalizações que fazemos sobre outros, sobre o mundo e sobre nós mesmos, que se tornam nossos princípios operacionais.”. Também não é raro encontrar essa explanação: “Agimos como se fossem verdadeiras e são verdadeiras para nós”, o que envolve muito da perspectiva do epicurismo.

Sendo que a programação deve envolver a obtenção dos resultados (através dos quais a comunicação será avaliada se foi positiva ou não), temos que compreender que o conjunto das técnicas de PNL está plenamente alinhado com os objetivos de Epicuro. Em termos filosóficos, é uma mistura de pragmatismo com epicurismo. Olavo de Carvalho abordou isso em seu “O Imbecil Coletivo”, quando citou que os novos pragmáticos, como Richard Rorty, não estão mais se importando com a validade das idéias, mas sim com o poder sedutor em transmiti-las, independente de sua validade.

Sendo que “crenças são apenas ferramentas” (e só podem ser avaliadas de forma pragmática), e há um conjunto de técnicas para manipular a mente dos outros, obviamente que a PNL é considerada pelos seus divulgadores como um “poder sem limites”. Ou seja, segundo essa idéia, alguém que dominasse as técnicas PNL teria um poder praticamente ilimitado, e, considerando que crenças são apenas julgadas como “úteis”, e não pelo seu valor de verdade, isso poderia gerar uma série de comportamentos amorais, correto? Até para isso os autores da PNL tem uma âncora (termo que tratarei adiante) para ajudar a vender a própria PNL. É mais ou menos assim: “Cuidado com o poder que você tem em mãos”.

Seja lá como for, a PNL é questionada em termos científicos em relação ao seu grau de rigor científico. Realmente, não podemos julgar a PNL em termos científicos e não há como validar se ela promete o que cumpre na questão das promessas que faz ao leitor. Já é o momento em que preciso diferenciar a forma como a PNL é vendida ao leitor, da forma que ela opera. Cientificamente, não é possível comprovar se a PNL realmente é capaz de fazer alguém, por exemplo, manipulando a própria mente e a dos outros, conseguir aumentar as chances de se tornar milionário em um período X de tempo. Justamente por essa ausência de rigor científico em relação à promessa feita ao leitor, eu não considerarei essa hipótese aqui. Não estou nem um pouco interessado no potencial da PNL em mudar a vida de seu leitor de maneira fundamental.

O que me interesso, por sua vez, é em como algumas das principais técnicas da PNL são utilizadas por algumas pessoas (no caso, os doutrinadores) para INFLUENCIAR o comportamento de outras. Nesse caso, considerarei a imposição de idéias que são comprovadamente falsas ou não verificáveis, mas que são aceitas pelos doutrinados. E mapearei as técnicas utilizadas para isso, que chegam ao ponto de limitar o pensamento e o comportamento do novo doutrinado, a ponto dele mudar a percepção da realidade. Como as idéias implantadas nele não são verdadeiras, mas inseridas a partir unicamente de métodos de persuasão, elas podem ser mapeadas perfeitamente com as técnicas PNL. Garanto que é um exercício no minimo interessante e, possivelmente, geraria material até para a criação de uma disciplina de estudo, podendo nem ser diretamente referenciada à PNL, mas a como alguém pode influenciar o comportamento de alguém através de manipulações linguísticas, tanto verbais como não verbais. Esse é o nosso objeto de estudo neste artigo.

Alguns dos conceitos e técnicas da PNL

Nesta seção e na próxima (“Metamodelo”) apresentarei apenas alguns dos conceitos e das técnicas da PNL. As técnicas são utilizadas para influenciar a outra parte pelo uso da linguagem. Não focarei no uso das técnicas para manipulação de si próprio, mas sim apenas nos exemplos de manipulação dos outros. Focarei principalmente, quando citar as técnicas, em como elas são executadas, e quais os resultados esperados. Naturalmente, assim como no artigo anterior, meus exemplos estão centrados principalmente na questão da doutrinação neo ateísta.

ESTADO ATUAL E ESTADO DESEJADO

Para os adeptos da PNL, uma mudança em qualquer campo (pessoal, profissional, ideológico, etc.) requer um objetivo, que deve ser claro. Por exemplo, no caso da doutrinação de alguém, isso envolve saber qual o estado atual e o desejado. Se no estado atual há um comportamento, junto com sentimentos e pensamentos de alguém, no estado futuro estes deverão ter sido substituídos por novos comportamentos, sentimentos e pensamentos. No contexto do neo ateísmo, um exemplo de estado atual é um conjunto de pessoas que são ateístas, mas não atacam a religião, ou até religiosos no “meio do caminho”. O estado desejado é transformá-las em anti-religiosos ferrenhos. Obviamente, há muito mais modificações de estado previstas no plano de ação dos autores neo ateístas, mas, como já dito, este é só um exempo.

COMUNICAÇÃO

Para a PNL, a comunicação abrange praticamente qualquer interação com outras pessoas, incluindo conversa normal, persuasão, ensino e negociação, conforme afirma Joseph O’Connor em seu “Introdução à Programação Neuro-Linguística”. Lembremos que, conforme já citado anteriormente, a comunicação será avaliada pelos resultados obtidos pelo comunicador. Os próprios autores reconhecem que em uma apresentação diante de um grupode pessoas, 55% do impacto é determinado pela linguagem corporal (postura, gestos e contato visual, 38% pelo tom de voz e somente 7% pelo conteúdo da apresentação). Os números vem do artigo “Inference of attitues from nonverbal communication in two channels”, do The Journal of Counselling Psychology, vol. 31, 1967, pp. 248-52. É importante notar que os líderes dos neo ateus anseiam por participar em fóruns, DVDs, palestras, congressos e outras formas de apresentações para para o grande público com o intuito de potencializar as idéias que defendem em seus livros.

EMPATIA

O termo usado na PNL para empatia é rapport. Significa compreender os sentimentos da outra parte e então se comunicar de forma a estabelecer uma atmosfera de confiança entre o comunicador e o ouvinte. Há várias formas de se criar empatia, incluindo o “Espelhar e Conduzir”, que é, na interação entre duas pessoas, copiar parte dos trejeitos do outro, suavemente, para que ele se sinta mais confortável. No âmbito de nosso estudo, podemos considerar o uso de linguagem de fácil acesso e postura mais informal (notem que raramente os neo ateus fazem uso de ternos), para estabelecer um elo mais forte.

PREDICADOS

Sendo que palavras são utilizadas para descrever os pensamentos, a PNL defende que a escolha feita das palavras deve ser mensurada em como ela irá facilitar o aumento da empatia ou não. No caso de aumento da empatia, aumenta-se o potencial de se alcançar o efeito desejado.

PENSAMENTOS E ESTADOS FISIOLÓGICOS

Os adeptos da PNL compreendem que os pensamentos influenciam na fisiologia humana. Isso, aliás, não é uma conclusão que é difícil de se chegar, pois a lembrança de um evento traumático pode fazer alguém suar frio. Esse é um exemplo de como eles encaram o potencial que o uso das palavras, se for planejado detalhadamente, pode causar nos ouvintes. Isso nos leva aos próximos conceitos: Evocação e Âncoras.

EVOCAÇÃO

Na PNL, compreende-se que os pensamentos influenciam, portanto, os estados fisiológicos. A evocação indica o processo utilizado para conduzir alguém a um determinado estado mental. Ou seja, causar uma sensação profunda, em termos emocionais, com o uso de terminologias adequadas (além de outras formas da comunicação não-verbal, que devem ajudar). Isso envolve até a atuação “confiante”, com cabeça erguida, utilizada por vários gurus de auto-ajuda. Da mesma forma, emoções negativas podem ser trazidas à tona. Por exemplo, quando Daniel Dennett compara a religião ao vício de tóxicos, ele está usando a evocação para causar sensações negativas, pelas lembranças do que seria a imagem de toxicômanos. O adepto de Dennett teria a sensação negativa de ver o que seria “ter religião” (com a sensação negativa associada), e, ao criticar os religiosos pode pensar que os está livrando de um mal terrível. Tudo, é claro, sem valia em termos do que realmente significa ser a religião, mas o objetivo da evocação não tem necessidade de tratar a realidade, e sim de obter os benefícios da comunicação, como já dito anteriormente. Se o exemplo foi útil, fica claro como a técnica da evocação é utilizada ad nauseam nos livros dos quatro autores principais do neo ateísmo.

ÂNCORAS

Se ocorre a evocação, que parte de um estímulo para se ligar a um estado fisiológico, os líderes da PNL definem um componente adicional, que é a âncora. Que seria o gatilho para disparar o estímulo. Um exemplo de fácil assimilação é quando um despertador toca. O toque do despertador é a âncora, a lembrança de que se precisa acordar é aquilo que seria chamado de evocação, e a sensação que se sente, caso não se acorde (o sentimento de que vários compromissos serão perdidos, inclusive profissionais) é o estado fisiológico desejado, no caso, o de preocupação. Vamos ao nosso contexto de novo. No caso, Christopher Hitchens utiliza como âncora o termo “servidão” (a Deus), que deve ser utilizado para a evocação da sensação de alguém sendo escravo de outro. Obviamente, no contexto religioso, não se é “escravo” de Deus, mas Hitchens programa o leitor para TER essa sensação, portanto ele escolheu a âncora adequada, buscando o efeito psicológico da servidão real. A qual, é claro, ninguém gostaria de se submeter. Um exemplo dos velhos tempos é o termo “Iluminismo”, que é basicamente uma âncora para lembrar a pessoa da sensação de estar em um lugar escuro, e ter então uma vela acesa e, enfim, se permitir ver coisas que não se viam antes. Não é surpreendente, portanto, que muitos dos iluministas tinham participações em escolas de pensamento ocultistas. Segundo Joseph O’Connor, as âncoras devem ser especiais e inconfundíveis, e fáceis de serem repetidas exatamente, e conectadas a um estado mental que seja claro e completamente revivenciado.

CRENÇAS

As crenças, para a PNL, são os mecanismos que influenciam profundamente o comportamento humano, motivam e dão forma a tudo que os seres humanos fazem. Na definição de O’Connor: “Crenças são princípios orientadores, mapas internos que usamos para dar sentido ao mundo. Elas proporcionam estabilidade e continuidade. Partilhar crenças com outras pessoas nos dá uma sensação mais profunda de empatia e de comunhão do que partilhar um mesmo trabalho”. É por isso que os estudiosos da PNL sempre procuraram técnicas para que as crenças das pessoas sejam modificadas, pela influência, e que o próprio usuário da PNL modifique suas próprias crenças. Como já mencionado anteriormente, a crença, no contexto da PNL, não precisa ser verdadeira, e sim apenas gerar os resultados desejados. O’Connor prossegue, ainda: “Podemos escolher nossas crenças, deixando de lado as que nos limitam e criando outras que tornarão nossa vida mais prazeirosa e mais eficiente.”. A importância desse conceito fluido de crenças para PNL é extremamente vital, e sem ele a própria disciplina perderia grande parte do seu impacto. O texto “O Príncipe e o Mago” mostra a visão dos estudiosos da PNL a respeito das crenças. Segundo eles, o controle absoluto das próprias crenças e manipulação das crenças dos outros, mostra que nada é real (“nada é verdeiro, tudo é permitido”), criando um novo leque de possibilidades. Isso seria o ato de fazer a magia, conforme o conto de Fowles.

Metamodelo

Diante disso tudo, o estudo do poder da linguagem passa a ser prioridade. Grinder e Bandler descobriram isso ao estudar dois terapeutas detentores de resultados excepcionais, Fritz Perls e Virginia Satir, que utilizavam uma série de perguntas enquanto colhiam informações. O importante dessa parte da PNL é que ela auxilia os seus especialistas não só a utilizarem um conjunto de técnicas, mas também a se livrarem delas quando observarem alguém aplicando-as. A seguir, alguns exemplos de padrões de comportamento observados no metamodelo.

SUJEITOS NÃO ESPECIFICADOS

Envolve a omissão do sujeito da frase pelo uso da voz passiva. Quando alguém diz “as crenças foram selecionadas”, não está sendo mencionado o sujeito. Naturalmente, para nos livarmos desse truque é importante solicitar que a outra parte especifique o sujeito.

VERBOS NÃO ESPECIFICADOS

Nesse caso, um verbo deixa de ser especificado, como na afirmação de Sam Harris: “A crença no martírio causa o suicídio”. No caso, é escondida a informação de como isso é feito. Por exemplo, a pergunta a ser feita como antídoto é “como a crença no martírio causaria o suicídio?”

COMPARAÇÕES

Tanto esse como o próximo exemplo são normalmente encontrados juntos (julgamentos e comparações). Em termos de propaganda, encontramos vários exemplos. No caso do discurso neo ateu, geralmente encontra-se exemplos como “A hipótese Deus não responde a isso satisfatoriamente”. Note que está sendo omitida a comparação. Um antídoto pode ser questionar: “Deus não é uma hipótese satisfatória em relação a que?”.

JULGAMENTOS

Como já mencionado anteriormente, os julgamentos são os grandes aliados das comparações, ainda que não necessariamente englobem comparações. Um exemplo é quando alguém diz: “O religioso é um irracional”, pode-se questionar, em retorno: “Por quais padrões você julga se ele é um irracional”. Os exemplos para refutar a tese de irracionalidade dos religiosos já foram mostrados ad nauseam neste blog. Muitas vezes é extremamente importante descobrir o VESTED INTEREST de quem faz o julgamento. Quais as razões do julgamento? São as razões da pessoa ou razões impostas a ele? O quanto o julgamento é válido? Assim, uma das formas de se quebrar o uso indevido do julgamento é questionar quem está emitindo o julgamento e sob quais bases ele é feito.

SUBSTANTIVAÇÕES

Esse padrão manifesta-se através do uso de um verbo que descreve um processo continuo e é transformado em um substantivo. Esse é um exemplo: “O método científico nos garante que encontraremos as respostas mais próximas à realidade, neste experimento”. Aparentemente, não há nada de errado, mas o sentido foi completamente alterado em relação ao que realmente ocorre. No caso, o verbo “utilização” (do método científico) foi suprimido e transformado em apenas um substantivo, “método científico”. Outro exemplo é visto quando se usa a expressão “A religião causa conflitos”, sendo que o verbo escondido está aqui: “O ato de manipular pessoas através de doutrinas (inclusive políticas, religiosas, anti-religiosas) pode levar a conflitos”. Dentro do metamodelo, as substantivações são considerados mecanismos poderosíssimos. Muitos preconceitos, inclusive contra raças, etnias, religiões são causados pelo uso indevido das substantivações.

OPERADORES MODAIS DE POSSIBILIDADE

Exemplo de operadores modais de possibilidade incluem “Posso/não posso” ou “Possível/Impossível”. São expressões linguísticas utilizadas para definir o que é possível ou não. Por exemplo, quando alguém diz que “Não é possível para alguém ter fé e razão”, é preciso lhe questionar como ela define fé, e de como ela define que não seria possível que alguém consiga compatibilizar fé e razão. O mero conhecimento dessas terminologias, e o questionamento dessas limitações alegadas, já permite a quebra deste recurso.

OPERADORES MODAIS DE NECESSIDADE

Parecidos com os operadores modais de possibilidade, estes são feitos para pressupor necessidades, e normalmente são indicados pelo uso inadequado das expressões “deveria” e “não deveria”, ou “tenho que” e “não tenho que”, ou “sou obrigado a” e “não sou obrigado a”. Geralmente, alguém, ao usar este padrão de comportamento, inclui uma regra de conduta que não é tornada explícita. Veja um exemplo: “O religioso deve ignorar a ciência e suas descobertas”. Uma forma de descobrir esse logro é questionar as consequências e as razões para o comportamento sugerido. Veja um exemplo: “O que aconteceria se o religioso não ignorasse as descobertas científicas?”. Note que, ao conhecer os problemas conceituais dos principais autores neo ateus quanto à definição de ciência e até quanto ao comportamento religioso, é possível explorar as enormes fragilidades deste padrão de comportamento. Imagine, por exemplo, em uma escola, quando esse operador modal de necessidade é utilizado da seguinte forma: “Para acreditar em Darwin, é preciso ser ateu”.

QUANTIFICADORES UNIVERSAIS

Aqui é o padrão comportamental que ocorre quando um exemplo é tomado como sendo representativo de um número muito grande de possibilidades. Em termos lógicos, conhecemos esse padrão como falácia da generalização apressada. Obviamente, não é possível ser específico o tempo todo, mas este padrão deve ser notado quando a generalização omite alguma informação importante. Um exemplo é quando um neo ateu diz “Os religiosos são incultos”, usando, como isso, exemplo de algumas declararções de religiosos incultos selecionadas especificamente para exprimir essa generalização. Em termos de questionamento, a demolição deste padrão começa ao se questionar “Todos os religiosos são incultos?”. E daí por diante.

EQUIVALÊNCIA COMPLEXA

Padrão que ocorre quando duas afirmações são ligadas como se significassem a mesma coisa. No artigo a seguir tratarei de um exemplo já abordado mais de uma vez neste blog, em que Richard Dawkins usa algo assim “O religioso acredita na Bíblia… ele acredita na autoridade”. Para quebrar este padrão, a simples pergunta inicial pode ser: “De que maneira isto significa aquilo?”.

PRESSUPOSIÇÕES

Aqui, crenças e expectativas são construída a partir da experiência pessoal da pessoa. Essa faceta observa-se no discurso de quando alguém questiona: “Por que o religioso optou por não acredita na teoria da evolução?”. Isso, é claro, é apenas parte do preconceito causado por uma generalização em que é determinado que se alguém for religioso terá que ser anti-evolução. Para trazer as pressuposições à tona, a seguinte pergunta pode funcionar: “O que o leva a acreditar que eu, como religioso, não acredito na teoria da evolução?”.

RELAÇÃO DE CAUSA E EFEITO

Este padrão é uma especialização do padrão da Equivalência Complexa. No caso, a diferença está no fato de que na relação de causa e efeito, um suposto efeito tem uma determinada causa, e esta é apresentada como determinante do efeito alegado. Vamos ao exemplo: “Eu até pensaria em respeitar um religioso, mas eles não admitem a discussão de suas crenças”. Ou seja, a causa é “religiosos não admitem a discussão de suas crenças” e o efeito é “ele não respeitar os religiosos”. Obviamente, se questiona a relação com perguntas como “Como exatamente o religioso não admite a discussão de suas crenças?”. Sugiro até um questionamento que também funciona para investigar as comparações “Em que proporção o religioso não admite a discussão de suas crenças em oposição à proporção de neo ateus?”.

LEITURA DA MENTE

Este padrão ocorre quando uma pessoa pressupõe saber o que o outro está pensando ou sentindo. Já o apresentei no blog dentro da Técnica “Leitura Mental”. No contexto do discurso neo ateu, é utilizado geralmente para atribuir pensamentos ao religioso. Um exemplo evidente é no estratagema “Ele busca religião, portanto precisa de consolo”, que além de ser uma relação de causa e efeito não comprovada, também atribui a leitura da mente do outro para “adivinhar” que ele precisa de consolo.

A mãe de todas as técnicas: a ressignificação

Essa é uma das grandes técnicas utilizadas pelos autores neo ateus. O estudo de livros de vários outros tipos de gurus irá mostrar que provavelmente deve ser utilizada por eles também. A técnica é tão relevante no conteúdo do material desses autores que eu tive que deixar uma seção deste artigo só para falar dela. A ressignificação (ou transformação do significado) envolve atribuir novos significados a acontecimentos ou conceitos através de uma mudança da visão de mundo da outra parte (o ouvinte, o leitor, etc.). Todas as técnicas de metamodelo podem ser utilizadas para isso. Em termos de discurso lógico, os estratagemas erísticos “Rótulo Odioso” e “Manipulação Semântica” são exemplos claros da ressignificação. Para se construir uma falácia do espantalho, também está sendo feita uma ressignificação. No caso da ressignificação de conteúdo, que é a tratada aqui (no contexto de geração de novos adeptos para uma doutrina), o conteúdo de uma experiência é redefinido como aquilo em que a pessoa deve concentrar sua atenção. O significado, para o doutrinador, pode ser o que ele quiser, desde que ele utilize as padrões, evocações e âncoras adequadas.

Para definir as ressignificações adequadas, os autores do neo ateísmo naturalmente selecionaram as ressignificações com precisão, pois o objetivo é bem claro: produzir militantes contra a religião. Vamos a apenas alguns exemplos de ressignificações (algumas delas já foram avaliadas aqui na seção “Conhecendo o Inimigo”):

DEUS COMO AMIGO IMAGINÁRIO

Com essa ressignificação, o autor neo ateu busca, através de maquiagens dos termos “Deus”, “Amigo” e “Imaginário” tentar associar o comportamento do religioso com o de uma criança. Isso terá valor de efeito psicológico positivo no novo adepto, que se sentirá em superioridade em relação ao religioso, o qual será, naturalmente, tratado como uma criança (ao passo que ele é o “adulto”).

A PESSOA COMO CIÊNCIA

Aqui o neu ateu personifica a ciência, e termina dizendo que todas as suas ações são, na verdade, ações da ciência. Um exemplo é quando Daniel Dennett diz que quer que os religiosos se apresentem a ele para avaliação de quais crenças religiosas seriam adequadas. Em várias dessas proposições ele afirma: “Deixemos que a ciência avalie”. Isso causa um efeito psicológico nos seus leitores, de que ele seria “a ciência em si”.

ATEÍSMO COMO CIÊNCIA

A associação de ciência com tecnologia nos permite saber o quanto a ciência é benéfica. Travestir os líderes dos neo ateus, e também vários de seus seguidores, como mais representantes “da ciência” do que do “ateísmo” é um gancho poderoso, e psicologicamente tem seus efeitos. Para ele funcionar, são utilizadas várias âncoras que ao mesmo tempo tentem moldar conceitos para fingir que o ateísmo é a representação da ciência (e, portanto, a religião seria a antítese da ciência) e ajudem bastante a simular uma dicotomia entre ciência e religião, o que também facilita a venda dessa idéia para os novos adeptos.

CIÊNCIA COMO DONA DA REALIDADE

Para desqualificar todos outros ramos de conhecimento, é preciso qualificar um ramo que tome conta de todos, eliminando os outros. Este é o estratagema principal do cientificismo. Mesmo que a ciência estude a realidade física e tangível (e os neo ateus já utilizaram, provavelmente, o truque de associar ateísmo à ciência), basta substituir o termo “realidade física e tangível” por “toda a realidade”. Isso, é claro, seria usado para tentar negar Deus.

FÉ COMO FÉ CEGA

A fé cega é a crença em algo só por que alguém lhe disse, sem o uso do raciocínio crítico. É algo condenável na maioria absoluta das religiões. Mesmo assim, a ressignificação do neo ateu costuma dizer que toda fé é uma fé cega, com o intuito de simular que o religioso não teria raciocínio crítico.

RELIGIÃO COMO CONSOLO

Já abordado anteriormente, esse tipo de estratagema visa simular que o religioso estaria precisando de consolo, portanto em situação de fragilidade. Ora, se o oponente está em situação de fragilidade, e o neo ateu não, este poderia se sentir em situação de superioridade.

MORAL COMO PRODUTO DA EVOLUÇÃO

Para permitir que o neo ateu não considere a religião mais como importante para a solidificação da moral, esta ressignificação significa transmutar todos os comportamentos básicos de empatia, vistos no mundo animal, em “exemplos da moral”, e, então, simular que a moral existiria mesmo sem a religião. Tecnicamente, até poderia existir, mas seria a moral como nossa sociedade a conhece? Isso não importa, pois muitos dos leitores dos autores neo ateus já acreditarão de antemão que a moral independe de religião basicamente com este truque.

CÉTICOS CONTRA CRÉDULOS

Um dos joguetes mais utilizados é não se rotular como ateu, mas sim como cético, em contraposição ao teísta, que seria o crédulo. Tecnicamente, o ceticismo não pertence a um grupo específico, e é contextual. Por exemplo, um teísta é cético quanto ao paradigma ateísta, ao passo que o ateísta é cético em relação ao paradigma teísta. Embora seja uma técnica extremamente simples de manipulação linguística (e facilmente perceptível), muitos ateus se rotulam como céticos, e, de maneira mais bizarra ainda, muitos teístas ainda acreditam que lutam “contra o ceticismo” mas não “contra o ateísmo”. Notem vários autores teístas que afirmam “resposta aos céticos” quando na verdade estão “respondendo aos ateus” ou no máximo “aos céticos quanto ao teísmo”. O efeito psicológico é surpreendente, pois se um cético é o que questiona, e o crédulo é o que crê, muitos acabam achando que o religioso é o único que deve respostas, mas o ateu não (pois ele seria “o cético”).

FÉ VERSUS RAZÃO

Razão é uma palavra fortíssima. Todos gostariam de ter razão. Um exemplo é quando um sponsor demonstra que o seu projeto é o mais qualificado para ser aprovado. Ele está com a razão, e pronto. Logo, é difícil definir, se o ateu ou teísta é “dono da razão”. Tecnicamente, com um argumento ruim, o teísta pode estar sem a razão, e o mesmo pode ocorrer com o ateu. Enfim, quem comete erros lógicos, em um debate, obviamente se distancia da razão. Para o autor neo ateu o truque é fingir que o ateu está sempre com a razão, pois ele estaria distante da fé (lembrem-se do truque “Fé como Fé Cega”). Esse estratagema permite que o adepto do neo ateísmo jamais precise atribuir razão ao teísta, pois, por essa ressignificação, o teísta jamais teria “razão” (por ter fé).

GENE EGOÍSTA E MEMÉTICA

Essa dupla de grandes ressignificações feitas por Richard Dawkins alcançou grande sucesso, e vários adeptos, inclusive cientistas, não abrem mão de usá-las por nada nesse mundo. Para o Gene Egoísta, Dawkins quis retirar qualquer sentido da vida humana, portanto orientou tudo para benefício dos genes. Para isso, ele teve que maquiar as idéias da seleção multi-nível, e simular que a seleção na verdade é orientada ao gene. A memética é ainda mais bizarra, pois se baseia em maquiar as idéias como se fossem entidades passíveis do processo de seleção natural. Claro que não são, pois a seleção natural ocorre apenas com seres vivos. O objetivo principal da memética é dizer que os religiosos seriam vulneráveis aos memeplexos da religião (ele chamou isso de “vírus da mente”). Ora, o termo “vulnerável” é obviamente pejorativo. Nenhuma das duas teorias chega perto de ser científica, mas muitos foram seduzidos por essas idéias. Devemos estudar, aliás, o aceite de teorias como gene egoísta e memética não por sua validade, mas sim pelo efeito psicológico que causam naqueles que acreditam nelas. Tecnicamente, são apenas ressignificações de conteúdo.

O Super-Homem: crença no poder pessoal sem limites

Se vimos até agora as técnicas tradicionais da PNL aplicadas no discurso dos autores neo ateus para formatar novos adeptos, ainda falta observarmos a origem de um comportamento específico: a ilusão de superioridade. Grande parte da postura do neo ateu é de extrema arrogância, pois tacham todos os outros de “incapazes” (ao passo que ele é o capaz). Não difere muito dos leitores de auto-ajuda, que, após receber algumas palavras edificantes, sentem-se inabaláveis por qualquer coisa. Naturalmente, todas as ressignificações utilizadas anteriormente ajudaram a criar este tipo de perfil, praticamente patológico. Mas é preciso de um componente adicional: a auto-ajuda.

Antes de tudo, auto-ajuda e PNL não são a mesma coisa, embora quando a PNL é vendida ao leitor como o “poder sem limites” isso traz traços da primeira. Mas é fácil distinguir ambas: enquanto a PNL traz um conjunto de técnicas que podem ser utilizadas para obter resultados (inclusive terapêuticos), a literatura de auto-ajuda é aquela em que um autor procura ensinar formas de aprimoramento econômico, espiritual, intelectual ou emocional aos leitores. Enfim, o autor de auto-ajuda utiliza vários recursos de PNL para supostamente levar seus leitores a obter os resultados.

Um componente específico do discurso de auto-ajuda é o pensamento positivo e a manutenção da ilusão de poder (“você pode tudo”). Segundo Arnaldo Chagas (autor de “A Ilusão no Discurso de Auto-Ajuda”), os autores de auto-ajuda são

[...] profetas da sociedade contemporânea, produtos da modernidade, ou, como preferem alguns autores, da pós-modernidade, enfim, são mestres modernos que usam, ou se ocupam, como tantos outros, de referenciais da cultura moderna e contemporânea para proferir os seus discursos atrativos, imediatistas, miraculosos e superficiais. Os seguidores da auto-ajuda, que se orientam pelas sugestões imponentes e fascinantes de seus líderes, não buscam, não toleram e nem preferem experimentar a verdade, que produz mal –estar e incerteza. Na realidade, como casuístas, necessitam de ilusões, de promessas. É, desse modo, que são levados às influências das proposições dessas literaturas, tornando-se, pois, tolerantes aos seus ensinamentos e, consequentemente, a seus mestres. Portanto, são facilmente sugestionáveis e seduzidos. O julgamento crítico dos indivíduos sugestionáveis ou seduzidos são debilitados, superficiais, e as sensações sentidas a partir de um imaginário “dilatado” passam a ser de júbilo e de satisfação.

Interpretando isso, temos que entender que a ilusão de superioridade, garantida através de um discurso sedutor de um guru, dificilmente será abandonada. Um exemplo está nos treinamentos de um dos mestres da auto-ajuda no Brasil, Lair Ribeiro. Normalmente, no início dos treinos (que são executados em finais de semana, e custam 2.000 reais por pessoa, em média – incluindo o hotel), começam em um palco onde é tocada a música Also spach Zaratrustra, de Strauss, justamente para relembrar o início do filme “2001: Uma Odisséia no Espaço”. A metáfora de Lair é clara: os participantes do treinamento dele saem de um estágio para outro, assim como os macacos aprenderam a usar a tecnologia, como é vista no início do filme.

O discurso sedutor é exatamente o mesmo (embora com objetivos diferentes) para os autores neo ateus. Do início ao fim das obras desses autores (incluindo-se aí desde Carl Sagan), existem mensagens aos seus leitores de que “eles podem mais”, de que “pensam” (ao passo de que os outros não), de que são “críticos” (ao inverso dos outros) e daí por diante. Essa ilusão confortante, de achar que se tornou mais “racional” apenas pelo aceite do paradigma neo ateísta, é algo de que não vão largar, mesmo que todas as ressignificações citadas anteriormente sejam quebradas diante de seus olhos com uma mera análise lógica.

Quando seu conjunto de crenças, obtido a partir dos gurus, é demolido, eles passam a tratar este questionador (como eu sou, neste blog) como um inimigo. Os questionadores se tornam aqueles que lhes tiram a ilusão do conforto. A ilusão do Super-Homem. Esta ilusão do Super-Homem explica por que eles se tornam tão confiantes quando estão em público divulgando suas doutrinas (lembremos: a programação que eles sofrem é para sairem militando em nome do neo ateísmo, portanto, contra as religiões).

Conclusão

As técnicas de reforma do pensamento, citadas no artigo anterior, por si só teriam seu efeito, mas por que não usar tudo que a PNL tem trazido para potencializar os efeitos da reforma de pensamento? Este artigo trouxe exemplos, retirados diretamente do discurso e do comportamento dos principais autores neo-ateus, que executam tecnicamente a função de gurus, aplicando técnicas de PNL para cima de seus leitores (*), além de usarem o discurso de auto-ajuda para que eles sintam além de tudo a ilusão de superioridade. No caso das técnicas de PNL, exemplos retirados diretamente dos livros batem perfeitamente com todos os recursos de Metamodelo mapeados por Fritz Perls e Virginia Satir e que se tornaram parte essencial do estudo terapêutico. Associar esses recursos à coincidência seria apostar na hipótese menos parcimoniosa, de modo que claramente podemos identificar o discurso neo ateísta, a partir dos líderes, como um processo de reforma de pensamento potencializado por recursos da PNL. Em relação à reforma de pensamento, ainda há uma última técnica a abordar, que será tratada na parte 9 deste ensaio: “O Neo ateísmo como subproduto de outra coisa”. A técnica é o Apelo à Autoridade.

(*) É importante fazer esta diferenciação também. Aplicar uma técnica de PNL para cima de alguém NÃO É O MESMO QUE ensinar PNL ao outro. Os autores neo ateus não citam a PNL em nenhum de deus livros. Mas programam sua linguagem toda para reformar o pensamento dos leitores ATRAVÉS das técnicas PNL, dentro de um conjunto ainda maior que inclui as outras práticas de reforma do pensamento, citadas no artigo anterior.

3 Respostas

Assinar os comentários com RSS.

  1. Na seção sobre ressignificação. Senti falta uma bem comum quando se fala sobre moral e ética. Moral no lugar de Moral objetiva.

    Todo cristão sabe que a diferenciação entre a moral sem Deus e a com Deus é que Deus serve de base para tornal a moral objetiva. Não que ela não existe sem Deus, mas que torna-se apenas um produto do meio.

    O que acontece é que o neo-ateu lê só a palavra moral e pergunta se ateu é amoral.

    Parabéns por esse artigo.

    RESP. LUCIANO

    Obrigado Márcio, pelas palavras. Muito boa a dica. Na versão 2 desse ensaio vou adicionar sua sugestão, que é ótima.

    Márcio Carneiro

    abril 28, 2010 em 11:45 pm

  2. só pra ressaltar que me chamou a atenção o fato de que antes da imprensa divulgar o próprio escândalo já faz a divulgação do pedido de desculpas pelo inconveniente gerado…e mais: não foi tao completa assim nas informações sobre o tal memorando.

    Cristiano Oliveira

    abril 25, 2010 em 3:29 pm

  3. oi Luciano,

    ja lestes isso:
    http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/reino-unido-sugere-absurdos-ao-vaticano-memorando-interno-pede-desculpas-552753.shtml

    Acho que é mais um caso a ser analisado nesse contexto das denúncias contra a Igreja.

    Cristiano Oliveira

    abril 25, 2010 em 3:27 pm


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.