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O estado catatônico de um leitor de Carl Sagan

O diálogo abaixo aconteceu em uma comunidade do Orkut, e um tal de Monstro, leitor de Carl Sagan até a medula, se incomodou com a refutação que eu fiz a outro debatedor, Brasinha, que fez uma versão bizarra do argumento da causa primeira, para refutá-la.
Falarei deste “argumento” de Brasinha no futuro, provavelmente na seção de técnicas (“Conhecendo o Inimigo”), mas o que importa aqui é transcrever um diálogo que o tal de Monstro travou comigo.
Monstro (ele não divulga o nome real dele, por sorte), é moderador da comunidade “Céticos & Ateus”, do Orkut, e defende ser um especialista em ciência. Logo no começo, ele já chegou de forma desastrada:
- MONSTRO: Você é do tipo neo-teísta. A ciência não tem lógica e o teísmo tem. Risos. Só que a minha lógica fez computadores a medicina e muito mais. Já a sua”lógica”, está só tentando.
- LUCIANO: De novo a falsa dicotomia entre ciência X religião? Aliás, onde eu falei que ciência não tinha lógica? Vá estudar ciência antes de pagar mico e falar o que não sabe!
- MONSTRO: Você sabe o que é ciência? Pelo visto não. Cara, leigo em ciência é pior que teísta fundamentalista.
- LUCIANO: Esse é o Monstro. Leigo em ciência., pior que teísta fundamentalista. Vejamos do seu profile: “O hinduísmo diz que eu sou um espírito evoluindo. O cristianismo diz que eu sou um pecador. O islamismo diz que eu sou um infiel. O politeísmo diz que eu sou muito infiel. O espiritismo diz que vai me mandar vibrações positivas.O horóscopo diz que eu sou sortudo. A kabala diz que eu sou miguxo. A ciência diz que todo isso é besteira de quem tem merda na cabeça.” Realmente, você não tem a mínima noção do que é ciência.
- MONSTRO: Deus existe, cientificamente falando? NÃO. Portanto, tem lógica crer nisso? NÃO. É por isso que não tem Deus em nenhuma teoria científica. Deus, Zeus, fadas, URI, MOV, gnomos, duendes, papai-noel e coelho da páscoa. Crenças irracionais e ilógicas (cientificamente falando, claro). Se você acredita nessas coisas, o problema é seu.
- LUCIANO: Deus não é assunto da ciência. Além do mais, você tenta definir algo como lógico se for parte da ciência ou não. Isso é cientismo, e não tem nada de científico nisso. E quanto a Deus estar em alguma teoria científica: quem disse que Deus teria que estar em alguma teoria científica?
- MONSTRO: Vamos ver se você entendeu. A ciência considera as hipóteses de algo que não podem ser comprovados por lógica como: existente, ou inexistente (até que se prove o contrário).
- LUCIANO: Erro grosseiro, pois a ciência não trata de questões metafísicas. Deixemos que a Academia Nacional de Ciências coloque você em seu devido lugar.
- MONSTRO: Religião -> seres mágicos feitos de mágica em mundos mágicos. Ciência -> coisas reais, feitos de coisas que existem, no mundo real. Claro que Deus não é assunto da ciência. Sauron também não é. Sobre questões metafísicas, é claro que a ciência não trata, pois metafísica é tudo que não existe. Por exemplo, a alma. É bobagem metafísica, não existe, no mesmo sentido em que a ciência diz que uma porta existe. Por isso a ciência não tem nem como tratar disso.
- LUCIANO: Vejamos o que diz a NAS: “Na raiz do aparente conflito entre alguma religiões e a evolução está uma compreensão equivocada da diferença crítica entre o modo de conhecimento religioso e o científico. As religiões e a ciência respondem a perguntas diferentes sobre o mundo. Se existe um propósito no universo ou um propósito para a existência humana, essas não são perguntas para a ciência. O modo de conhecimento religioso e o científico representaram, e continuarão a representar, papéis significativos na história humana… A ciência é uma maneira de conhecer o mundo natural. Ela se limita a explicar o mundo natural através de causas naturais. A ciência não pode dizer nada acerca do sobrenatural. Se Deus existe ou não é uma questão sobre a qual a ciência é neutra.” Ou seja, você sair dizendo que a ciência NEGA Deus é um DESCONHECIMENTO TOTAL do que é ciência. Detalhe que o texto da NAS está perfeitamente alinhado com a filosofia da ciência.
- MONSTRO: As religiões e a ciência respondem a perguntas diferentes sobre o mundo. Uma fala do mundo real. A outra do mundo da imaginação. Diga uma só verdade metafísica que exista logicamente.
- LUCIANO: Vejamos… as leis físicas são universais. Só falta você achar que isso é TEORIA CIENTÍFICA.
- MONSTRO: Eu posso ser um ignorante em filosofia, mas pelo menos eu não sou em ciência, ao contrário de você, que acha que coisas que não possuem evidências de existênsia (sic), existem cientificamente. Cuidado heim, tem um gafanhoto invisível na sua janela querendo te matar, eu não posso provar que ele existe, portanto ele é verdade! Aliás, as leis da física são metafísica?
- LUCIANO: Ele reconheceu que é ignorante em filosofia, pois já soube que a ciência não aborda tais assuntos e volta a pedir algo que “existe cientificamente”. As universalidade das leis da física (não confundir com as leis da física em si) são discutidas em um nível ACIMA da ciência: chama-se epistemologia.
- MONSTRO: Tá. Um dia você vai se perguntar por que metafísica não entra em nenhuma área da ciência. Ou não né…
- LUCIANO: Não entra, pois a metafísica está em um NÍVEL ACIMA, o nível da filosofia…
- MONSTRO: Eu sou moderador da Céticos e Ateus. Eu sou respeitado por todos céticos que eu conheço. Sua achologia sobre o que é ou não ciência não me afeta. Isso só é uma verdade no seu mundinho. é como aquela piada do português dirigindo na contramão ouve no rádio o locutor dizer: ‘Cuidado tem um idiota dirigindo na contramão’. E o português responde: ‘um não, vários…’. Você é o português”.
- LUCIANO: Nessa piada, você é então o português, pois a Academia Nacional de Ciências vai para um lado, e você para o outro.
- MONSTRO: Eu e Carl… Você e quem mesmo? Silêncio. Ah tá.
- LUCIANO: Pronto, mais um que caiu na onda do Carl Sagan. Quer estudar ciência? Estude Karl Popper. Carl Sagan é “ciência” para garotos iludidos, é auto-ajuda para fracos. Agora entende-se por que você errou em tudo que falou a respeito da alçada da ciência até agora.
- MONSTRO: Pô, sério que Popper defende que coisas que não possuem evidência de existência existem?
- LUCIANO: Não, Popper não diz isso. Popper delimita a área de atuação das ciências. Fora desta área, a ciência não pode dizer nada a respeito. São de outras áreas, como filosofia, matemática, teologia, epistemologia, etc…
- MONSTRO: Ah tá. Elegeram ele para delimitar em que assembléia mesmo?
- LUCIANO: Ele publicou “A Lógica da Pesquisa Científica”, e se tornou um dos mais relevantes filósofos da ciência. Junto com Lakatos, construiu o que se chama de método científico atualmente usado. Se quiser elaborar um trabalho científico, tem que aprender Popper e Lakatos. Preciso te ensinar sobre Kuhn agora?
- MONSTRO: Então tá. Isso garante à ele uma autoridade inigualável, de certo.
- LUCIANO: Autoridade? Não, e sim base de conhecimento. Mas é algo que você deveria saber se quer discutir ciência. Melhor que citar o “Carl”…
- MONSTRO: [sobre a citação da NAS] O livro só fala, naquele trecho, que, na opinião de alguns dos autores, crer em Deus pode ser compatível com crer na evolução, tendo em vista que lidam com mundo diferentes, o natural e o sobrenatural. Não preciso nem dizer que o mundo sobrenatural é fantasia em matéria de ciência.
- LUCIANO: Mais um motivo para demonstrar sua ignorância, pois se conforme a citação mostrou, a ciência NÃO FAZ JUÍZO DE VALOR sobre assuntos religiosos, então a ciência não define se é fantasia ou não.
- MONSTRO: Desse mesmo livro que vc citou: “Fact: In science, an observation that has been repeatedly confirmed and for all practical purposes is accepted as ‘true’. Truth in science, however, is never final, and what is accepted as a fact today may be modified or even discarded tomorrow.” Lembre-se de aquilo que eu disse: o que não possui evidências de existência, a princípio, não existe (cientificamente falando).
- LUCIANO: Ou seja, note que é a descrição de “fato, em ciência”, e não “fato”. Vai mal até no inglês aí, hein? Além do mais, você continua confundindo existência em si com um fato ou dado científico.
- MONSTRO: Você disse que a ciência não faz juízo de valor sobre assuntos religiosos. Na verdade, faz. A presunção de inexistência é inerente à falta de evidências de existência. Por isso que eu posso inventar N coisas que podem ser prejudiciais, quando adotado determinado comportamento científico, e, no entanto, elas serão completamente desconsideradas. Isso não é “neutro”, por que se eu falo, por exemplo, que um portal dimensional do inferno será aberto se reativarem o LHC, como eu não posso provar minha tese, ela é considerada como FALSA. Eles não vão suspender o experimento por que “eles não podem provar que eu estou errado”. Entendeu?
- LUCIANO: Como sempre você está errado. Aqui você confundiu uma alegação científica sem provas com uma alegação metafísica. Mais um desastre intelectual teu.
- MONSTRO: O que vale é que cientificamente falando essas hipoteses são FALSAS. Se você acha que tem alguma “lógica” escolher uma crença metafísica em detrimento de outra problema é seu. Vá discutir com quem crê em besteiras diferentes das suas.
- LUCIANO: Não, isso não vale nada. Só seria válido se fossem “cientificamente falsas”, se as hipóteses fossem da ALÇADA da ciência. Se não são, a ciência NÃO DIZ NADA sobre elas, então não podem ser rotuladas como cientificamente falsas ou não.
- MONSTRO: ALÇADA da ciência é o mundo real/natural. Tudo que EXISTE, que é tangível, observável, testável, analisável. Ainda bem que suas crenças não possuem essas características.
- LUCIANO: Não, não é tudo que existe. São apenas pequenos aspectos da realidade passíveis de observação. A universalidade das leis físicas, que permite a existência da ciência, está fora da alçada da ciência. Mas é sorte que a religião está fora da alçada da ciência. Só pequenos recortes da realidade podem estar na alçada da ciência, mas não questões maiores, como moral absoluta, epistemologia, metafísica, sentido da vida, existência de Deus, etc… A ciência não tem capacidade para tratar dessas questões. Estude ciência e saberá disso.
- MONSTRO: Pelo menos eu conheço ciência. Se uma religião diz que Deus fez o universo como está e a ciência diz que o universo surgiu após uma explosão e está se expandindo, eu SEI, que, ainda que indiretamente, a ciência está considerando como errada a hipótese teísta e, portanto emitindo juízo de valor.
- LUX IN TENEBRIS: Quem defendeu essa teoria foi um Padre. Lemaitre, não foi? (*)
Como se nota, não há troca de conhecimento com um sujeito desse tipo.
Esse é o perfil de alguém doutrinado por Carl Sagan. Alguém que acha que pode dizer o que a ciência permite ou não, mas não conhece nem Karl Popper. Alguém que não conhece sequer os limites da ciência, mas acredita fielmente na dicotomia ciência X religião.
Mentes idiotizadas e beirando a debilidade mental, como as desse tal de Monstro, são um reflexo daquilo que autores como Carl Sagan e Richard Dawkins produzem.
Como se nota, o nível é realmente inferior até ao material de outros neo ateus que tem sido publicado aqui, pois o perfil de Monstro é mais próximo do aborrescente.
Mas era justamente essa a proposta de Sagan e atualmente é a de Dawkins: incutir o cientismo, junto com a doutrina de que há uma eterna luta entre ciência X religião, na cabeça dessa garotada.
O resultado é isso aí que vocês puderam notar. A falsa dicotomia é para Monstro praticamente obsessão. É raro ele falar algo que não seja do tipo “enquanto a ciência faz isso, a religião é o oposto…”. Mas a origem está ali, pois grande parte do material de Sagan é 100% baseado nesta falsa dicotomia.
Monstro beira a catatonia, e não recebe mais informação do mundo exterior. Ele não pode sequer ser rotulado como “leitor de ciência” e sim como vítima de engenharia comportamental de líderes do cientismo.
Se procurarem ele daqui dois anos, ele continuará pregando pelas comunidades a idéia de que “se não é afirmado pela ciência, então não existe”, e, mesmo que todo o material de estudo lhe seja oferecido, mostrando o tamanho do equivoco dele, o discurso não mudará.
Como vítima de lavagem cerebral, Monstro está programado para agir assim. Reconheço o potencial de tal estratégia da dupla Sagan/Dawkins: se você junta o programa Cosmos, mais livros de auto-ajuda, do próprio Sagan, e junta a isso um empurrãozão de Dawkins, a lavagem cerebral está completa no garoto.
Quando me perguntam por que eu também mostro o perigo que o material de Carl Sagan representa, Monstro pode ser citado como um exemplo. E ele não é o único.
Mentes assim, já no estado em que estão incapazes de aprender informação nova, estão também entre as vítimas de Carl Sagan. E não só entre as vítimas de Richard Dawkins.
(*) Outro forista, Lux in Tenebris, participou ao final.
Técnica: Jogando na conta da ciência

Última atualização: 12 de fevereiro de 2010 – [Índice de Técnicas]- [Página Principal]
Se o Capitão Nascimento mandou botar na conta do papa, com esta técnica os neo ateus mandam botar na conta da ciência.
Essa técnica é usada principalmente quando neo ateus usam o disfarce de “divulgador da ciência”. Por tabela, muitos dos leitores desses autores acabam seguindo pelo mesmo caminho.
A técnica envolve transferir para a ciência todas as responsabilidades que estariam sobre si próprio.
O neo ateu pode tentar isso quando estiver, por exemplo, defendendo qualquer tipo de alegação contra a religião. Geralmente essa alegação pertence à ele, em termos filosóficos. Em outros casos, a alegação pode ser também oriunda de um filósofo, que o inspirou. De qualquer forma, como a alegação é endossada pelo neo ateu, devemos entendê-lo como um das partes na discussão (sendo a outra parte o religioso).
A técnica envolve em, como se fosse um truque de mágica, substituir a si próprio pela ciência, fazendo com que sua declaração aparentemente se torne uma declaração da ciência (e não dele).
Exemplos incluem:
- Transformar a alegação “Digo que Deus não existe” por “A ciência diz que Deus não existe”
- Transformar a alegação “Eu digo que acredito só em evidências” por “A ciência só aceita evidências”
E daí por diante.
Naturalmente, é uma técnica covarde, em que o neo ateu foge da responsabilidade pelos seus argumentos e suas alegações, e tenta transferi-las todas para a “ciência”. E, como não seria inteligente questionar “a ciência”, o neo ateu aparentemente espera que com esse estratagema ele e sua alegação fiquem livres do julgamento e da avaliação pela outra parte.
Obviamente eu concordo (e creio que quase todos aqui fariam o mesmo) que a ciência (assim como a auditoria, a perícia, o sistema judiciário, etc.) foca em evidências. Em relação a alegação de existência ou nao de Deus, a ciência não traz esse tipo de juízo.
De qualquer forma, o fato de que a ciência é baseada em evidências, não implica que um cientista, ou um cientista wannabe, ou um leitor de divulgador de ciência, sejam focados em evidências.
Uma coisa, naturalmente, é a entidade a que se dá o nome de ciência. Outra coisa é um sujeito, falível, que se diz cientista ou “adepto de ciência” (seja lá que diabos ele queira dizer com isso).
Mesmo que a pessoa seja um cientista (e na maioria dos casos não é), os atos de qualquer ser humano, incluindo suas alegações, não podem ser julgados pelos mesmos filtros que se julga a ciência. O motivo é evidente: a ciência, como um todo, é um grande processo, que transcende a subjetividade de seus participantes. O cientista, quando avaliado no todo de suas decisões, é completamente passível de possuir falhas de julgamento e vícios, como qualquer ser humano em qualquer profissão.
Como é um estratagema basicamente de confusão, é importante prestar muita atenção no momento em que o neo ateu pratica a “mudança” de personagem (substituindo ele pela ciência). Não raro isso ocorre, durante um debate em que o neo ateu tenta provar seu ponto, e passa a dizer coisas como “a ciência diz” ou “a ciência faz”, normalmente sem muita relação direta com o argumento que ele originalmente defendia. Mesmo que não exista tal relação direta, o neo ateu poderá fingir que há.
Refutação
A refutação é extremamente simples e se baseia em interromper o oponente, mostrando que ele está tentando enrolar a platéia quando ele tenta fingir que ele seria “a ciência” ou então um representante dela.
Segue o exemplo abaixo:
- NEO-ATEU: Eu não acredito que Deus existe, pois não há provas científicas da existência de Deus, e assim a ciência não afirma que Deus existe. Logo, ela não acredita que Deus exista.
- REFUTADOR: Sim, eu sei, mas você não é a ciência. [N.E. - Aliás, nem é da alçada da ciência dizer se Deus existe ou não]
- NEO-ATEU: Eu não sou a ciência, você está correto. Mas o que a ciência nos diz…
- REFUTADOR: O que a “ciência nos diz” eu já sei, e não tem nada a ver com o que você disse. Agora, diga o seu argumento. Os argumentos em relação ao que a “ciência diz” eu posso procurar em livros de Karl Popper, Thomas Kuhn, etc.
Durante a refutação, outro ponto curioso é que não raro você conseguirá notar que aquilo que o neo ateu diz ser uma “alegação da ciência” muitas vezes nem sequer é suportada pela ciência em si. Isso ocorre muitas vezes em argumentos de Carl Sagan e Richard Dawkins, que são baseados no cientismo, que nada tem de científico na realidade.
Conclusão
Como é uma técnica de fuga da responsabilidade (o neo ateu tenta erradamente jogar nas costas da ciência uma alegação que é exclusivamente dele), é importante sempre impedi-lo de fugir desta responsabilidade que lhe é inerente. Um argumento de militância ateísta feito por um neo ateu, mesmo que ele alegue ser cientista, divulgador de ciência ou leitor de divulgação da ciência, não implica em uma posição da ciência, salvo ele prove com argumentos que é (raramente é). Em alguns casos, para refutar com maior propriedade todas as tentativas, é recomendável um bom estudo sobre filosofia da ciência.
Era só o que faltava… apelo às moléculas complexas de Titã

Já citei mais de uma vez aqui a seguinte frase de Chesterton: “Quando um homem deixa de acreditar em Deus, ele passa a acreditar em qualquer coisa”.
Na primeira vez que ouvi tal afirmação, pensei: “ah, parece ser frase de efeito”.
Hoje vejo que a frase pode levar à praticamente uma teoria, extremamente corroborada pela credulidade observada em alguns adeptos de Dawkins e Sagan, que tem sido examinados por este blog.
Quando Chesterton disse que um ateu pode acreditar em qualquer coisa, isso significa QUALQUER COISA MESMO.
Um exemplo é o texto que me enviaram, relacionado a postagem de um neo ateu em uma comunidade dedicada a um certo autor… adivinhem quem.
A figura carimbada, que atende pelo nome de Roberto Ferreira, chegou a tal nível de credulidade que superou em irracionalidade os adeptos do gene egoísta e da memética, juntos.
Em seu post, reproduzido aqui, Roberto tenta usar o lançamento da sonda Cassini-Huygens na atmosfera de Titã para alegar que a “ciência” estaria definitivamente eliminando a possibilidade de Deus (não é para rir).
O resultado, claro, é grosseiro do ponto de vista lógico, totalmente irracional e até infantil.
Vamos avaliar:
MAIS UMA “PEDRADA” NO CRIACIONISMO
O título já é suspeito…
Aqui ele já tenta a falsa dicotomia entre ciência X religião, e o fingimento de que a única forma de religião é o criacionismo.
Mais:
Depois da publicação da teoria de Darwin/Wallace os religiosos entraram em convulsão, vendo refutadas as explicações bíblicas para a diversidade das espécies animais. Começaram então a combater com todas as suas forças o evolucionismo.
Como eu já disse em dois textos aqui ([1] e [2]), o neo ateu, usando também o framework “novo evolucionista”, executa as tradicionais mentiras. Aqui ele disse que “os religiosos entraram em convulsão” após a publicação da teoria de Darwin/Wallace. De novo, é só lembrar que isso já foi refutado aqui simplesmente com o fato de que a interpretação literal da Bíblia não era mais a interpretação padrão na época. Roberto luta contra um inimigo imaginário.
É possível que até existissem alguns criacionistas literais na época, mas estes nem de longe representavam a religião.
Roberto está, portanto, delirando. E vamos em frente:
Quando se redescobriram os estudos de Gregor Mendel, surgiu o neodarwinismo, ou “nova síntese”, que dominou quase todo o século XX, até que no final deste descobriu-se a estrutura do DNA. Desde então, o evolucionismo acumulou tantas toneladas de evidências que até mesmo a ultrareacionária igreja católica hoje admite que a evolução é um fato.
Como sempre, é no mínimo uma mentira por parágrafo. Eu sou capaz de apostar que esse sujeito é marxista também, pois ele não consegue dialogar sem praticar falácias do espantalho e até tentar reescrever a história.
Aqui ele finge que a Igreja Católica “hoje” admitiu que evolução é um fato, tentando enrolar a platéia para dizer que existiu um “recuo”. Falso, pois a Igreja Católica jamais condenou a teoria da evolução (um exemplo é esse texto aqui).
As fantasias dele prosseguem abaixo:
Os teístas, vendo que a batalha contra o evolucionismo era causa perdida, se entrincheiraram na origem divina da vida, contestando a teoria dos coacervados, de Oparin/Bungenberg de Jong, imaginando que por ser um processo que não deixa vestígios fósseis, jamais poderiam sofrer a contraprova que sofreram com a evolução das espécies.
De novo ele prossegue com a divulgação de informação falsa, e de novo aplicando o framework mental aprendido com Marx, criando uma história inexistente, apenas adequada à sua propaganda.
Não existe “entrincheiramento” na origem divina da vida, e nem seria racional contestar a teoria dos coacervados, de Oparin, pois ela jamais comprovou origem da vida. E mesmo que existisse um dia tal comprovação, nem assim a teoria conspiraria contra o teísmo. Aliás, para considerar a teoria de Oparin como evidência de origem da vida é preciso de uma mente tão fértil que faria do Calvin um personagem sem imaginação.
Como delírio pouco é bobagem, ele segue em sua sanha, mantendo a média de pelo menos uma fantasia por parágrafo, com pode ser visto a seguir:
Eis que caiu também esta fortificação, pois a “Cassini-Huygens é uma missão conjunta da NASA e da ESA – agências espaciais norte-americana e européia, respectivamente – destinada ao estudo de Saturno e Titã, com um veículo espacial interplanetário, constituído de um orbitador norte-americano – Cassini – e da primeira sonda interplanetária européia – Huygens: “Trata-se, na realidade, de uma seqüência ambiciosa do programa Voyager. Seu primeiro objetivo pode parecer simples, pois consiste, de início, em alcançar o planeta dos anéis e, em seguida, explorá-lo durante quatro anos. Na verdade, a sua complexidade está na segunda etapa: a introdução da sonda Huygens na atmosfera de Titã. O interesse em estudar a atmosfera deste satélite se justifica por sua enorme semelhança com a Terra primitiva, assim como pela constituição e extensão de sua atmosfera. Realmente, a exploração do satélite Titã será muito importante, pois a Voyager 1, ao sobrevoá-lo, em 1981, revelou a presença de moléculas complexas, muito análogas às que serviram para formar o ADN, suporte biológico básico da vida.”
Vamos com calma.
A parte do “caiu a fortificação”, que é ridícula, abordarei um pouco mais à frente.
Uma grande parte desse parágrafo acima (que está entre aspas) é apenas citação do artigo que ele referenciou (clique aqui para lê-lo). O artigo, em si, não possui problemas. Mas a interpretação ingênua e deslumbrada dele sim.
Vejamos aqui o que o artigo descreve, ao final da citação que ele adicionou:
- (1) Revelou a presença de moléculas complexas
- (2) Muito análogas às que serviram de fonte para formar o ADN
- (3) O ADN é suporte biológico básico da vida
Quer dizer, isso qualquer um que conhecia a teoria de Oparin já sabia. E sabia também que essas moléculas nem de longe significam organismos completos, e nem mesmo uma célula orgânica completa.
Os itens de 1 a 3 mostram que é preciso ainda de uma série de ad hocs para tentar usar tais moléculas complexas como uma proposta que dê margem à qualquer explicação de origem da vida.
Mais à frente a coisa fica ainda mais engraçada, pois a esperança dele é ingênua, e até emocionante, mas imbecil:
Pois bem, com o lançamento da sonda Huygens na atmosfera de Titã em 25/12/2004, encontramos os mesmos gases previstos na atmosfera primordial da Terra e, mais importante do que tudo, foi confirmada a presença de moléculas orgânicas de elevado peso molecular, da mesma forma como previa a teoria de Oparin, concluindo-se que Titã está em um estágio pré-coacervados, como a Terra de 3,6 bilhões de anos atrás, isto caso futuras sondas não encontrem e tragam de volta para a Terra coacervados “vivos”.
Ele conclui que a Titã está em um estágio “pré-coacervado” e já começa a imaginar que isso garantiria um estágio coacervado. Ou ao menos ele alimenta esperança disso.
Mas mesmo que ele ainda conseguisse arranjar os coacervados “vivos”, eles na verdade não seriam vivos (ao menos ele colocou a expressão “vivos” entre aspas).
Quer dizer, se coacervados não comprovam origem da vida, muito menos as tais formas pré-coacervadas.
Simplesmente, ele se ilude com muito pouco.
A parte que mais me deu vergonha alheia, no entanto, é como Roberto conclui seu testemunho:
Se o mérito pela derrocada do fixismo criacionista coube à biologia e à bioquímica, mormente na genética molecular, vemos que caberá à astronáutica acabar de vez com as divindades criadoras da vida. E o primeiro gol já foi feito, com as descobertas da missão Cassini/Huygens…
Vocês se lembram que lá atrás ele usou o termo “caiu a fortificação” que ele supunha existir para o teísmo? Lembremos: segundo ele, o teísmo dependia de criacionismo para existir.
Mas vejam que curioso… se antes ele usou o termo “caiu a fortificação” e agora ele usa “caberá à astronaútica”, ele está com um seríssimo problema de tempo verbal.
Ora, ou a fortificação caiu ou não caiu. Ou coube à astronautica ou caberá. E se caberá, significa que ainda não coube. E, assim, a fortificação não caiu. E isso qualquer criança do primário sabe.
Será que ele está com tanta esperança de que vai chegar à origem da vida com os achados em Titã? Só que aí ele só poderia dizer “eu espero que caia a fortificação” (que, de novo, só existe na cabeça dele, pois o criacionismo jamais foi suporte para teísmo). E isso seria uma falácia do wishful thinking.
Resumindo: ou ele tem esperança de que ocorra, ou então já ocorreu.
Mas como ele não tem nem coacervados em mãos (e nem isso lhe seria útil, pois não comprovaria origem da vida), e apenas os pré-coacervados (ou seja, wannabe coacervados, mas só na esperança ainda), como ele pode ter marcado um gol? Só se ele fosse o juiz da partida, é claro.
Mas no mundo da fantasia dele pode tudo, não?
Até mesmo achar que o lançamento da Cassini-Huygens vai ajudá-lo a provar que Deus não existe…
Conclusão: podem meter camisa de força no Roberto Ferreira.
P.S.: Há outro comediante na comunidade, que é um tal de Fernando (Deslock), que escreveu o seguinte: “Será que existirá a possibilidade de encontrarmos os replicadores, conforme Dawkins teoriza no “Gene Egoísta”?”. Por caridade, nem vou comentar isso…
Dawkins e Sagan: os Bozós da ciência
Quem tem mais de 30 anos com certeza vai se lembrar desse quadro do Chico Anyzio.
O Bozó era um personagem que tinha um único objetivo: usar de sua influência (suspeita) para obter benefícios. Basicamente era isso.
E não é absolutamente nada diferente do que fazia o Carl Sagan e atualmente faz o Richard Dawkins.
A atuação do Bozó, no vídeo, e de Sagan e Dawkins, nas academias, pode ser definida da seguinte forma: Engenharia Social.
Há dois contextos da Engenharia Social: um para as ciências políticas, e outro para a segurança da informação. Nos dois a essência é a mesma: usar de sua influência para manipular os outros, ludibriando-os, moldando comportamentos, e daí obter benefícios. A infiltração de acadêmicos marxistas nas universidades é um ato de Engenharia Social, no contexto político, assim como dizer que é amigo de um diretor, para obter uma senha e roubar informações sigilosas da mesma forma é um ato de Engenharia Social, agora no contexto de Segurança da Informação.
A atuação de Sagan e Dawkins fica num meio termo entre os dois contextos.
O objetivo desse tipo de gente é fingir que “representa a ciência” (não é diferente, por exemplo, do que dizer que “representa” a direção da empresa, sem na verdade representá-la), e em cima disso executar a agenda pessoal.
Uma das manifestações desse tipo é usar a picaretagem-mor que atende pelo nome de “divulgação científica”.
Basicamente, é um ato de dizer que “representa a ciência” e escrever matérias e livros em nome “da ciência” para leigos e incapazes.
Como são leigos, esses não perceberão que estão de um ato de engenharia social e a ciência lá demonstrada é bem diferente do que a ciência REALMENTE é.
Claro que não dá para acusar a “divulgação científica”, em si, de um ato de Engenharia Social. Mas é um MEIO que pode ser usado por esse tipo de picareta.
No caso, Dawkins e Sagan podem ser acusados, sim, de Engenharia Social.
Vejam, por exemplo, o que Carl Sagan escreveu em Pálido Ponto Azul:”Como é possível que praticamente nenhuma religião importante tenha olhado para a ciência e concluído: “Isso é melhor do que imaginávamos! O universo é muito maior do que disseram nossos profetas, mais grandioso, mais sutil, mais elegante”? Em vez disso, dizem: “Não, não, não! Meu deus é um deus pequenininho, e quero que ele continue assim”. Uma religião, antiga ou nova, que ressaltasse a magnificência do universo como a ciência moderna o revelou poderia atrair reservas de reverência e respeito que continuam quase intocadas pelas crenças convencionais.”
Não passa de tentativa de difamar a religião, e pregar o seu ateísmo, mas em nenhum momento isso tem qualquer coisa a ver com “divulgação de ciência”. Aliás, o conceito sob o qual Sagan trabalha é o do cientismo, que é até desmoralizante para a ciência.
É claro que não passa de execução de agenda pessoal. Para maiores detalhes de minha refutação à esse discurso do Sagan, recomendo o texto aqui, que faz parte da refutação a Deus, Um Delírio, de Richard Dawkins.
A melhor solução para desmascarar esse tipo de gente é AUDITORIA.
Nas empresas, eliminamos a engenharia social com auditoria. Se precisar, dá para ocorrer até demissão por justa causa ou até processos de ressarcimento.
Nos materiais escritos, por gente como Sagan e Dawkins, o negócio é AUDITAR os textos e expor ao público a picaretagem.
No caso do Bozó, a coisa era definitivamente engraçada.
No caso de Sagan e Dawkins, a coisa é preocupante. E deprimente.
Por isso, o melhor é prevenir, antes de ter que remediar.
Deus, Um Delírio – Capítulo 2 – Pt. 9 – Os homenzinhos verdes em mais um delírio de Dawkins

Às vezes eu não entendo Richard Dawkins. Um sujeito que dedica grande parte de sua carreira tentando aplicar o ceticismo (mesmo que seletivo) CONTRA a religião, também acaba sendo um ALEGADOR de outras idéias dificílimas de serem provadas como válidas, como exemplo a memética, o gene egoísta e, como não poderia deixar de ser (devido à sua influência obtida com Carl Sagan) a possibilidade de existência de vida alienígena.
Basicamente, é uma opção que pode ser considerada perigosa, pois um questionador nato torna-se basicamente VISADO simplesmente por criar um histórico de ataque à alegações dos outros. Obviamente, o ser humano tende à retaliação.
Foi assim que aprendi que, a partir do dia em que decidi publicamente questionar com ceticismo as alegações ateístas, eu não poderia mais fazer alegações em boa quantidade, no máximo discutir racionalmente. Quando surgisse uma alegação, como a defesa da teoria da mente revolucionária para explicar o neo ateísmo (apresentarei essa argumentação em detalhes mais em breve, inspirada na idéia original do Olavo de Caravalho), ela só seria feita caso existissem evidências diretas, oriundas, naturalmente, de fontes primárias.
Richard Dawkins faz o contrário: ao mesmo tempo que usa o ceticismo contra a religião, ele apresenta uma série de alegações absurdas e fantasiosas, praticamente IMPLORANDO que nós acreditemos em algo apenas pelo fato dele acreditar também. Assim fica difícil para ele, pois ele tentou, nos tempos do documentário Root of All Evil?, vender a idéia de que cientista só se deixa mover por evidências. E veremos aqui nesta seção do livro que, para discutir a questão da suposta existência de vida alienígena e sua relação com a questão Deus, Dawkins não dá a mínima atenção para evidência. Tudo que ele proclama aqui não é menos constrangedor do que os relatos de um sujeito da região rural que afirma ter visto a mula sem cabeça.
Vamos começar:
Suponha que a parábola de Russell não tivesse sido sobre um bule no espaço sideral, mas sobre a vida no espaço sideral — o objeto da memorável recusa de Sagan de usar os instintos. Aqui também não temos como descartá-lo, e a única posição estritamente racional é o agnosticismo.
Eu vou revisar essa declaração do Dawkins sobre agnosticismo pela última vez, e, depois, nessa seção, ignorarei. Mas já perdi a conta de quantas vezes o Dawkins comete o erro de confundir agnosticismo com postura de dúvida em relação a uma questão. Agnosticismo, de novo, não é para decidir ficar em dúvida quanto a existência de alienígenas, lobisomens, vampiros, etc…
E quanto ao fato de Sagan se recusar a usar os instintos, isso é uma alegação dele, mas diante de todos os esforços do SETI essa declaração pode ser facilmente colocada em dúvida. Pois a decisão foi de investir uma alta grana no projeto SETI (usando dinheiro dos outros, inclusive do governo) ao invés de procurar lobisomens ou vampiros. Por que o dinheiro foi gasto nessa pesquisa e não em outras? Qual a probabilidade de sucesso? Quem calculou? Quem auditou os cálculos? O fato é que nenhum procedimento de validação de investimento foi realizado, de forma que o esforço pela busca de alienígenas e não de qualquer outra coisa foi tudo, menos racional. Foi definitivamente uma decisão instintiva. Patética, diga-se.
Mais patético ainda é o que vem a seguir:
Mas a hipótese já não é absurda. Não farejamos imediatamente uma improbabilidade extrema. Podemos ter uma discussão interessante com base em evidências incompletas, e podemos determinar o tipo de evidência que reduziria nossa incerteza. Ficaríamos indignados se nosso governo investisse em telescópios caros com o propósito exclusivo de procurar bules em órbita. Mas podemos pensar em gastar dinheiro com a Busca por Inteligência Extraterrestre [Search for Extraterrestrial Intelligence — SETI], usando radio telescópios para varrer os céus na esperança de detectar sinais de alienígenas inteligentes.
Notem que Dawkins afirma, taxativamente, que a hipótese de vida alienígena não é absurda. Baseado em quê? É simples: para ele dizer que a hipótese não seria absurda, ele deveria apresentar um cálculo probabilístico, respaldado por EVIDÊNCIAS, mostrando que a hipótese é viável. Ele não fez isso. Por enquanto, é só esperança dele.
Dawkins, aliás, tem uma mania bizarra de dizer que “algo é improvável” ou “algo é provável”, mas sem apresentar os cálculos que levaram a essa conclusão. O motivo aparenta ser claro: quando se apresentam os números da probabilidade calculada, um auditor poderá investigar a ORIGEM desses números, e então o alegador poderá ser chamado de novo para se justificar, caso necessário. Talvez para evitar a investigação dos números, Dawkins chuta que algo possui “alta probabilidade”, não diz os números e resta à ele torcer para que ninguém note a picateragem. A picaretagem aumenta ainda quando Dawkins diz que “podemos pensar em gastar dinheiro” nessa pesquisa. Mas como ele justifica o investimento? Ele simplesmente não abre a boca quanto a isso.
Para demonstrar o quanto é ridícula a postura de Dawkins, vou dar um exemplo de como se calculam os investimentos para mitigação de riscos nas organizações. Um exemplo é o uso dos modelos SLE (single loss expectancy, ou expectativa de perda unitária) e ALE (annual loss expectancy, ou expectativa de perda anual). SLE é o produto do valor do ativo (AV, ou asset value) multiplicado pelo fator de exposição (EF, ou exposure factor): SLE = AV x EF. EF é a probabilidade que um evento irá ocorrer e sua magnitude calculada (os dados para os cálculos devem ser acessíveis em bases de dados confiáveis, abrangendo um longo histórico de dados organizacionais). ALE adiciona a taxa de ocorrência anualizada (ARO, ou annualized rate of occurrence) à equação com o resultado que múltiplas ocorrências irão resultar em maiores perdas potenciais. O ALE é normalmente expressado assim: ALE = SLE X ARO. ALE é a expectativa anual de perda relacionada a um ativo, resultando de uma ameaça em específico. ARO é o número de vezes que uma ameaça a um único ativo está estimada para ocorrer. Quanto maior o risco associado com a ameaça, maior o ARO. Um exemplo disso é quando os dados da seguradora mostram que um incêndio provavelmente irá ocorrer uma vez a cada 25 anos. Nesse caso, o ARO é 1/25 = 0.04. Basta então saber qual o custo estimado de prejuízo relacionado ao incêndio, e avaliar, diante da probabilidade estimada, se vale a pena ou não fazer o investimento em mecanismos de controle para EVITAR que o incêndio ocorra. Para poupar tempo, esse exemplo foi retirado direto do ISACA.
O que eu citei é apenas um dos milhares de exemplos que qualquer pessoa séria ao falar de probabilidade alta ou baixa deve vivenciar, principalmente se precisar justificar um investimento relacionado à essa probabilidade. E a pergunta é simples: há um cálculo probabilístico? Qual o valor? Os elementos que levaram à esse valor podem ser investigados? São três perguntas que apontei aqui, e para uma delas a resposta é um valor claro, e para as outras duas a resposta ou é “sim” ou é “não”. E sem qualquer uma das 3 respostas, não há cálculo probabilístico válido, MUITO MENOS quando for para justificar um investimento, como no caso da pesquisa em relação ao projeto SETI.
Por isso quando Dawkins diz “não farejamos imediatamente uma improbabilidade extrema” é apenas a manifestação da esperança dele, mas não uma prova de que a improbabilidade é alta, pois ele não traz os valores.
Mesmo que ele continue com o esperneio de dizer que Sagan era cético quanto a vida alienígena, nada explica a quantidade de grana que foi jogada fora no projeto SETI, e, até o momento, de forma injustificável. Por enquanto, o SETI existe há 40 anos, e só conseguiu fracassos até agora.
Mas ele ainda nos tenta vender a idéia da validade do SETI:
[...] é possível (e Sagan o fez) fazer uma avaliação sóbria sobre o que seria necessário saber para proceder a uma estimativa da probabilidade. Isso pode começar a partir de uma simples lista dos pontos que ignoramos, como na famosa Equação de Drake, que, nas palavras de Paul Davies, coleta probabilidades. Ela afirma que, para estimar o número de civilizações que se desenvolveram de forma independente no universo, é preciso multiplicar sete termos. Entre os sete estão o número de estrelas, o número de planetas semelhantes à Terra por estrela e a probabilidade disso, daquilo ou daquilo outro, que não preciso listar porque a única coisa que quero mostrar é que todas são desconhecidas, ou estimadas com margens de erro enormes. Quando tantos termos completa ou quase completamente desconhecidos são multiplicados, o produto — o número estimado de civilizações alienígenas — tem erros-padrão tão colossais que o agnosticismo parece uma posição muito razoável, se não a única com credibilidade.
Avaliação sóbria? Como diria um personagem do filme “O Enigma do Outro Mundo” (The Thing), You gotta be fucking kidding, man!
Ele próprio reconhece que a avaliação começa a partir de uma simples lista dos pontos que ignoramos.
Seriam os “ETs das lacunas”?
Mesmo assim, supondo dúvida (e não agnosticismo), os erros padrão colossais não justificam uma posição de neutralidade. Pode-se naturalmente duvidar dos alienígenas, e ficar exigindo as provas daqueles que acreditam neles. Ou daqueles que acham que há alta probabilidade.
Na verdade, como mostrarei a seguir, os termos da equação NÃO CONTEMPLAM o processo de surgimento da vida, que é de baixíssima probabilidade. Na verdade, ele é tão improvável que só ocorreu uma vez em todo o período de vida na Terra. É aquele tipo de evento que, caso ocorra, não se deve alimentar esperanças de que ocorra de novo. Querem ver um exemplo? Na equação que apresentei anteriormente, o ARO (taxa de ocorrência anualizada) é 0,00000000029 para a “materialização” do risco de surgimento da vida. Ou seja, é um evento que ocorreu uma vez em 3,500,000,000 anos.
Para tentar nos vender a idéia de que é viável a existência de vida inteligente fora da Terra, Dawkins tem que IGNORAR esse aspecto da baixa probabilidade do surgimento da vida. Notem que nenhuma das equações defendidas por Dawkins inclui o ARO ou algo semelhante.
Ele direciona seu caso para falar da Equação Drake:
Alguns dos termos da Equação Drake já são menos desconhecidos hoje do que quando foram escritos, em 1961. Naquela época, nosso sistema solar de planetas orbitando em torno de uma estrela central era o único conhecido, junto com as analogias locais proporcionadas pelos sistemas de satélites de Júpiter e Saturno.
Vamos relembrar a equação Drake para notar o quanto Dawkins está iludido:
N = R* x fp x ne x fl x fi x fi x L
Cada termo da equação descrito:
- N = o número de estrelas na Via Láctea
- Fp = a fração com planetas
- Ne = o número de planetas por estrela capaz de suportar vida
- Fl = a fração dos planetas onde a vida evolui
- Fi = a fração onde a vida inteligente evolui
- L = a extensão de tempo no qual tais civilizações lançam sinais detectáveis no espaço
Agora, uma pergunta: isso é ciência? A equação não tem nada de científico, e a única forma de preencher os termos dela com valores é usar o chutão, ou, falando o português claro, a fé cega mesmo. E chutes, em ciência, não passam de manifestações da vontade. Não são alternativas científicas legítimas, e nem fazem parte de uma pesquisa científica séria. A equação em si também não é testável. Tudo conspira contra Drake…
E de onde Drake tirou a idéia de que civilizações iriam lançar “sinais detectáveis” no espaço? Por que não iriam esconder seus sinais e então visitar os planetas de maneira sorrateira? Drake simplesmente não trata dessa possibilidade.
E lembram do ARO? Onde está na equação? Resposta: em lugar nenhum. Isso significa que um dos itens mais importantes, que avalia o “risco” de surgimento de vida espontaneamente em um dos planetas capaz de suportar foi simplesmente ignorado. Se considerarmos o que ocorreu na Terra (que é capaz de suportar vida por um período longuíssimo), esse valor é 0,00000000029, que simplesmente faz todas as esperanças dos adeptos da vida alienígena irem para o ralo.
E a abordagem que sugeri, do ARO, é uma das variações. Para detalhes de outras abordagens que mostram como a vida inteligente é improvável fora do planeta Terra recomendo em especial o livro “Sós no Universo?”, de Donald Brownlee e Peter Ward.
Dawkins ainda tenta o seguinte:
O que deveríamos fazer, de forma inteligente, para propagandear nossa presença a ouvintes extraterrestres?
Notem que ele já pressupõe uma “alta probabilidade” desses ouvintes existirem. Mas é uma questão irrelevante, pois, como já mostrado anteriormente, não há evidências de uma razoável probabilidade deles existirem. Perguntar o que deveríamos fazer, de forma inteligente, para propagandear nossa presença a ouvintes extraterrestres, é o mesmo que perguntar:
- O que as garotas deveriam fazer, de forma inteligente, para atrair vampiros que as seduzam, como na série do cinema “Twilight”?
- Ou o que os Lykans deveriam fazer, de forma inteligente, para vencer os vampiros que pudessem estar escondidos por aí, como em “Anjos da Noite”?
Em suma, é apenas fé cega do Dawkins, e não ciência. Na verdade, ao invés de tentar “propagandear” nossa presença a ouvintes extraterrestres, o melhor para Dawkins é se afundar em livros de ficção (já que ele citou Arthur Clarke) e deixar de fazer 171 em ciência.
Mais fantasia e sci-fi por aí:
Seja detectando números primos ou por algum outro meio, imagine que o SETI realmente forneça evidências indiscutíveis de inteligência extraterrestre, seguida, quem sabe, por uma transmissão maciça de conhecimento e sabedoria, na linha da série de TV A for Andromeda, de Fred Hoyle, ou do livro Contato, de Carl Sagan. Como deveríamos responder? Uma reação perdoável seria alguma coisa disposta à adoração, já que qualquer civilização capaz de transmitir um sinal a uma distância tão imensa provavelmente será muito superior à nossa. Mesmo que essa civilização não seja mais avançada que a nossa no momento da transmissão, a enorme distância entre nós permite calcular que eles devem estar um milênio na nossa frente quando a mensagem chegar até nós (a menos que eles tenham se extinguido, o que não é improvável). Consigamos ou não saber sobre elas, é muito provável que existam civilizações alienígenas que sejam sobre-humanas, a ponto de serem tão parecidas com deuses que superem qualquer coisa que um teólogo possa imaginar. Suas conquistas tecnológicas nos pareceriam sobrenaturais, como as nossas pareceriam a um camponês da Idade Média que fosse transportado ao século XXI. Imagine a reação dele a um laptop, a um telefone celular, a uma bomba de hidrogênio ou a um Jumbo.
Dawkins deve ter visto Evil Dead III – Army of Darkness , pois está fantasiando reações de pessoas da idade média em relação à tecnologia. O problema para essa argumentação de Dawkins é que a tecnologia já era presente no passado. E,como se observa, naturalmente quando vemos uma tecnologia nova, queremos saber de onde veio a tecnologia, ao invés de atribuir tecnologia a Deus. Aliás, até a leitura da Bíblia mostra que não se usava Deus como justificação de tecnologia avançada, portanto o argumento de Dawkins é inútil. Para validar o seu argumento, Dawkins teria que provar que a função de Deus seria validação de tecnologia. Confesso que Dawkins ao menos foi original, pois esse argumento neo ateu eu nunca tinha lido em lugar algum. Se é para ser maluco, ao menos Dawkins é um maluco original. Ri litros.
Desta forma, quando ele diz que “uma reação perdoável seria” ele não prova que essa reação ocorreria. Talvez seria uma reação perdoável para ELE, mas não para seus adversários. O mais patético é que os exemplos que dawkins cita são existentes apenas nos livros de ficção.
E lá vem historinhas:
Os alienígenas do nosso sinal do SETI seriam para nós como deuses, assim como os missionários foram tratados como deuses (e exploraram a honra indevida até não poder mais) quando apareceram em culturas da Idade da Pedra munidos de armas, telescópios, fósforos e almanaques que previam eclipses com precisão de segundos.
Ele não sabe como foram tratados os missionários naquela época. Aliás, ele não tem a mínima idéia de como foi esse processo. Portanto, ele achar que nossa reação caso a literatura de ficção que ele lê fosse verdade, é apenas mais um raciocínio falacioso da mente fértil de Dawkins.
Aqui ele inova de novo:
Em que sentido, então, os alienígenas mais avançados do SETI não seriam deuses? Em que sentido eles seriam sobre-humanos, mas não sobrenaturais? Num sentido muito importante, que toca no cerne deste livro. A diferença crucial entre deuses e extraterrestres parecidos com deuses não está em suas propriedades, e sim em sua proveniência.
Não, não seriam iguais a Deus, pois não são criadores do universo. Dawkins tem que aprender a focar no tema em discussão, e não no tema que ele inventou. Como já dito, não há evidências de que Deus é uma explicação para tecnologias avançadas. Portanto, quando ele afirma que essa é a “diferença crucial” entre deuses e extraterrestres parecidos com deuses, ele erra em tudo:
- 1 – não há semelhança entre extraterrestres e Deus, mesmo na descrição do Dawkins
- 2 – não se afirma que a proveniência de Deus seja de um processo evolutivo – apenas o deus que Dawkins inventou, mas esse não está sob discussão
Se duvidam que o Dawkins afirma que Deus é resultante de um processo evolutivo, leiam a parte abaixo:
Entidades complexas o bastante para serem inteligentes são resultado de um processo evolutivo. Por mais semelhantes a deuses que possam parecer quando as encontrarmos, elas não começaram assim. Autores de ficção científica, como Daniel E Galouye em Counterfeit world [Mundo simulado], chegaram até a sugerir (e não consigo pensar em como poderia descartar a hipótese) que vivemos numa simulação de computador, criada por alguma civilização muito superior. Mas os autores da simulação teriam de ter vindo de algum lugar.
Isso é hipótese que se apresente? Isso é cópia do roteiro do filme Matrix. É patético. Não serve como discussão científica.
Além do mais, “entidades complexas o bastante para serem inteligentes são resultado de um processo evolutivo”?. Não se forem definidas entidades imateriais. Se ele estiver pensando em Deus, os religiosos não afirmam que ele é material.
Como sempre, a cada parágrafo Dawkins garante ao menos um grande errão.
Agora ele, que antes apresentou cálculos probabilísticos sem números, vem teorizar sobre o que as “leis da probabilidade” proíbem ou não. Acreditem se quiser:
As leis da probabilidade vetam a idéia de que eles [a civilização superior que estaria nos programando] possam ter aparecido espontaneamente sem ter antecedentes mais simples. Eles provavelmente devem sua existência a uma versão (talvez pouco familiar) da evolução darwiniana: algum tipo de “guindaste” elevatório, e não um “guincho que vem do céu”, para usar a terminologia de Daniel Dennett. Guinchos celestes — incluindo todos os deuses — são feitiços. Eles não dão nenhuma explicação de bona fide e mais exigem do que fornecem explicações. Guindastes são dispositivos explanatórios que realmente fornecem explicações. A seleção natural é o maior guindaste de todos os tempos. Ela elevou a vida da simplicidade primeva a altitudes estonteantes de complexidade, beleza e aparente desígnio que hoje nos deslumbram.
Mas quais leis da probabilidade? Dawkins não citou nenhuma. Ele simplesmente não sabe do que fala.
É impressionante também como ele fugiu do assunto para soltar um grito de torcida “a seleção natural é o maior guindaste de todos os tempos”. É, é um guindaste tão bom que não explica a mecânica quântica, a teoria da relatividade e nem o Big Bang. Dawkins perde o controle nesse momento.
Depois de comemoração cheerleader (“seleção natural é demais, é absoluta, ninguém supera, maravilha, show de bola, explica tudo, eeeeeeeeee”) de Dawkins, dá para entender toda a confusão que ele faz.
Ele diz que uma das possibilidades de Deus seriam espécies alienígenas. O argumento dele, como vocês puderam notar, beira a insanidade daqueles malucos de sanatório que vestem camisa de força. Aí ele diz que essas espécies seriam produto da seleção natural. Aí depois ele vai dizer, lá pelo quarto capítulo, que esse Deus não deve existir (é o Deus que ele inventou, que seria fruto da seleção natural). É pura maluquice.
Mas o fato é que é uma atitude extremamente fácil e confortável duvidar das espécies alienígenas de qualquer forma. Sorte nossa, pois quando duas civilizações se encontram, e uma é mais inteligente e tecnologicamente avançada que a outra, essa civilização mais forte destrói e conquista a outra. Motivo: competição por recursos.
Sendo assim, se realmente existissem civilizações mais tecnologicamente avançadas que a nossa, a ponto de fazer contato, provavelmente já teríamos sido dizimados se elas nos encontrassem. Mas, como cético, sigo duvidando da existência de vida inteligente fora da terra.
E cabe ao Dawkins, que afirma a alta probabilidade, que PROVE realmente que a probabilidade é alta. Ele tem que demonstrar os números, exibir a probabilidade após aplicar uma equação, e depois permitir que os dados que habilitaram esse cálculo sejam auditados. A equação Drake é inútil para as pretensões de Dawkins.
Em suma, Dawkins tem que correr atrás dos homenzinhos verdes assim como o médium tem que correr atrás de suas mágicas… cabe ao cético questionar.
P.S.: Se alguém que acredita que há probabilidade alta de existir vida alienígena inteligente, esse é um direito que respeito. O que não respeitei aqui foi a postura excessivamente confiante de Dawkins em relação à algo que ainda não é embasado por evidências. Há muito de fé cega e esperança na pesquisa sobre vida alienígena. Mas caso algum leitor do Dawkins um pouco mais enfezado quiser salvar a pele dele, que traga provas de que ETs existem, ou, ao menos, de que a probabilidade de existência de vida aligenígena é alta. Lembrem-se: não é só trazer o valor calculado, mas os dados que alimentaram a equação, para que estes sejam investigados.
A ignorância quanto ao âmbito da ciência

Ignorância essa que pode ser notada no discurso de Ludwig, do blog Que Treta.
Que o blog Que Treta é um lugar de pessoas que odeiam este blog, isso não é novidade. O que me surpreende, no entanto, é que o proprietário de lá possui um raciocínio de ostra.
Acreditem se quiser: recentemente vários comentaristas neo ateus surgiram aqui (embora fossem todos fakes de uma pessoa só) sugerindo que eu deveria “invejar” o proprietário daquele blog pelo fato dele dar aulas de Inteligência Artificial e por ir moderar um debate sobre Darwin.
Não obrigado, eu não tenho interesse em nenhuma dessas atividades, e aparentemente não pagam bem.
Vamos, portanto, ao que eu tenho interesse, que é refutar argumentos ruins dessa patuléia.
Esse artigo de Ludwig, entitulado “O Âmbito da Ciência” parece ter sido feito para homenagear a gente como Carl Sagan e Richard Dawkins, pois é uma mistureba do discurso dos dois. Um pouco mais esquizofrênico, um pouco mais ingênuo, mas, ainda assim, é um clone da argumentação da dupla.
Vamos lá…
É certo que algumas perguntas (ainda?) estão fora do âmbito da ciência. “O que é o bem?”, por exemplo. Mas isto não se deve a um limite arbitrário de jurisdições. Não é pelas regras do jogo. Deve-se apenas à falta de critérios para distinguir respostas certas e respostas erradas. Isto já aconteceu com muitas perguntas que hoje consideramos científicas, da composição do Sol à origem das espécies, e que estiveram na filosofia até se descobrir como avaliar as respostas. Se há quinhentos anos atrás disséssemos a um filósofo que o universo tem treze mil milhões de anos de idade ele ficava na mesma porque não tinha forma de testar essa hipótese. Nesse tempo só se podia discutir estas coisas com argumentos e especulação, e só mais tarde foi possível começar a testar hipóteses. Só então essas perguntas passaram a ser científicas.
Ele começa até questionando (“ainda?”) a idéia de que algumas perguntas estariam fora do âmbito da ciência.
Detalhe: a idéia de que TODAS as perguntas, e subsequentes respostas, estão dentro do âmbito da ciência é o cientismo.
Ronald Dworkin já havia afirmado, em 2006, na The New York Review, sobre o cientismo, que “defende que não existe nada que não possa ser medido e explicado por métodos das ciências físicas e biológicas, de maneira que amor, beleza, bondade e liberdade devem ser ilusões. O cientismo é, de facto, dogmático”.
O que o Ludwig faz em seu discurso? Ele simplesmente adota o cientismo, e trata todos os temas como se o cientismo fosse VÁLIDO.
Detalhe que o cientismo nem sequer é apoiado pela Academia Nacional de Ciências, conforme mostrei aqui mesmo neste blog.
O cientismo é mais para mentes fracas, sugestionáveis e que tendem ao fanatismo, como Ludwig.
O fanatismo, aliás, que ele tenta justificar, mas só se engasga.
Notem por exemplo quando ele diz que há quinhentos anos atrás, um filósofo não poderia conceber que o universo teria 13.7 bilhões de anos, mas hoje pode.
Essa é uma falácia tosca e grosseira. Não passa de uma falácia da esperança, pois se algo era impossível, mas hoje é, na visão dele tudo que é impossível hoje, um dia não será. E, portanto, o cientismo estaria justificado.
Obviamente que o argumento dele é natimorto.
A cereja do bolo vem abaixo:
Mas não há respostas fora do âmbito da ciência. A ciência não responde a algo como “o que é o bem?” por não se conseguir distinguir a resposta correcta das incorrectas. Mas, precisamente por isso, rejeita como infundada qualquer resposta a esta pergunta. Se dissermos que o bem é justiça, liberdade, amor ou um pastel de nata, a ciência vai dizer que não se justifica declarar uma destas alternativas como mais correcta que as outras. A mesma falta de critérios que põe a pergunta fora do âmbito da ciência leva a ciência a rejeitar a resposta como infundada.
E não é que ele confirmou o cientismo?
Simplesmente ao usar a frase “Não há respostas fora do âmbito da ciência” ele entregou o ouro.
Detalhe que o cientismo é uma coisa tão estúpida que só é aceitável para pessoas de no máximo 13 anos de idade. Tipo aquele pessoal que assistiu o programa “Cosmos” e ficou deslumbrado, mas que na verdade não conhece a realidade da ciência. Na verdade, é ciência para a criançada.
O mais engraçado é quando ele escreve o seguinte: “Se dissermos que o bem é justiça, liberdade, amor ou um pastel de nata, a ciência vai dizer que não se justifica declarar uma destas alternativas como mais correcta que as outras”.
Mas quem disse para esse bocó de mola que a opinião da ciência aqui sequer é útil?
A ciência simplesmente NÃO TEM NADA A DIZER sobre o assunto.
E se ele diz que “a ciência rejeita” (o que duvido, pois nada do que Ludwig fala sobre ciência é realmente válido, pois ele não a conhece), isso também não significaria nada, justamente por estar fora do âmbito da ciência.
O pior é que ele nem descobriu ainda que a resposta para a ciência, ou seja, a justificação da ciência, nem é dada pela ciência, e sim por uma área SUPERIOR à ela, que é a epistemologia.
Se bem que eu acho que ele iria se debater histericamente diante dessa afirmação minha, que apenas é orientada pela lógica.
Mas notem só a ladainha dele:
Infelizmente, destas premissas correctas – que a ciência não responde a tudo e que há perguntas fora do âmbito da ciência – infere-se erradamente que se pode responder fora do âmbito da ciência sem contradizer a ciência. Este erro deve-se à confusão entre a hipótese como pergunta, por exemplo “será que o bem é justiça?”, e a hipótese apresentada como uma resposta ou afirmação: “o bem é a justiça.” Porque qualquer afirmação factual cai numa de três categorias. Se há evidências que a favorecem em detrimento das alternativas, justifica-se aceitá-la como verdadeira. Se as evidências suportam melhor uma alternativa, deve-se rejeitar a hipótese em favor dessa outra. E se não há dados que distingam as alternativas não se deve defender nenhuma como mais correcta que as outras. Por isso, à pergunta “será que o bem é justiça?” a ciência não pode responder nem sim nem não porque não tem um critério objectivo para avaliar estas respostas. Mas a afirmação “o bem é justiça” a ciência pode classificar: é uma afirmação para a qual não há evidências e que, enquanto afirmação sobre os factos, não deve ser considerada mais verdadeira que as alternativas.
Errou, mas errou FEIO!
Eu avisei que isso de professor maluquinho de inteligência artificial, que FINGE ser divulgador de ciência, uma hora ia dar merda…
Acho que a ciência não vai gostar de ver o Ludwig escrevendo tanta bobagem sobre ela.
Ele faz todo um discursinho clichê tentando tratar a questão “será que o bem é justiça?” como uma HIPÓTESE CIENTÍFICA (de novo, o mesmo estratagema que ele aprendeu com Dawkins), sem sequer demonstrar epistemologicamente por que essa deveria ser uma questão científica.
Só depois disso é que ele poderia partir para a argumentação seguinte.
E, se ele não fez isso, é sinal de que ele tem muito ainda o que aprender sobre metodologia científica.
Regra básica: não se inicia um estudo, sem antes definir o escopo do estudo, e a justificativa para ele. Detalhe: o domínio em questão também deverá ser definido.
Ele não fez absolutamente nada disso.
Usou apenas uma retórica barata dawkinista, mas não passou pelo estágio inicial e fundamental, que é definir a questão como científica.
Daí ele conclui que a afirmação resultante (“o bem é justiça”) é uma afirmação para a qual não há evidências. E, segundo ele, não deve ser considerada mais verdadeira que as alternativas.
Ué, como então ele pode validar o discurso neo ateu de que a religião é má? Se ele nem sequer definiu o bem CIENTIFICAMENTE?
Esse é apenas um dos tiros no próprio pé que ele dá.
Se ele usar o discurso baseado no cientismo, não há validade para mais praticamente nada em âmbitos morais, e nem para a própria ciência. O que, é claro, algo resultante da idéia de jerico dele.
E ele não larga o osso:
Perguntar sobre as intenções de deus, a natureza da alma ou se usar o preservativo vai contra o dom-de-si-mesmo do Amor enquanto tal é pouco interessante. Tal como a pergunta “poderá ter havido alguma intervenção sobrenatural na evolução humana?”, estão fora do âmbito da ciência. Podem ser discutidas por filósofos, teólogos ou qualquer pessoa à espera de vez no barbeiro mas não há forma de lhes identificar a resposta certa. Por isso não é de esperar qualquer conclusão.
Notem de onde ele tirou que as questões não são interessantes. Simples: da vontade dele.
Observem o nível do texto argumentativo do sujeito. “Ah, não isso interessante discutir isso”.
Obviamente que não serve como argumento.
Aí, é claro, de novo ele parte para o clichê aprendido com Dawkins e afirma que as questões podem ser discutidas por filósofos, teólogos, ou qualquer um, mas as conclusões seriam inúteis.
O argumento é mais ou menos assim
- (p1) Só há respostas na ciência
- (p2) Teólogos e filósofos podem discutir algo
- (p3) Teólogos e filósofos não são da ciência
- (c) Teólogos e filósofos não chegam a qualquer resposta
É mole?
Quem diria que, há poucos meses do ano 2010, após várias décadas em que o positivismo foi para a vala, eu veria um argumento assim?
É claro que esse sujeito não é bom da bola.
Não dá para qualificar a argumentação dele senão uma insanidade generalizada que beira a esquizofrenia.
E ele não pode alegar que é erro de digitação, pois ele se repete. Vejam:
Mas se, por um lado, é fácil inventar perguntas que a ciência não consegue responder, por outro lado isto não permite defender qualquer disparate alegando que está fora da ciência. A física não consegue responder à pergunta “há duendes invisíveis a manipular a interacção de partículas?” porque não tem forma de determinar se sim ou se não. Mas se afirmarmos que a física de partículas precisa de considerar os duendes invisíveis para que seja duendologicamente correcta, a física pode, e deve, rejeitar esta hipótese como infundada porque nada justifica este acréscimo aos modelos que temos. E dizer que a duendologia sai do âmbito da ciência não adianta de nada.
O sujeito é definivamente maluco. Podem meter a camisa de força nele.
Notem o tamanho da megalomania.
Primeiro ele se diz um “representante da ciência”.
Não que ninguém tenha nomeado ele, mas, feito doidinho de feira, se acha um “representante da ciência”.
Segundo: bradando este cargo, ele começa a definir coisas como “é da ciência” ou “não é da ciência”, e usa o cientismo para dizer que a ciência deve responder a tudo. E, segundo ele, não há respostas fora da ciência (esse mantra ele repete ad nauseam).
Como megalomania pouca é bobagem, ele diz que as pessoas procuram fazer perguntas para que a ciência não responda.
Mas como pode ser louco a esse ponto?
Será que ele não estudou ciência e suas origens para saber que a ciência, quando surgiu, e até hoje, tinha um ESCOPO DEFINIDO? Portanto não é preciso fazer uma pergunta que a ciência não responda, é simplesmente preciso fazer uma pergunta e ESTUDAR o âmbito em que ela será respondida. Será que ele fugiu tanto da realidade que acha que antes de fazer uma pergunta alguém deve pensar “será que a ciência responde ou não?”. A postura dele é injustificável.
Para variar, resta o discurso infantilóide, ao final, que não surpreende nesse tipo de mentalidade obtusa.
A pérola-mor vem ao final:
É isto que acontece com a teoria da evolução e a teologia católica. As perguntas por deuses e almas são teológicas e estão fora da ciência. Mas as respostas já não. Ao afirmar que «a emergência dos primeiros membros da espécie humana representa um acontecimento que não é susceptível de uma explicação puramente natural», os teólogos caem no meio da ciência, que avalia todas as afirmações acerca da realidade à luz das evidências. E esta afirmação a ciência rejeita por razões perfeitamente científicas: não há nada de especial na nossa espécie que exija colar um apêndice de sobrenatural à teoria da evolução. A teoria está bem como está e a alma do Homo erectus faz tanta falta como os duendes das partículas.
Só posso chamar isso aqui de OANI = Objeto Argumentativo Não Identificado.
Ao Ludwig: ô burrinho, vá estudar lógica!
Se a questão está fora do âmbito da ciência, a única resposta seria a seguinte: “não dá para dizer cientificamente nada a respeito de algo sobrenatural relacionado à alma do Homo Erectus”.
Isso é TOTALMENTE DIFERENTE de dizer que há um conflito com a teoria da evolução.
Não faz o menor sentido essa argumentação de Ludwig: é aquele “conflito” que existe só por não estar no escopo da teoria da evolução (!!!).
A teoria da evolução “está bem como está”, como ele diz, mas a teoria SÓ FALA dos aspectos físicos básicos. E nem sequer versa sobre a consciência humana.
A teoria da evolução simplesmente NÃO FALA NADA DISSO.
Justamente por isso que qualquer declaração sobre a alma humana, e o motivo pelo qual os seres humanos possuem uma consciência avançada (e nenhuma outra espécie possui), não estão no âmbito da teoria da evolução. E nem do âmbito da ciência.
Isso mostra que Ludwig tem sérias dificuldades. Ele não só é ignorante quanto à metodologia científica e epistemologia, como também é ignorante em relação à ciência em geral. E, como não poderia deixar de ser, é ignorante quanto à teoria da evolução.
É melhor que ele continue dando aula de Inteligência Artificial.
Para falar de ciência ele não serve…
O saganismo como seita, e não uma religião
Idólatras do falecido pseudo-cientista Carl Sagan lançaram uma música simulando que o ídolo deles estariam cantando.
Na verdade, é um amontoado de frases de Carl Sagan com distorções, com uma melodia por cima.
Surpreende, aliás, a idolatria dos saganistas (seguidores de Carl Sagan), uma doutrina ateísta que não tem todas as características de uma religião, sendo mais facilmente rotulável como seita.
Exemplos:
I met Carl. This video brought tears to my eyes. This piece is beautiful on many levels and invigorated my soul. Thanks.
Esse é um dos comentários que pode ser encontrado no YouTube. Quer dizer então que tal obra levou lágrimas aos olhos do sujeito e calou à ALMA dele?
Mais um:
It sucks when I think about all the great people, like Carl, who have had such a profound impact on our understanding, on our very lives, who aren’t aren’t today to see what we now see, and to know what we now know.
I’ve been listening to this the entire day, I can’t get enough.
Aqui é uma mostra de que um dos saganistas procurou o SENTIDO DA VIDA nas palavras de Sagan. Estranho, pois ciência deveria ser apenas para o entendimento do mundo físico E tangível.
Outro:
Yeah, it’s also streaming on Netflix. The beauty of that series could move a grown man to tears.
Ou seja, um homem crescido pode ser levado às lágrimas pela série Cosmos?
Este já é totalmente místico:
Amazing. Ethereal. Textured and poignant. I miss Carl Sagan. We haven’t had a science visionary quite like him for some time now.
Será que este tem noção do que disse? Etéreo? Será que ele não sabe a origem da palavra “etéreo”? [Dica - Etéreo advém de "éter", ou seja algo não palpável fisicamente, que pode ser sentido mas não alcançado]
E os fãs de Carl Sagan seguem todos esse mesmo padrão de contradição.
Aliás, a musiquinha é ruim demais.
Só com muita idolatria para ouvir isso aí.
Se querem aprender ciência, aprendam com o Karl, e não com o Carl

Se querem aprender sobre ciência, aprendam com o Karl…
Não, não é o Carl Sagan. E sim o Karl Popper.
O seu grande livro é “A Lógica da Pesquisa Científica”, que traz a introdução para o moderno método científico e como ele é válido hoje.
Embora existam updates futuros, como as abordagens de Lakatos e Kuhn, além da disseminação do peer review, esse livro dá praticamente toda a base para a prática profissional da pesquisa científica.
Por outro lado, existe um oposto ao Popper: Carl Sagan, que morreu em 1996 e era um neo-ateísta. Assim como Dawkins faz atualmente, Sagan tentou vender a sua imagem como a de um “divulgador da ciência”, o que é uma fraude intelectual facilmente desmascarável.
Explicando: um cientista tem dois caminhos: um, para a maioria, é atuar em pesquisa científica e testes científicos. Nesse exemplo estão Albert Einstein, Charles Darwin, Francis Collins, e outros. O outro caminho é atuar em Epistemologia, ou seja, filosofia da ciência. Exemplos são Karl Popper, Lakatos e Thomas Kuhn. São ainda mais raros que os cientistas. Estes últimos atuaram naquilo que é o mais essencial para a ciência (principalmente as ciências naturais), que é o método. [N.E. - Convém lembrar que professores de ciências não são cientistas, e sim apenas instrutores de disciplinas de ciências naturais]
E, em qualquer área profissional, a execução das atividades tende ao caos sem um método.
Assim como Popper auxiliou na revisão do modelo científico, W. Edwards Deming tem sua importância para os padrões de Qualidade com o seu ciclo PDCA (Plan-Do-Check-Act) e é reconhecido por isso em Administração, Engenharia de Produção, etc.
Se falamos da elite, agora falemos da escória…
Assim como Dawkins, Carl Sagan não conseguiu escrever o seu nome na ciência, tanto em Epistemologia e nem no Conjunto de Teorias Científicas. Ambos não estão nem no time dos pesquisadores e nem no time dos filósofos da ciência.
Sagan ficou mais conhecido pelo projeto SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence), que de científico não tinha nada, e também pelo seu programa de TV feito para ensinar “ciência para as crianças”, Cosmos. Dawkins criou a tese do gene egoísta, que não tem suporte científico, sendo apenas uma tautologia. A outra tese de Dawkins é a memética, que é mais pífia ainda. Essa última beira o misticismo literal.
Fica bem evidente que a duplinha Sagan/Dawkins não está na primeira divisão de ciência.
E como Sagan não estava nesse Olimpo, ele quis se tornar conhecido, e optou por uma terceira via, que é a única que pode ser definida como vergonhosa: a técnica de se disfarçar como “divulgador de ciência”.
E essa idéia de neo-ateísmo disfarçado de “divulgação de ciência” é uma das coisas mais risíveis que poderiam ter surgido na cultura moderna. [N.E. - Nem todos os "divulgadores de ciência" são neo-ateus, mas não muda o fato de que são todos superficiais e deslumbrados]
Para se ter uma idéia, muito diferentemente do trabalho sério de Popper e Darwin, o trabaho de Sagan era baseado em dar uma visão distorcida do que era ciência, tentar afirmar uma versão de ciência que não correspondia à realidade da ciência (ele afirmava que era “busca da realidade”, quando na verdade era o “estudo específico do aspecto físico da natureza”), e tentar inventar falsos conflitos entre ciência e religião.
Não é raro achar no livro desse pessoalzinho de “divulgação científica” erros como:
- (a) afirmação de que ciência abarca toda a realidade, só que se esquecem de outros domínios como religião, filosofia, matemática, etc.;
- (b) afirmação de que a ciência é o único método para descobrir a realidade, só que se esquecem de que a auditoria de perícia forense para governança, na administração, é muito mais eficiente que o método científico (tanto que alguém pode ser levado até a prisão por fraude descoberta por uma auditoria de perícia forense, tamanha a exatidão das investigações);
- (c) ignorância de todos os outros domínios de conhecimento, como Administração, Política, etc.;
- (d) afirmação de que ciência e religião seriam conflitantes, quando na verdade o que ocorre é apenas confusão entre uma e outra, por desconhecimento de limites;
- (e) afirmação de que ciencia é muito mais do que realmente é, quando na verdade os domínios de áreas como Física, Química e Biologia são extremamente específicos;
- (f) afirmação de que ciência se responsabiliza por muito mais coisas do que realmente se responsabiliza;
- (g) afirmação de que ciência possui um método, e esse é apresentado como o seu diferencial, ignorando que todas as profissões possuem métodos;
- (h) afirmação de que ciência é um “modo de pensar”, ao invés do método, quando na verdade o “modo de pensar” é irrelevante, o que importa é se o método é seguido ou não;
- (i) afirmação de que o cientista é alguém infalível e sem fé, e que se move pela dúvida, quando na verdade é só o método que não tem características como “fé” e “dúvida”.
Dá para fazer uma lista muito maior que essa, mas isso será objeto de um outro tópico.
Para piorar, a própria “divulgação de ciência” já é desnecessária e, além de inútil, prejudicial.
A “divulgação de ciência” tem foco nos leigos, que na verdade, nem precisariam dessa divulgação, pois não vão entender mesmo.
Seria o mesmo que sair fazendo “divulgação de gestão de projetos” para leigos, sendo que esse conhecimento lhes será inútil, a não ser que entrem na carreira de gerentes de projeto ou atuem diretamente com projetos.
Ademais, Sagan ainda prejudica a imagem dos verdadeiros cientistas, estirpe à qual ele jamais pertenceu.
Um exemplo disso é que ele começa o seu livro “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, citando um diálogo dele com um motorista de táxi, que, segundo ele, tinha crenças em coisas como existência da Atlântida e UFOs.
Aparentemente uma causa legítima, não fosse o fato de que o motorista de táxi não precisava ter o conhecimento científico específico de Sagan, algo que ele não entendeu.
Por exemplo, eu viajo muito de táxi. E nunca tentei dar carteirada em motorista de táxi por ele não saber utilizar técnicas como PERT/CPM, Caminho Crítico, Matriz de Riscos e outras típicas da carreira da Gestão de Projetos. Em suma, diferentemente, de Sagan, eu ENTENDO que o público leigo (e o motorista era um leigo) não tem necessidade de conhecer técnicas específicas de uma profissão. Aliás, duvido que Sagan soubesse fazer o PERT/CPM.
Mas Sagan não se contenta, ele não teve uma educação que o ensinou a conviver em sociedade, e então lança pérolas como essa:
Enquanto viajávamos sob a chuva me dava conta de que o homem estava cada vez mais taciturno. Com o que eu lhe dizia não só descartava uma doutrina falsa, mas também eliminava uma faceta preciosa de sua vida interior.
Será que eliminou mesmo?
Essa técnica de Sagan é a técnica de Leitura Mental, que se baseia em dizer o que o outro está pensando, mas sem nenhuma base científica para isso.
Outros poderiam dizer que se Sagan pensou isso, talvez o motorista de táxi estivesse rindo pelas costas dele, por Sagan ter sido incapaz de entender algo que poderia ser metafórico, ou até outra visão da realidade.
Ou até rindo pelo fato de Sagan agir como um deslumbrado falando de sua profissão de cientista, mas, em contrapartida, desvalorizando-a, tentando feito um adolescente ensinar que ciência é feita para estudar tudo (quando na verdade não é).
Além de tudo, essa falta de capacidade de conviver com o próximo é o que ajudou no passado a criação de um arquétipo errôneo em alguns cientistas, o arquétipo do “cientista louco” (foto acima dá um exemplo disso). Após a leitura do livro de Sagan, a imagem que fica é a do cientista maluco, pela incapacidade de um convívio em sociedade dele.
E ao invés de Carl Sagan divulgar ciência de maneira séria, ele partiu para a pregação científica, coisa de que a ciência não precisa.
E para isso ele precisa empurrar ciência goela abaixo de todo o mundo, nem que para isso tenha que mentir sobre o que a ciência é ou o que a ciência não é.
Se ele fosse um cientista sério, saberia que a ciência não define a realidade, apenas um aspecto da realidade. O aspecto da natureza, tangível ao método científico.
Nesses momentos, é importante notar o quão prejudicial foi a atuação de Carl Sagan para a “divulgação científica”.
Qualquer cientista sério, digno e REALIZADOR não agiria como o Carl Sagan.
Pelo contrário, são pessoas que trabalham em prol da ciência, atuam em pesquisas científicas (coisa que Sagan não fazia), e deixam o seu trabalho falar por si próprio.
Se o trabalho for bem realizado, não é preciso de “propaganda”. O resultado fala por si só.
Por isso, Karl Popper e Albert Einstein são pessoas da primeira divisão, ao passo que Sagan nunca sequer teve o direito de jogar entre os melhores.
E nem os seus leitores.
A difícil arte de dialogar com os neo-ateus Parte 2 OU Como discutir com aquele que não lê o que está escrito

O blog curiosamente entitulado de “Crônica da Ciência” fez uma crítica emocional a um texto deste blog. O texto criticado é: Ciência X Religião: Retardo Mental.
Uma das bases do texto original meu era criticar o uso abusivo da metáfora “a ciência se corrige” assim como o uso errôneo da problematização tola “Ciência X Religião”, algo normalmente vindo de leitores de “divulgação científica”, ou seja, leigos que não possuem uma prática científica mas costumam falar que “amam a ciência” (como se todos não amassem).
Sempre achei que é vital, quando se vai criticar um texto, que se LEIA este texto antes de criticar. Mas o crítico, que atende pelo nome de João, parece que não leu, pois escreveu:
Pois este senhor diz que a ciência não é aberta a refutação. Ou melhor o que ele diz mesmo é que a ciência não se corrige. Mas depois de dizer que a ciência é o corpo de conhecimento adquirido cientificamente, era preciso que nunca esse corpo tivesse sido alterado para dizer que não se corrige. E era preciso igualmente dizer que ela não era aberta a refutação e discussão para garantir que não se corrige. Por isso, ou eu não sei o que é corrigir ou então a ciência corrige-se. Não que o erro seja a caracteristica da ciência, como outros querem fazer crer, mas que a ciência se corrige é um facto.
Deu para notar que a irritação de João era tanta que (1) ou ele criticou um outro texto que não o meu, (2) ou então ficou cego de fúria ao ver seus mantras questionados e se perdeu todo, pois no trecho citado acima ele afirma que eu disse que ciência não é aberta. Eu jamais escrevi isso. Eu escrevi que a expressão “ciência se corrige” é equivocada. Mas não disse que a expressão “ciência é aberta a refutação” é equivocada.
E o mais divertido é que ele citou Popper achando que isso refutaria o meu texto, quando na verdade o confirma. Notem:
E agora Popper no seu melhor: «science is one of the very few human activities – perhaps the only one – in which errors are systematically criticized and fairly often, in time, corrected.» (“Conjectures and refutations: the growth of scientific knowledge”).
De novo o equívoco de João, pois Popper escreveu “que ciência é uma das atividades humanas nas quais erros são sistematizamente criticados e corrigidos em seu devido tempo” e não “ciência é uma entidade que erra, se critica e corrige seus erros”.
A diferença é fácil de observar se alguém simplesmente prestar atenção e ler o que está escrito (e não aquilo que quer ler):
- A lata de sardinha é passível de ser aberta: fato
- Mas isso não implica que a lata de sardinha se abre
Esse exemplo pode ser aplicado à quase tudo.
Mas o que ocorre quando a garotada de Sagan lê a expressão “ciência se corrige”, é a tentativa de atribuir todas as correções feitas por cientistas em cima de outros cientistas para “a ciência”. Claro que é apenas uma metáfora, óbvio. Mais óbvio ainda é o intuito claro: esconder ou jogar para baixo do tapete os erros dos cientistas (os losers), e apontar apenas as correções (dos winners). Não passa de um raciocínio de auto-ajuda (tipo aquele do copo vazio e do copo cheio), mas que logicamente implica em vários problemas…
Principalmente por que não adianta dizer que a “ciência se corrige”, sendo que essa seria a única ação que poderia ser atribuída a ela. Se a “correção” é uma ação atribuída à ciência (como entidade), então todas as ações devem ser atribuídas também. Já que, até na descrição de uma entidade como ciência, é preciso ter um modelo lógico que a explique. Ele modelo deve ser aplicado universalmente.
A única forma de defender a validação do uso da métáfora “a ciência se corrige” é através do seguinte modelo:
Fatores:-
Entidades: Ciência, Religião, Filosofia, Administração (dá para citar outras, mas usarei só essas como exemplo)
- Componentes: Teorias científicas (ciência), Sistemas religiosos e estudos de teólogos (religião), Sistemas filosóficos e estudos de filosofia (filosofia), Teorias da administração e pesquisas sobre administração (administração)
- Players: Cientistas e diversos pesquisadores da ciência (ciência), profissionais de administração e estudiosos (administração), Teólogos e estudiosos da religião (religião), Filósofos e professores de filosofia (filosofia)
- Público: Usuários dos benefícios da ciência, ex. GPS (ciência), fiéis da religião e leitores de textos e teses de religião e teologia (religião), clientes internos e externos (administração), leitores de filosofia e pensadores leigos (filosofia)
Dos quatro fatores, somente o público não tem ação ativa. Ele se beneficia do que os outros três fatores geram. Eu diria até melhor: os benefícios gerados pelos players, que geram novos componentes. E a entidade maior é só o “guarda-chuva” em cima do todo.
O modelo:
- “Em caso de um ou mais [players] executarem ação(ões) quanto a um ou mais [componente(s)], isso automaticamente significa que [entidade] executou essa ação sob si própria”
Sem o modelo acima, não é possível que se valide a tal metáfora.
E no modelo dá para notar fácil que cada uma das 4 entidades possui seus componentes e players, além do público. Como já dito o público não será julgado, por não ter ação ativa.
E aí que vem um dos problemas, pois aplicando o modelo o resultado é a expressão “ciência se corrige” quando um cientista corrige o trabalho de outro.
Embora isso possa parecer adequado à primeira vista, temos situações como na Teoria do Aquecimento Global. Hoje é proibido questioná-la, ou corrigi-la, logo na aplicação do modelo a expressão “os teóricos do aquecimento global não aceitam correção” tem que ser transformada em “ciência não se corrige”.
Os problemas não param por aí.
Notem o exemplo da Teoria da Memética, criada por Richard Dawkins. Não passou pelo método científico, foi chamada de “teoria científica” por alguns cientistas, e ninguém passou o crivo do método científico em cima dela. Para piorar, nem é falseável. Ou seja, o pessoal que tratou da memética é relaxado. Isso implicaria, na aplicação do modelo, em ter que dizer: “ciência é relaxada”. Detalhe que a teoria já tem mais de 30 anos, então não dá para escapar de acusação de relaxo…
O modelo também complica para que os filhos de Dawkins consigam transmitir a pregação preferida deles: “a ciência se corrige, a religião impede questionamentos”.
Estranho, pois os estudos de teólogos e a criação de sistemas religiosos (detalhe que não existe só um sistema religioso no mundo) surgem em substituição a modelos anteriores. Logo, na aplicação do modelo, “a religião se corrige”.
Ah, mas existem algumas religiões (dentro da religião, entidade maior) na qual correções e questionamentos são vetados. Logo, na aplicação do modelo, “a religião não se corrige”. (*)
Dessa forma, deve-se assumir que se “religião se corrige” e “ciência se corrige”, o fator de distinção entre elas não existe mais NO QUESITO “correção”. Logo, o uso da metáfora, se for aplicada em um modelo para descrição universal (e tem que ser assim em ciência), mais prejudica do que ajuda os leitores de Sagan. A frase de efeito “ciência se corrige, religião não” perde… todo o seu efeito.
Além do mais, muitos autores de auto-ajuda ateus (que fingem que fazem “divulgação de ciência”) dizem que o “questionamento não ocorre na religião, siga-a sem questionar”. Decerto que isso é verdade para alguns, mas só para o público. O público não está sob julgamento. O certo seria comparar a atitude dos players da religião com os players da ciência, e não o público da religião com os players da ciência. Fazer isso é no mínimo covardia e desonestidade intelectual.
Detalhe que os players na religião, na ciência, na política, no esporte automaticamente corrigem todos os trabalhos e artefatos produzidos uns pelos outros. Dessa forma, “tudo se corrige”.
Mas o pior de tudo é que não é possível que “ciência se corrige” e “ciência não se corrige” estejam juntas, pois são logicamente contraditórias. Ou é um ou é outro. Mas, na ação de players, ambas ocorrem.
Algum espertinho poderá tentar se safar dizendo: “mas espere, quando um cientista corrige outro, aí a ciência se corrige, mas quando um cientista deixa de corrigir o outro, por malandragem, política, dogma ou qualquer motivo, não atribuirei isso à ciência”, com isso ele conseguiria manter a expressão “ciência se corrige” e anular a expressão “ciência não se corrige”.
Só que se alguém com o mínimo conhecimento em epistemologia estiver por perto, essa tentativa de logro não vai colar.
É por isso que o grande objetivo do texto, ao desmistificar a expressão “ciência se corrige”, era evitar a banalização do termo ciência. Deixar de olhar a ciência com olhos de “sonhador” e ver a ciência como ela realmente é. Na prática. Com todas as suas qualidades e defeitos, como qualquer área do conhecimento humano.
A tentativa árdua e ferrenha de João de lutar por seu mantra “ciência se corrige” é até comovente. É como um talibã que não quer largar os seus dogmas.
Só que a forma de João ver a ciência a banaliza. A minha forma a respeita.
E tecnicamente, “ciência se corrige” ou “religião se corrige” parecem mais mantras não informativos. Não acrescentam informação nenhuma ao assunto. Ao passo que “teoria X estava errada, e foi substuida por teoria Y, e o responsável pelo erro é pessoa W”, é muito mais informativo, e constitui-se de informação útil para discussão.
P.S.: O texto de João ainda contém um erro básico e imperdoável, pois o título é “Ciência não se Corrige”. Provavelmente ele pensou que eu, ao questionar a expressão “ciência se corrige” estava automaticamente dizendo que “ciência não se corrige”. Não, eu não acho que ciência se corrige, e nem evita correções. E eu espero sinceramente que João não seja um cientista (ou seja, atuando em pesquisa científica), pois a atitude dele é de auto ilusão. Aí no modelo o resultado teria que ser: “ciência se auto ilude”. Não concordo. Esse é um problema do João, não da ciência.
P.S.2: Concordo que meu texto original deveria ter menos palavras ofensivas. Essa é uma crítica que considero legítima feita pelo João.
Ciência X Religião: retardo mental

Eis, então, que chega o momento de falar do conflito entre ciência e religião. Conflito, claro, que só existe na cabeça de alguém com problemas mentais sérios.
Primeiro, começando pela ciência.
Ah, a CIÊNCIA… “a ciência que faz”, “a ciência que acontece” e daí por diante, na visão desses caras.
Em locais como Orkut, blogs, livros ou que o valha, tenho notado em participações de neo-ateus a mania de se referir à ciência de uma maneira icônica, como se fosse algo transcendental. E as vezes até como se a ciência fosse uma pessoa.
Não demorou para esse pessoal usar expressões como “a ciência atua desta forma”, ou “a ciência não concorda com tais afirmações”, ou até “a ciência nos orienta a fazer tal ação”. Ou a mais debilóide de todas: “grupo X está contra a ciência”.
Essa turminha com certeza está com algum problema de interpretação básica de conceitos, e até com falhas graves no uso da linguagem estruturada. O que é justamente o problema mais grave, pois o ser humano se diferencia dos outros animais por, dentre outros motivos, a capacidade de utilizar a linguagem de forma estruturada e complexa. Com isso, nós, humanos, conseguimos coletar nosso conhecimento adquirido, e transmiti-lo, de forma a gerar mais conhecimento. Dessa forma conseguimos elaborar um documento, um livro, uma constituição e inclusive discutir sobre cada uma dessas elaborações. Só que, para utilizar a linguagem, temos que ter consciência absoluta de que não há linguagem estruturada e complexa sem informação.
Quando alguém menciona algo sobre “a ciência” e não tem a minima noção do que ciência significa, de certa forma tudo que esta pessoa está falando quanto ao assunto vai automaticamente para o lixo. E daí para frente, tudo que se originar dessa informação, se não for para o lixo, irá gerar mais besteira, como se fosse uma bola de neve. Ou um montão de lixo bem fedido.
Geralmente, esse tipo de distorção do que significa “a ciência” não raro vem de gente que andou lendo Carl Sagan, Richard Dawkins e a turminha…
Esses autores neo-ateus normalmente surgem com pérolas como “a ciência nos orienta a fazer isso, e de forma contrária, a religião nos pede que façamos aquilo…”. Tudo besteira. Tudo balela. Isso não passa de uma distorção da informação, que dá mais a impressão de que tal pérola tenha sido escrita por algum disléxico. E não é raro ver que os leitores tanto de Sagan como Dawkins realmente acreditam nessa demência, e saem proclamando sandices como “a ciência permite o questionamento, e a religião não” e lançam defecações verbais que constrangem a qualquer um que tenha o mínimo de conhecimento do VERDADEIRO método científico.
Exemplo de sandice: “a ciência se corrige”. Já perdi as contas das vezes em que li essa besteira proclamada por algum neo-ateu aí. Na verdade, eles usam essa falácia do espantalho para afirmar que um cientista pode lançar uma pesquisa, e essa mesma pesquisa ser refutada tempos depois por outro, e daí por diante. E, segundo eles, isso não ocorreria na religião.
Mas isso é uma besteira inominável, uma estupidez que chega a comprometer grande parte da obra desse pessoal.
O que existe, na verdade, é um método científico, que é aplicado em boa quantidade em ciências naturais e aplicado mais ou menos em ciências sociais. Há problemas de testabilidade no uso do método, por exemplo, em matérias como História e Antropologia, mas isso não impede que estes usem uma versão “light” do método científico. E na tentativa de se misturar ciências naturais e ciências sociais, em alguns casos o método científico é ignorado por completo. É só isso.
Antes de seguir com a demolição desta palhaçada de “a ciência se corrige”, é preciso entender o que ciência significa.
Seguem as definições de ciência:
- corpo de conhecimento adquirido através das práticas e pesquisas que tenham sido suportadas pelo método científico
- sistema de aquisição de conhecimento baseado no método científico
Notaram que, por essas definições, é impossível que “ciência se corrija”? O que existe, na verdade, são os profissionais que atuam em pesquisa científica. Esses que chamamos popularmente de cientistas. Geralmente é aquele sujeito que atua com ciências naturais, que recebe um salário mensal como professor, ou então atuando em pesquisas (ou ambos), sob financiamento, e depende disso para o seu sustento.
E este cientista é um profissional como qualquer outro. Não é um “portador da verdade”, não é um “Deus”, não pertence à “elite dos profissionais”, nada disso. De novo, é apenas um profissional, como outro qualquer. Merece ser respeitado, mas não é uma categoria profissional acima de nenhuma outra.
E como QUALQUER profissão (estranho que Sagan, Dawkins e seus leitores não tenham percebido isso), existe o bom profissional, e o mal profissional. Existem os bons trabalhos, e os trabalhos ruins. Assim, existe um corpo de conhecimento que referencia não só a profissão, como também o conhecimento teórico vigente para a profissão.
E qualquer área profissional se baseia em conhecimento adquirido. Pois simplesmente não é possível criar uma nova teoria de adminitração a toda vez que um Administrador fizer um projeto. Assim como um cineasta não pode ignorar o conhecimento adquirido antes de realizar o seu filme. E como em qualquer profissão, as pessoas lutam por seu lugar ao sol e querem se diferenciar umas das outras. Isso motiva a inovação, que, consolidado ao conhecimento antigo, irá gerar o novo conhecimento. Ou seja, aquilo que funcionava no passado pode não funcionar hoje. É simples.
Só que quando um estúdio traz uma nova técnica que supera uma anterior, isso não significa que “o cinema se corrigiu”. Da mesma forma, uma nova teoria de administração, ou uma inovação, não implica em “administração se corrigindo”. Por isso que dizer “a ciência se corrige” é burrice.
A ciência só poderia se corrigir se a ciência estivesse errada. Mas não estava. A definição de ciência segue a mesma de sempre.
O que acontece é que um cientista talvez tenha a sua pesquisa refutada por um outro, assim como no cinema a Pixar trouxe uma nova técnica que superou a antiga animação.
Por isso que quando alguns imbecis (ou até débeis mentais) ficam com a história de que “a ciência se corrige, mas não a religião” dá para se ter a noção básica de que não entendem o que é ciência e não entendem também o que é religião.
Agora, de uma forma mais didática (embora eu ache que os fiéis mais exacerbados de Sagan e Dawkins não conseguirão entender): quando alguém está “praticando ciência”, a pessoa está trabalhando. Aliás, o melhor seria chamar de “trabalhar em pesquisa científica”, pois “ciência”, conforme mostrado, é amplo demais. É possível que uma pesquisa seja feita, mas com falhas na utilização do método científico. Isso, sendo descoberto depois, significa que a pessoa não trabalhou neste caso em ciência, mas sim atuou com “pesquisa científica”, ou, até melhor, “pesquisa com ambição de ser científica”. Já que é vital ter a noção de que não existe “uma ciência” trabalhando. E sim profissionais bons, e profissionais ruins. Trabalhos bons, e trabalhos que não valem nada. É a vida.
Então, que os neo-ateus não venham falar estultices. Pois, a cada vez que leio frases como “ciência permite questionamento, mas religião não” é sinal de que estou diante de alguém que não sabe o mínimo sobre ciência. Ou se sabe, está tão fanatizado pela fidelidade aos autores neo-ateus, que já perdeu o senso crítico. Isso que nem citei ainda o Karl Popper, cujo livro “A Lógica da Pesquisa Científica” refuta esse monte de bobagem saganista/dawkinista.
Dessa forma, se alguém sai dizendo que quer “divulgar a ciência” após ler o “O Mundo Assombrado pelos Demônios” e comete os mesmos erros que o autor do livro, Carl Sagan, sinto muito informar a essa pessoa que ela não tem sequer capacidade de discutir sobre ciência. Se o conhecimento de ciência de uma pessoa é limitado ao que o Carl Sagan lhe pregou, não há dúvidas. Estamos diante de um energúmeno.
E dá para dizer com segurança: se alguém usar esses conceitos deturpados de ciência, e tiver o azar de me encontrar em um debate, já fique sabendo de antemão que será esmagado de tal forma que depois terá vergonha até de olhar de novo no rosto de seus familiares.
E, voltando ao assunto da comparação de ciência com religião. Para passar à religião, e entender a questão da inexistência de conflitos, é preciso entender até o momento o conceito de ciência. Ciência, como um todo, é o corpo de conhecimento adquirido com a prática científica. Ciência, na visão do profissional cientista, é a atividade profissional de pesquisa científica. Fim.
E a religião? Originada do latim “religio”, pode ser definida, na visão do todo, como o conjunto de crenças relacionadas ao divino, sobrenatural, sagrado, transcendental, etc. Na visão individual, é o conjunto de práticas religiosas, junto com o código moral, que se deriva dessa crença.
E para notar por que não existe essa besteira de “Ciência X Religião”, basta entender que na prática científica o cientista está trabalhando. Quer dizer, ganhar dinheiro. Basicamente, é trabalho, 8 horas por dia, provavelmente, com um horário, das 9 da manhã às 18 horas da tarde. Além do mais, qualquer realização naquilo que se chama de “ciência” é uma realização que só pode ser expressa de forma física. É exatamente como a exibição de um resultado corporativo, uma nova realização profissional, o produto de um trabalho, etc.
A religião, na visão do praticante (não estou mencionando os padres, que possuem isso como trabalho), é feita única e exclusivamente para que este trabalhe o seu lado espiritual.
Tanto que é normalíssimo que alguém pratique o seu trabalho assalariado, das 9 as 18 horas, e depois, às 19 horas, vá a uma missa ou um culto. Em muitos casos, há aqueles que vão à missa somente no final de semana, o que de forma alguma poderia entrar em conflito com o horário de trabalho (das 9 às 18, segunda a sexta, 40 horas por semana). E, fora do horário de trabalho, se um profissional quiser ir a missa, ou rezar, que o faça. Ou se for ateu e quiser ficar lendo livro de Carl Sagan e reassistindo o programa “Cosmos”, que o faça. Acabou. Enquanto um autor está assistindo “Cosmos” ou assistindo e/ou pregando o documentário de Dawkins “A Raiz de Todo o Mal”, ele não está trabalhando mais, portanto, não pode mais dizer que faz “a ciência”.
Em resumo, se alguém não entende que religião se refere à prática espiritual, e que ciência se refere ao trabalho oriundo de prática científica, então o valor informativo do discurso desse tipo de neo-ateu que insiste em pregar a idéia estúpida de “Ciência X Religião” tem o mesmo valor informativo que os discursos daqueles malucos de rua que perambulam pelo centro de São Paulo. Simplesmente por que os significados atribuídos tanto à ciência como religião estão completamente distorcidos.
Ciência não pode ser opor à religião, e religião não pode se opor à ciência. É simplesmente impossível.
Assim como se alguém sair dizendo a besteira “ao optar pela ciência, larguei a religião”, então fica aberto precedentes para absurdos como:
- Usar religião ao invés da ciência
- Gostar de música ou se casar
- Caminhar ou pensar
Quer dizer, se alguém quiser até fazer esse tipo de opção, que faça. Mas sair dizendo que ao fazer opção por um, automaticamente foi necessário relegar o outro, ou que as escolhas são opostas ou conflitantes, é sinal apenas de uma coisa: burrice.
Ou retardo mental, definitivamente.
