Neo-Ateísmo, Um Delírio

Ceticismo e racionalidade na demolição da ilusão neo-ateísta

Técnica: Implantação de camisa de força verbal

com 3 comentários

Neste texto eu falei do uso de ressignificações feitos pelos autores do neo ateísmo,sempre com o objetivo de propaganda.

O grande problema é que muitos teístas não percebem o uso das ressignificações, e acabam aceitando que o oponente as utilize. Mais dramaticamente ainda, muitos terminam por refutar os conceitos já ressignificados pelo neo ateu. É a isso que se pode definir como aceitar uma camisa de força verbal, imposta pelo oponente.

Um dos exemplos mais grotescos disso é quando um neo ateu diz que “não acredita em Deus, pois prefere acreditar na razão, e não na fé”.

Logo de cara, há duas camisas de força verbais utilizadas (as ressignificações). A primeira impõe que descrer em Deus é automaticamente racional, e acreditar em Deus não seria. A segunda tenta impor que ter fé é uma oposição à razão. Claro que as duas premissas são automaticamente falsas, pois não há implicação em crer ou descrer em Deus como algo racional. A racionalidade será mensurada pela argumentação, e não pelo ato de crença ou descrença. Assim como impor a idéia de que fé é oposição à razão, quando estão em planos diferentes, portanto não poderiam ser excludentes.

Aceitar a camisa de força é deixar de refutar as iniciativas contidas neste discurso.

Certa vez, vi um teísta que respondeu assim ao neo ateu: “Minha fé é superior à tua razão, pois não precisamos da razão para tudo”. Pronto, ele já perdeu o debate logo de cara, pois a partir daí ele rejeitou a razão, mesmo que a religião não peça para rejeitar a razão. Logo, o neo ateu poderia alegar que a razão era dele (razão a qual o adversário teria rejeitado ao aceitar a camisa de força), e não se falava mais nisso.

Outro exemplo é quando um teísta reclama dos neo ateus desta forma: “Esses neo ateus são arrogantes, pois acham que todas as questões são decididas pela razão”. Danou-se, pois isso é aceitar a camisa de força do oponente. É verdade que os neo ateus ALEGAM que todas as questões devam ser decididas pela razão. Mas há uma diferença entre: (1) alegar que as questões todas devem ser decididas pela razão, e (2) realmente decidir todas as questões pela razão.

Observando-se o discurso neo ateu, por exemplo, nota-se que raramente a argumentação deles é racional. Portanto, o que se vê neste caso é apenas uma alegação de “busca pela razão” e não “uso da razão” em si.

Infelizmente, não há outra forma de discutir com neo ateus que não pela identificação das fraudes intelectuais, e estas fraudes começam com a manipulação linguística.

O complicado, no caso de um neo ateu fazer a aplicação da técnica da camisa de força, é que alguns, mais ingênuos, não percebem que estão sendo vítimas de um dos estratagemas dos mais sutis possíveis. E, aceitando a camisa de força (ou seja, deixando de desmascarar a fraude verbal), o teísta que estiver escrevendo qualquer coisa em direção ao neo ateu ou sobre ele estará ao mesmo tempo, involuntariamente, atacando sua religião e ajudando na propaganda do oponente.

A sugestão de debate é uma só: desarmar todas as tentativas de implementação de camisa de força verbal logo na primeira tentativa e não deixar o debate prosseguir enquanto todas as tentativas não forem desmascaradas.

Escrito por lucianohenrique

maio 1, 2010 às 8:11 pm

3 Respostas

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  1. Amigos do site, conheci esse blog há pouco mais de um mês e não consigo deixar de visitá-lo pelo menos uma vez por dia, seja para conferir as novidades ou ler (e reler) os posts mais antigos. Não sei se vocês são católicos ou cristãos como eu, mas independentemente da orientação religiosa de vocês, o trabalho de desmontagem dos argumentos do ateísmo militante e a forma didática como vocês o desmascaram atende a uma grande necessidade dos cristãos, tão perseguidos neste início do século XXI. Vejam só: trabalho numa redação de TV onde todo mundo é ou ateu ou esquerdista em geral, e os poucos “religiosos” ou são do tipo “Nova Era” ou “teologia da libertação”. Não há o menor espaço – muito menos pessoas capacitadas – para discussão verdadeira sobre os aspectos religiosos da vida. Agradeço o empenho de vocês nesse esforço pela racionalidade humana. Se vocês são cristãos, que Deus os abençoe. Se são somente céticos, parabéns pelo altíssimo trabalho intelectual!

    Fernando José

    novembro 22, 2010 em 10:37 am

  2. Caro Articulista,

    Tive a grata satisfação de, em navegando um pouco aleatoriamente nesse imenso oceano de informação, desinformação e contra-informação, aportar nesta ilha que, ainda pequena, dispõe de água para a sede, alimento para a fome, e abrigo para descanso de almas e corpos que, sedentos, famintos e cansados da aridez que caracteriza o deserto da sociedade atual em que vivemos, não deixam de caminhar em busca de significado para a existência.

    O meu caminhar, em particular, é movido pela conclamação de Paulo à minha razão, expressa na Carta aos Romanos, capítulo 12, versos 1 e 2, onde encontramos:

    “Rogo-vos, pois, irmãos, pela misericórdia de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”.

    A fé nasce de uma escolha entre crer ou não crer. Isso é feito a partir da ponderação entre custos e benefícios que resultam dessa escolha. É uma ação dinâmica de grande semelhança com a dinâmica da ciência, na medida em que, ao escolher crer, sujeitamos nossas vidas a transformações em todos os seus aspectos, em um mover constante de reflexão, experimentação e constatação, que nos impele a novas transformações e novos moveres.

    Escolher ter fé, e por ela mover-se, tem como origem o conhecimento de Deus, que advêm da percepção de que Ele existe, e que se manifesta e recompensa àqueles que O buscam. É ação racional, fundada em um amor por Ele a partir do conhecimento de que Ele nos amou primeiro.

    E esse amor de Deus, ainda que tenha um propósito, é gratuito, e expresso na vida e ensinos de Jesus Cristo, de modo que nada mais há que possamos acrescentar ou complementar, a não ser em resposta grata pelo favor imerecido.

    Mas a partir desse conhecimento, da reflexão, experiencia e constatação de sua manifestação em nosssas vidas, nos movemos em contínuas transformações da mente, com desdobramentos em todas as dimensões de nossas relações. Inconformados com mundo, mas cientes de que não o podemos transforma-lo a não ser a partir de nós mesmos, pois “Uma verdadeira revolução certamente não será coletiva, mas uma verdadeira revolução há de ser pessoal”.

    É uma via que não se escolhe trilhar de ânimo leve, mas apenas após uma profunda ponderação racional de suas consequencias em nosso ser.

    Portanto, que ninguém que tenha fé se deixe vencer por arranjos de palavras, mas funde suas convicções na esolha racional de crer, viver, refletir, experimentar, e constatar que o amor de Deus apenas nos conduz à fé se nossa escolha racional for mover-se a partir desse amor e de nossa inconformação com o mundo que nos rodeia.

    nEle, em que tudo se explica e se constata,

    Graça e Paz.

    Uirapuru

    maio 2, 2010 em 8:55 am

  3. Bom post. Essa técnica merecia um post exclusivo, pois é através da maquiagem que se facilitam as tentativas de enganação. É, basicamente, a técnica primordial. Ela pode ser vista como uma “espantalhização” genérica (já que não é obrigatoriamente feita com o argumento contrário).

    Pode ser ainda uma “inversão” de um espantalho – ao invés de representar errado o argumento da oposição, representam o próprio argumento de forma equivocada (geralmente inflado…), para então usá-lo a seu favor no debate ou na pregação neo-ateísta.

    Outro caso é a ressignação específica de termos para o que o neo-ateu bem entender: Esses são os casos das técnicas “Todos são ateus”, “Você é 99% ateu”, “As crianças nascem atéias”, por exemplo. Nesses casos, há uma modificação do significado de “Ateu” para enrolar os outros, e na refutação, deve constar esta identificação.

    Outros exemplos estão muito bem colocados na parte 8 da série “Desvendando a Ilusão do Neo Ateísmo”, na parte que diz a respeito da ressignificação.

    A refutação é praticamente a mesma da falácia do espantalho: Expor a palhaçada, mostrando as falsas alegações e a maquiagem, e recusar o argumento!

    MVR

    maio 1, 2010 em 10:21 pm


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