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Livro: “Como Vencer Todas as Argumentações”, de Madsen Pirie

“Como Vencer todas as Argumentações”, de Madsen Pirie, 152 páginas, Editora: Edições Loyola.
Como sempre tenho afirmado neste blog, a participação do teísta em guerras intelectuais (o debate entre teístas X neo ateus é um exemplo de guerra intelectual) pode ser um terreno pantanoso.
Para evitar chafurdar, é necessário o conhecimento de um “set” de técnicas, das quais posso citar, dentre outras: questionamento socrático, checklist de falácias, checklist de dialética erística, investigação de fraudes, etc.
Sem o conhecimento de ao menos parte dessas técnicas, o debatedor pode ficar vulnerável à argumentações tendenciosas e mal intencionadas e ser ludibriado facilmente.
Eis então que chega às minhas mãos o livro “Como Vencer Todas as Argumentações”, de Madsen Pirie, que não cumpre o que promete na capa, mas ainda assim é bem interessante.
A promessa seria de que este é um manual para ajudar o leitor a vencer as argumentações em que participa. Falso, pois o domínio de falácias, tanto para aplicação como prevenção, é apenas uma parte do “core” de conhecimentos necessários – pode-se dizer que o conhecimento da dialética erística tem igual importância, no mínimo. E o livro foca basicamente nas falácias.
Nessa parte é que o livro de Pirie, presidente e fundador do Instituto Adam Smith, se destaca da maioria dos trabalhos a abordarem o tema.
O livro é basicamente um guia bastante completo de toda a sorte de falácias existentes, e faz uso de bastante humor na demonstração dos erros lógicos inerentes à elas, sempre com exemplos bastante espirituosos.
A postura de Pirie em sua obra é quase maquiavélica. Ele mostra como alguém pode ao mesmo tempo aprender a aplicar a falácia para ganhar um debate, como também para entender o comportamento falacioso, e se proteger dele. Naturalmente que este blog defende a segunda opção, e é com essa perspectiva que analisei o livro.
Claro que, como Pirie diz que ensina alguém a cometer falácias, até ele próprio comete algumas, como neste exemplo, quando ele cita os conservadores e sua suposta relação com a falácia ad antiquitatem: “Os conservadores são os maiores usuários do ad antiquitam. Eles o cultivaram e o manterão em nome de Deus. Os valores antigos são os certos O patriotismo, a grandeza nacional, a disciplina – o que quer que se queira: se é antigo, é bom”.
Estranho, naturalmente, pois a maldade humana é antiga, e dificilmente se vê algum conservador dizendo que ela é boa.
Claro que esse tipo de deslize falacioso do livro pode ser um exemplo daquilo que o autor chama de “como aplicar falácias para vencer”. Mas se um leitor já consegue identificar falácias em várias das abordagens, é sinal de que esse tipo de estudo sempre faz bem.
Notem que não estou invalidando o livro, pois aí eu cometeria o estratagema erístico de “Tomar a prova pela tese”. Obviamente o exemplo dele é falacioso, mas a apresentação da falácia que ele faz é bastante correta.
Mais um motivo para mostrar que não só o conhecimento de um checklist de falácias, como é o livro de Pirie, como também da Dialética Erística, é essencial não só para a avaliação dos argumentos dos outros como também dos próprios argumentos.
No caso apenas do estudo do checklist de falácias, “Como Vencer Todas as Argumentações” serve como ótima introdução.
A “teoria” do Deus Imaginário, por SubHeaven
Já falei do argumento de Anselmo, que na verdade não é usado para comprovar a existência de Deus (pois o assume a priori). Foi este argumento que Dawkins tentou refutar aqui.
Notem que se Anselmo não tem a ousadia de tentar provar a existência de Deus com seu argumento, alguns ateus tentam fazer um argumento INVERSO ao dele e garantem que provariam a inexistência de Deus.
É ver para crer. Para começar, vejamos como Lewis Wolpert usar essa estratégia perante William Lane Craig, dizendo que, ao invés de Deus, existia um super-computador. Assistam, acima, que as risadas estão garantidas.
Seguindo o mesmo caminho de Wolpert, um debatedor do Orkut, SubHeaven, garante que provará que Deus é puramente imaginário.
Ele criou uma teoria que chama de “Teoria do Deus Imaginário”, mas que poderia até ser chamada de “Reverso de Anselmo ao Extremo”. Tecnicamente, dá no mesmo.
Antes de tudo é preciso entender quem é SubHeaven.
Quem é SubHeaven?
SubHeaven alegou que minha investigação a respeito de sua história seria um Ad Hominem. Não, não era.
Na verdade, diante de um argumento tão grotesco, apresentado de forma tão confiante, eu precisava compreender a mente de quem está por trás de idéia tão bizarra.
SubHeaven, depois de contar histórias tristes, diz que sua indignação com Deus surgiu por que ele se achava feio. Mais, de acordo com ele:
“Eu chorava a noite por estar apaixonado por alguma menina da escola e vê-la me tratar com tanto desprezo como as outras crianças. Eu pedia a Deus para ele me mudar, mas nada adiantava. Foi nessa época que eu pensei em ler toda a bíblia, para tentar descobrir o que eu estava fazendo errado para ser tão castigado daquele jeito. Eu então cheguei a duas conclusões possíveis: Ou eu estava sendo provado ou eu não tinha fé suficiente. Comecei a tentar entender o que era fé, ao mesmo tempo em que tentava aceitar tudo como uma grande provação. Como os próprios evangélicos dizem, resolvi deixar nas mãos de Deus.”
Curioso: só dele achar que Deus é uma entidade que deveria mudar seu aspecto físico, já é um motivo para suspeitar que ele trata de uma visão pueril de Deus, que nada tem a ver com o Deus que os religiosos adultos normalmente acreditam.
Querem saber como ele “descobriu” que Deus não existe? Vejam:
Mas enfim, eu andava com símbolos satânicos e camisetas xingando a Deus, para ver se alguém respondia as minhas dúvidas ou se um dos dois aparecia. Só queria a manifestação de algum dos dois pra eu bolar algum jeito de mudar a minha vida. Mas nada. Nem Deus, nem diabo, nem espiritos, nem sonhos, nem alucinações, nem vozes. Nada de sobrenatural aconteceu ou acontecia na minha vida. Foi aí que percebi a coisa mais óbvia de todas. Não existiam Deus e nem diabo e eu tinha feito papel de palhaço a vida inteira acreditando nessas bobagens. Eu só tinha tido muito azar quando nasci. Apenas isso e nada mais.
Não há nada de racional aí na decisão dele de deixar de acreditar em Deus, como se pode ver.
O engraçado é que mesmo que ele diga que agora não acredita em Deus, parece que ele não desgruda de pensar n’Ele, mesmo quando fala de seus projetos:
O mundo social é controlado por beleza e dinheiro e não tenho nenhum dos dois. O Projeto Gênesis é eu “comprar” beleza. Simples assim. Com isso passo a ser considerado um humano normal pelas outras pessoas, e consequentemente provo que eu não preciso de deus pra nada.
Isso tudo está mais para desabafo do que realmente algo válido contra Deus.
Isso que postei não é um Ad Hominem, e sim um estudo de uma personalidade que está realmente incentivada a nos provar que Deus é puramente imaginário. O problema é que toda a visão que ele demonstrou de Deus é bizarra. Logo, como ele poderia se tornar a partir daí um conselheiro para nós a respeito do que devemos acreditar ou não?
Vejam então, à frente, o argumento dele.
SubHeaven e sua “teoria” do Deus Imaginário:
Abaixo ele nos propõe o modelo básico de argumento que daria suporte à sua “teoria” do Deus Imaginário. Segue:
Meu modelo básico de argumento para provar que deus é imaginário é:
A tem todas as características de B,
A tem todas as limitações de B,
Logo, A é B.
Aparentemente, não é tão ruim, embora ele não precisasse do segundo passo, pois ele poderia incluir as limitações entre as características.
Ele sugere duas formas de provar a teoria dele:
Primeira Prova:
1 – Liste todas as características de deus.
2 – Crie na sua imaginação um ser com essas mesmas características.
3 – A teoria do deus imaginário diz que 100% das características serão possíveis de serem replicados.
Segunda Prova:
1 – Todo ser imaginário possui diversas limitações;
2 – A teoria do deus imaginário diz que deus também está preso a 100% dessas limitações.
A conclusão dele segue aqui:
O conceito “imaginário” é coerente com o conceito “deus” em todos os pontos e com isso, podemos concluir que deus é imaginário.
Uma forma dele defender o seu conceito foi a seguinte:
Atribuem-se a esse deus a capacidade de ser onipotente, oniciente e bom. Coisa que posso atribuir a qualquer ser imaginário. Seus alegados feitos são apenas relatos em um livro de ficção, a bíblia e posso escrever um livro contando os feitos de qualuer criação imaginária minha. Algumas pessoas dizem conversar com deus e você pode conversar com um ser imaginário. Algumas pessoas dizem receber inspirações de deus e você pode muito bem receber inspirações de um ser imaginário. Algumas pessoas dizem que deus está sempre ao lado deles, e você pode ter sua criação imaginária sempre ao seu lado. Algumas pessoas quando estão com uma dor de cabeça e ela passa, atribuem isso a deus e você, se estava com uma dor de cabeça que já passou pode atribuí-lo a qualquer criação imaginária sua. Porém esse deus, mesmo com sua suposta onipotencia, não é capaz de afetar o mundo real diretamente pois o imaginário não é capaz de afetar o real diretamente (*). Ele não é capaz de, mesmo com sua suposta onisciencia, dizer para uma pessoa algo que ela já não o saiba, pois um ser imaginário não é capaz de saber nada a mais do que a própria pessoa que a imagina já saiba. Continuando o exemplo da cura da dor de cabeça, ninguém consegue atribuir a deus, uma quantidade de “curas milagrosas” em quantidade maior que a quantidade de erros médicos ou maior que o que é causado pelo efeito placebo. E assim por diante. O deus teísta comum possui infinitas características pois cada um o imagina de uma forma diferente pois essa é outra característica inerente a toda criação imaginária. No entanto todas essas características podem ser atribuídas a uma criação imaginária e qualquer limitação de uma criação imaginária será também uma limitação do deus teísta.
Obs: Atenção para a parte citada com (*), pois a tratarei mais a frente, pois o restante chega a ser pífio. Não é mais do que a interpretação de Deus de uma criança de 10 anos, no máximo. [N.E. - Mais sobre isso aqui]
É aí que começam os problemas…
SubHeaven erra terrivelmente por partir da premissa que Deus não existe (ou então seria puramente imaginário), e diz que concluiu isso. O que não passa de raciocínio circular.
Tecnicamente, ele faz exatamente como Lewis Wolpert no vídeo. Ele repete a definição de Deus, nos traz uma EVIDÊNCIA ANEDOTA de que ele apenas “imaginou” isso, e então diz que isso é puramente imaginário (sem qualquer conexão com o real). Sendo assim, ele diz que a definição original refere-se também à um ente imaginário.
Notem que ele apresentou originalmente o argumento dele da seguinte forma: “A tem todas as características e limitações de B, então A é B”, mas na verdade o que ele faz é o seguinte.
A tem um dado número de características.
Inventa-se que uma (ou mais) dessas características é ser imaginária. [N.E. - Nessa versão, tanto faz características como limitações, pois limitações são também características]
Recria-se A na mente e chama-o de B.
A agora teria todas as características de B.
A é B.
O grande problema aí são justamente os passos 2 (inventar uma característica, não existente no conceito original) e 3 (Recriação de A, dando um outro nome).
Em relação ao item 2, isso é óbvio. Os teístas não afirmam que o Deus no qual acreditam é imaginário. SubHeaven teria que INSERIR essa característica, para depois fazer o joguete de falsa comparação.
O grande problema, como já dito, é realmente quando ele diz que compara A com B, quando na verdade ele compara A com A.
Como um dos foristas notou bem, o raciocínio de SubHeaven é nulo, pois ele citou um argumento, até válido, mas que não serve para provar inexistência de Deus, pois:
- (a) uma coisa é comparar dois objetos distintos, e encontrar similaridades entre eles
- (b) outra coisa, oposta, é selecionar um objeto, reimaginá-lo, sem mudar características dele, e dizer que se trata de dois objetos distintos
Para tentar provar Deus, ele usa (b), mas o argumento dele só serviria para (a).
A coisa fica ainda mais cômica quando notamos que os exemplos que ele tenta dar são focados em objetos do mundo físico, ao invés de entidades metafísicas, que é o nível no qual o argumento deveria ser apresentado e testado.
Ele fez outra tentativa, aliás, ao dizer que não comparou A com A, mas sim A com B (e disse que B assimilava as características de A). O problema é que B foi usado para “importar” automaticamente todas as características de A. Ou seja, é o mesmo que comparar A com A. Claro que de novo é um truque sujo, que mais uma vez implode o argumento.
Mas e se ele tentar ainda, por retórica e insistência, vender o argumento dele por aí? É aí que a coisa fica mais divertida…
Testes do Argumento
Como essa questão Deus atinge a ele emocionalmente em excesso, é melhor levar o argumento para outros domínios além da existência de Deus.
Assim como Deus, existem outros pontos que se discutem só no aspecto metafísico, como a moral, a beleza, a universalidade das leis físicas, etc. Isso qualquer um que queira fazer abordagem filosófica deve saber.
Fiquemos então na questão da feiúra, que o SubHeaven, alegou em seu texto como motivo para descrer em Deus.
Segundo a fórmula epicurista de SubHeaven, o problema da feiúra estaria resolvido da seguinte maneira.
- (1) Pega-se a descrição de feio ou feiúra, no dicionário
- (2) Anota-se todas as características desta entidade metafísica
- (3) Cria-se uma nova entidade na mente, com todas as características, sem tirar nem por
- (4) Dá-se um novo nome à essa entidade
- (5) Aí executa-se o truque e é dito “PUFF… a entidade que criei é puramente imaginária”
- (6) Logo, a feiúra é também puramente imaginária
Essa é exatamente a execução do modelo que ele sugere. Vejamos que não tem nada a ver com comparação de A com B, e sim A com A, e fingir que se comparou A com B. Como se vê, o argumento de comparação A com B é até útil, mas de maneira alguma serve para a teoria dele.
De novo no exemplo, ele fará uma cirurgia e diz que quer ficar bonito, para não precisar de Deus (ou coisa do tipo). A fórmula fica assim:
- (1) Pega-se a descrição de belo ou beleza, no dicionário
- (2) Anota-se todas as características desta entidade metafísica
- (3) Cria-se uma nova entidade na mente, com todas as características, sem tirar nem por
- (4) Dá-se um novo nome à essa entidade
- (5) Aí executa-se o truque e é dito “PUFF… a entidade que criei é puramente imaginária”
- (6) Logo, a beleza é também puramente imaginária
Considerando válido o modelo de SubHeaven, ele não poderá deixar de ser feio, e nem ficar bonito, pois tanto feiúra como beleza não existem.
Mas, se não existem, por que ele reclamou tanto delas em seu texto? Detalhes…
Desastre metafísico
Outro forista, Eduardo, sugeriu uma nova aplicação para testar o modelo, agora para a universalidade das leis físicas:
- (1) Pega-se a descrição de universalidade das leis físicas, nos livros de ciência
- (2) Anota-se todas as características desta entidade metafísica
- (3) Cria-se uma nova entidade na mente, com todas as características, sem tirar nem por
- (4) Dá-se um novo nome à essa entidade
- (5) Aí executa-se o truque e é dito “PUFF… a entidade que criei é puramente imaginária”
- (6) Logo, a universalidade das leis físicas é também puramente imaginária
Temos aí um problema, pois a ciência depende do aceite de que as leis físicas são universais, e não locais.
Agora, um momento divertido. Ao saber disso, SubHeaven protestou:
O pobre rapaz começa até mesmo a inventar regras científicas. tsc, tsc, tsc… A ciência não depende disso, ela conclui isso. Uma lei física nasce de um reconhecimento pelo método científica (Ou seja, algo que pode ser facilmente provado) ou de uma teoria científica (Um conceito que explica, faz previsões e permite ser falseável). As teorias e principalmente as experiências falseáveis continuam sendo coerentes no universo conhecido, logo, as leis físicas se aplicam. Se porém um dia descobrissemos por exemplo que vivemos nos pelos de um coelho branco e que, fora dele as leis que conhecemos hoje são diferentes não invalidaria a ciência pois seus resultados (Comunicações, transporte, medicina e outros) continuam sendo válidos e funcionais. Logo, sua única tentativa de argumentação apela para um termo genérico, com regras mentirosas para tentar me refutar.
Acreditem se quiser, SubHeaven confundiu universalidade das leis físicas com as leis físicas em si. Ele se esquece de que estas últimas são tratadas pelo método científico, e podem fazer ou não parte de teorias científicas, ou então serem resultantes delas.
SubHeaven comete a falha imperdoável de confundir uma discussão metafísica, no aspecto da epistemologia, com uma discussão sobre teorias científicas.
Esquece-se ele de que as coisas são completamente diferentes. Uma discussão epistemológica jamais é discutida no mesmo nível em que uma teoria científica é. A epistemologia é uma base para a solidificação do método científico. A universalidade das leis físicas só pode ser discutida no nível da epistemologia.
Como ele não tem a mínima noção do que é metafísica e epistemologia, ele então tentou se safar dizendo que Eduardo “apelou para um termo genérico, com regras mentirosas”.
Não, de jeito algum, isso é discussão metafísica, que ele sequer entendeu.
Auto-destruição
O pior está por vir.
A primeira coisa que se aprende em Filosofia é que, ao defender um modelo de argumentação (criado por você ou por outros), deve-se tomar cuidado para que esse modelo não seja auto-destrutivo.
Vocês se lembram que no item (*) ele citou o seguinte?
Porém esse deus, mesmo com sua suposta onipotência, não é capaz de afetar o mundo real diretamente pois o imaginário não é capaz de afetar o real diretamente.
Ora, essa suposta característica então precisa ser submetida ao argumento dele. A característica é: “incapacidade de afetar o mundo real diretamente”.
Aplicando o modelo dele:
- (1) Pega-se a descrição da “Incapacidade divina de afetar o mundo real diretamente”, no dicionário
- (2) Anota-se todas as características desta entidade metafísica
- (3) Cria-se uma nova entidade na mente, com todas as características, sem tirar nem por
- (4) Dá-se um novo nome à essa entidade
- (5) Aí executa-se o truque e é dito “PUFF… a entidade que criei é puramente imaginária”
- (6) Logo, a incapacidade divina de afetar o mundo real diretamente é também puramente imaginária
Sendo assim, seguiria válida a capacidade divina de afetar o mundo diretamente.
Conclusão
O modelo argumentativo é tão ruim que só merece ser tratado na base da piada. Na verdade, ele se baseia na crença absoluta de SubHeaven (assim como de Lewis Wolpert) de que Deus é imaginário, e tenta recursos sofísticos para tentar induzir os outros a acreditar nisso. É aí que a porca torce o rabo, pois não adianta tentar apresentar qualquer proposta nesse nível sem conhecimento de epistemologia ou metafísica, pois é preciso primeiro que a pessoa tente entender como criar uma argumentação nesse nível. Obviamente no final das contas, no item “Auto-destruição”, eu não provei que a capacidade divina de afetar o mundo diretamente é válida, assim como SubHeaven sequer provou que Deus é puramente imaginário. O intuito, ao final, foi mostrar como a própria idéia, se aceita, serve para implodir não só a teoria que ele tentou implementar, como também qualquer raciocínio. Em suma, um serviço de porco com base no Tetrafarmacón, de Epicuro. Mais uma mostra de que Epicuro só serve para estragar a cabeça da garotada.
Livro: Como vencer um debate sem ter razão em 38 estratagemas – Dialética Erística, de Arthur Schopenhauer

“Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão – em 38 Estratagemas (Dialética Erística)”, de Arthur Schopenhauer (Introdução, Notas e Comentários de Olavo de Carvalho), 260 páginas, Tamanho 12×21, Editora: Top Books.
Uma das melhores formas de se conhecer fraudadores é entender a mente deles. É por isso que existe, em Segurança, um foco em entender os perfis do comportamento criminoso e/ou danoso.
Por exemplo, livros sobre hackers. São extremamente relevantes, mas não apenas tentar ser um hacker, e sim entender como eles pensam.
Essa mesma regra deve ser aplicada aos debates argumentativos.
Como vocês podem notar por esse blog, quando se investiga o material divulgado pelos neo ateus, o que se encontra envolve normalmente um conjunto de fraudes intelectuais, distorções, manipulações semânticas, falácias e coisas do tipo.
Um dos principais componentes desse pessoal é a erística.
Erística é a arte de vencer um debate, sem ter razão.
O que defendo nesse blog é o oposto. Defendo que os religiosos que forem investigar os neo ateus entrem em debate para vencer, sim, mas com foco em ter razão.
Essa é a diferença que separa os erísticos daqueles que são apenas argumentadores high profile (cujo perfil defendo e apóio).
Ambos entram em campo para ganhar o debate, mas os erísticos não se importam em ter razão.
E, para entender o comportamento dos erísticos (e a campanha neo ateísta tem como principal recurso a erística), nada melhor que conhecer “Como Vencer Um Debate Sem Precisar Ter Razao Em 38 Estratagemas – Dialética Erística”.
Foi uma das obras que Arthur Schopenhauer, morto em 1860, não chegou a finalizar.
Várias décadas depois de sua morte, o trabalho foi redescoberto.
A edição lançada no Brasil, pela Top Books, inclui excelentes e pertinentes comentários de Olavo de Carvalho, praticamente um especialista em investigar falhas argumentativas de pseudo inteletuais no Brasil.
A princípio, não é uma leitura fácil. Quem for um pouco versado em argumentação filosófica, irá aproveitá-lo profundamente.
Mas mesmo que você não seja adepto da filosofia, ou praticante desse tipo de argumentação, há muito o que aproveitar ali.
O potencial de se conhecer os 38 estratagemas levantados por Schopenhauer é tamanho que, quando enraizamos o conhecimento desses estratagemas (para nos prevernirmos deles), é praticamente como se tivéssemos tomado a pílula vermelha.
Não dá para dizer que Schopenhauer incluiu todos os estratagemas possíveis, mas simplesmente aqueles que ele considerou mais relevantes.
Mas, pelo princípio de Paretto (o 80-20, da administração), a utilidade do livro já está garantida.
Muitos me perguntam quais são minha principais técnicas, e por que dificilmente deixo-me ludibriar pela argumentação de picaretas como Dawkins, Hitchens, Dennett e pessoalzinho do tipo.
Eu normalmente respondo que procuro usar lógica, ceticismo, técnicas de auditoria, conhecer os guias de falácias e… a dialética erística.
Esse é o livro fundamental para se compreender a dialética erística.
Pelo que vi, está baratinho, não mais que 30 reais. Vale muito mais que isso.
Aliás, gosto tanto dessa obra que tenho 2 cópias. Uma para ler (e já está um tanto danificada), e outra para guardar. Sim, é isso mesmo, eu trato essa obra como jóia preciosa.
Recentemente, assisti o filme “Avatar”, no cinema. Mudou minha forma de ver cinema. De forma parecida, ler “Como Vencer um Debate sem Ter Razão” mudou a forma como eu encarava um debate.
Depois de Schopenhauer, fica difícil um picareta me enrolar em debates.
Deus, Um Delírio – Capítulo 2 – Pt. 1 – O Deus de Richard Dawkins, Um Delírio Infantil

O segundo capítulo do livro de Richard Dawkins começa com uma introdução à várias perspectivas de Deus, e é um dos mais confusos de toda a obra, embora bastante esclarecedor em relação à mente de Dawkins.
É onde também ele comete um de seus erros filosóficos mais grotescos (o esquecimento do objeto de estudo sob discussão, para a discussão de algo que ele inventou).
O início, no entanto, já chega a ser constrangedor:
O Deus do Antigo Testamento é talvez o personagem mais desagradável da ficção: ciumento, e com orgulho; controlador mesquinho, injusto e intransigente; genocida étnico e vingativo, sedento de sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo. Aqueles que são acostumados desde a infância ao jeitão dele podem ficar dessensibilizados com o terror que sentem.
Eis então uma das citações preferidas de Dawkins. Há quem afirme que os olhos não só de Dawkins como de seus fiéis brilham diante dessa citação. O diacho é que a afirmação é de uma ingenuidade absoluta. Sejamos sinceros: Dawkins parece ou não aquelas crianças de 13 anos com birrinha querendo irritar a mãe pelo fato de ter que rezar ou ir para a Igreja por obrigação?
Existem várias formas de tratar tal tipo de comportamento, sendo um deles a psicologia inversa: na qual se finge concordar com o que o outro diz, independente da insanidade que seja. Um exemplo é dizer algo assim: “Tem razão, Deus é tudo isso, o que mais?”. Muitas vezes o próprio maluco nota o nível do ridículo de sua afirmação e cala-se. Alguns, no entanto, não se calam, e seguem com o fricote.
Uma alternativa é usar um outro modelo de psicologia inversa, mais desafiador. Algo como: “Exato, Deus é cruel, implacável, pega um, pega geral, e aí, a menininha vai chorar? Está com medinho?”.
Claro que nenhuma das duas formas é sequer argumentativa, e o seu uso é apenas recomendável quando se está diante de alguém insandecido e agindo de forma histérica.
Se o neo ateu estiver mais calmo, cabe uma análise da proposição, que é inteiramente baseada em uma análise rasteira da Bíblia. A associação de termos como “perseguidor misógino” e “homofóbico” é, por exemplo, completamente estúpida, pois tanto misoginia como homofobia referem-se à aversão a mulheres e homossexuais, respectivamente. Lembremos que dizer o ato homossexual é abominável não é o mesmo que dizer que o homossexual é abominável.
Da mesma maneira, a atribuição do item “racista” é quase demencial, simplesmente por que a Bíblia prega que todos os homens são iguais perante a Deus.
O item filicida talvez se refira ao fato de não proteger Jesus da morte? Nada mais imbecil, pois deixar de proteger alguém não é o mesmo que matar este alguém.
E assim, sucessivamente, nota-se que a atribuição de rótulos, feita por Dawkins, é completamente infantilóide e indefensável.Coisa de menino birrento mesmo.
Mas em termos de comportamento pueril, nada supera a tentativa de atribuir o rótulo “genocida” a Deus. Essa tentativa de Dawkins simplesmente denota a sua falta de inteligência e, principalmente, falta de cultura. O termo genocídio é aplicado unicamente a casos de assassinato deliberado de povos, praticado por outros povos, ou principalmente nações, por motivos étnicos, políticos, territoriais, etc. Logo, simplesmente é impossível que um Deus cometa um genocídio, pois ele jamais poderá ter diferenças específicas em relação a um outro povo.
Além de inculto e pouco inteligente, Dawkins dá uma de ingênuo ao achar que os religiosos precisam se acostumar ao “jeitão malvadão” de Deus. Ele afirma que ficamos pouco sensíveis ao terror que sentimos. Mas quem disse para Dawkins que sentimos terror? Só se não soubéssemos ler a Bíblia.
O que é o caso do filho de Winston Churchill, que Dawkins cita:
Um naïf dotado da perspectiva da inocência tem uma percepção mais clara. Randolph, filho de Winston Churchill, conseguiu — não sei como — permanecer ignorante em relação às Escrituras até que Evelyn Waugh e um irmão soldado, na vã tentativa de manter Churchill quieto quando eles estavam no mesmo destacamento, apostaram que ele não seria capaz de ler a Bíblia inteira em quinze dias: “Infelizmente isso não surtiu o efeito que esperávamos. Ele nunca tinha lido nada dela e está horrivelmente entusiasmado; fica lendo citações em voz alta: ‘Garanto que vocês não sabiam que isso veio da Bíblia…’, ou então fica se remexendo e dando risada: ‘Meu Deus, Deus não é um merda?’”.
Mas olhem só como o Dawkins tenta preparar armadilhas para os religiosos, mas no fim ele é que acaba caindo nelas.
Uma ligeira investigação sobre Richard Dawkins mostra que todo o caso dele contra a religião é construído em cima de uma interpretação da Bíblia que é aceitável para uma criança de 10 anos, no máximo. Em cima dessa interpretação (o que por si só demonstra o quanto ele é incapaz), ele realiza uma série de ataques.
E não é que ele cita Randolph Churchill, que não conhecia a Bíblia, a leu em 15 dias, e depois saiu dizendo impropérios semelhantes aos que Richard Dawkins faria?
Só que alguém que faz essa análise apenas após a primeira leitura, feita rapidamente, naturalmente não vai ter uma interpretação das melhores, realmente. A Bíblia é um livro para ser lido, relido, e depois estudado, em cima de referências, interpretações, citações, etc. Não é para ser lido e logo em seguida estipular-se um julgamento de imediato.
O pior é que Dawkins afirma que Randolph Churchill tinha “percepção mais clara”, somente por ser dotado da perspectiva da inocência.
Só que justamente a perspectiva da inocência é o que tira grande parte de sua percepção. Seria melhor que Randolph tentasse ler a Bíblia com perspicácia, e não com uma atitude precipitada…
Precipitação, aliás, que Dawkins comete aqui, onde chafurda definitivamente:
Definirei a Hipótese de que Deus Existe de modo mais defensável: existe uma inteligência sobre-humana e sobrenatural que projetou e criou deliberadamente o universo e tudo que há nele, incluindo nós. Este livro vai pregar outra visão: qualquer inteligência criativa, de complexidade suficiente para projetar qualquer coisa, só existe como produto final de um processo extenso de evolução gradativa. Inteligências criativas, por terem evoluído, necessariamente chegam mais tarde ao universo e, portanto, não podem ser responsáveis por projetá-lo. Deus, no sentido da definição, é um delírio; e, como os capítulos posteriores mostrarão, um delírio pernicioso.
Esse é o tal erro grotesco do qual falei anteriormente. Ninguém, ao apresentar qualquer tipo de argumentação em relação a um objeto ou entidade em discussão, poderia cometer um erro deste tipo, sob hipótese alguma.
Uma regra que não pode ser quebrada nesse tipo de argumentação é jamais deixar de focar no objeto defendido pelo seu oponente.
Um exemplo disso é quando alguém, em um debate, decide discordar do Big Bang. Em um debate contra físicos, o sujeito não pode sair alegando que refutou o Big Bang, ou que o Big Bang é um delírio, simplesmente por que o ovo cósmico é inviável, pela inexistência da galinha. Isso por que esse ovo cósmico é uma invenção do próprio argumentador, mas não é o ovo cósmico que é tratado pelo oponente (no caso, os físicos). Portanto, nessa situação, talvez o ovo cósmico seja um delírio, e o Big Bang também, mas não o Big Bang e o ovo cósmico, conforme considerado pelos físicos. E era justamente esse que o argumentador deveria estar questionando. E não a definição que ele inventou. Se ele refutou algo, no máximo refutou a si próprio, e não a seus oponentes.
É a mesma coisa que Dawkins pratica aqui: ele alega uma nova visão de Deus, que seria parte do processo de seleção natural. Mas os religiosos não definem Deus desta forma. Só que Dawkins quer “por que quer” definir desta forma. E, é claro, nesta versão particular de Deus, ele conclui que no final “Deus é um delírio”.
Eu não acredito em um Deus assim, e duvido que algum religioso acredite. Um Deus que é parte do processo de seleção natural? Isso não faz o menor sentido.
Nesse sentido, é claro que o Deus de Richard Dawkins não passa de um delírio. E é um delírio infantil. Não surpreende, aliás, já que é um Deus que ele mesmo inventou.
Técnica: Então é Deus!

Última atualização: 23 de outubro de 2009 – [Índice de Técnicas]- [Página Principal]
Tecnica utilizada em quantidade impressionante, principalmente pelos neo-ateus que preferem focar mais na argumentação expandida do darwinismo (aquela em que o darwinismo é aplicado a tudo, incluindo a explicação da cultura humana). Só que mesmo vista com maior frequência nesses debates, o estratagema pode ser utilizado também em qualquer outro tipo de diálogo em que a questão divina esteja sendo discutida.
O conhecimento desta técnica é importante pois ela é a força motriz de grande parte do capítulo 4 do livro “Deus, um delírio”, de Richard Dawkins, que, como se sabe, é o suporte psicológico desse pessoal.
O foco desta técnica é tentar dizer que o religioso usa praticamente toda e qualquer avaliação de eventos para justificar a existência de Deus.
Para isso, o neo-ateu precisará FINGIR que o adversário cometeu um exagero, praticando um salto indutivo. Após isso, dirá que o religioso afirmou algo do tipo “Então é Deus!”, ao final da argumentação. Mesmo que em nenhum momento o religioso tenha dito isso.
Em cima deste fingimento, o neo-ateu irá então ridicularizar a argumentação religiosa com algo do tipo:
- Vocês, religiosos, são todos iguais. Basta encontrarem a complexidade no DNA que já saem dizendo que é Deus.
- Vocês, religiosos, encontram uma lacuna em uma explicação científica e já saem dizendo que é Deus.
E assim seguem, ad aeternum. E esses são apenas alguns exemplos, pois as “maquiagens” podem ser as mais variadas possíveis. Mas sempre elas contém o “salto” em que se finge que o teísta afirmou diretamente que a conclusão era a existência de Deus, sem que ele tenha na verdade afirmado isso.
O estratagema é adaptado da técnica 23 citada em Dialética Erística, de Schopenhauer, descrita pelo alemão desta forma:
[...] exagerar para além do que é verdade uma afirmação, que, em si e em certo contexto, pode ser verdadeira; e, uma vez refutado o exagero, é como se tivéssemos refutado também a proposição original.
Olavo de Carvalho sugere alguns cuidados importantes, inclusive este abaixo:
O estratagema 23 é de natureza puramente psicológica, funciona por provocação, quase por indução hipnótica (a programação neurolinguística tem meios muito eficazes para obter este resultado), e nada tem a ver com qualquer absurdidade intrínseca (lógica) contida na tese do adversário. Trata-se, na verdade, de uma mudança de gênero em discussão: transposta para além dos limites do gênero sobre o qual versa, qualquer afirmação se mostra absurda.
Exemplos do “truque”:
(1) Um teísta diz “O ordem do universo me sugere um design por trás de sua ordenação”. O neo-ateísta retruca: “Essa é a mente religiosa, que diz que se há uma ordem no universo, então é Deus!”.
(2) Um teísta afirma: “A complexidade de algumas formas de vida não pode ser explicada pela seleção natural”. O neo-ateísta confronta: “Quer dizer então que aquilo que não é explicado pela seleção natural (uma lacuna) explica o teu Deus?”.
Note que nos dois exemplos, é talvez possível que o teísta use (1) ou (2) para, após novas sequências de operações lógicas (em conjunto com outros argumentos), chegue então à conclusão da existência de Deus. Mas a afirmação ou o argumento em si não faz tal salto indutivo. Só que o neo-ateu pode fingir que o salto indutivo realmente ocorreu, torcer para que ninguém perceba o logro, e então já sair refutando o exagero.
O mais estranho é que vários teístas, durante o debate, não percebem tal armação, e seguem no diálogo, o que é um erro gravíssimo, pois, se o neo-ateu não foi corrigido, isso significa que o teísta ACEITOU o estratagema imposto pelo seu adversário, que é desonesto e mal intencionado.
Com esse estratagema, é praticamente certa a vitória do neo-ateu no debate.
Caso o estratagema seja desmascarado em público, o neo-ateu terá que refazer toda a sua argumentação, e provavelmente ficará em maus lençóis.
Dessa forma, aceitar ou não que o adversário pratique o estratagema, é quase como decidir se você quer ou não perder o debate.
Refutação
A forma de refutação tem que se apoiar no esclarecimento do exagero cometido pelo neo-ateu. Exemplo:
- NEO-ATEU: Vocês, religiosos, são todos iguais. Basta encontrarem a complexidade no DNA que já saem dizendo que é Deus.
- REFUTADOR: Seja específico, pois, que eu saiba, eu não disse nada disso.
- NEO-ATEU: Mas você usou o argumento da complexidade do DNA.
- REFUTADOR: Sim, eu citei. E uso como argumento de que a seleção natural básica não explica tudo. Eu não falei que isso “é Deus”, no argumento.
[Talvez o neo-ateu tente outras variações e ainda assim insista, mas basta somente expor ao público que os saltos indutivos propostos pelo neo-ateu na verdade não ocorreram e não eram parte intrínseca do argumento questionado por ele]
Conclusão
Técnica de alto efeito psicológico, usada em uma quantidade enorme de debates pelos neo-ateus. Conhecendo-a, pode-se quebrar toda uma argumentação erística e desonesta que um neo-ateu tenta realizar. Aparentemente, os neo-ateus usam o estratagema um grande número de vezes, pelo fato dele ser eficiente como provocação e difamação, e pelo fato de que muitos não percebem o logro à primeira vista. Após acostumados para descobrir estratagemas erísticos deste tipo (e espero estar contribuindo com a base de conhecimento das técnicas dos neo-ateus com essa seção do blog), o efeito argumentativo dessa tática reduz-se a pó. Para aqueles que debatem em busca da verdade, sem desonestidade intelectual, desmascarar estratagemas desonestos é essencial.
Tim Keller e a mensagem do novo ateísmo
Neste vídeo, Tim Keller, pastor presbiteriano e autor de vários livros, fala sobre o novo ateísmo.
Aqui ele mostra uma análise inteligente sobre o movimento da patota de Dawkins.
E sugere que a abordagem a ser usada seja uma só: escrever, de volta, livros que mostrem que esses argumentos neo-ateus são na verdade ruins demais. E são mesmo. Claro que escrever artigos em blog atende ao mesmo princípio.
Ele ainda lança um alerta: o de que não se reaja na mesma moeda, ou seja, ofendendo como eles fazem.
Concordo com Keller, pois o ideal é partir para a REFUTAÇÃO direta, utilizando-se de ceticismo e questionamento de auditor, além de investigação no modelo de perícia forense, em TODOS os argumentos anti-religiosos usados por essa turma.
De outro lado, a ofensa seria um erro, pois é cair no mesmo nível, e seria uma vitória deles.
Já que a turminha neo-ateísta tem um padrão: não possuem moral alguma, e nem sequer um padrão ético.
Como eles já não possuem imagem nenhuma a zelar, em uma troca de ofensas com eles, só o teísta vai se dar mal, pois este tem algo a perder (a moral). Já o neo-ateísta? Este não possui uma moral, portanto não irá perdê-la.
É quase como discutir com prostituta de rua. Sempre é mal negócio.
Mas notem bem: evitar o bate-boca não é o mesmo que evitar a ARGUMENTAÇÃO.
Esta sim deverá ser feita energicamente, de forma racional e com extremo ceticismo.
E, ao menos por experiência pessoal, posso garantir que o teísta só tem a ganhar com isso.
Técnica: Inversão de Planos

Última atualização: 18 de setembro de 2009 – [Índice de Técnicas] – [Página Principal]
Essa técnica se baseia em algo que pode ser definido também como “Simulação do Falso Entendimento”, o que é uma variação mais elegante da famosa falácia do espantalho.
Importante ressaltar que quando se diz “simulação”, pode ser que isso não se aplique em todos os casos, já que é possível que existam situações em que o neo-ateu seja apenas um ignorante a respeito de filosofia. Neste caso não dá para dizer que o erro do neo-ateu é feito de forma dissimulada.
O que importa, no entanto, é que tal técnica ocorre com alta frequência.
Para entender o que é a inversão de “planos”, basta entender que existem vários planos de discussão, ou domínios de discussão.
Exemplos:
- ciência – evidências físicas, objetivas
- amor – evidências subjetivas, dependentes da impressão pessoal
- negócios – evidências diretas, mas advindas do mercado (e não peer review)
- matemática – provas
- lógica – evidências lógicas
- teologia – evidências lógicas, sob discussão utilizando-se de filosofia (é aqui que a questão Deus é discutida)
A tática de inverter os planos significa tentar jogar algo que está sendo discutido em um plano e lançá-lo a outro, no qual a refutação será feita fora do domínio em que a discussão deveria ocorrer.
Basta dizer que se o debatedor teísta permitir que um oponente desonesto intelectualmente execute tal técnica, e este não for advertido, o debate está perdido.
Para evitar que esse logro se mantenha, basta apenas intervir e informar ao oponente que ele está fugindo do plano de discussão.
Por exemplo, a questão Deus não pode ser discutida da mesma forma que o Bule de Chá proposto por Russell. Pois o bule é físico, portanto deverá ser estudado pela ciência tradicional. Deus não é afirmado como físico, e a discussão sobre ele é lógica (isso que nem estou aqui afirmando sobre sua existência ou não, apenas sobre o tom de discussão). Quando Bertrand Russel tentou aplicar a técnica “Bule de Russell” dentro de seu argumento, ele estava praticando a técnica da “Inversão de Planos”. E é justamente com essa técnica que ele inicia o seu argumento.
Refutação:
A refutação se baseia simplesmente em explicar ao oponente que ele está saindo do plano de discussão.
(1) O exemplo abaixo mostrará a tentativa de sair do domínio da teologia e pular para o domínio das artes:
- NEO-ATEU: Deus é igual um boneco.
- REFUTADOR: Me explique isso melhor…
- NEO-ATEU: Certo dia Mickey e Minnie foram inventados, por alguém dos estúdios Disney. Se Deus foi inventado, então é igual o Mickey e Minnie.
- REFUTADOR: Mas Mickey e Minnie são personagens, e não foram assumidos como tendo existência real. E nem se sabe se Deus foi inventado.
- NEO-ATEU: Mas se foram inventados, são iguais, e você tem que assumir que Deus é igual Mickey e Minnie.
- REFUTADOR: De jeito algum.
- NEO-ATEU: Como não?
- REFUTADOR: A discussão sobre existência de Deus é lógica. Não está no âmbito artístico, onde tudo se assume a priori que é fictício e não são feitas argumentações lógicas para estudar sua existência ou não.
(2) Outro exemplo de refutação, agora mostrando um debatedor neo-ateu tentando fingir que a questão Deus é científica, ou seja, saindo do domínio da religião (teologia) e indo para o domínio da ciência.
- NEO-ATEU: Ok. Se Deus não é um boneco, então temos que prová-lo.
- REFUTADOR: De que forma você quer provar?
- NEO-ATEU: Com um teste científico.
- REFUTADOR: Mas quem disse que a questão Deus é uma questão científica?
- NEO-ATEU: Senão é questão científica, então não existe.
- REFUTADOR: Nada mais falso. Algo pode ser definido logicamente, ou baseado em experiência pessoal (como o amor), ou até como princípio que dê sustentação à ciência, e não ser necessariamente inexistente.
- NEO-ATEU: Não, pois a ciência cuida da realidade.
- REFUTADOR: Não, a ciência trata de pequenos recortes da realidade. Somente aqueles acessíveis pelo método científico.
- NEO-ATEU: Mas se Deus não está nisso, então não existe.
- REFUTADOR: Nonsense! Várias coisas não são testáveis pelo método científico, e não necessariamente não existem. Nem a ciência existiria sem alguns fundamentos, não testáveis pelo método científico.
[aqui foi mostrado ao neo-ateu que ele estava tentando "inverter os planos" e levar a discussão sobre Deus para o domínio do método científico, e ao mesmo tempo ele queria dizer que tudo que não está no domínio do método científico é falso]
Conclusão:
É uma das mais hábeis técnicas de enganação, pois não são muitos que se interessam em estudar filosofia, área que explica exatamente como inversão de planos é um erro lógico grosseiro. Sem esse conhecimento, muitos teístas são enganados quando um neo-ateu aplica essa técnica. A única forma de se precaver contra isso é realmente estudar filosofia ou pelo menos a estrutura básica de uma argumentação, pois sem isso dificilmente o debatedor irá perceber com facilidade a tentativa da inversão de planos.
Técnica: Amigo Imaginário

Última atualização: 18 de setembro de 2009 – [Índice de Técnicas] – [Página Principal]
Técnica de altíssimo potencial ofensivo, embora geralmente utilizada por pessoas incapazes ou que não estão aptas a um debate sério.
Com essa técnica, o neo-ateu tenta ofender diretamente o religioso, pois afirmaria que Deus seria similar a um amigo imaginário.
Com isso, a idéia é tentar comparar o religioso a uma criança de 3 a 6 anos, idade que os psicólogos reputam como a fase em que se possui amigos imaginários.
Deve-se lembrar, no entanto, que a técnica só pode ser aplicada pelo neo-ateu com eficiência se do outro lado o teísta não tiver a mínima noção do que significam as expressões:
- (a) Deus
- (b) amigo
Apenas com o conhecimento desses dois termos, é possível, refutar o neo-ateu.
Abaixo há um exemplo da aplicação desta técnica por um neo-ateu:
- NEO-ATEU: Quer dizer então que você tem amigos imaginários?
- RELIGIOSO: Eu não afirmei isso.
- NEO-ATEU: Claro que é. Se você reza e não tem ninguém lá, é um amigo imaginário!
- RELIGIOSO: Mas não é nesse sentido que você está pensando.
- NEO-ATEU: É sim! É amigo imaginário! É amigo imaginário! É amigo imaginário! AMIGUINHO imaginário!
Geralmente, a aplicação da técnica é desse jeito mesmo, até com doses de histeria.
Refutação:
Segue um exemplo de como refutar essa técnica:
- NEO-ATEU: Quer dizer então que você tem amigos imaginários?
- RELIGIOSO: Eu não.
- NEO-ATEU: Mas você acredita em Deus!
- RELIGIOSO: Sim. Mas não em amigo imaginário.
- NEO-ATEU: Se é Deus, é amigo imaginário!!!
- RELIGIOSO: Claro que não. A definição de amigo implica em um indivíduo unido a outro por amizade. Eu nunca chamei Deus de indivíduo. Também não chamei de “pessoa ligada a mim”. Um amigo imaginário refere-se a seres que estariam escondidos embaixo da cama da criança, ou dentro do armário. A existência alegada é física. Eu jamais disse isso de Deus.
- NEO-ATEU: Não importa, não quero saber, é amigo imaginário! É amigo imaginário! É amigo imaginário! AMIGUINHO imaginário!
- RELIGIOSO: Você está louco(a), e histérico(a). Enquanto você não estudar as definições de “amigo” e “Deus” não há o mínimo de noção nisso que você afirma.
[A partir daí, se for em um debate virtual, o neo-ateu só conseguirá se safar se estiver postando em maioria junto com um grupo de neo-ateus. Mas é recomendável não participar em comunidades onde neo-ateus sejam maioria, pois eles atacam em bando. Em um território neutro, o neo-ateu é facilmente refutado ao tentar aplicar a técnica]
Conclusão:
Técnica que ao mesmo tempo é altamente ofensiva, mas ao mesmo tempo é altamente estúpida. Em debates mais acirrados, um religioso pode não prestar atenção e se sentir fortemente ofendido. Com apenas o entendimento dos conceitos “amigo” e “Deus”, já é possível refutar de primeira o neo-ateu que tentar tal ofensa.
