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Deus, Um Delírio – Capítulo 3 – Pt. 8 – Dawkins entra em contradição: calcula-se ou não a probabilidade?

Antes de tudo, preciso esclarecer: quando Steve Unwin lançou seu livro “A Probabilidade de Deus”, eu fui um dos que questionei essa abordagem, pois uma análise semiquantitativa dessa forma seria de difícil mensuração e o assunto era complexo demais para ser tratado dessa forma.
Curiosamente, Richard Dawkins, da mesma forma, critica-o. Mas isso é injustificável, pois é o próprio Dawkins que decide tratar de Deus na questão de probabilidade ou improbabilidade. Portanto, é contraditório da parte dele criticar Unwin.
Vejamos então como Dawkins inicia seu caso contra Unwin:
Acho que a tentativa mais estranha de tese sobre a existência de Deus que já vi é o argumento bayesiano, apresentado recentemente por Stephen Unwin em The probability ofGod. Hesitei em incluir esse argumento, que é mais fraco e menos incensado pela antiguidade que os outros. [...] Acredito que a existência de Deus, como hipótese científica, seja, pelo menos em princípio, investigável. Além disso, a tentativa quixotesca de Unwin de dar um valor numérico à probabilidade é bem divertida.
Não existe tentativa “quixotesca” no empreendimento de Unwin, que é basicamente o exercício intelectual de alguém focado em gestão de risco. Ou seja, é assim que Unwin realmente pensa e visualiza qualquer aspecto de probabilidade. Não há nada de quixotesco nisso. A tentativa de Dawkins em ofender Unwin fracassa justamente aqui.
Quixotesco é um termo normalmente usado para designar pessoas que perderam sua razão e adentraram em lutas imaginárias contra inimigos imaginários. Ao criar dezenas e dezenas de falácias do espantalho, é Richard Dawkins quem assume pretensões quixotescas neste embate. E não o Steve Unwin.
Isso fica claro até na avaliação que Dawkins faz dele, no início do parágrafo abaixo:
Unwin é um consultor de risco apaixonado pela inferência bayesiana e que muita contra métodos estatísticos rivais. Ele ilustra o Teorema de Bayes não usando um assassinato, mas a maior prova de todas, a existência de Deus. A idéia é começar com uma incerteza total, que ele quantifica determinando para a existência e para a inexistência de Deus uma probabilidade inicial de 50% cada. Em seguida ele lista seis fatos que podem influenciar a questão, dá um valor numérico a cada um deles, fatora os seis números dentro do mecanismo do Teorema de Bayes e vê que número aparece. O problema é que (repetindo) os seis pesos não são quantidades mensuradas, mas simplesmente os juízos particulares de Stephen Unwin, transformados em números só para se encaixar no exercício. Os seis fatos são: 1 Temos um senso de bondade. 2 As pessoas fazem maldades (Hitler, Stálin, Saddam Hussein). 3 A natureza faz maldades (terremotos, tsunamis, furacões). 4 Pode haver milagres de pequena dimensão (perdi minhas chaves e as reencontrei). 5 Pode haver milagres de grandes dimensões (Jesus pode ter ressuscitado de entre os mortos). 6 As pessoas têm experiências religiosas. Se é que isso vale alguma coisa (não vale, na minha opinião), no final da corrida maluca bayesiana, na qual Deus larga bem na frente, depois fica muito para trás, e depois consegue voltar à marca dos 50%, de onde partiu, ele por fim acaba, na estimativa de Unwin, com uma probabilidade de 67% de existir. Unwin decide então que seu veredicto bayesiano de 67% não é alto o suficiente e toma a bizarra decisão de aumentá-lo para 95% com uma injeção emergencial de “fé”.
É divertido investigar textos de diatribe, pois seus autores sempre inventam uma nova informação, falsa, na tentativa de atacar seus oponentes.
Neste caso, Dawkins inventou que Unwin tomou uma decisão de aumentar a estimativa para 95%. Isso não é verdade: o livro fala de 67% e só. Ainda que 95% tenha sido mencionado por Unwin, isso NÃO FAZ PARTE DA AVALIAÇÃO PROBABILÍSTICA dele, portanto o fato de Dawkins tentar usar isso contra a abordagem dele configura falácia do espantalho, juntamente com o estratagema da ampliação indevida, e, portanto, torna-se irrelevante como evidência dawkinista.
Ele ainda tenta se justificar, mas soa patético, apenas:
Parece piada, mas é assim mesmo que ele procede. Eu gostaria de justificar como ele faz isso, mas não há nada a dizer.
É importante que talvez tivesse DEMONSTRADO como ele fez isso através de citações (conforme aquelas utilizadas aqui). Ele não demonstrou.
Ele prossegue:
Já encontrei esse tipo de absurdo em outros lugares, quando desafiei cientistas religiosos, mas inteligentes, a justificar sua crença, levando em conta que eles admitiam que não há evidências: “Admito que não há evidência. Há um motivo para que isso seja chamado de fé” (essa última frase é dita com uma convição quase truculenta, sem sinal de nenhum tom de justificativa ou defesa).
Sem citar quem disse a frase, a alegação de Dawkins não tem valor de evidência. E dizer que “já encontrei esse tipo de absurdo” é uma evidência anedota também.
Vamos em frente, portanto:
De maneira surpreendente, a lista das seis afirmações de Unwin não inclui o argumento do design, nem alguma das cinco “provas” de Tomás de Aquino, nem algum dos vários argumentos ontológicos. Ele não quer nem saber deles: eles não contribuem nem um pouquinho para sua estimativa numérica da probabilidade da existência de Deus. Ele os discute e, como bom estatístico, descarta-os, classificando-os como vazios. Acho que ele deve levar o crédito por isso, embora seu motivo para descartar o argumento do design seja diferente do meu. Mas os argumentos que ele admite em seu portal bayesiano são, parece-me, tão fracos quanto.
Não se afirma um caso contra algo ou alguém dizendo “parece-me”. Ou são fracos ou não são, e isso deveria ser demonstrado analiticamente. Dawkins não fez esse esforço, e portanto fracassou de novo. Além do mais ele diz que a lista das seis afirmações não inclui as 5 vias de São Tomás de Aquino. Detalhe: por que deveria? Lembremos que são argumentos de natureza diferente.
As explicações de Dawkins seguem chinfrims:
Sem contar que os valores de probabilidade que eu determinaria para eles seriam diferentes, e, aliás, quem é que está interessado em juízos subjetivos? Ele acha que o fato de termos um senso de certo e errado pesa bastante a favor de Deus, enquanto eu não acho que isso devesse afetar a expectativa inicial. Os capítulos 6 e 7 mostrarão que não dá para defender a tese de que o fato de possuirmos um senso de certo e errado tenha alguma ligação clara com a existência de uma divindade supernatural.
Os capítulos 6 e 7 serão refutados em seu devido tempo, mas é evidente que não há origem de senso de certo e errado, em termos morais, sem a presença das religiões. Não há evidências disso, e é a explicação mais parcimoniosa.
O problema maior aqui é o erro grotesco de Dawkins em avaliações de probabilidades. Vamos esclarecer: existem 3 formas de se analisar risco. São elas: análise qualitativa, análise quantitativa, e análise semi-quantitativa. E não há como alguém fugir disso. Quando não há dados específicos (principalmente em bases de dados) para se fazer a análise quantitativa, deve-se fazer a análise qualitativa ou a semiquantitativa.
Portanto, a pergunta de Dawkins “quem é que está interessado em juízos subjetivos?” é de uma estupidez atroz, demonstrando uma ignorância profunda em análise de risco.
O risco é simplesmente uma incerteza quanto à ocorrência de um determinado evento. Quando existem dados suficientes, o risco pode ser medido de forma objetiva por técnicas como amplitude, desvio-padrão e coeficiente de variação. Quanto não existem tais informações, a avaliação do risco é subjetiva. Inclusive existem análises de pessoas que fornecem avaliações (subjetivas) sobre riscos: o otimista tende a perceber pouco perigo ou incerteza no resultado de um evento, já um pessimista tende a requisitar altas possibilidades de sucesso antes do início de uma ação. Todos esses perfis são levados em consideração, motivo pelo qual foi desenvolvida uma técnica nas organizações chamada Delphi, que justamente serve para CONSIDERAR que as avaliações subjetivas são possíveis. Para mitigar esse outro risco, cada um que fornece sua análise subjetiva NÃO CONHECE as avaliações dos outros.
Uma dica ao Dawkins: não fale do que não conhece.
E lá vem mais:
As pessoas com tendências teológicas são sabidamente e com frequência cronicamente incapazes de distinguir a verdade daquilo que gostariam que fosse verdade. Mas, para um crédulo em algum tipo de inteligência sobrenatural que seja mais sofisticado, é ridiculamente fácil superar o problema do mal. Basta postular um deus malvado — como aquele que recheia cada página do Antigo Testamento. Ou, se não gostar dessa hipótese, invente um outro deus malvado, dê a ele o nome de Satã e ponha na batalha cósmica dele contra o deus bom a culpa por todo o mal que há no mundo. Ou — uma solução mais sofisticada — postule um deus com tarefas mais grandiosas a fazer que se preocupar com o sofrimento humano. Ou um deus que não seja indiferente ao sofrimento, mas que o considere o preço justo a pagar pelo livre-arbítrio num cosmos ordenado. Podem-se encontrar teólogos comprando todas essas racionalizações.
É engraçado notar que ao final de alguns de seus casos, quando não tem argumentos contra seus oponentes, Dawkins opta pelo ataque histérico. Isso é claramente perceptivo quando notamos o estratagema 38 de Schopenhauer, em sua Dialética Erística. O estratagema menciona o seguinte: “Quando percebemos que o adversário é superior e que acabará por não nos dar razão, então nos tornamos pessoalmente ofensivos, insultuosos, grosseiros. O uso das ofensas pessoais consiste em sair do objeto da discussão (já que a partida está perdida) e passar ao contendor, atacando, de uma maneira ou de outra, a sua pessoa”.
É exatamente isso que Dawkins fez aqui. Ele não tinha mais como atacar seus oponentes e resolveu ofender os teólogos dizendo que são “sabidamente e com freqüência cronicamente incapazes de distinguir a verdade daquilo que gostariam que fosse verdade”.
O difícil vai ser Dawkins comprovar sua alegação, pois ele sequer consegue diferenciar um teólogo de um padre, por exemplo. Aliás, não é raro ele citar uma declaração de um religioso e sair chamando isso de “declaração teológica”. Se ele não conhece o que significa a teologia, como ele pode então tentar ler a mente dos teólogos e dizer se são capazes ou não de distinguir o que é ou não verdade. E quem teria a “verdade” para fazer esse teste? Richard Dawkins? A tentativa de Dawkins é mais um exemplo de que ele é o personagem quixotesco deste embate que ele criou. Para tornar a situação dele próprio ainda mais embaraçosa, ele cita teólogos em seu caso contra Unwin. Mas isso é totalmente nonsense, pois a idéia de Unwin é INDEPENDENTE da teologia.
Aí, diante de sua megalomania, ele aplica a técnica de consultoria, dando “conselhos” a seus oponentes. Ele disse que, para superar o problema do mal, “basta postular um deus malvado”, e cita o Antigo Testamento para isso. O problema é que ele nem sequer provou que no Antigo Testamento há um Deus malvado. Pelo contrário, não são feitos juízos de valor a respeito do “temperamento” divino. Dawkins não ter percebido isso mostra sua inaptidão para avaliações teológicas (obs: mais um motivo para duvidar de todos os diagnósticos que ele faz contra teólogos). Aí ele sugere algo alternativo: “basta inventar outro deus malvado, dê a ele o nome de Satã”. Mas quem disse para esse ignorante que Satã é um Deus? Realmente, ele consegue a proeza de não acertar absolutamente nada. Depois de seus dois erros, ele faz uma tentativa de dizer que a opção seria “postular um Deus com tarefas mais grandiosas a fazer que se preocupar com o sofrimento humano”. Embora ele não entenda absolutamente nada dessa concepção, a idéia de mencionar “tarefas a fazer” para Deus mostra a ignorância completa dele no assunto.
Como se nota, Dawkins não serve para comentar a Bíblia e nem como devemos interpretá-la. Ouvi-lo é o mesmo que ouvir um maluco de rua que fica gritando sandices na praça.
Engraçado é ele dizer que podem ser encontrados teólogos comprando “todas essas racionalizações”. O difícil vai ser Dawkins INTERPRETAR o que está sendo dito em qualquer uma dessas racionalizações. Em todo caso, esse parágrafo de Dawkins não apresentou caso algum em favor dele, e configura mais um desvio de foco na questão de seu ataque a Unwin.
Ele tenta justificar seu desvio de foco aqui:
Por essas razões, se eu fosse refazer o exercício bayesiano de Unwin, nem o problema do mal nem considerações morais em geral me afastariam muito, nem para um lado nem para o outro, da hipótese nula (os 50% de Unwin). Mas não quero discutir sobre isso porque, de qualquer maneira, não posso ficar inflamado demais com opiniões pessoais, seja as de Unwin, seja as minhas.
É mole isso que ele escreveu? Ele diz que se fosse refazer o exercício de Unwin, ele diz que dificilmente ficaria longe da hipótese nula. O problema é que ele NÃO FEZ o exercício, então como ele pôde prever isso? A resposta é uma só: fé cega. Ele repete também o seu erro a criticar as “opiniões pessoais”, mostrando a já observada ignorância em análises qualitativas e semiquantitativas.
Curiosamente, Dawkins esconde o fato de que a análise de Unwin não é definitiva. Unwin inclusive adicionou uma planilha em seu livro para que os leitores fizessem seus próprios cálculos.
A rejeição a priori de Dawkins pela tentativa de Unwin mostra que ele é apenas um fanfarrão quando tenta falar de probabilidade de Deus. Já que a única tentativa feita, a de Unwin (ainda que questionável), foi rejeitada a priori. Qualquer pessoa que já atuou em gestão de risco sabe que modelos como esse de Unwin são apresentados não para dar uma resposta definitiva, mas para desafiar outras pessoas a inserirem seus valores para as variáveis. Ou até sugerirem novos modelos.
Dawkins acabou contradizendo a si próprio. Ele demonstrou ao público que quer falar de probabilidade, mas foge de qualquer abordagem em que um NÚMERO é atribuído à probabilidade. Vejam o que aconteceu por exemplo quando Ben Stein, no documentário “Expelled”, solicitou que ele fornecesse um número para probabilidade de inexistência de Deus. [N.E. - Isso ocorre a partir do ponto 04:23 do vídeo]
Por fim, vem a propagandinha de sempre do tal “argumento poderoso” de Dawkins:
Há um argumento muito mais poderoso, que não depende de juízos subjetivos, que é o argumento da improbabilidade. Ele realmente nos afasta drasticamente do agnosticismo dos 50% [...] Já o mencionei várias vezes. O argumento gira em torno da conhecida pergunta: “Quem criou Deus?”, que a maioria das pessoas pensantes descobre por si só. Um Deus projetista não pode ser usado para explicar a complexidade organizada porque qualquer Deus capaz de projetar qualquer coisa teria que ser complexo o suficiente para exigir o mesmo tipo de explicação para si mesmo. A existência de Deus nos coloca diante de uma regressão infinita da qual ele não consegue nos ajudar a fugir. Esse argumento, como mostrarei no próximo capítulo, demonstra que a existência de Deus, embora não seja tecnicamente descartável, é muito, mas muito improvável mesmo.
Pelo contrário: esse argumento de Dawkins é que é TOTALMENTE subjetivo e, para piorar, completamente irracional. Vou comentar a estratégia dele no início da refutação ao capítulo 4, pois ele fica anunciando insanamente que apresentará o seu argumento “destruidor” ao final do capítulo 4. Se eu for refutar toda as vezes em que ele faz essa propaganda, eu me tornaria prolixo e repetitivo – o que seria cair na mesma vala em que Dawkins caiu, pois ele não se incomoda em ser repetitivo. Enquanto isso, o tal “argumento mais poderoso” é simplesmente esse aqui, que William Lane Craig humilhou.
Algo para causar vergonha eterna para qualquer admirador de Dawkins.
Deus, Um Delírio – Capítulo 2 – Pt. 4 – Dramatizando a questão dos Pais Fundadores

Dawkins realmente parece ser alguém carente de companhia.Talvez por isso ele tenha criado essa sub-seção para falar dos pais fundadores dos Estados Unidos e dizer que eles, se estivessem vivos na época atual, estariam revoltados com a momento corrente do secularismo nos Estados Unidos e provavelmente seriam ateus. Como sempre, não passa de uma gororoba requentada e sem sentido.
Vamos começar:
É tradição assumir que os Pais Fundadores da República americana eram deístas. Sem dúvida muitos eram, embora já tenha sido alegada a possibilidade de que os maiores deles tenham sido ateus. O que eles escreveram sobre religião em sua época não me deixa dúvidas de que a maioria teria sido ateia em nossos tempos.
Dawkins mostra aqui que é um ignorante na questão. Ele, por ser inglês, talvez não tenha tido interesse de estudar a história norte-americana, mas, já que ele abre um “caso” em seu livro, deveria ao menos tomar o cuidado de pesquisar fontes idôneas.
Curiosamente aqui ele no máximo citou Christopher Hitchens, seu parceiro de luta contra a religião, que jamais pode ser chamado de fonte idônea.
O resultado, naturalmente, é um desastre intelectual.
Tudo o que Dawkins mostrará daqui para a frente em nenhum momento mostra que os pais fundadores, se estivessem vivos nos tempos atuais, seriam ateus.
Dawkins apenas irá citar essas pessoas fora de contexto, talvez tentando “inflar” o número de ateus. Ele já tentou fazer isso com cientistas deístas e panteístas anteriormente (Albert Einstein, Ursula Goodenough, etc.), portanto sua atitude aqui não surpreende.
Ele também afirma que essa ação (conversão ao ateísmo) seria da “maioria” dos pais fundadores, só que no decorrer do capítulo ele citou máximo 3 destes pais fundadores (convém lembrar que são 74 os pais fundadores, sendo 55 os signatários da Declaração de Independência). E, para piorar, no máximo são declarações contra uma religião específica, ou o clericarismo.
Outro erro de Dawkins é interpretar críticas à intervenção da religião no estado como críticas à religião em si. Só que simplesmente uma não tem nada a ver com a outra. Pedir a secularização do estado não é o mesmo que lutar contra a religião.
E lá vem mais:
As opiniões religiosas dos Pais Fundadores são objeto de grande interesse dos propagandistas da direita americana atual, ansiosa por empurrar sua versão da história. Contrariamente à visão deles, o fato de que os Estados Unidos não foram fundados como uma nação cristã foi bem cedo declarado nos termos do tratado de Trípoli, elaborado em 1796, durante a presidência de George Washington, e assinado por John Adams em 1797: “Como o governo dos Estados Unidos da América não é, em nenhum sentido, fundamentado na religião cristã; como não tem em si nenhum caráter de inimizade contra as leis, a religião ou a tranquilidade dos muçulmanos; e como os ditos estados jamais entraram em guerra nem executaram nenhum ato de hostilidade contra nenhuma nação maometana, os lados declaram que nenhum pretexto derivado de opiniões religiosas jamais deverá causar a interrupção da harmonia existente entre os dois países.” [...] As palavras que abrem essa citação hoje causariam furor nas autoridades de Washington.
É importante prestar atenção, pois o Dawkins realmente é malandro. John Adams, acima, disse que o GOVERNO americano não é, em nenhum sentido, fundamentado na religião cristã. O termo “nação cristã” pode muitas vezes dizer que é um país de maioria cristã. Quer dizer, negar um “governo cristão” não é o mesmo que negar uma “nação cristã”. Essa é só a primeira tentativa de manipulação semântica de Richard Dawkins.
Ademais, tais palavras não causaram furor na época… e nem causariam agora.
Bem, Dawkins escreveu seu livro em 2006, e provavelmente não assistiu à eleição de Barack Obama, que chegou recentemente ao excesso de dizer que os Estados Unidos não são uma nação cristã, mas também uma nação budista, nação muçulmana, e nação de descrentes.
Embora um discurso político, a idéia de Obama é secular, e, claramente, não causou tanto furor como Dawkins previu.
Tudo bem que Obama é de direção esquerdista, mas mesmo assim Obama pôde sim afirmar o mesmo que os pais fundadores afirmaram no passado, e a previsão de Dawkins fracassa miseravelmente.
Aqui Dawkins faz uma nova citação, feita em 1981, pelo senador Barry Goldwater, que é conservador:
[...] uma citação — talvez surpreendente — do senador Barry Goldwater em 1981, mostrando claramente a determinação com que o presidenciável e herói do conservadorismo americano sustentava a tradição laica da fundação da República: “Em nenhuma outra posição as pessoas são tão irremovíveis como em suas crenças religiosas. Não se pode arregimentar aliado mais poderoso num debate do que Jesus Cristo, ou Deus, ou Alá, ou como quer que se denomine esse ser superior. Mas, como toda arma poderosa, o uso do nome de Deus para benefício próprio deve ser usado criteriosamente. As facções religiosas que estão crescendo em toda a nossa nação não estão usando seu trunfo religioso com sabedoria. Estão tentando obrigar os líderes do governo a seguir cem por cento de sua posição. Se você discorda desses grupos reli-giosos numa questão moral específica, eles reclamam e o ameaçam com a perda de dinheiro, a perda de votos ou ambas. Estou sinceramente farto de pregadores políticos em todo este país me dizendo que, como cidadão, se eu quiser ser uma pessoa de moral, tenho de acreditar em A, B, C e D. Quem eles pensam que são? E de onde eles tiram a idéia de que têm o direito de impor suas crenças religiosas a mim? E fico ainda mais furioso porque sou um legislador que é obrigado a suportar as ameaças de todo grupo religioso que acha que tem algum direito divino de controlar meu voto em todas as votações do Senado. Hoje os advirto: vou combatê-los sem cessar se eles tentarem impor suas convicções morais a todos os americanos em nome do conservadorismo.”
Dawkins realmente não é um bom advogado de acusação. Pois esse é um exemplo que mostra o cenário atual, em que o secularismo na política (ou seja, o estado laico) é defendido até por um cristão conservador. Chega a ser divertido:
- (1) Dawkins abre um caso em que diz que hoje o secularismo corre riscos
- (2) Ele diz que nos tempos dos pais fundadores, isso não ocorreria
- (3) Como ele escreveu o livro em 2006, não previu a eleição de Obama, com seus discursos seculares, que não causaram o furor que ele previu que causaria
- (4) Só que ele ainda apresenta a declaração de um senador conservador, em 1981, sendo tão adepto do secularismo na política como os pais fundadores o foram
- (5) Os itens (4) e (5) derrubam a alegação de Dawkins
Se o próprio Dawkins deu o tiro no próprio pé, posso passar aos próximos temas, incluindo as tentativas de Dawkins em explicar a alta religiosidade nos Estados Unidos:
Muitas vezes já se ressaltou o paradoxo de que os Estados Unidos foram fundados com base no secularismo e hoje são o país mais religioso da cristandande, enquanto a Inglaterra, com uma Igreja estabelecida e chefiada por seu monarca constitucional, está entre os menos religiosos. Constantemente me perguntam por que isso acontece, e eu não sei a resposta. Imagino ser possível que a Inglaterra tenha ficado cansada da religião depois do seu pavoroso histórico de violência entre crenças, com protestantes e católicos obtendo alternadamente a supremacia e sistematicamente assassinando o outro grupo.
Para início de conversa, não há paradoxo algum. Uma base secular para a política de um pais não implica em diminuição da religiosidade na população. Muito pelo contrário.
O secularismo AJUDA a religião, pois permite que a mesma não seja exposta em um cenário que não é o dela. Quando se impõe a religião aos outros, inserindo-a na política, existe o desrespeito à religião dos outros. Isso enfraquece a religião, pois ela será objeto de sucessivas críticas, justamente pelo uso da religião em um âmbito que não é o dela. O paradoxo, portanto, só existe na cabeça de Richard Dawkins.
Além disso, de novo ele tenta dizer que a Inglaterra é um país que está dentre os menos religiosos. Só que há 55 milhões de pessoas que lá vivem, e dentre elas 26 milhões são aderentes à Igreja da Inglaterra. O cristianismo é, naturalmente, a principal religião na Inglaterra.
Não é surprendente, entretanto, que a Europa apresenta um alto índice de ateísmo e pessoas sem religião, mas isso vem principalmente da adição de países socialistas ou ex-socialistas ao “core” da União Européia. Mas não o suficiente para afirmar que a Inglaterra está entre os “menos religiosos”.
Outro problema no argumento de Dawkins é dizer que essa “baixa religiosidade” seria resultante das guerras entre protestantes e católicos, só que, como já demonstrado no Capítulo 1 desta refutação (ver aqui), ele sequer comprovou que aquele era um conflito religioso. Na verdade, era um conflito pela independência, que não conspirou nem um pouco a favor da imagem que Dawkins tenta vender: a de que a religião é a causa da maioria dos conflitos.
Em seguida, Dawkins tenta arrumar uma explicação para a alta religiosidade americana:
Outra sugestão emana da observação de que os Estados Unidos são um país de imigrantes. Um colega me aponta que os imigrantes, arrancados da estabilidade e do conforto de sua família na Europa, podem muito bem ter adotado a Igreja como uma espécie de parente substituto em terra estrangeira. É uma idéia interessante, merecedora de mais pesquisas. Não há dúvida de que muitos americanos encaram sua igreja local como uma unidade importante de identidade, que tem, sim, alguns dos atributos de família.
Notem de onde vem a fonte de Richard Dawkins: um colega dele. Talvez por vergonha, ele nem citou o nome do colega. Mas posso supor que poderia ser o Peter Atkins? Ou o Christopher Hitchens? Se for, são fanáticos como ele. E, novamente, uma alegação sem evidências. Curiosamente, a religião defende a família, o relacionamento estável, o que diminuiria o risco da pessoa estar “sozinha”. Mas essa companhia defendida é no âmbito familiar. A Igreja jamais pretendeu ser substituta da família. Como se nota, Dawkins escreve instintivamente, ele sequer raciocina em dados momentos.
Vamos à próxima hipótese dele:
Outra hipótese é que a religiosidade dos Estados Unidos provém, paradoxalmente, do secularismo de sua Constituição. Precisamente porque os Estados Unidos são legalmente laicos, a religião se transformou num empreendimento liberado. Igrejas rivais competem por congregações — e pelo gordo dízimo que elas trazem consigo — e a concorrência é marcada por todas as técnicas agressivas de venda do mercado. O que funciona para o sabão em pó funciona para Deus, e o resultado é algo que se aproxima de uma mania de religião nas classes menos instruídas.
E não é que essa hipótese é até razoável? Realmente, o secularismo da Constituição auxilia a religião, pelos motivos já apresentados. Na China, por exemplo, que é um país oficialmente ateu, a religião não é liberada, sendo limitada pelo governo. Obviamente, o ateísmo se torna criticável na China por essa atitude.
Só que a explicação de Richard Dawkins, ao final, é totalmente furada, dizendo que “o resultado é algo que se aproxima de uma mania de religião nas classes menos instruídas”. Essa conclusão não é suportada pelo argumento dele, pois o sabão em pó é vendido para todas as classes, e não só as menos instruídas.
Decerto que há grupos religiosos que são direcionados basicamente à população carente, o que não implica em um atributo da religião, e sim de determinados grupos religiosos. Esse é mais um viés na “pesquisa” de Dawkins. E, como não é suportado por evidências, torna-se, como quase todo o seu capítulo, irrelevante do ponto de vista argumentativo em prol do “caso” aberto por ele.
E novamente ele ressalta o tal paradoxo… que só existe na cabeça dele.
Curiosamente, do “nada”, no capítulo, Dawkins faz uma mistureba danada de todas as suas argumentações no capítulo:
O gênio do fanatismo religioso está à solta nos Estados Unidos atuais, e os Pais Fundadores teriam ficado horrorizados. Seja ou não correto abraçar o paradoxo e culpar a Constituição laica que eles elaboraram, os fundadores eram certamente secularistas que acreditavam na separação entre religião e política, e isso é o bastante para colocá-los firmemente do lado daqueles que são contra, por exemplo, a exibição ostentatória dos Dez Mandamentos em lugares públicos estatais. Mas é tentador especular que pelo menos alguns entre os fundadores tenham ido além do deísmo. Quem sabe eles tenham sido agnósticos ou até absolutamente ateus?
Para variar, Dawkins apela à repetição, e quase todo o trecho acima já foi refutado neste artigo. Mas nem todos, como a idéia de que o secularismo implica em ser contra a exibição dos 10 Mandamentos em lugares públicos estatais. Não há nada disso, pois o secularismo pode admitir sim a exibição, considerando que os mandamentos são ensinamentos que dão suporte à civilização. Retirar os mandamentos, que estão estabelecidos culturalmente, é como dizer em público que a religião cristã deve ser desrespeitada, pois até uma tradição cultural ensinada por ela deve ser banida. É um caso complexo, naturalmente, mas uma ação de retirada de mandamentos de locais públicos é naturalmente uma ação que implica o favorecimento à um grupo religioso (ou melhor dizendo, anti-religioso), que são os ateus. Isso não é nada secular.
Dawkins também confessa que sua especulação em favor de sua crença de que alguns pais fundadores era ateu é oriunda apenas de sua tentação (“é tentador especular”, diz ele). Portanto, ele se deixa trair pelas próprias palavras.
Como Dawkins possui uma fé cega de que alguns pais fundadores teriam sido ateus nos dias atuais, ele faz uma tentativa aqui:
A declaração de Jefferson a seguir é indistinguível do que hoje chamaríamos de agnosticismo: “Falar de existências imateriais é falar de nadas. Dizer que a alma, os anjos e deus são imateriais é dizer que eles são nadas, ou que não existe deus, nem anjos, nem alma. Não consigo pensar de outra maneira [...] sem mergulhar no abismo insondável dos sonhos e fantasmas. Satisfaço-me e fico suficientemente ocupado com as coisas que existem, sem me atormentar com as coisas que podem até existir, mas das quais não tenho provas.”
Thomas Jefferson era claramente deísta, o que é facilmente perceptível. Não há nada ali de declaração ateísta, pois simplesmente ele atribui ao conceito de Deus uma aura material. Não há nada que dê uma interpretação agnóstica, no entanto. Simplesmente, o agnosticismo não tem nada a ver com declarações deste tipo feitas por Jefferson. [N.E. – No próximo artigo, comentarei em detalhes os fracassos de Dawkins ao lidar com o agnosticismo, domínio de conhecimento no qual ele se embreta todas as vezes, portanto não aprofundarei neste assunto neste momento]
Dawkins faz mais uma tentativa:
Considero emocionante o conselho de Jefferson, ainda na carta a Peter Carr: “Joga fora todos os medos de preconceitos servis, sob os quais as mentes dos fracos se curvam. Coloca a razão firmemente no trono dela, e apela ao tribunal dela para todos os fatos, todas as opiniões. Questiona com coragem até a existência de Deus; porque, se houver um, ele deve aprovar mais o respeito à razão que o medo cego.”
Ué, e qual religião proíbe o questionamento? Só se for uma religião inventada por Dawkins, pois a religião católica, por exemplo, defende o questionamento. É possível para um religioso questionar até a existência de Deus. Aliás, ele pode questionar tudo. Esse é o livre arbítrio. De novo, Dawkins não consegue defender o seu “caso”.
A próxima tentativa de Dawkins é mais patética ainda:
Declarações de Jefferson, como a de que “o cristianismo é o sistema mais pervertido que já brilhou sobre o homem”, são compatíveis com o deísmo, mas também com o ateísmo.
Mas onde? Quer dizer que alguém criticar uma religião ESPECÍFICA é algo em direção ao ateísmo? Dawkins devia estar bêbado quando escreveu isso, pois é um discurso nonsense até para uma criança. Um muçulmano poderia dizer o mesmo que Jefferson disse, e isso não significa ser compatível com o ateísmo. De novo, Dawkins foi patético.
Em seguida, ele tenta mudar de assunto, e cita um livro de David Mills, que também é de pregação militante ateísta:
David Mills, em seu admirável livro Atheist universe, conta uma história que você chamaria de uma caricatura pouco realista de intolerância policial, se fosse ficção. Um curandeiro cristão fazia uma “Cruzada dos Milagres” que chegava à cidade de Mills uma vez por ano. Entre outras coisas, o curandeiro incentivava os diabéticos a jogar sua insulina fora, e os pacientes de câncer a desistir da quimioterapia e a rezar por um milagre. Com bons motivos, Mills decidiu organizar uma manifestação pacífica para advertir as pessoas. Mas ele cometeu o erro de contar sobre suas intenções à polícia e pedir proteção policial para possíveis ataques dos defensores do curandeiro. O primeiro policial com quem ele falou perguntou: “Você vai protestar por ele ou contra ele?”. Quando Mills respondeu “contra ele”, o policial disse que pretendia ir ele mesmo ao ato e que planejava cuspir no rosto de Mills quando passasse diante da manifestação. Mills resolveu tentar a sorte com um segundo policial, que disse que, se algum defensor do curandeiro atacasse Mills com violência, Mills seria preso por estar “tentando interferir na obra de Deus”. Mills foi para casa e tentou telefonar para a delegacia, na esperança de encontrar um pouco mais de solidariedade num nível superior. Finalmente conseguiu falar com um sargento, que disse: “Vá para o inferno, amigo. Nenhum policial quer proteger um ateu maldito. Espero que alguém o acerte direitinho”. Parece que naquela delegacia estavam em falta o leite da bondade humana e o senso do dever. Mills conta que falou com sete ou oito policiais naquele dia. Nenhum quis ajudar, e a maioria lhe fez ameaças diretas de violência.
Engraçado que tal citação é baseada em evidência anedota de David Mills. Para piorar, Mills não fala nada a respeito de como seria o protesto dele. Seria ofensivo? Isso por si só já justificaria uma rejeição. Aliás, se Mills já suspeitava de um ataque violento ao seu protesto, será que isso já não seria um indício de que ele estaria ali para ofender? Lembremos que os neo ateus defendem o DESRESPEITO aos religiosos. Em suma, a citação acima não serve como evidência de nada e nem sequer de preconceito contra os ateus.
Dawkins prossegue no drama:
São muitas as histórias de preconceitos contra ateus, mas Margaret Downey, fundadora da Rede de Apoio Antidiscriminação (Anti-Discrimination Support Network — ADSN), mantém registros sistemáticos de casos como esse, através da Freethought Society of Greater Philadelphia. eu banco de dados de incidentes, divididos nas categorias comunidade, escola, local de trabalho, mídia, família e governo, inclui exemplos de perseguição, perda de emprego, rejeição familiar e até assassinato.
Na maioria dos casos, é evidente que tudo não passa de um dramalhão excessivo, querendo chamar a atenção dos outros. O próprio Dawkins defende que os ateus devem se unir para desrespeitar os religiosos. Um revide é natural, e portanto, há um precedente aberto.
É interessante no entanto citar o que seria o caso de “assassinato” por alguém ser ateu. O caso é o de Larry Hooper, que teria sido morto por Arthur Shelton, um colega de quarto cristão, PELO FATO de Hooper ser ateu.
Na verdade, a notícia (que pode ser lida em sua versão original aqui) apenas mostra que a vítima era atéia e que o assassino era um cristão. O assassino afirmou que o colega de quarto era “o Diabo em pessoa”, para justificar o crime. Isso leva a suspeitas de que haviam conflitos entre ambos, e que esse foi o motivador do homicídio. É claro que dizer que alguém é o “Diabo em pessoa” é uma metáfora para dizer que o comportamento do outro era imoral, ou coisas do tipo, mas de forma alguma implica diretamente em um crime por causa de religião, e não serve para apoiar o caso citado por Dawkins. Mais um tiro fora do alvo do autor inglês.
Em seguida, Dawkins parte para a argumentação clichê:
As provas documentadas por Downey do ódio e da incompreensão dirigidos aos ateus tornam mais fácil crer que, de fato, é virtualmente impossível para um ateu honesto ganhar uma eleição pública nos Estados Unidos. Há 435 membros na Câmara dos Deputados e cem no Senado. Presumindo que a maioria desses 535 indivíduos seja uma amostra culta da população, estatisticamente é quase inevitável que um número significativo deles seja de ateus. Eles devem ter mentido ou escondido sua verdadeira convicção para ser eleitos. Quem pode culpá-los, considerando o eleitorado que tiveram de convencer? É consenso universal que admitir o ateísmo seria um suicídio político instantâneo para qualquer presidenciável.
A dificuldade de eleição de ateus não implica em ódio e incompreensão de outras partes. Não há nada disso. Pode justamente ser uma questão gregária, em que naturalmente se vota em pessoas que estão alinhadas com seus ideais. E sem nenhum preconceito, diga-se.
A idéia de que vários deputados mentiram ou ocultaram uma suposta convicção ateísta para serem eleitos também carece de provas, e não serve para o “caso” dele.
E, de novo, o discurso recente de Barack Obama mostra que Dawkins está errado. Obama é suspeito por muitos de ser um descrente, e nem isso o impediu de ser eleito.
É claro que provavelmente as pesquisas, quando são feitas, ressaltam o “voto em um ateu”, e a expressão atualmente é associada a intolerância. Isso é culpa, principalmente, por causa de ateus como Richard Dawkins, que são extreamemtne intolerantes. Mas, no dia-a-dia, em que o ateísmo não é ressaltado, isso não se torna um fator de discriminação.
De novo, Dawkins tenta desviar:
Esses fatos do clima político atual nos Estados Unidos, e tudo o que eles implicam, teriam horrorizado Jefferson, Washington, Madison, Adams e todos os seus amigos. Tenham sido eles ateus, agnósticos, deístas ou cristãos, teriam recuado alarmados diante dos teocratas da Washington do início do século XXI.
O que implica a dificuldade de um ateu ser eleito com a SECULARIZAÇÃO? Não tem nada a ver uma coisa com a outra.
Uma coisa é a secularização política, outra coisa é o direito individual de cada um em votar em quem quiser. Será que Richard Dawkins quer também proibir o direito de alguém não votar em um ateu? Lembremos que não são todos os ateus, mas a campanha de Dawkins envolve vender a imagem em público de que ateísmo tem que ser intolerante. Como eu poderia votar em alguém que lê e segue Richard Dawkins? Eu voto em qualquer um, menos nessa pessoa. E não tenho nada contra os ateus. Mas qual o risco de que eu, ao votar em um ateu, estaria votando em alguém que segue a Dawkins?
Em relação aos pais fundadores, para fechar a questão, vamos a uns dados: no total, eram 74 delegados de 12 estados (as 13 Colônias, com exceção de Rhode Island). Dos 74 delegados, 55 foram signatários da Constituição.
Alguns delegados não possuíam religião. Três eram católicos, 28 da Igreja Episcopal dos Estados Unidos da América, oito presbiterianos, sete congregacionalistas, dois luteranos, dois reformados neerlandeses e dois metodistas. Alguns deles não possuíam religião, mas segue um escore importante quanto ao restante:
- Católicos = 3
- Igreja Episcopal = 28
- Presbiterianos = 8
- Congregacionalistas = 7
- Luteranos = 2
- Reformados neerlandeses = 2
- Metodistas = 2
Somatória = 52. Ou seja, uma grande maioria religiosa, sendo que alguns outros tinham características deístas, como Thomas Jefferson.
E, mesmo assim, defenderam o estado laico. Muito diferente dos chineses, atualmente, que são um país com maioria ateísta no governo, e que não prezam pelo estado laico.
Mais um motivo para mostrar que luta por secularização na política NÃO É OPONENTE à religião em si.
Abaixo segue o fecho desta seção:
O Deus deísta com frequência associado aos Pais Fundadores com certeza já é bem melhorado se comparado ao monstro da Bíblia. Infelizmente, não é muito mais provável que ele exista, ou tenha existido. Em qualquer das formas de Deus, a Hipótese de que Deus Existe é dispensável.*
Só para retificar: aos Pais Fundadores só pode ser associado o secularismo, que vale até hoje na política americana. Deus deísta é de alguns pais fundadores, e o Deus teísta de muitos outros.
Aproveito também relembrar que a “Hipótese de Que Deus Existe” não é uma hipótese, é um princípio, um axioma. Já foi ressaltado isso anteriormente, só que é importante fazê-lo de novo, pois Dawkins afirma que a “hipótese” é dispensável. De onde ele conclui isso? Novamente, apenas é uma expressão de sua vontade, o que de forma alguma é um argumento contra Deus.
No geral, essa seção do livro possui realmente muito mais conteúdo do que as duas seções anteriores (sobre Politeísmo e Monoteísmo), só que a quantidade de erros é também muito maior.
A coisa piora bastante ainda na próxima seção, em que Dawkins fala do Agnosticismo.
Deus, Um Delírio – Capítulo 2 – Pt. 1 – O Deus de Richard Dawkins, Um Delírio Infantil

O segundo capítulo do livro de Richard Dawkins começa com uma introdução à várias perspectivas de Deus, e é um dos mais confusos de toda a obra, embora bastante esclarecedor em relação à mente de Dawkins.
É onde também ele comete um de seus erros filosóficos mais grotescos (o esquecimento do objeto de estudo sob discussão, para a discussão de algo que ele inventou).
O início, no entanto, já chega a ser constrangedor:
O Deus do Antigo Testamento é talvez o personagem mais desagradável da ficção: ciumento, e com orgulho; controlador mesquinho, injusto e intransigente; genocida étnico e vingativo, sedento de sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo. Aqueles que são acostumados desde a infância ao jeitão dele podem ficar dessensibilizados com o terror que sentem.
Eis então uma das citações preferidas de Dawkins. Há quem afirme que os olhos não só de Dawkins como de seus fiéis brilham diante dessa citação. O diacho é que a afirmação é de uma ingenuidade absoluta. Sejamos sinceros: Dawkins parece ou não aquelas crianças de 13 anos com birrinha querendo irritar a mãe pelo fato de ter que rezar ou ir para a Igreja por obrigação?
Existem várias formas de tratar tal tipo de comportamento, sendo um deles a psicologia inversa: na qual se finge concordar com o que o outro diz, independente da insanidade que seja. Um exemplo é dizer algo assim: “Tem razão, Deus é tudo isso, o que mais?”. Muitas vezes o próprio maluco nota o nível do ridículo de sua afirmação e cala-se. Alguns, no entanto, não se calam, e seguem com o fricote.
Uma alternativa é usar um outro modelo de psicologia inversa, mais desafiador. Algo como: “Exato, Deus é cruel, implacável, pega um, pega geral, e aí, a menininha vai chorar? Está com medinho?”.
Claro que nenhuma das duas formas é sequer argumentativa, e o seu uso é apenas recomendável quando se está diante de alguém insandecido e agindo de forma histérica.
Se o neo ateu estiver mais calmo, cabe uma análise da proposição, que é inteiramente baseada em uma análise rasteira da Bíblia. A associação de termos como “perseguidor misógino” e “homofóbico” é, por exemplo, completamente estúpida, pois tanto misoginia como homofobia referem-se à aversão a mulheres e homossexuais, respectivamente. Lembremos que dizer o ato homossexual é abominável não é o mesmo que dizer que o homossexual é abominável.
Da mesma maneira, a atribuição do item “racista” é quase demencial, simplesmente por que a Bíblia prega que todos os homens são iguais perante a Deus.
O item filicida talvez se refira ao fato de não proteger Jesus da morte? Nada mais imbecil, pois deixar de proteger alguém não é o mesmo que matar este alguém.
E assim, sucessivamente, nota-se que a atribuição de rótulos, feita por Dawkins, é completamente infantilóide e indefensável.Coisa de menino birrento mesmo.
Mas em termos de comportamento pueril, nada supera a tentativa de atribuir o rótulo “genocida” a Deus. Essa tentativa de Dawkins simplesmente denota a sua falta de inteligência e, principalmente, falta de cultura. O termo genocídio é aplicado unicamente a casos de assassinato deliberado de povos, praticado por outros povos, ou principalmente nações, por motivos étnicos, políticos, territoriais, etc. Logo, simplesmente é impossível que um Deus cometa um genocídio, pois ele jamais poderá ter diferenças específicas em relação a um outro povo.
Além de inculto e pouco inteligente, Dawkins dá uma de ingênuo ao achar que os religiosos precisam se acostumar ao “jeitão malvadão” de Deus. Ele afirma que ficamos pouco sensíveis ao terror que sentimos. Mas quem disse para Dawkins que sentimos terror? Só se não soubéssemos ler a Bíblia.
O que é o caso do filho de Winston Churchill, que Dawkins cita:
Um naïf dotado da perspectiva da inocência tem uma percepção mais clara. Randolph, filho de Winston Churchill, conseguiu — não sei como — permanecer ignorante em relação às Escrituras até que Evelyn Waugh e um irmão soldado, na vã tentativa de manter Churchill quieto quando eles estavam no mesmo destacamento, apostaram que ele não seria capaz de ler a Bíblia inteira em quinze dias: “Infelizmente isso não surtiu o efeito que esperávamos. Ele nunca tinha lido nada dela e está horrivelmente entusiasmado; fica lendo citações em voz alta: ‘Garanto que vocês não sabiam que isso veio da Bíblia…’, ou então fica se remexendo e dando risada: ‘Meu Deus, Deus não é um merda?’”.
Mas olhem só como o Dawkins tenta preparar armadilhas para os religiosos, mas no fim ele é que acaba caindo nelas.
Uma ligeira investigação sobre Richard Dawkins mostra que todo o caso dele contra a religião é construído em cima de uma interpretação da Bíblia que é aceitável para uma criança de 10 anos, no máximo. Em cima dessa interpretação (o que por si só demonstra o quanto ele é incapaz), ele realiza uma série de ataques.
E não é que ele cita Randolph Churchill, que não conhecia a Bíblia, a leu em 15 dias, e depois saiu dizendo impropérios semelhantes aos que Richard Dawkins faria?
Só que alguém que faz essa análise apenas após a primeira leitura, feita rapidamente, naturalmente não vai ter uma interpretação das melhores, realmente. A Bíblia é um livro para ser lido, relido, e depois estudado, em cima de referências, interpretações, citações, etc. Não é para ser lido e logo em seguida estipular-se um julgamento de imediato.
O pior é que Dawkins afirma que Randolph Churchill tinha “percepção mais clara”, somente por ser dotado da perspectiva da inocência.
Só que justamente a perspectiva da inocência é o que tira grande parte de sua percepção. Seria melhor que Randolph tentasse ler a Bíblia com perspicácia, e não com uma atitude precipitada…
Precipitação, aliás, que Dawkins comete aqui, onde chafurda definitivamente:
Definirei a Hipótese de que Deus Existe de modo mais defensável: existe uma inteligência sobre-humana e sobrenatural que projetou e criou deliberadamente o universo e tudo que há nele, incluindo nós. Este livro vai pregar outra visão: qualquer inteligência criativa, de complexidade suficiente para projetar qualquer coisa, só existe como produto final de um processo extenso de evolução gradativa. Inteligências criativas, por terem evoluído, necessariamente chegam mais tarde ao universo e, portanto, não podem ser responsáveis por projetá-lo. Deus, no sentido da definição, é um delírio; e, como os capítulos posteriores mostrarão, um delírio pernicioso.
Esse é o tal erro grotesco do qual falei anteriormente. Ninguém, ao apresentar qualquer tipo de argumentação em relação a um objeto ou entidade em discussão, poderia cometer um erro deste tipo, sob hipótese alguma.
Uma regra que não pode ser quebrada nesse tipo de argumentação é jamais deixar de focar no objeto defendido pelo seu oponente.
Um exemplo disso é quando alguém, em um debate, decide discordar do Big Bang. Em um debate contra físicos, o sujeito não pode sair alegando que refutou o Big Bang, ou que o Big Bang é um delírio, simplesmente por que o ovo cósmico é inviável, pela inexistência da galinha. Isso por que esse ovo cósmico é uma invenção do próprio argumentador, mas não é o ovo cósmico que é tratado pelo oponente (no caso, os físicos). Portanto, nessa situação, talvez o ovo cósmico seja um delírio, e o Big Bang também, mas não o Big Bang e o ovo cósmico, conforme considerado pelos físicos. E era justamente esse que o argumentador deveria estar questionando. E não a definição que ele inventou. Se ele refutou algo, no máximo refutou a si próprio, e não a seus oponentes.
É a mesma coisa que Dawkins pratica aqui: ele alega uma nova visão de Deus, que seria parte do processo de seleção natural. Mas os religiosos não definem Deus desta forma. Só que Dawkins quer “por que quer” definir desta forma. E, é claro, nesta versão particular de Deus, ele conclui que no final “Deus é um delírio”.
Eu não acredito em um Deus assim, e duvido que algum religioso acredite. Um Deus que é parte do processo de seleção natural? Isso não faz o menor sentido.
Nesse sentido, é claro que o Deus de Richard Dawkins não passa de um delírio. E é um delírio infantil. Não surpreende, aliás, já que é um Deus que ele mesmo inventou.
Deus, Um Delírio – Capítulo 1 – Pt. 3:1 – E começa a pregação a favor do desrespeito…

Esse é o terceiro artigo da série de textos para refutar o capítulo 1 do livro “Deus, Um Delírio”.
Os dois textos anteriores ([1] e [2]) falavam de trechos até amenos do livro, em que Richard Dawkins tentou implantar sua idéia (boba) de que Stephen Hawking, Ursula Goodenough e Albert Einstein estavam distantes de Deus e da religião. Mas lá era só o comecinho, ele estava provavelmente em ponto morto…
A partir de agora é que Dawkins começa a meter o pé na jaca.
Basicamente é o começo da diatribe contra a religião.
A meta de Dawkins é afirmar que o respeito que a sociedade possui pela religião é EXCESSIVO, e daí ele tentará justificar o seu DESRESPEITO com a religião. Esse, aliás, é o principal “caso” do primeiro capítulo.
Não passa, na verdade, de uma justificação para a intolerância dele.
Vamos começar…
É possível que leitores religiosos fiquem ofendidos com o que tenho a dizer, e encontrem nestas páginas um respeito insuficiente por suas crenças específicas (se não às crenças cultivadas por outras pessoas). Seria uma pena que essa ofensa os impedisse de continuar a ler, por isso quero esclarecer o problema aqui, logo de saída. Uma pressuposição disseminada, aceita por quase todos em nossa sociedade — incluindo os não religiosos —, é que a fé é especialmente vulnerável às ofensas e que deve ser protegida por uma parede de respeito extremamente espessa, um tipo de respeito diferente daquele que os seres humanos devem ter uns com os outros.
Hmm… o que se nota é algo bem diferente.
Alguns religiosos realmente ficam ofendidos, mas não é isso que causaria desmotivação para a leitura.
Teoricamente, o ser humano, quando ofendido, procura investigar o seu ofensor, para então acusá-lo ou atacá-lo.
No caso, uma outra alternativa, a que escolhi, é partir para a refutação, que acho muito mais divertida e agradável de se fazer, e ainda assim exponho a argumentação ruim e as fraudes de Dawkins à todos.
Só que Dawkins cria um espantalho, ao dizer que os religiosos pedem um tipo de respeito DIFERENTE daquele que os seres humanos devem ter uns com os outros. Mostrarei aqui, ao longo deste texto (e do seguinte, que juntos compõem um artigo só), que não há tal solicitação por vantagens adicionais vindas de religiosos. O caso é que Dawkins não quer dar à religião nem o mesmo o respeito que é ofertado a outros seres humanos. Dawkins quer OFENDER a religião e os religiosos.
Mostrei aqui, no artigo anterior, como ele cita a “mente religiosa” pejorativamente. Assim como várias vezes usará termos ofensivos, e também citará a “mente teológica”. Também usará termos como delírio (mal utilizado, diga-se) para se referir aos religiosos. E isso é só o começo…
Não passa de um precedente perigoso, que abre espaço para uma retaliação devida. Já que todo ser humano tem o direito (a meu ver além disso tem o DEVER) de não ser ofendido.
As várias ofensas que Dawkins faz à religião são respondidas principalmente com argumentos, mas o fato é que muitas ofensas são dirigidas aos religiosos também.
Isso pode acontecer pelo fato de que Dawkins não consegue abrir seus “casos” de maneira convincente.
O caso dele é contra o respeito à religião? Ou respeito à qualquer crença?
Pois eu posso usar o precedente aberto por Dawkins e então SOMENTE tratá-lo (e a seus leitores) somente a partir desse novo paradigma? Sendo assim, a partir daí eu poderia ofender um neo ateu sem qualquer limite?
Mas não me rebaixarei ao nível de Dawkins. Melhor refutar, pura e simplesmente, e expor a fraude dawkinista.
Mas vamos em frente:
Douglas Adams explicou tão bem, num discurso de improviso que fez em Cambridge pouco antes de morrer, que nunca me canso de divulgar suas palavras: A religião [...] tem determinadas idéias em seu cerne que denominamos sagradas, santas, algo assim. O que isso significa é: “Essa é uma idéia ou uma noção sobre a qual você não pode falar mal; simplesmente não pode. Por que não? Porque não, e pronto!”. Se alguém vota em um partido com o qual você não concorda, você pode discutir sobre isso quanto quiser; todo mundo terá um argumento, mas ninguém vai se sentir ofendido. Se alguém acha que os impostos devem subir ou baixar, você pode ter uma discussão sobre isso. Mas, se alguém disser: “Não posso apertar o interruptor da luz no sábado”, você diz: “Eu respeito isso”. Como é possível que seja perfeitamente legítimo apoiar o Partido Trabalhista ou o Partido Conservador, republicanos ou democratas, um ou outro modelo econômico, o Macintosh e não o Windows — mas não ter uma opinião sobre como o universo começou, sobre quem criou o universo [...] não, isso é sagrado? [...] Estamos acostumados a não questionar idéias religiosas, mas é muito interessante como Richard causa furor quando o faz! Todo mundo fica absolutamente louco, porque não se pode falar dessas coisas.
Isso mostra que Douglas Adams só servia para escrever livros de ficção.
Quando saiu deste território, sua declaração sobre religião foi um desastre.
Para começar, é falaciosa. Ele afirma: “Essa é uma idéia ou uma noção sobre a qual você não pode falar mal; simplesmente não pode. Por que não? Porque não, e pronto!”
Mentira deslavada.
Isso pode ser comprovado em nossa sociedade, em que católicos podem criticar o protestantismo, e os protestantes podem criticar os católicos. Dificilmente alguém vai ser morto ou preso por isso. Até ateus podem questionar os religiosos. Todo mundo pode questionar todo mundo, aliás. A única coisa que se pede, é claro, é que não se usem questionamentos ofensivos, cínicos, falaciosos, etc. De resto, a liberdade de questionamento é tamanha que a origem dos estados laicos veio oriunda das nações… religiosas.
Olhem quando ele diz que não é possível “ter uma opinião sobre como o universo começou, sobre quem criou o universo”.
Mentira de novo, pois Douglas nunca foi proibido de escrever sobre isso. Nem Dawkins. Ninguém foi.
Mas dá para notar a “agenda” escondida de Adams.
Querem ver?
Adams é desmascarado, definitivamente, quando diz: “Estamos acostumados a não questionar idéias religiosas, mas é muito interessante como Richard causa furor quando o faz!”
Aha… Quer dizer então que todo o cirquinho de Adams era para PROTEGER Dawkins em sua cruzada?
Mas de novo não passa de mentira de Adams.
Richard Dawkins não causa mais furor aos religiosos do que os revisionistas do Holocausto causam aos judeus. Ou então o furor que os adeptos da Ku Klux Klan causam à comunidade afro-americana.
Simplesmente, as reclamações contra Dawkins são por questões de ofensa e DIFAMAÇÃO.
A desonestidade intelectual de Adams fica evidente quando ele usa 3 mentiras seguidas relacionadas à religião somente para defender sua “agenda” particular.
É… eu avisei.
Eu falei que ia avaliar os textos de Dawkins com a visão de um consultor em auditoria especializado em identificação de fraudes. Uma das partes mais comuns da auditoria especializada em investigação é identificar se alguém tem uma “agenda”, na tentativa de proteger outras pessoas com os mesmos interesses, ou até mesmo seus interesses particulares. É vital para identificar situações de conflitos de interesses.
Eu suspeitei logo de cara quando vi que tinha muito espantalho na declaração de Adams.
Acho que não foi uma boa idéia de Dawkins citar o Douglas Adams…
Ah, antes que eu me esqueça: que raios significa essa declaração de que “Todo mundo fica absolutamente louco, porque não se pode falar dessas coisas”?.
Vamos lá: é todo mundo mesmo? Ou 80%? Não seria 70%? Que tal 33,56%? Desse percentual, eles ficam loucos porque não se pode falar de religião ou só ficam indignados com ofensas?
Mais uma informação anedótica de Douglas Adams, portanto. Se as outras 3 eram mentiras esfarrapadas, vou dar um desconto a ele e catalogar esta quarta “informação maliciosa” somente como anedota.
Tudo isso em um parágrafo só.
Que beleza, não?
Se é para mentir, Dawkins também estava inspirado neste capítulo:
De longe o meio mais fácil de obter permissão para ser dispensado do serviço militar em tempos de guerra é por motivos religiosos. Você pode ser um filósofo brilhante da moralidade, com uma tese de doutorado premiada sobre os males da guerra, e mesmo assim pode ter dificuldade diante dos avaliadores para ser dispensado por motivos de consciência. Mas, se você disser que seus pais são quakers, consegue fácil, mesmo que seja completamente iletrado e desarticulado quanto à teoria do pacifismo ou até quanto ao próprio quakerismo.
De onde foi que Dawkins tirou a idéia estapafúrdia de que há mais facilidade por esse aspecto? Quais os dados que sustentam essa alegação?
Não aparenta mais que a birrinha de alguém que quer pregar a teoria de um suposto privilégio da religião, mas que não consegue provar como. É só sair proclamando contra a religião, e torcer para que ninguém audite seu texto. Não foi desta vez, Dawkins…
Simplesmente não é nem preciso comentar a alegação, pois Dawkins apenas tem em mãos uma evidência anedota, não sustentada estatisticamente, portanto é irrelevante do ponto de vista do “caso” dele.
Abaixo segue o momento que esse pessoal neo ateísta geralmente usa para provocar o “ohhh…” e apelar para a emoção fácil da platéia mais inocente.
Notem o dramalhão:
No outro extremo do espectro do pacifismo, temos uma relutância pusilânime em usar nomes religiosos para facções de guerra. Na Irlanda do Norte, católicos e protestantes ganham os nomes eufemistas de “nacionalistas” e “legalistas”, respectivamente. A própria palavra “religiões” é censurada e transformada em “comunidades”, como em “guerra intercomunidades”. O Iraque, em conseqüência da invasão anglo-americana de 2003, entrou numa guerra civil sectarista entre muçulmanos sunitas e xiitas. É claramente um conflito religioso — mas no The Independent do dia 20 de maio de 2006 tanto a manchete de primeira página quanto a notícia o descreviam como “limpeza étnica”. “Étnica”, nesse contexto, é mais um eufemismo. O que estamos vendo no Iraque é uma limpeza religiosa. Também é possível argumentar que o uso original do termo “limpeza étnica” na ex-lugoslávia tenha sido um eufemismo para limpeza religiosa, envolvendo sérvios ortodoxos, croatas católicos e bósnios muçulmanos.
A regra, nesta parte do livro, parece ser a mentira deliberada mesmo.
Dawkins tenta abrir três “casos”, sobre os conflitos na Irlanda do Norte, no Iraque e na Iugoslávia, respectivamente.
Só que Dawkins precisa MENTIR para dar avanço nos “casos”.
Vamos aqui desmascarar mentira por mentira.
(1) Na questão da Irlanda do Norte, realmente existe um traço cultural ORIGINADO da religião, isso é um fato. Mas daí a dizer que é POR CAUSA da religião que o conflito ocorre, é preciso de uma credulidade acima de qualquer limite aceitável. O fato é que por fatores políticos, os protestantes e unionistas se aliaram ao domínio britânico, ao contrário dos que lutavam pela independência, do lado nacionalista e conservador, com forte apoio católico. É óbvio, portanto, que o conflito foi originado pelo domínio britânico na região, sendo que existiam pessoas que rejeitaram o domínio. Transformar isso em ‘conflito religioso” é de uma ingenuidade ímpar. Claro que Dawkins, que é inglês (opa, não seria um VESTED INTEREST aí, não? – ele livraria a cara do governo britânico para jogar a culpa na religião… ), tenta maquiar a realidade e talvez queira esconder o fato de que o governo de seu país ocupou militarmente o Ulster em 1969, e em seguida dissolveu o Parlamento de Belfast, assumindo as funções políticas e administrativas. Qual seria a proposta do Dawkins? Será que ele quer dizer que, sem religião, não existiriam opositores ao domínio britânico? Ah, Dawkins, vá plantar batatas!
(2) Na questão do Iraque, desde os tempos dos curdos, a limpeza étnica era um mantra do governo de Saddam Hussein. Nesse caso, os curdos eram considerados um fator de desestabilização do equilíbrio entre os Estados Unidos e a União Soviética. Como eram um “perigo” ao governo do Iraque, e os Estados Unidos e a Rússia não tinham interesse nenhum em protegê-los, tornaram-se vítimas fáceis. Ou será que Dawkins quer que ingenuamente acreditemos que Saddam Hussein acordou um dia e disse: “ah, eles não são de minha religião, vamos acabar com eles”. De novo, a ingenuidade necessária para acreditar nisso ultrapassa qualquer limite lógico. E o mesmo vale para a Guerra Civil do pós-guerra em 2006, em que novas limpezas étnicas ocorreram, e em alguns casos até contra cristãos, o que, no caso, não passou de rejeição à cultura ocidental. Será que Dawkins acha que se viesse uma fadinha e fizesse “plim”, transformando todo mundo em ateu, não iriam existir os conflitos? De novo… vá enrolar outro!
(3) A mesma coisa ocorria na Iugoslávia, claramente não só um conflito étnico, como também um conflito por independência. Em meados da Segunda Guerra Mundial, durante a ocupação nazista, os croatas massacraram a população civil sérvia, matando cerca de 40.000 pessoas. Após a Guerra, o Partido Comunista Iugoslavo assumiu o controle das montanhas, expulsou os nazistas e unificou todos os reinos da Iugoslávia, incluindo Sérvia, Croácia e a Bósnia. Só que isso só foi garantido por uma forte ditadura, e além do mais o rancor dos tempos da guerra uma hora iria explodir. Foi o que ocorreu quando primeiramente a Eslôvenia, e depois a Croácia e a Bósnia, declararam unilateralmente suas independências. Os sérvios foram com tudo para cima dos povos que tentaram suas independências, e partiram primeiro para cima dos croatas, que foram vítimas de limpeza étnica pelos sérvios. Ver motivação religiosa nisso é naturalmente um delírio.
Fica evidente nos 3 casos que Richard Dawkins mentiu vergonhosamente para imputar culpa à religião.
Notaram o modus operandi dele?
É assim que funciona a lógica darwinista: se há guerra entre dois povos, e estes são de religiões diferentes, a culpa é da religião.
É uma falácia grosseira de generalização apressada, que não é sustentada após qualquer avaliação cética sobre a história dos eventos.
Mas sempre é importante lembrar que o “caso” de Dawkins é dizer que as guerras são JUSTIFICADAS por causa da religião.
Só uma coisa: qual dessas guerras foi considerada JUSTIFICÁVEL por religião?
Que eu saiba, nenhum desses conflitos obtém justificação por esse motivo.
Vamos realizar a situação… será que Dawkins imagina que se a religião fosse eliminada dos cenários, as pessoas parariam de lutar? A Inglaterra iria desistir de ter a Irlanda como colônia? Ou será que os irlandeses não iriam ter motivação para lutar pela independência? Será que Sadam Hussein não teria vontade de jogar armas químicas nos curdos? E não existiria uma guerra civil posteriormente? Será que os croatas não iriam ter motivação para trucidar os sérvios na fase da unificação? Quem sabe talvez os sérvios não iriam pensar em vingança na época das independências dos reinos da Iugoslávia?
Bom, será que Dawkins imagina que todos iriam ficar ouvindo a música “Imagine”, de John Lennon, e a partir daí não lutariam mais?
A molecada tem que ser muito ingênua para COMPRAR ESSA IDÉIA…
Imaginem só a cabeça de um aborrescente altamente influenciável: “Ohh…. veja os curdos que foram exterminados, tudo por causa da religião. Se não existisse a religião, sérvios e croatas jamais brigariam. Todos viveriam em paz. Assim como na Irlanda, que jamais revidaria ao Império Britânico.”
Aí o sujeito contabiliza as mortes em todos esses conflitos e sai pregando: “está vendo como a religião é má?”.
Agora entende-se um dos principais motivos pelos quais os neo ateus lutam tão FERRENHAMENTE contra a religião.
É com manipulação de informação deste tipo que os leitores de Dawkins saem incentivados a pregar contra a religião e os religiosos.
Aos leitores religiosos: atenção, não duvido que eles nos chamem de CÚMPLICES de massacres sérvios, massacres croatas, massacres contra curdos e sunitas, ou até dos atentados do IRA. Ao menos cúmplices morais, claro.
Ou de onde surgiria tanto ódio contra religiosos?
Um dos motivos está nesse tipo de apelo emocional que o Dawkins tentou fazer, manipulando informações, e tentando jogar a platéia ateísta (ao menos os que debandaram para a campanha neo ateísta) contra os religiosos.
Como eu falei, a partir dessa parte do livro é que Dawkins começa a meter o pé na jaca.
Esses trechos comentados nesse artigo, em sua maioria, não passam de DIFAMAÇÃO, pura e simples, com informações evidentemente falsas, grande apelo emocional, como foco na DEMONIZAÇÃO do oponente.
Fica claro que o Richard Dawkins joga sujo.
E olhe que ainda há mais dois textos pela frente só para refutar o restante do Capítulo 1.
P.S. – Sim, anteriormente seriam quatro textos para refutar o Capítulo 1. Entretanto, para evitar textos excessivamente longos, este terceiro artigo foi dividido em duas partes, sendo a primeira delas esta que você leu. A parte 3:2 será publicada provavelmente na próxima atualização deste blog. Ainda nessa semana, publicarei a parte 4 (e última) da refutação, o que contabilizará 5 textos (sendo 2 relacionados ao artigo nr. 3) refutando o primeiro capítulo de “Deus, Um Delírio”.
Deus, Um Delírio – Capítulo 1 – Pt. 2 – Dawkins busca a companhia de Einstein

Os textos de Richard Dawkins sofrem de um mal que assola praticamente todos os autores de auto-ajuda: a maquiagem das informações para a adequação de dados à sua propaganda.
No texto anterior, já mostrei que Richard Dawkins maquiou o panteísmo de Stephen Hawking e Ursula Goodenough para tentar “inflar” o número de ateus.
Mas, em termos de comportamento cara de pau, nada se compara à tentativa de levar Albert Einstein para o seu território.
Mas não é só isso, pois Dawkins chega ao cúmulo de usar várias citações de Einstein e tenta usar isso como EVIDÊNCIA de que o físico judeu estava distante de Deus ou da religião.
Será verdade?
Vamos começar…
Uma das declarações mais citadas de Einstein é “Sem a religião, a ciência é capenga; sem a ciência, a religião é cega”. Mas Einstein também disse: “É claro que era mentira o que você leu sobre minhas convicções religiosas, uma mentira que está sendo sistematicamente repetida. Não acredito num Deus pessoal e nunca neguei isso, e sim o manifestei claramente. Se á algo em mim que possa ser chamado de religioso, é a admiração ilimitada pela estrutura do mundo, do modo como nossa ciência é capaz de revelar”. Parece que Einstein se contradiz? Que suas palavras podem ser escolhidas a dedo para arranjar citações que sustentem os dois lados da discussão? Não. Por “religião” Einstein quis dizer algo totalmente do significado convencional.
Dawkins apresenta duas declarações de Einstein dando a impressão de que uma delas acrescentaria uma informação NOVA à anterior.
O problema é que a segunda declaração nada acrescenta de novo, pois não é sequência e nem referência à primeira declaração, e sim aparentemente uma RESPOSTA à um questionamento.
Estranhamente, Dawkins OMITE o questionamento que foi feito.
Tsc, tsc… Dawkins, que apelação, não? Colocar uma resposta à uma questão sem citar a questão feita é o cumulo do desespero. Qual é a pergunta que Einstein respondeu? Suspeito, no mínimo.
O fato é que realmente na primeira afirmação Einstein mostrou respeito pela religião, ao passo que na segunda apenas explicou que a forma como ele entende Deus é como Deus pessoal.
Não passa de uma visão gnóstica da religião (atenção: não é o mesmo que rotular alguém de gnóstico), visão essa que pode até ser diferente da visão tradicional da Igreja Católica, mas existe há séculos: é o famoso ocultismo, do qual compartilham gente como os rosa-cruzes, alguns maçons, muitas ordens iniciáticas, vários místicos, o pessoal da nova era e os autores dos filmes “O Segredo” e “Quem Somos Nós?”.
Um exemplo é que no filme “O Segredo” tratam Deus como se fosse a energia, pois, segundo eles, as principais características de Deus estariam lá, entre elas a eternidade, a onipresença, a onisciência, a onipotência (lembremos que a energia está em todos os lugares).
É uma interpretação de Deus, e justamente aquela que gente como Amit Goswami defende, portanto é uma visão que pode vir a ser avaliada pela ciência (se não hoje, ao menos no futuro).
Não é objetivo aqui defender essa visão, pois não é exatamente a visão que possuo.
Uma coisa é fato: Einstein era religioso. Assim como a visão exposta no filme “O Segredo” era religiosa.
E por que Einstein disse que “sem a religião a ciência era manca”?
Einstein não era burro, e ele sabe que sem a visão religiosa, não existe o foco na transcendência, em olhar para além da mera existência humana, com uma visão muito além do “aqui e agora”.
Não há teorização científica de grande porte que se sustente sem essa perspectiva.
Justamente por isso, sem tal raciocínio religioso, não é que a ciência seria manca. A ciência provavelmente nem teria se iniciado…
Mas Dawkins parece ser brasileiro, pois “não desiste nunca”.
Notem abaixo:
Seguem algumas outras citações de Einstein, para dar um gostinho da religião einsteiniana:
(1) “Sou um descrente profundamente religioso. Isso é, de certa forma, um novo tipo de religião”. (2) “Jamais imputei à natureza um propósito ou um objetivo, nem nada que possa ser entendido como antropomórfico. O que vejo na natureza é uma estrutura magnífica que só compreenderemos de modo muito imperfeito, e que não tem como não encher uma pessoa racional de um sentimento de humildade. É um sentimento genuinamente religioso, que não tem nada a ver com misticismo. (3) A idéia de um Deus pessoal me é bastante estranha, e me parece até ingênua.
O fato de Einstein se declarar um descrente, mas também religioso, é outra evidência da religiosidade de Einstein. Um motivo que evidencia isso é o fato de Einstein ter escrito a expressão “descrente”, mas não ter explicitado em relação a quê. Eu mesmo, sou religioso e descrente em relação a muitas coisas.
Provavelmente Dawkins não tinha conhecido místicos como Aleister Crowley ou Austin Oman Spare, que já defendiam essa visão muitos anos antes.
Crowley alegava usar o método científico para estudar o que as pessoas, segundo ele, chamavam de “experiências espirituais”. Ele usou o termo “O método da ciência, o objetivo da religião”. Crowley dizia que as experiências espirituais não deveriam obter validade científica, mas serem criticadas e experimentadas para se chegar à profundidade do que seria o significado religioso. É quase aquilo que o Dr. Timothy Leary, o papa do LSD, tentou fazer no futuro. Leary, aliás, é um dos precursores da idéia dos “memes”.
Tudo alinhado com a religião, apesar de estar mais próximo do paganismo panteísta (e as vezes confundido erradamente com o ateísmo).
O que mais me surpreendeu foi Dawkins ter realmente tratado a “religião de Einstein” como algo novo, quando na verdade até as idéias de Crowley remontam a tempos de Paracelso, Bacon e Eliphas Levi. É ocultismo, naturalmente. De natureza panteísta. Uma mistureba danada.
Simples assim: não há “religião einsteiniana”.
Dawkins muda um pouco o foco a seguir, mas mantém a sua eterna ladainha de dizer que não é preciso ser especialista em um assunto para teorizar com autoridade sobre ele.
Vamos lá…
A noção de que a religião é uma área adequada, em que alguém possa alegar ser especialista, não pode passar sem questionamento. Aquele religioso [Um religioso católico, não referenciado por Dawkins que teria dito que “não há outro Deus que não um Deus pessoal”, criticando Einstein] certamente não teria feito deferências à opinião de um autodenominado “fadólogo” sobre a forma e a cor exatas das asas das fadas. Tanto ele como o bispo achavam que Einstein, por não ter treinamento teológico, havia interpretado mal a natureza de Deus. Pelo contrário – Einstein sabia perfeitamente bem o que estava negando.
Essa declaração ao final é aquele tipo de argumento “é por que é”. Não é argumento de uma pessoa adulta, naturalmente.
Dawkins, do nada, simplesmente tira da cartola que “Einstein sabia perfeitamente bem o que estava negando”.
Ora, se sabia, então que se MOSTRE que sabia, com um argumento, e não apenas dizendo que “ele sabia”, mas sem argumentar a favor disso.
Outro erro que Dawkins comete continuamente é dizer que a religião pode ser discutida por qualquer um, sem conhecimento dela.
Notem o que ele escreve: “A noção de que a religião é uma área adequada, em que alguém possa alegar ser especialista, não pode passar sem questionamento.”
Vamos com calma, pera aí, pera aí…Esse argumento do Dawkins está uma bagunça.
Dá para entender que Dawkins realmente acha que a religião pode ser questionada por alguém que não a conhece.
Mas e algum ARGUMENTO para dizer por que a religião pode ser questionada por um ignorante nela, e por que outras áreas não podem?
Se Dawkins abre esse precedente, então a Teoria da Evolução poderia passar a ser criticada por alguém que não a conhece.
Para evitar maus entendidos, Dawkins não devia apenas seguir com os argumentos “é por que é”, para dizer que a religião pode ser questionada por um ignorante nela. Friso de novo: ele deveria ARGUMENTAR por que algumas disciplinas podem ser questionadas por leigos nela, e outras não.
Mas ele naturalmente não faz isso.
Para piorar, Dawkins ainda diz que um certo religioso que criticou Einstein não teria feito deferências à opinião de um autodenominado “fadólogo” sobre a forma e a cor exatas das asas das fadas.
Como sempre, o neo ateu parte para a provocação de criança do jardim da infância, ao invés de argumentar feito gente grande.
Não existem “fadólogos”. (*)
E Dawkins como sempre comete a famosa petição de princípio dele, dizendo que se alguém é teólogo, ou filósofo da religião, então é alguém AUTODENOMINADO especialista nisso.
Claro que ele ignora a estrutura formal de ensino pela qual um teólogo ou filósofo da religião pode obter títulos na área.
Mais uma evidência de que Dawkins não se importa em argumentar, e sim em construir espantalhos. O que compromete todo o seu “caso” a favor de sua alegação (que, resumindo, é dizer que “qualquer um pode ser autoridade em religião”).
Só para esclarecer: é claro que alguém não precisa ser teólogo para criticar a religião, e nem biólogo para criticar a Biologia, mas é preciso CONHECER ao menos o assunto sobre o qual se vai debater.
O problema é que Dawkins não CONHECE…
Se ao menos ele CONHECESSE do assunto, ele poderia criticar com propriedade, o que jamais ele conseguiu fazer, pois todo o discurso dele não passa pelo menor exame suportado por um checklist de falácias ou checklist de dialética erística.
Ninguém andou exigindo que Dawkins fosse UM TEÓLOGO. E nem que Einstein fosse UM TEÓLOGO ou FILÓSOFO DA RELIGIÃO…
Aliás, esse é mais um estratagema de Dawkins.
Dawkins exagera a argumentação do oponente, refuta este exagero, e FINGE que refutou o argumento.
O que importa é saber o motivo pelo qual Dawkins tenta impor sua ladainha. Simplesmente ele quer refutar críticas de pessoas que afirmam que Einstein não sabia do que estava falando. Para isso, ele diz que qualquer um pode falar de religião (falar mal, principalmente) e não ser questionado por ter feito críticas. Não é uma belezinha?
A primeira das críticas à Einstein que Dawkins quer questionar segue abaixo:
O presidente de uma sociedade de história em Nova Jersey escreveu uma carta que deixa tão incriminadoramente exposta a debilidade do pensamento religioso que vale a pena lê-la duas vezes: “Respeitamos sua sabedoria, Dr. Einstein; mas existe uma coisa que o senhor não parece ter aprendido: que Deus é um espírito e não pode ser encontrado pelo telescópio ou pelo microscópio, assim como o pensamento ou a emoção humanos não podem ser encontrados na análise do cérebro. Como todo mundo sabe, a religião se baseia na fé, não no conhecimento. Todas as pessoas que pensam talvez sejam assaltadas, às vezes, por dúvidas religiosas. Minha própria fé já vacilou muitas vezes. Mas nunca contei a ninguém sobre minhas aberrações espirituais por do is motivos: 1) temi que pudesse, pela mera sugestão, perturbar e prejudicar a vida e as esperanças de alguém; 2) porque concordo com o escrito que disse: ‘Há algo de maligno em alguém que queira destruir a fé do outro’. [...] Espero, Dr. Einstein, que a citação esteja errada e que o senhor ainda vá dizer alguma coisa mais agradável para o vasto número de americanos que tem o prazer de homenageá-lo”. Que carta reveladora! Cada frase está encharcada de covardia intelectual e moral.
Como diria o Jack, o Estripador, vamos por partes.
Primeiro a questão da amostragem, que comentarei logo após a próxima citação dawkinista. Não se pode esquecer da afirmação: “que deixa tão incriminadoramente exposta a debilidade do pensamento religioso”.
Em segundo, o que existe de covardia intelectual e moral nesta carta?
Só se for o apelo emocional (que realmente existe), e um patrulhamento da opinião de Albert Einstein.
Será que é isso que Dawkins chama de covardia intelectual e moral?
Capaz, só que isso resulta em um problema sério.
Durante várias partes de seu livro (e futuras refutações mostrarão isso aqui), Richard Dawkins pratica intimidações contra seus parceiros de teoria da evolução Kenneth Miller, Stephen Jay Gould e Michael Ruse pelo fato destes simplesmente serem tolerantes com a religião.
O problema é que essa intolerância praticada pelo religioso citado, não é tão diferente daquela praticada por Dawkins.
Dawkins não apresenta nenhum argumento a favor de que covardia intelectual e moral só ocorreria se o patrulhamento fosse de um religioso em relação a alguém que discorda dessa religião.
Dessa forma, temos que assumir que as declarações de Richard Dawkins contra Ruse, Miller e Stephen Jay Gould são um ato de covardia intelectual e moral?
Reforçarei esse ponto ao final deste texto.
Mais uma carta que Dawkins divulga:
Menos abjeta, mas mais chocante, foi a carta do fundador da Associação do Tabernáculo do Calvário, em Oklahoma: “Professor Einstein, acredito que todo cristão nos Estados Unidos vai lhe responder: ‘Não vamos abrir mão de nossa crença em nosso Deus e em seu filho Jesus Cristo, mas o convidamos, se o senhor não acredita no Deus do povo desta nação, a voltar ao local de onde veio’. Fiz tudo o que podia para ser uma benção para Israel, e vem o senhor com uma declaração de sua língua blasfema e faz mais para prejudicar a causa de seu povo que todos os esforços dos cristãos que amam Israel são capazes de fazer para acabar com o anti-semitismo em nossa terra. Professor Einstein, todo cristão dos Estados Unidos vai indiretamente lhe responder: ‘Pegue sua teoria maluca e menti rosa da evolução e volte para a Alemanha, de onde veio, ou pare de tentar destroçar a fé de um povo que o recebeu de braços abertos quando o senhor foi obrigado a fugir de sua terra natal’”.
Responda rápido. O que é pior do que uma amostragem ruim? Fácil. Duas amostragens ruins.
E Dawkins realmente conseguiu mostrar duas cartas contra Albert Einstein que traziam traços de intolerância, e até chantagem emocional (coisa que Dawkins também adora fazer, diga-se).
Não que a crítica a Albert Einstein possuir uma concepção pueril do Deus das religiões tradicionais fosse inválida, pelo contrário. Einstein não aparenta mesmo ter uma concepção teologicamente sustentável de Deus, mas esse é o direito dele. Eu não acho o Einstein completamente ignorante. Ele é ignorante em alguns aspectos da religião tradicional, pela cosmovisão judaico-cristã. Mas não é ignorante quanto a espiritualidade em si.
Mas é fato que as cartas possuem algo de intimidatório sim.
E onde estaria o problema?
Como já dito antes, na amostragem ruim.
Quem são esses dois “representantes” da religião?
Engraçado ainda é que nem um dos dois foi sequer citado pelo seu nome.
Qual a relevância de ambos para as suas Igrejas? Ou para a própria religião em si?
Essa é a famosa amostragem seletiva que compõe grande parte do ataque de Dawkins à religião, e que automaticamente implode o “caso” de Dawkins.
Não é, naturalmente, o que REPRESENTA a mente religiosa.
Sempre é bom reler o que Dawkins escreveu: “que deixa tão incriminadoramente exposta a debilidade do pensamento religioso”.
Detalhe: mesmo com a contradição de Einstein em relação a um Deus pessoal, e algumas opiniões fortes dele a respeito dessa interpretação, Einstein também foi citado várias vezes de maneira positiva por religiosos.
Notem o estratagema de Dawkins:
- (1) Dawkins escolhe duas pessoas que não são representativas
- (2) Essas duas possuem uma postura realmente condenável
- (3) Dawkins cita que ambas demonstram e expõem a “debilidade do pensamento religioso”
- (4) Dawkins ignora os religiosos que elogiaram Einstein
- (5) E esse elogio, mesmo entendendo que Einstein não respeita o Deus pessoa, mas respeita a religião, é uma mostra de que muitos religiosos são tolerantes
- (6) Para a diatribe do Dawkins, ele omite esse tipo de opinião e cita apenas aquelas pessoas do item (1)
Fica bem evidente, então, a análise enviesada de Dawkins. Não passa de fraude intelectual.
A seguir ele tenta distanciar Einstein da religião, e até suspeita dele ser ateu, ou “ateu enfeitado”. Ele tenta executar o estratagema ao falar de teísmo, deísmo e panteísmo:
Um teísta acredita numa inteligêncis sobrenatural que, além de sua obra principal, a de criar o universo, ainda está presente para supervisionar e influenciar o destino subseqüente de sua criação inicial. Um deísta também acredita numa inteligência sobrenatural, mas uma inteligência cuja ações limitaram-se a estabelecer as leis que governam o universo. Os panteístas não acreditam num Deus sobrenatural, mas usam a palavra Deus como sinônimo não sobrenatural para a natureza, ou para o universo, ou para a ordem que governa o seu funcionamento. [...] Os deístas diferem dos teístas pelo fato de o Deus deles não atender a preces, não estar interessado em pecados ou confissões, não ler nossos pensamentos e não intervir com milagres caprichosos. Os deístas diferem dos panteís tas pelo fato de que o Deus deísta é uma espécie de inteligência cósmica, mais que o sinônimo metafórico ou poético dos panteístas para as leis do universo. O panteísmo é um ateísmo enfeitado. O deísmo é um teísmo amenizado.
Mesmo que a explicação de Dawkins não seja de todo errada (embora contenha alguns cinismos que não passam de molecagem dele), o desastre dawkinista aparece aqui: “O panteísmo é um ateísmo enfeitado.”.
Se nessa parte Dawkins quer “empurrar” Einstein para o ateísmo, sinto decepcioná-lo e a seus leitores pois vejam o que Einstein afirma: “Diante de tal harmonia no Cosmos, a qual eu, como minha mente humana limitada, sou capaz de reconhecer, ainda existem pessoas que dizem que não há Deus. Mas o que realmente me incomoda é que eles me citam para dar suporte à tais opiniões”. (em diálogos com Hubertus, príncipe de Löwenstein-Wertheim-Freudenberg).
Como se vê, nenhum endosso de Einstein ao ateísmo. Muito menos ao ateísmo miliante.
Olhem só mais: “Eu não sou um ateísta. Eu não acho que posso me entitular panteísta. O problema envolvido é vasto demais para as nossas mentes limitadas. Estamos na posição de uma criança pequena adentrando uma enorme biblioteca repleta de livros em várias línguas. A criança sabe que alguém deve ter escrito estes livros. Ela não sabe como. Ela não entende as linguas nas quais eles são escritos. A criança tem uma breve suspeita de uma ordem misteriosa no arranjo dos livros mas não sabe o que é. Isso, ao que me parece, é a atitude até mesmo das pessoas mais inteligentes a respeito de Deus. Nós vemos o universo maravilhosamente arranjado e obedecendo certas leis mas entendemos estas leis apenas na forma de um débil reflexo.”
Depois disso dito, e da ausência de suporte de Einstein ao ateísmo, principalmente o ateísmo de Dawkins, o autor inglês deveria ao menos escrever uma ERRATA, pois realmente ele omitiu informações fundamentais a respeito de Einstein.
Mas lá vem mais…
Deixe-me resumir a religião einsteiniana em umais uma citação do próprio Einstein: “ter a sensação de que por trás de tudo que pode ser vivido há uma coisa que nossa mente não consegue captar, e cujas beleza e sublimidade só nos atingem indiretamente, na forma de um débil reflexo, isso é religiosidade. Nesse sentido, sou religioso”. Nesse sentido, também sou religioso, com a ressalva de que ‘não consegue captar’ não significa ‘para sempre incaptável’.
Engraçado que o Dawkins lê uma frase de Einstein, tira-a do contexto, e tenta obter alguns pontos com o discurso em que joga para a galera: “nesse sentido, também sou religioso”.
Só a postura de admiração de Einstein, e reconhecimento do desconhecimento, já diferencia este de Dawkins.
Einstein é cabeça aberta, ao passo que Dawkins é adepto do cientismo (só assim para dizer que a totalidade do universo será um dia “captável”). De onde ele pode tirar isso senão da fé cega? Não há evidências de que UM DIA o que está por trás de TUDO será captável.
O fato é que Einstein sabia a complexidade do universo muito MELHOR que Richard Dawkins.
Dawkins tem um escopo de estudo restrito, e tenta DESESPERADAMENTE ampliar esse escopo do estudo (por isso ele defende gene egoísta, sociobiologia, memética e coisas do tipo).
Einstein jamais precisou usar tais estratagemas, pois a área de estudo dele já COMPREENDE todo o cosmo.
Se Dawkins se sente inferiorizado, e tenta “expandir” artificialmente sua matéria, isso é um problema do Dawkins. Nunca foi problema para o Einstein.
Dawkins dificilmente compreenderia a mente de Einstein, que NÃO É DIFÍCIL de entender por alguém que já foi agnóstico (este que vos escreve). Ou até alguém que já foi gnóstico.
Vejam o que Einstein escreveu em 1950 em uma carta para M. Berkowitz: “Minha posição a respeito de Deus é a de um agnóstico. Eu estou convencido que uma consciência vívida da importância primal dos princípios morais para aperfeiçoamento e enobrecimento da vida não precisa da idéia de um ditador de leis, especialmente um ditador de leis que trabalha com base em recompensa e punição”.
Agora é diretamente para o Dawkins…
Ué, Dawkins.
Tu não pesquisou não?
Cadê o ceticismo? O gato comeu?
Tu publica um livro em que tergiversa sobre Einstein ser deísta ou panteísta, e não percebeu que o sujeito era principalmente agnóstico? Não te ensinaram a investigar ceticamente lá na Universidade de Oxford? Não teve nem a curiosidade?
Tradução: Dawkins = CHARLATÃO!
Mas ainda há mais diversão pela frente. Dawkins realmente fala do que não sabe. Vejam:
Há todos os motivos do mundo para se imaginar que einsteinismos famosos como “Deus é sutil, mas não é malicioso” ou “Ele não joga dados” ou “Deus teve escolha para criar o universo?” sejam panteístas, e não deistas, e certamente não teístas. “Deus não joga dados” deve ser traduzido como “A aleatoriedade não habita o cerne de todas as coisas”. “Deus teve escolha para criar o universo?” significa “Teria podido o universo começar de outra forma?”. Einstein usou “Deus” num sentido puramente metafórico, poético. Assim como Stephen Hawking, e como a maioria dos físicos que ocasionalmente escorrega e cai na terminologia da metáfora religiosa.
Não. Não. Mil vezes não. Mas de jeito nenhum.
Ninguém em sã consciência pode dizer que esse Dawkins entende alguma coisa de argumentação filosófica.
Não dá nem para comentar essas “traduções” que Dawkins fez das frases de Einstein, sendo que o neo ateu NEM ENTENDEU como Einstein pensa. Só dá para dizer que as 3 traduções são… bobinhas.
Agora, Dawkins cai em contradição, pois ele interpreta a Bíblia literamente, mas na hora de interpretar Einstein ele IMPLORA que nós entendamos que Einstein escreveu algo num sentido puramente “metafórico, poético”. E pede o mesmo em relação a Stephen Hawking? [N.E. - Agradecimentos ao Ubiratan Olivério pela dica]
O Dawkins não tem coerência.
Só por que ELE (Dawkins) não admite a palavra Deus, ele tem que arrumar a desculpinha esfarrapada de que havia somente o sentido metafórico na declaração de Einstein?
Deixe de ser enrolador, Sr. Dawkins, é claro que Einstein falava de Deus sim. Só não falava de um Deus pessoal, mas sim um Deus impessoal.
E calma que vem mais (esse trecho do livro eu confesso que é obra rara do parangolé: Dawkins estava inspirado, sendo este quase um livro trash).
A forma como ele finaliza esse trecho é uma pérola:
Mesmo assim gostaria que os físicos evitassem usar a palavra Deus em seu sentido metafórico especial. O Deus metafórico ou panteísta dos físicos está a anos-luz de distância do Deus intervencionista, milagreiro, telepata, castigador de pecados, atendedor de preces da Bíblia, dos padres, mulás e rabinos, e do linguajar do dia-a-dia. Confundir os dois deliberadamente é, na minha opinião, um ato de alta traição intelectual.
Quer dizer, o Dawkins é traumatizadinho com o termo Deus e pede que os outros não o usem.
E mais. Ele afirma que isso é “um ato de alta traição intelectual”.
Será que o Dawkins não teve alguém para revisar o seu livro? Pois isso que ele faz é tentativa de intimidação e chantagem emocional.
EXATAMENTE igual os dois religiosos que tentaram fazer o mesmo com Einstein.
Ou seja, isso que Dawkins tentou fazer em relação aos físicos que citam Deus não passa de covardia intelectual e moral.
Ainda para torturar os fiéis de Dawkins, vejam o que Einstein afirmou, ainda em suas conversações com Hubertus: “Eu tenho afirmado repetidamente que em minha opinião a idéia de um Deus pessoal é uma idéia infantil. Você pode me chamar de um agnóstico, mas eu não compartilho do espírito cruzado dos ateístas profissionais cujo fervor é principalmente originado de um ato doloroso de libertação dos grilhões da doutrinação religiosa que eles receberam na infância”.
Aos neo ateus: foi difícil de entender?
Einstein não compartilha com a idéia da turminha que segue gente como Dawkins.
Para entender mentes como a de Einstein é recomendável a leitura de livros como “A Gnose de Princeton”, de Raymond Ruyer, e “O Gatilho Cósmico”, de Robert Anton Wilson.
Neste último inclusive há o termo novo agnosticismo, que era pregado por Wilson como uma aceitação da religiosidade universal e um foco na abordagem científica para a religião e Deus.
Antes de me converter ao catolicismo (que, se estudado a fundo, não tem os traços criticados por Einstein), eu partilhava de uma visão similar a de Albert Einstein.
E muitas pessoas possuem esta perspectiva.
E não se deixem enganar: é uma perspectiva RELIGIOSA, e envolve a crença em DEUS. Não envolve a crença em um Deus pessoal e nem a interpretação de livros sagrados literalmente. Naturalmente que não é uma crença a ser endossada pela religião católica. Mas não deixa de ser religião por isso.
Mas o foco não é falar de mim: apenas citei os aspectos acima para dizer que jamais tive problema para entender o que Einstein queria dizer, mesmo que eu não concorde com tudo hoje em dia.
Já Dawkins apelou para uma “religião einsteniana”, tentou usar interpretações de textos como metáforas (onde não haviam metáforas), omitiu declarações importantes de Einstein, tudo em nome de dizer que ele estava “mais para panteísta”, que, segundo Dawkins, era um “ateísmo enfeitado”.
Ficou evidente neste artigo que Dawkins apenas tentou cometer fraude intelectual.
O pior foi ele tentar DEFENDER Einstein de algo que nem precisava defesa. Dawkins tentou “defender” Einstein da “acusação” de crer em Deus e respeitar a religião (como se isso fosse um crime). Sendo que Einstein jamais quis tal defesa…
Alguns pontos, em resumo:
- (1) Einstein não tinha muita certeza do que significava Deus pessoal
- (2) Ainda assim, é evidente que Einstein não possui apreço por um Deus pessoal e pela religião literal
- (3) De qualquer forma, Einstein acreditava em Deus e na religião
- (4) Einstein basicamente era agnóstico, e sua religião podia transitar entre gnosticismo, teísmo e panteísmo, mas nunca foi 100% clara em sua decisão (mas compreensível em linhas gerais)
- (5) Einstein jamais foi ateu
- (6) Einstein não respeitava a postura ateísta militante
- (7) Toda a citação feita por Richard Dawkins relacionada a Einstein mais ajuda do que prejudica a sua causa pregada no livro “Deus, Um Delírio”
Esse trecho do livro de Richard Dawkins me fez notar que há muito mais do que irracionalidade no discurso de Dawkins.
Há uma patologia profunda e uma mitomania incontornável, que faz com que o autor neo ateu não tenha mais conexão com a realidade.
Uma pena que seus leitores sigam pelo mesmo caminho….
P.S.: Há uma carta de 1954 em que supostamente Albert Einstein foi mais incisivo quanto à religião. Entretanto, a carta ainda está por ser validada. Outro problema é que a carta foi escrita justamente após Einstein ter lido o livro do filósofo Erik Gutkind, chamado ‘Choose Life: The Biblical Call to Revolt’, que era bastante preconceituoso contra as outras religiões, os ateus, os agnósticos e os pagãos. A carta de Einstein, com muito cunho pessoal, poderia ser uma reação imediata à uma ofensa. Justamente por isso, e por não ter sido citada no livro de Richard Dawkins, esta carta não foi citada neste artigo. Só que, de maneira alguma, elas dariam suporte às alegações de Dawkins. Pelo contrário, a carta só representaria um ataque aos religiosos fanáticos ou extremamente literais.
(*)Me precipitei, realmente, nessa. E nesse caso foi uma questão de ignorância minha nesse caso específico. O Pedro Henrique me escreveu o seguinte, a respeito, no Orkut: “Vede o livro “O Mundo Real das Fadas ” de Dora Van Gelder, ou “O Encanto do mundo das fadas” de Ted Andrews. Ou seja,existem fadólogos,existe pagãos,existem wiccanos.Você poderia colocar que esta questão das fadas, não se aplica a questão de Deus,ou das crenças de Eisntein de dos críticos de Eisntein citados por Dawkins. E, muito menos,há relevância disto com relação as cores das asas das fadas… É um inversão lógica. Na crença no diabo,existem alguns que acreditam nele como pessoa( Frei Elias Vela,demonólogo) e outros,como eu,que acreditam que ele é um arquétipo,uma personificação da loucura humana(Citando Eliphas Levi).Assim o é com alguns crentes em fadas e deuses pagãos,uns observam pessoas,e outros,simbolos arquétipicos.”
Deus, um Delírio – Os Prefacios da Baixaria 1 – Rejeição à crença na crença e erros sobre fundamentalismo

Última atualização: 26 de outubro de 2009 – [Index Reverso] - [Página Principal]
Se você já leu, neste blog, a crítica ao livro “Deus, Um Delírio”, de Richard Dawkins, poderá talvez se interessar em conhecer profundamente todos os erros e bizarrices contido em tal obra.
Nesse texto, comentarei parte das esquisitices cometidas no “Prefácio à Edição de Bolso”, que está na mais recente edição do livro. Não comentarei o segundo Prefácio, pois ele aborda todos os temas deste no decorrer dos capítulos do livro (que serão criticados aqui também, em seu devido tempo).
Dawkins começa criticando aqueles intelectuais que “acreditam na crença”.
Essa idéia veio de Daniel Dennett, e Dawkins apenas faz uma emulação dela.
Quem “acredita na crença”, segundo a dupla, é alguém que mesmo não tendo uma crença, consegue respeitá-la.
Notem o que Dawkins escreve:
[...] um número desconcertantemente grande de intelectuais “acredita na crença”, embora não tenham eles mesmos a crença religiosa. Esses fiéis de segunda mão são frequentemente mais zelosos que os originais, o zelo inflado pela tolerância simpática: “Ora, não tenho a mesma fé que você, mas respeito-a e me solidarizo com ela” [...] “Sou ateu, mas…” A continuação é quase sempre inútil, niilista ou – pior – coberta por uma negatividade exultante.
A crítica de Dawkins é explícita: o respeito à crença de outrém é um erro.
Ele chega a chamar estas pessoas de “fiéis de segunda mão”.
Seria o mesmo que chamar alguém que não é Administrador de Empresas, mas respeita a profissão, de um Administrador de Empresas de segunda mão. Ou alguém que não é casado, mas respeita o casamento, de um casado de segunda mão.
Como se vê, falta lógica a Dawkins em sua tentativa pífia de xingamento.
Além do mais ele afirma que a tolerância em si destes “fiéis de segunda mão” traria mais ZELO do que os “fiéis originais”.
Particularmente acho difícil, mas se Dawkins trouxesse alguma evidência disso, a coisa ficaria mais clara.
Só que Dawkins não traz NENHUMA evidência a seu favor. Assim fica difícil.
A conclusão também é bizarra, pois ele diz que a afirmação “Sou ateu, mas…” acaba trazendo uma “negatividade”.
Claro que não, pois em muitos casos afirmar que não se é parte de algo e incluir um “mas” pode simplesmente significar que esta pessoa queira afirmar que mesmo diferente, respeita o outro.
Qual a negatividade, por exemplo, em dizer que “não se é gay, mas respeita os homossexuais”?
Dawkins não consegue sustentar nenhum argumento em favor de que incluir o “mas” seja algo intrinsecamente negativo.
O começo, como pode se notar, mostra que Dawkins mais usa o instinto do que a razão para escrever.
Mais pífio ainda é o seguinte:
[...] a maioria de nós desqualifica sem problemas as fadas, a astrologia e o Monstro Espaguete Voador, sem precisar afundar em livros de teologia pastafariana, e assim por diante [...]
Isso foi escrito em complemento a um texto de um amigo de Dawkins, PZ Myers, que teorizou ironicamente a respeito do seguinte: para Myers (assim como para Dawkins) não é preciso ter conhecimento de uma área para criticá-la.
Em seguida ele afirma que muitos “desqualificam” as fadas, a astrologia e o Monstro Espaguete Voador.
Ridículo, claro, pois muitos sequer PRESTAM ATENÇÃO à existência de tais entidades.
Muito diferente de Richard Dawkins, que PRESTA EXCESSIVA ATENÇÃO (embora não aprenda nada sobre) a Deus.
Qualquer que seja a relação de um religioso ou ateu tradicional com as fadas, a astrologia e o monstro espaguete voador, ela não possui nenhum componente de OBSESSÃO assim como é a relação de Dawkins com Deus.
Em relação à essas entidades, os religiosos simplesmente as IGNORAM.
A desculpinha de Dawkins, portanto, é inútil.
Deve-se notar, também, a ignorância do autor ao citar ao fato das pessoas não se “afundarem” a respeito da “teologia pastafariana” (a do Monstro Espagueti Voador).
Como se afundar em algo que sequer existe?
Seria impossível estudar textos que não existem, até por que o Monstro Espagueti Voador não passa de piadinha. Não há estudo teológico sobre piadinha.
E, de novo, não fazemos campanha contra o Monstro Espaguete Voador.
Simplesmente o desprezamos. Como fazemos com qualquer piadinha infantil.
A seguir, Dawkins justifica a sua “ferocidade” contra os religiosos afirmando que os religiosos “fanáticos” são maioria.
Vejam:
Se o predomínio fosse só dessa espécie sutil e amena de religião, o mundo sem dúvida seria um lugar melhor, e eu teria escrito outro livro. A melancólica verdade é que esse tipo de religião decente e contido é numericamente irrelevante. Para a imensa maioria de fiéis no mundo todo, a religião parece-se muito com o que se ouve de gente como Robertson, Falwell ou Haggard, Osaba bin Laden ou o aiatolá Khomeini. Não se trata de testas-de-ferro; são todos influentes demais e todo mundo hoje em dia tem de lidar com eles.
Mas que porra é essa?
O sujeito afirma que defende a razão e o ceticismo e vem afirmar que “a imensa maioria dos fiéis” é radical ou fanática e não traz NENHUMA amostragem estatística disso?
A irracionalidade está, portanto, na alegação de Richard Dawkins.
Por enquanto, o autor inglês não comprovou a “imensa maioria”.
Mas a obra prima da irracionalidade do pensamento de Dawkins vem no próximo parágrafo. A quantidade de estultíces é tão grande que não é possível analisar o parágrafo sem apontar, com números, os pontos contestáveis em seu argumento. Dessa forma, incluí os números entre colchetes para facilitar o acompanhamento.
Divirtam-se quando Dawkins comenta sobre o questionamento sobre ele ser também um fundamentalista:
Não, por favor, é fácil demais confundir uma paixão capaz de mudar de opinião com fundamentalismo, coisa que nunca farei [1]. Cristãos fundamentalistas são apaixonadamente contra a evolução [2], e eu sou apaixonadamente a favor dela. Paixão por paixão, estamos no mesmo nível. E isso, para algumas pessoas, significa que somos igualmente fundamentalistas [3]. Mas, parafraseando um aforismo cuja fonte eu não saberia precisar, quando dois pontos de vista contrários são manifestados com a mesma força, a verdade não está necessariamente no meio dos dois [4]. É possível que um dos lados esteja simplesmente errado. E isso justifica a paixão do outro lado [5]. Os fundamentalistas sabem no que acreditam e sabem que nada vai mudar isso [6]. A citação de Kurt Wise, na página 366, diz tudo: “[...] se todas as evidências do universo se voltarem contra o criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, mas, continuarei sendo criacionista, porque é isso que a Palavra de Deus parece indicar. Essa é a minha posição”. A diferença entre esse tipo de compromisso apaixonado com os fundamentos bíblicos e o compromisso igualmente apaixonado de um verdadeiro cientista [7] com as evidências é tão grande que é impossível exagerá-la [8]. O fundamentalista Kurt Wise declara que todas as evidências do universo não o fariam mudar de opinião. O verdadeiro cientista, por mais apaixonadamente que “acredite” na evolução, sabe exatamente o que é necessário para fazê-lo mudar de opinião: evidências [9]. [...] Cunho aqui minha própria versão contrária ao manifesto de Kurt Wise: “Se todas as evidências do universo se voltarem a favor do criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, e mudarei de opinião imediatamente[...] Minha paixão baseia-se nas evidências. A deles, que ignora as evidências, é verdadeiramente fundamentalista”. [10]
1 – Começou mal, pois a afirmação “coisa que nunca farei” não prova absolutamente nada. É uma evidência anedota. O fundamentalismo é observado a partir de comportamento, e não por declaração do que se fará. Outra coisa: talvez Dawkins tenha confundido fundamentalismo com fundamentalismo religioso, o que seria manipulação semântica. Notem aqui, no Wikipedia, como é possível o fundamentalismo ser secular também. Observação: o fundamentalismo, em si, não fala nada de IMPOSSIBILIDADE de se mudar uma idéia.
2 – Aqui ele afirma que cristãos fundamentalistas são apaixonadamente contra a evolução. Não há sentido nisso, pois é possível que um cristão até liberal seja contra a evolução. Por vários motivos. Um deles pode ser a absoluta falta de necessidade da pessoa lidar com a teoria da evolução, então ela poderá negá-la somente por orgulho. Algo como dizer que “o universo surgiu quando eu nasci, e vai terminar quando eu morrer e BUM”. Isso pode ser dito mesmo sem uma pessoa ser fundamentalista. Outra possibilidade é que alguém diga que é contra a evolução apenas por não conhecer a teoria da evolução. Mais uma possibilidade é que alguém negue o evolucionismo impressionado pelo falatório fundamentalista de gente como Dawkins e Dennett sobre darwinismo, e então negue isso, achando que isso representa a evolução (quando, na verdade, não representa). Ou seja, existem vários motivos que podem levar à negação da evolução sem que seja o cristianismo fundamentalista.
3 – A questão é que realmente são fundamentalistas da mesma forma, considerando o fundamentalismo como aderência ESTRITA a princípios de uma doutrina, ideologia, etc.
4 – Isso aqui não tem absolutamente nada a ver com ser ou não fundamentalista. Existindo possibilidades de acerto ou erro (como em teorias), a declaração de Dawkins é ÓBVIA, mas não implica que a paixão por qualquer uma das possibilidades teóricas seja automaticamente livre da acusação de fundamentalismo somente por isso.
5 – A conclusão não é suportada pelas premissas. Qualquer coisa pode justificar uma paixão. A declaração de justificativas de paixão é aberta, baseada em declarações de crença pessoal, e não seguem a princípios estritos de investigação. Logo, a paixão sempre se justifica por si própria. O melhor é dizer que a paixão NÃO PRECISA de justificação. E não deixa de livrar a cara de alguém ou não de acusações de fundamentalismo. É importante que Dawkins não entendeu que o fundamentalismo não é baseado em motivos subjetivos, e sim no COMPORTAMENTO observado. Ficar justificando ad aeternum os motivos ou contar historinhas como ‘ah, eu mudarei de opinião se vier evidência em contrário’ não mudam absolutamente nada a acusação de fundamentalismo de alguém.
6 – Essa declaração de Dawkins é totalmente baseada em crença pessoal dele, NÃO É VERIFICÁVEL. Até por que todo fundamentalista pode alegar que NÃO é fundamentalista, e apenas segue o que as evidências lhe dizem.
7 – A questão de “verdadeiro cientista” é uma alegação totalmente anedótica, e portanto irrelevante. O que já desqualifica o argumento de Dawkins. O método científico existe INDEPENDENTE do fato de um cientista decidir OU NÃO mudar de opinião. Vejam o exemplo de Dawkins. Não há evidências a favor da teoria da memética, e ele acredita nisso há mais de 30 anos. Crença por crença, não é crença diferente das crenças cegas e inquestionáveis de alguns religiosos mais radicais (que, convenhamos, não representam a totalidade dos religiosos).
8 – A afirmação de que é “impossível exagerar” o compromisso de um cientista é completamente falsa. Basta ver os trabalhos de Dawkins e Dennett, que exageram a teoria da evolução além de qualquer limite aceitável por alguém racional. Quanto mais Dawkins tenta se engasgar para dizer que não é fundamentalista, MAIS FICA EVIDENTE o quanto ele não possui argumentos em favor de sua tese de que ele NÃO é fundamentalista (“só os outros”, segundo Dawkins).
9 – Não há evidências de que um cientista mude de opinião quando surjam evidências em contrário. Tanto que nenhuma teoria científica possui “consenso” absoluto. Sempre há dissidentes, justamente pelo fato de que cientistas podem ficar APEGADOS às suas crenças. O exemplo em questão, que falseia a alegação de Dawkins, nem sequer seria necessário, pois depois do item [7], o argumento dele já está demolido. Mas sempre dá para dar um chutinho a mais nos castelos de areia do autor inglês.
10 – Declaração de como funcionará a mente de Dawkins ante a possíveis evidências contra sua crença são IRRELEVANTES como argumento. Não há evidências de que a paixão de Dawkins se baseie em evidências (lembrem-se que Dawkins não defende só o evolucionismo e sim um evolucionismo EXAGERADO, que inclui até sandices como gene egoísta, fenótipo extendido e memética, nem um pouco suportados por evidências).
Quer dizer, Dawkins não consegue em momento algum provar que NÃO é fundamentalista, e para piorar o COMPORTAMENTO dele é tipicamente fundamentalista.
A justificativa dele, em forma de argumento, é recheada de erros lógicos, falácias de evidência anedota e manipulações semânticas (confusão entre “paixão” com “fundamentalismo” foi a pérola-mor).
É assim que começa o prefácio da edição de bolso de “Deus, Um Delírio”.
E é importante notar: esses foram os comentários referentes somente à PRIMEIRA METADE do prefácio – quando nos adentrarmos em cada um dos 10 capítulos do livro, a quantidade de erros é até maior. É por isso que o total dos artigos de refutação à esse livro estão planejados para superar o número de 30.
Em tempo: o próximo artigo falará sobre os “consolos” alegados por Richard Dawkins para a religião. Só se forem os “consolos” para o Dawkins.
“Deus, um Delírio” – Crítica

Última atualização: 17 de outubro de 2009 – [Index Reverso] - [Página Principal]
Como eu assumi a postura de um religioso que utiliza o ceticismo na investigação das alegações neo-ateístas, era indispensável que eu conhecesse o livro “Deus, Um Delírio”, de Richard Dawkins, que é a principal influência do movimento neo-ateísta.
Essa lacuna foi eliminada após a leitura completa da obra.
Ao conhecer o livro, entende-se por completo o raciocínio de Dawkins na questão dele contra a religião, e também o modus operandi dos ateus radicais doutrinados por sua obra.
É evidente que Dawkins é o líder de gente como Dennett, Harris e Hitchens, até por que as idéias que estão no livro (que é de 2007) já haviam sido abordadas em obras anteriores do autor e principalmente no documentário “A Raiz de Todo o Mal”, feito em 2006, para a BBC. O termo “The Four Horsemen” é inadequado, até. O justo seria: “A horsemen and three horses”.
Em “Deus, Um Delírio”, Dawkins abre sua caixa de ferramentas.
Para o cético, o serviço fica muito fácil
Faço aqui mais ou menos como James Randi fazia.
Randi investigava Uri Geller, e daí já refutava por tabela vários outros médiuns, que apenas seguiam a Geller. No caso de Dawkins é a mesma coia: o restante basicamente segue-o.
Avaliação Geral
Como um todo, o livro de Dawkins é bastante irracional, e isso é algo que sempre suspeitei.
Ele se constitui basicamente de um conjunto de estratagemas, com um objetivo muito claro de difusão de ódio à religião e aos religiosos.
Aliás, estou montando uma agenda do neo-ateísmo (para auditar textos deles, e publicarei aqui em breve), e grande parte dela pode ser retirada dos objetivos deste livro. No mínimo, 75% da agenda sai dele.
Dawkins não esconde suas intenções
- 1) ele expande o darwinismo para uma coisa muito além do que realmente a teoria é – ele não quer só explicação das espécies, mas também usá-la para explicar todo o comportamento humano e toda a cultura;
- 2) ele entende que a religião é o grande mal do mundo e, para levar isso à frente, ele pratica difamação, aliado a estratategemas, fraudes intelectuais e distorção de informações;
- 3) para dar sustentação ao item 2, ele faz a seleção de todas as amostras negativas possíveis que ele possa encontrar de religiosos, fala SOMENTE delas (ele simplesmente ignora os bons exemplos), e afirma que estes religiosos é que são o PADRÃO dos religiosos, e, por isso, a religião seria má;
- 4) ele não incomoda de usar raciocínios de auto-ajuda – ele não tem vergonha na cara e diz que “o livro pode mudar sua vida”, exatamente como os gurus de auto-ajuda fazem. Aliado a essas técnicas, há um forte componente de lavagem cerebral, principalmente nos 3 capítulos finais;
- 5) O componente de apelo emocional é o principal item de demonização do oponente (religiosos, religião).
Como exemplo do item 5, o capítulo 9 é escrito de tal forma apelativa, falando de crueldades contra crianças em nomes da religião (uma amostra seletiva, novamente), que, se uma pessoa tiver a cabeça fraca, vai comprar a causa de Dawkins tranquilamente. O objetivo de tamanha apelação emocional é justamente fazer o leitor se sentir com RAIVA da religião e dos religiosos, mas, como já disse, é tudo obtido com a amostra seletiva, e distorção das informações.
Ele apresenta esses exemplos e não tem pudor ao dizer algo como: “esta é a mente religiosa”.
Como é o livro de maior desonestidade intelectual talvez já editado, ele será inteiramente refutado nesta seção (Index Reverso). Ao todo serão 25 a 30 artigos refutando partes de cada capítulo (só o capítulo 5 merecerá quase 10 artigos), publicadas ao longo dos próximos meses. No data de publicação desta crítica, um dos artigos já foi publicado (visualizar link).
Abaixo segue uma breve análise dos 10 capítulos de “Deus, Um Delírio”:
1 – Um descrente profundamente religioso
O titulo basicamente fala de Einstein. Dawkins tenta defender Einstein de acusações de que ele era religioso.
O objetivo de Dawkins é impedir que os religiosos usem o “santo nome de Einstein em vão” quando falarem de religião.
Em seguida, o autor defende sua tese de que não se deve respeitar a religião.
Por exemplo, o argumento é mais ou menos assim: se alguém que não trabalha no sábado por sua religião, não deveria ter esse direito respeitado caso fosse convocado para trabalho oficial voluntário nesta data. Motivo: se é religião, não merece respeito. Se alguém tem um valor, oriundo da religião, isso seria irrelevante.
Outro exemplo é quando Dawkins ofende diretamente os religiosos.
Dawkins faz isso pois diz que não se deve respeitar a religião.
O capítulo é todo para isso, talvez como preparação para a lavagem cerebral que virá a frente, em especial após a primeira metade do livro.
2 – A Hipótese de que Deus existe
Aqui ele chama a existência de Deus de hipótese científica sobre o universo, e portanto deve ser analisada com o mesmo ceticismo científico que qualquer outra teoria.
Esse capitulo é nitidamente todo baseado em uma ignorância completa de Dawkins quanto ao conceito de Deus para os religiosos. Pois nós não consideramos Deus como uma hipótese, mas sim um princípio, assim como na ciência consideramos que as leis da física valem em todo o unvierso. Isso não é hipótese científica, é um princípio, e não é discutido nos mesmos termos em que se discute uma teoria científica.
Se alguém não aceita os princípios da ciência, isso é um direito que lhe cabe, mas a pessoa será um ignorante em relação à epistemologia e ciência. Se alguém não aceita Deus, o máximo que será é um ignorante com relação à teologia, religião e Deus.
Só para se ter uma idéia do baixo nível deste capítulo, a base é dizer que Deus é hipótese científica, e aí citará o politeísmo e o monoteísmo, para dizer que é tudo a mesma coisa. Dawkins apela de novo e diz que os pais fundadores da América estariam com vergonha da nação ser cristã.
Ele também critica o MNI (Ministérios Não Interferentes), tese defendida por Stephen Jay Gould, e não sobra tolerância nem para o agnosticismo.
3 – Argumentos contra a existência de Deus
O nível de limitação intelectual do capítulo anterior prossegue neste, em que Dawkins, mesmo sem nenhum conhecimento filosófico, tenta refutar argumentos sobre a existência de Deus.
Aí ele apela para tudo, citando o argumento das cinco vias de São Tomás de Aquino, e diz refutá-lo. Só que ele usa uma manipulação de texto, e troca “aquilo que chamamos de Deus”, por “é Deus” para só então fingir que refutou. Ou seja, Dawkins não refutou nada.
Em seguida, ele exagera o argumento de Anselmo, e tenta dizer que o argumento era para provar a existência de Deus, quando na verdade Anselmo sequer ambicionou a isso, e sim ele queria mostrar que a concepção de Deus era razoável do ponto de vista lógico.
O restante vai nesse mesmo nível.
Todo esse tipo de manipulação é a base deste capítulo, em que a tônica, além dos erros de lógica de Dawkins, é o uso de ofensas contra teólogos, e até a tentativa de banalização do termo.
Por exemplo, várias vezes ele cita verbetes da Enciclopédia Católica, interpreta-os erradamente, de propósito, e diz que isso é fruto da “mente teológica”.
4 – Por que quase com certeza Deus não existe
O capítulo menos pior do livro, mas só se considerarmos a primeira metade dele.
A idéia do capítulo é tentar provar que Deus não existe.
Ele começa defendendo a teoria da evolução, em oposição ao criacionismo. Embora ele exagere quando fala do design inteligente (que ele chama de criacionismo), em geral essa primeira parte do capítulo 4 é razoável, e ele apresenta bons argumentos a favor da teoria da evolução.
O mesmo não pode ser dito do que vem daí para a frente, pois é onde ele tenta usar a cosmologia, e principalmente a teoria do multiverso, para dizer que provavelmente Deus não existe.
Sabem qual a lógica do Dawkins? Um criador para o universo teria que ser muito complexo, portanto a explicação seria qualquer outra menos essa. É mole?
Nunca é demais citar a refutação que William Lane Craig fez para esse “argumento” do Dawkins.
No geral, o capítulo merece nota 5, sendo 10 pelas explicações dele sobre teoria da evolução (ele fez a lição de casa certinho), e 0 (zero) pelo argumento geral de que Deus provavelmente não existe.
5 – As Raízes da Religião
Se no capítulo 4 Dawkins derrapa no final, apesar de um bom começo, este capítulo é 100% errado.
O objetivo é tentar explicar a religião pela perspectiva do Darwinismo, o que, de cara, já é uma charlatanice, pois o darwinismo não foi feito para isso. O objetivo do darwinismo é a explicação do surgimento das espécies, pelo processo de seleção natural.
Dawkins começa apelando para vender a idéia de que a explicação tem que ser pelo darwinismo. Ele não oferece nenhum argumento sólido para isso, apenas demonstra a expressão de sua vontade.
Em seguida, ele vai se utilizar de suas 3 teorias pseudo-científicas (gene egoísta, fenótipo extendido e memética), além de abordar algo da sociobiologia, que é outra picaretagem – esta última a cargo de E. O. Wilson, também ateu radical.
Outros autores mencionados são Steven Pinker e Daniel Dennett, sendo este o braço direito de Dawkins.
Quer dizer, nesse capítulo ele só cita vigaristas.
O resultado é uma abordagem repleta de falhas, contradições, ausência de provas e chutes confessos. Por exemplo, Dawkins conclui que a religião é um “subproduto de uma outra coisa”, mas nunca explica o que é essa outra coisa.
Ele ainda tenta abordar a suposta vantagem biológica da religião, mas não consegue sequer dimensionar tal vantagem.
O resultado é cômico.
O desastre científico é tão grande que este capítulo merecerá um conjunto de 10 artigos de refutações.
6 – As raízes da Moralidade: por que somos bons?
Se no capítulo anterior, Dawkins assumiu como uma POSSIBILIDADE de explicar a religião através da idéia de que ela tornaria os homens “bons” (estranho, pois para mim religião é para muito mais que isso), ele toma isso como premissa, mas vai tentar demonstrar que a moralidade não se originou da religião, e sim através de uma história evolutiva.
Aliás, já notaram a obsessão de Dawkins pelo darwinismo?
Ele reduz tudo à algo que é ou não uma vantagem, para garantir maior chance de “sobrevivência”.
Ele faz o mesmo com a moralidade, tentando usar exemplos de animais que teriam comportamentos altruístas.
O problema é que ele não explica o altruísmo em si, e sim uma empatia BÁSICA que existe entre as espécies animais, mas que não possui praticamente nada dos atributos do altruísmo existente na espécie humana civilizada e dotada da cultura religiosa.
Por fim, ele pergunta: “Se Deus não existe, por que ser bom?”, o que é uma falácia do espantalho em cima de uma argumentação religiosa de que sem a religião a SOCIEDADE não teria os valores morais que possui.
Como sempre, ele faz aqui mais citações a expansões do darwinismo, mas todas pseudo-científicas.
E pior, ele não consegue explicar a moral humana.
7 – O Livro do “Bem” e o Zeitgeist moral mutante
O objetivo deste capítulo é patético: Dawkins teria assumido, segundo ele, que um dos motivos para o homem possuir religião é para querer ser bom (capítulo 5), e que a moralidade não vem da religião, mas sim de um processo darwinista (capítulo 6).
Aqui, ele se supera e tenta respaldar o capítulo anterior, mostrando que a moral humana vem de QUALQUER OUTRA fonte, menos os escritos religiosos.
Motivos para isso: ele cita algumas passagens da Bíblia, como as narrativas de Abrãao, Moisés, encontra relatos de guerras, violência, e ASSUME que isso é o paradigma moral DEFENDIDO pela Bíblia.
Sem dúvida, um campeão da desonestidade intelectual ou ignorância infantil. Talvez um misto dos dois.
A burrice de Dawkins é tamanha que ele não percebeu que as histórias de Abrãao e Moisés ENSINAM valores às pessoas, mesmo em narrativa sobre pessoas que viveram em períodos de guerra e violência, mas em nenhum momento a Bíblia diz que é para o leitor SAIR COMETENDO violência.
Só que, ao assumir essa interpretação, ele afirma que se fosse para o ser humano seguir a Bíblia CORRETAMENTE (sim, ele parece querer ser consultor em teologia também), o resultado seria um desastre.
Ele até diz que os genocídios de Hitler e Stalin parecem-se com os genocídios descritos na Biblia.
Mais uma: ele afirma que Stalin era ateu e cometeu vários crimes. Mas diz que os crimes não foram em nome do ateísmo.
Notem a noção de moral do Dawkins: um crime só é um problema se for feito por religiosos. Aí ele diz que o crime ocorreu por causa da religião, ou ao menos que a religião tem alguma culpa no cartório. Mas se é um ateu que faz, ele diz algo como “ah, mas não foi em nome do ateísmo”. Sim, você não leu errado. Repito: Em todo o livro, ele SÓ CONDENA crimes que tenham sido cometidos por religiosos. Nas raras vezes que existe a citação de um crime cometido por ateu, lá vem a frasesinha padrão: “mas não foi em nome do ateísmo”.
Conclusão: Dawkins não possui moral alguma.
Se Dawkins não possui moral, como pode sequer dialogar sobre ela?
8 – O que a religião tem de mau? Por que ser tão hostil?
A partir do capítulo 8, Dawkins pega mais pesado, e larga toda e qualquer abordagem lógica (que já era pouquíssima).
O objetivo dele é mostrar por que a religião é má, e inclui exemplos como o criacionismo, etc. Quer dizer, ele novamente tenta a falácia da generalização apressada. Na lógica dele, se o criacionismo é uma subversão da ciência, então toda a religião é subversão da ciencia. Portanto, é má.
Um exemplo é quando ele narra a história de um sujeito que largou a pesquisa científica, para ser um religioso baseado em interpretação literal. Dawkins cita o caso como patético, mas diz que isso é REGRA entre os religiosos.
Ignora ele, claro, que a maioria dos religiosos não interpreta a bíblia de forma 100% literal, portanto não haveria problema em conciliar ciência com religião.
De forma mais apelativa ainda, ele extende para as citações ao seu vídeo “A Raiz de Todo o Mal”, e cita o reverendo Paul Hill, que foi condenado à morte por matar um médico da clínica de aborto. E em seguida, entrevista o amigo de Paul, Michael Bray.
Sabem a constatação de Dawkins?
Não havia problema nem com Hill e nem com Bray, e sim com a RELIGIÃO.
Como se vê, o objetivo do capítulo é só distorção e manipulação.
9 – Infância, Abuso e Fuga da Religião
A base deste capítulo é a seguinte: dizer que as crianças que são chamadas de “crianças católicas” ou “crianças judias” na verdade são crianças de pais católicos e crianças de mães judias, já que, segundo ele, as crianças não tem discernimento para optar por uma religião.
A lógica de Dawkins é a de que os pais não podem ensinar os seus valores para os filhos.
Quer dizer, podem, MENOS que sejam valores religiosos.
É quase igual uma campanha homossexual que surgiu na Europa pedindo que a criança não fosse ser rotulada de heterossexual, pois na infância ela não decidiu ainda se vai ser heterossexual ou homossexual.
Dá para notar que a proposta de Dawkins é facilmente refutável, pois não há parâmetros pelos quais ele justifique o fato de que os pais não podem passar os seus valores aos filhos.
Como não tem argumentos, ele conta uma série de histórias até assustadoras (por causa do apelo emocional), mas que são excessões dentro da religião.
Como o caso do garoto que foi tirado de seus pais judeus após ser batizado como católico, em 1860.
Casos como esses não ocorrem a granel por aí.
Mas, para Dawkins, ocorrem, pois isso É RELIGIÃO.
10 – Uma Lacuna Muito Necessária?
Esse é o fecho do livro, em que parece que já faltava assunto ao autor (no total, são mais de 450 páginas). Aqui ele divide o capítulo em 4 partes.
Uma tentando associar Deus aos amigos imaginários, das crianças. Claro que para isso ele sequer consegue sustentar sua alegação, mas para Dawkins isso não importa, desde que ele consiga inserir alguma difamação em sua pregação.
Outras duas partes são aquelas em que ele cita a religião como “consolo” e “inspiração”, respectivamente, e questiona ambas. De novo, uma definição muito restrita de religião, pois dizer que religião é para esses dois motivos também é uma abordagem muito simplória (entre os objetivos principais da religião está o auto-conhecimento ESPIRITUAL do ser humano, e o estudo de sua própria consciência em união em alinhamento com a vontade divina – Dawkins sequer abordou esses aspectos, o que é esperado, pois ele não conhece).
Para finalizar, ele cita que a ciência pode substituir a tudo isso, e portanto nada é mais belo que a ciência, e que não é necessário ter nenhuma outra experiência espiritual além de olhar para o universo e blá blá blá… Em suma, a mesma ladainha de Carl Sagan.
Nada contra admirar a ciência, mas assim como Sagan, Dawkins dá uma visão DESLUMBRADA de ciência, que não corresponde ao que a ciência realmente é.
O capítulo 10, cheio de apelos emocionais e dramalhões, é basicamente para fechar o conceito de Dawkins, que é: “religião não presta, troque-a pela ciência/ateísmo”.
Conclusão
Livro que só pode servir como “estudo” para pessoas facilmente sugestionáveis. Há vários componentes de auto-ajuda e principalmente lavagem cerebral. Após ler o livro, se um ateu for facilmente impressionável e tiver mente fraca, vai sair rapidamente pregando as palavras do autor. Curiosamente, depois de ler o livro (fiz em média 3 a 4 anotações por pagina), nota-se que o discurso de quase todos os neo-ateus é emulado diretamente a partir do livro. Logicamente, a obra é toda inconsistente. Não tem valor como trabalho filosófico ou científico. Em relação à religião, fica evidente que Dawkins não a conhece, portanto ainda não sabe como duelar com seus adversários. Talvez isso explique por que ele está fugindo de debates com o William Lane Craig.
O darwinismo como Metafísica de Galinheiro

Última atualização: 16 de outubro de 2009 – [Index Reverso] - [Página Principal]
O único capítulo do livro “Deus, Um Delírio” que não é completamente defeituoso é o quarto capítulo.
Calma! Não estou dizendo que não tenha defeitos, pois é lá que está o argumento que William Lane Craig esmagou com uma facilidade impressionante. (ver link aqui).
Quer dizer, o argumento apresentado por Dawkins no quarto capítulo é constrangedor.
Mas pelo menos as 20 primeiras páginas daquele capítulo dão explicações convincentes sobre a teoria da evolução. É a única parte do livro em que o autor inglês não derrapa.
Mas e o que dizer do quinto capítulo?
É nesse capítulo que Dawkins diz que vai nos dar uma resposta sobre as raízes da religião.
O resultado não é diferente da metafísica de galinheiro. Antes de seguirmos com a refutação, vejam o que descreve a metafísica de galinheiro:
A cada ovo a galinha faz um escândalo. Por quê? Não deve ser dor. Não depois do primeiro. Talvez seja o susto pela perfeição do ovo. Porque a galinha, um bicho feio e atarantado, não pode ser a autora do ovo. Não tem sentido. Num universo minimamente levável a sério, onde ao menos as leis de trânsito funcionassem, a galinha seria mais bonita do que o ovo. Portanto, pensa a galinha horrorizada, Deus não deve existir. Tudo está nas garras do acaso e o acaso nas garras de quem, do quê? Aí a galinha começa a cacarejar. Mas logo esquece de tudo e vai ciscar, contente da vida. A falta de memória da galinha é seu escudo contra o absurdo do mundo. Se a galinha lembrasse de cada ovo que botou, enlouqueceria – antes de meia dúzia. (créditos: Ernani Ssó)
É exatamente esse o caminho percorrido por Dawkins.
Ele tentará explicar a religião como um fenômeno natural, e para isso usará tão somente o seu limitado modelo chamado Darwinismo.
Qualquer um que estudou o Darwinismo sabe que sua utilidade é apenas para a explicar a especiação pela seleção natural. Qualquer outra coisa a mais, conforme a tal Sociobiologia, inventada por E. O. Wilson (também um ateu radical), ou a antropologia Darwinista, geralmente só resulta em situações constrangedoras para o teórico.
A galinha, na parábola, possui um modelo limitado do mundo. E quer usar esse modelo para validar ou não Deus. Dawkins faz a mesma coisa, só que o usando o Darwinismo.
É por isso que é o capítulo mais facilmente ridicularizável de todo o livro.
Vejam como ele começa, definindo os motivos para os seres humanos “usarem” a religião:
Ela oferece consolo e reconforto. Ela estimula o sentimento de união. Ela satisfaz nosso desejo de entender por que existimos.
Evidentemente, é uma explicação simplória, que em nada explica realmente o que está por trás da religião.
Rapidamente oferece a alternativa para explicá-la e chama isso de “o questionamento do darwiniano sobre a seleção natural. “
Mas espere aí: Por que o questionamento darwiniano e não o Big Banguista? E por que não o questionamento com base no Lean Six Sigma?
O fato é que Richard Dawkins GOSTA DEMAIS do Darwinismo, e esse é o motivo para ele querer abordar a questão sob esse aspecto, nem que para isso tenha que usar uma extrapolação nem um pouco científica do Darwinismo.
Notem como ele justifica isso:
Sabendo que somos produtos da evolução darwiniana, devemos perguntar que pressão ou pressões exercidas pela seleção natural favoreceram o impulso à religião.
Mas por que o questionamento com base na seleção natural e não na seleção artificial? Ora, não somos nós, seres humanos, que modificamos a seleção natural justamente por nossa interferência? A seleção artificial não existia antes dos seres humanos, o que é óbvio. Agora existe.
Detalhe: o Darwinismo explica as modificações pela seleção natural. Mas a religião não é uma modificação em nossa espécie, e sim um componente relacionado à cultura humana. Naturalmente, a explicação de Dawkins vai conter “enrolations”.
Dawkins dá um motivo para a “urgência” da pergunta:
A pergunta ganha urgência com as considerações darwinianas sobre a economia. A religião é tão dispendiosa, tão extravagante; e a seleção darwinia-na normalmente visa e elimina o desperdício. A natureza é um contador avarento, apegada aos trocados, de olho no relógio, que pune a mínima extravagância [...] A religião devora recursos, às vezes em escala maciça. Uma catedral medieval era capaz de consumir cem centúrias de homens em sua construção, e jamais foi usada como habitação, ou para qualquer propósito declaradamente útil.
O engraçado é que Dawkins fala em recursos que são “devorados”, mas não é capaz de explicar DE ONDE saem esses recursos.
Curiosamente, existem vários outros tipos de construções que não são usadas como habitação. Por exemplo, os cinemas, as universidades, as escolas, os parques, etc…
Se a análise de Dawkins não incluiu isso, com certeza é falha.
Mas não se espantem. Como já falei, Dawkins realmente enlouquece quando tenta expandir o conceito da seleção natural.
O pior é ver o autor inglês agora vir falar em Gestão de Recursos.
Quer dizer, o sujeito se estrepa sempre que sai do terreno da Biologia, vai querer arriscar em Administração também?
A picaretagem fica evidente quando ele tenta comparar o ser humano com o animal selvagem.
Notem:
Se um animal selvagem realiza habitualmente uma atividade inútil, a seleção natural favorecerá os indivíduos rivais que dedicam tempo e energia à sobrevivência e à reprodução. A natureza não pode se dar ao luxo da frivolidade de jeux d’esprit. O utilitarismo impiedoso vigora, mesmo quando parece que não.
Engraçado que nós não apenas temos a religião, como também vamos ao cinema, lemos filosofia, fazemos sexo sem ser para reprodução, vamos à academia malhar… tudo isso consome algum tipo de esforço.
Para Dawkins, só religião é atividade inútil. Engraçado que ele não consegue apresentar nenhum argumento sólido a favor disso.
Mas, como o imbecil assume que a religião é inútil, ele tenta comparar o hábito à formicação, dos pássaros.
Notem a criancisse dele:
[...] existe a “formicação”: o antigo hábito de pássaros, como as gralhas, de “tomar banho” num formigueiro ou de esfregar formigas nas penas. Ninguém tem certeza de qual é o benefício da formicação — talvez algum tipo de higiene, tirando os parasitas das penas; há várias outras hipóteses, mas nenhuma delas é sustentada por evidências. A incerteza a respeito dos detalhes, porém, não impede os darwinistas de presumir, com grande convicção, que a formicação deve “servir” para alguma coisa. Nesse caso o senso comum pode concordar, mas a lógica dos darwinistas tem uma razão especial para achar que, se os pássaros não fizessem isso, suas perspectivas estatísticas de sucesso genético seriam prejudicadas, mesmo sem saber ainda qual o caminho exato desse prejuízo. A conclusão provém das premissas gémeas de que a se-leção natural pune o desperdício de tempo e de energia, e de que os pássaros são observados consistentemente dedicando tempo e energia à formicação.
Vários problemas na explicação de Dawkins.
Para começar, ele confessa que mesmo que não exista alguma evidência para que a formicação “sirva” para alguma coisa, ele confessa que o darwinista possui FÉ em que sirva.
É esse o tipo de raciocínio que permite a aniquilação fácil deste capítulo.
Se não há evidências de que sirva, o pesquisador poderia catalogar a ação como NEUTRA do ponto de vista Darwinista. Mas Dawkins não aceita, pois seu tipo de Darwinismo exige que TUDO seja explicado pelo padrão Darwinista, nem que ele tenha que forçar uma explicação.
Ele até confessa de novo (mais um ato falho do Dawkins) que os “darwinistas” (espero que ele não fale por todos eles) tem uma razão especial para ACHAR (friso no “ACHAR”) que se os pássaros não fizessem a formicação, as perspectivas de sucesso genético seriam prejudicadas… mas sem saber ainda qual o caminho exato desse prejuízo.
Ora, se o sujeito não é capaz de dimensionar o prejuízo como pode sequer embutir isso na explicação? Motivo: fé cega.
A fé cega, aliás, que faz com que Dawkins expanda a explicação para a religião, citando (ora, vejam só) Daniel Dennett:
Se a formicação não fosse útil para a sobrevivência e a reprodução, a seleção natural teria há muito tempo favorecido os indivíduos que não a praticam. Um darwinista pode ficar tentado a dizer a mesma coisa sobre a religião; daí a necessidade desta discussão. Para um evolucionista, os rituais religiosos “destacam-se como pavões numa clareira ensolarada” (palavras de Dan Dennett). O comportamento religioso é uma excrescência que é o equivalente humano da formicação ou da construção de caramanchões. Demanda tempo, demanda energia e freqüentemente tem ornamentos tão extravagantes quanto a plumagem da ave-do-paraíso.
Aqui ele jogou tudo numa sacola, e continua com a birrinha neste estilo: “tem que ser assim, tem que ser assim, ou explico pela seleção natural ou fico de mal”.
Outro ato falho dele: “um darwinista pode ficar tentado a dizer a mesma coisa sobre…”
Aham… quer dizer que a explicação surge por uma TENTAÇÃO de que a explicação tem que surgir pelo modelo que ele escolheu?
Mas tudo bem, eu já sabia que era assim que Dawkins agia mesmo ANTES de ler o livro dele.
Mas ele se empolga ainda aqui:
A religião pode colocar em risco a vida do indivíduo devoto, assim como a de outras pessoas. Milhares de pessoas já foram torturadas por sua lealdade a uma religião, perseguidas por fanáticos por causa de uma fé alternativa que em muitos casos é quase indistinguível [...] Gente devota morreu por seus deuses e matou por eles; chicoteou as costas até sangrar, jurou o celibato de vida inteira ou o silêncio solitário, tudo a serviço da religião. Para que tudo isso? Qual é o benefício da religião?
Como pode Dawkins tentar explicar a religião se ele sequer entende o que significa o celibato? Aliás, celibato e silêncio solitário são ECONOMIAS de energia, e não gasto de energia.
Como se vê, a explicação de Dawkins é furadíssima e contraditória.
Curiosamente, ele afirma que gente “devota” morreu por seus deuses e matou por eles. Estatisticamente, ele não apresentou nada em relação a esse sentido.
E mais: qual o número de religiosos que já tiveram a vida colocada em risco pelo simples fato de serem religiosos?
Só se for na China, em que a prática religiosa pode condenar alguém à morte.
Ah… o governo chinês é ateu.
Bem, talvez a teoria do Dawkins funcione só na China.
Mas nem adiantaria nada, pois explicações científicas precisam ser universais.
Mais reducionismo apenas para garantir mais risadas:
O comportamento religioso pode ser chamado de comportamento universal, do mesmo modo como o comportamento heterossexual. As duas generalizações permitem exceções individuais, mas todas essas exceções compreendem, até bem demais, a norma com a qual tiveram de romper. Características universais de uma espécie exigem uma explicação darwinista. Obviamente não há nenhuma dificuldade para explicar a vantagem darwinista do comportamento sexual. Trata-se de fazer bebês, mesmo naquelas ocasiões em que a contracepção ou a homossexualidade parecem negá-la. Mas e o comportamento religioso? Por que os seres humanos jejuam, ajoelham-se, fazem genuflexões, autoflagelam-se, inclinam-se maniacamente para um muro, participam de cruzadas ou tomam parte em práticas dispendiosas que podem consumir a vida e, em casos extremos, eliminá-la?
Engraçado que vivo rodeado de religiosos (pois nasci em uma família católica), e jamais vi autoflagelação nem inclinações “maníacas” para um muro.
Jamais participei de cruzadas.
E jamais participei de qualquer prática que colocasse em risco a minha vida (a não ser, claro, se eu morasse na China, mas dispenso).
Algum dos leitores religiosos se enquadra nisso que Dawkins falou?
Eu particularmente duvido.
E quanto ao gosto universal do ser humano pela arte?
Teria que ter explicação Darwinista e ser tratado como “necessidade de sobrevivência”?
Para Dawkins, nada disso importa, pois sua fé cega proclama: “Características universais de uma espécie exigem uma explicação darwinista. “
E, assim como a um Talibã, ele não larga o seu osso.
De que adianta Dawkins tentar explicar a religião pela seleção natural se
- (a) ele não tem a mínima noção do que é religião (e mostrei isso, com exemplos das distorções)
- (b) ele não tem sequer qualquer parâmetro para avaliar o que é dispêndio útil ou inútil de energia (o exemplo do celibato mais o refuta do que o ajuda)
- (c) o darwinismo que ele usa é um darwinismo EXAGERADO, para tentar explicar coisas que estariam mais para a psicologia tratar, e não a biologia
Diante de tudo isso, Dawkins mostra apenas que é um iludido, uma pessoa em situação tão patética quanto a galinha que quer entender princípios metafísicos somente pela análise do ato dela botar ovo.
Obviamente a galinha vai enlouquecer se continuar assim.
Dawkins já enlouqueceu.
P.S.: E aguardem que vem mais, pois esse quinto capítulo do livro “Deus, Um Delírio” terá nada mais nada menos que 10 artigos refutando-o. É provavelmente o capítulo mais patético e ingênuo de toda a obra de Dawkins.
Pesquisa do Ibope sobre o acordo com a igreja católica cala a boca dos neo-ateus

A fonte da notícia abaixo é o IBOPE, publicada em 26/08.
75% dos católicos são contrários a acordo com Vaticano.
Pesquisa do instituto Ibope feita a pedido da organização não governamental Católicas pelo Direito de Decidir aponta que 75% dos católicos entrevistados discordam ou pelo menos têm restrições a um acordo fechado com apenas uma religião. O levantamento foi realizado para tratar do acordo bilateral assinado entre o governo brasileiro e o Vaticano, que agora tramita no Congresso.
Aprovada na semana passada pela Comissão de Relações Exteriores da Câmara, a proposta tem 20 artigos que criam um estatuto jurídico e dão direitos à Igreja Católica no Brasil. Entre outros pontos regulamenta a forma do ensino religioso nas escolas públicas, prevê que o casamento oficiado pela igreja, caso siga também as exigências do direito civil, tenha valor jurídico e estabelece que o Estado brasileiro vai ajudar a preservar os bens móveis e imóveis, como igrejas e obras de arte.
A pesquisa do Ibope, no entanto, mostra que a proposta de dar privilégios a uma única religião desagrada à maior parte dos entrevistados, mesmo aqueles que poderiam, em tese, ter seu credo beneficiado. Entre os católicos, 44% acreditam que um acordo bilateral não deveria existir porque o Estado brasileiro não tem religião oficial. Outros 31% acham que aprovar um acordo desse tipo desrespeita as demais religiões.
O porcentual sobe quando as perguntas são feitas a pessoas de outra fé, como os evangélicos. Mas é maior ainda entre aqueles que se dizem agnósticos, ateus ou de religiões com menos expressão no Brasil, como espíritas e budistas. Entre esses, 82% reprovam o acordo. “É um acordo totalmente inadequado e absolutamente na contramão do processo histórico. A cultura brasileira é de enorme tolerância religiosa. Dar privilégios a uma única religião vai contra a Constituição”, diz Maria José Rosado, coordenadora da ONG Católicas pelo Direito de Decidir.
Para a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), não há privilégios no acordo – a não ser pelo fato de que a religião católica é um Estado e, como tal, pode assinar um acordo bilateral com o governo brasileiro, o que não acontece com outras religiões. “A concessão de privilégios é uma mentira. Tudo o que está no acordo está na legislação brasileira. Se não agrada, então é preciso mudar a lei”, diz dom Orani João Tempesta, presidente da comissão episcopal pastoral de educação, comunicação e cultura e arcebispo do Rio.
Já o Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil (Cimeb), que divulgou nesta terça-feira (25) uma nota na imprensa, vê o acordo como discriminação às outras religiões. “O Estado é laico, não pode privilegiar ninguém. Eu não quero privilégios para os evangélicos, mas não pode um Estado teocrático fazer um acordo desses com um Estado democrático”, afirma o pastor Silas Malafaia, vice-presidente do Cimeb. O texto terá de passar pelas comissões de Educação, Trabalho e Constituição e Justiça, antes de ir ao plenário. Depois, o mesmo processo se repete no Senado.(AE)
Epa, epa…
Nunca se deve esquecer que os neo-ateus afirmam que os religiosos não respeitam as outras religiões. E de repente vem um resultado desse mostrando que 75% dos católicos estão se opondo a um acordo desses com a Igreja Católica?
Detalhe que não vou entrar no mérito sobre este acordo, já que não vejo nada de errado com ele.
O que me importa aqui é o motivo pelo qual muitos estão contra o acordo. Segundo o IBOPE, os entrevistados afirmam que o estado não poderia ter uma religião oficial e que as outras religiões deveriam ser respeitadas. Mesmo que eu ache que justificativas estejam equivocadas, respeito a opinião deles. [N.E. - Opa, mas espere, se Dawkins estivesse correto eu também não deveria respeitar as outras opiniões. Risos]
Mas, de novo, o importante é que as justificativas se baseiam em tolerância às outras religiões.
Tolerância essa que não deveria existir se grande parte dos argumentos contra a religião feitos pelos neo-ateus estivessem certos.
Pois vejam o que está no prefácio da edição de bolso de “Deus, Um Delírio”:
VOCÊ SEMPRE ATACA O QUE HÁ DE PIOR NA RELIGIÃO E IGNORA O QUE HÁ DE MELHOR.
“Você persegue oportunistas grosseiros e incendiários como Ted Haggard, Jerry Falwell e Pat Robertson, em vez de teólogos sofisticados como Tillich ou Bonhoeffer, que ensinam o tipo de religião em que acredito.”
Dawkins responde:
“Se o predomínio fosse só dessa espécie sutil e amena de religião, o mundo sem dúvida seria um lugar melhor, e eu teria escrito outro livro. A melancólica verdade é que esse tipo de religião decente e contida é numericamente irrelevante. Para a imensa maioria de fiéis no mundo todo, a religião parece-se muito com o que se ouve de gente como Robertson, Falwell ou Haggard, Osama bin Laden ou o aiatolá Khomeini. Não se trata de testas-de-ferro; são todos influentes demais e todo mundo hoje em dia tem de lidar com eles”.
Das duas uma. Ou a pesquisa do IBOPE está errada ou Richard Dawkins e sua patota estão mentindo deslavadamente. Onde está essa imensa maioria de fiéis do mundo todo que Dawkins afirma?
Mas como o IBOPE é uma instituição idônea, e Dawkins e sua turminha são conhecidos por sua desonestidade intelectual e fanatismo, fica evidente que podemos confiar no IBOPE e já ir rindo da cara dos neo-ateus.
Elite intelectual ateísta? Cadê

Richard Dawkins, como sempre malandrão e intelectualmente desonesto, afirmou que a elite intelectual era ateísta em seu livro “Deus, um Delírio”. Segue a declaração abaixo, retirada do livro:
Um estudo na importante revista Nature, de Larson e Witham, em 1998, mostrou que dentre os cientistas americanos considerados eminentes o bastante para serem eleitos para a Academia Nacional de Ciências (o equivalente a pertencer à Royal Society na Grã-Bretanha) apenas cerca de 7% acreditam num Deus pessoal. Essa enorme preponderância de ateus é quase que o exato oposto do perfil da população americana em geral, da qual mais de 90% são formados por pessoas que acreditam em algum tipo de ser sobrenatural. O número entre cientistas menos eminentes, não eleitos para a Academia Nacional, é intermediário. Assim como na amostra mais destacada, os que acreditam na religião são minoria, mas uma minoria menos drástica, de cerca de 40%. O fato de os cientistas americanos serem menos religiosos que o povo americano em geral é exatamente como eu teria imaginado, assim como o de os cientistas mais destacados serem os menos religiosos. O que é notável é a oposição completa entre a religiosidade do povo americano em geral e o ateísmo da elite intelectual.
Aqui vou esmagar não só essa declaração do Dawkins como também a pesquisa, completamente errada e cheia de viés.
Primeiro, comecemos com Dawkins, e depois tratamos dos patetas que fizeram a “pesquisa”.
Dawkins chama o grupo de cientistas avaliados de “elite intelectual”. Mas quem disse para esse camarada que cientistas são ‘elite intelectual’? Basta ver o número de profissionais que chegam a CEOs nas organizações. Dentre os que chegam a CEO (o mais alto cargo corporativo), o número de profissionais vindos de áreas como Administração de Empresas e Engenharia é muito superior aos que vêm de áreas como Biologia e Física, por exemplo. Mesmo que esse parâmetro que usei seja questionável (capacidade de se alcançar a posição de CEO em empresas de grande porte), não há um argumento sequer a favor de estipular um cientista tradicional como alguém da “elite intelectual”.
Outro erro que não cabe a alguém com algum estudo (e olhem que Dawkins é doutor) é o seguinte: “apenas cerca de 7% acreditam num Deus pessoal… essa enorme preponderância de ateus”.
De novo, quem foi vendeu a idéia estúpida ao Dawkins de que alguém que não acredita em um Deus pessoal é um ateu?
A idéia de Deus pessoal é a de um Deus que possua características pessoais, ou que tenha os mesmos sentimentos que um ser humano possui. Não são todos os que acreditam em um Deus dessa forma. Entre vários teístas, existe a definição de Deus como “uma força superior” ou “algo que comanda as vidas das pessoas e do universo” e similares. Isso não é necessariamente um Deus pessoal.
Eu mesmo não acredito em um Deus pessoal. E sou tudo, menos ateu. Isso já prova que Dawkins agiu de maneira intelectualmente desonesta. O que, de novo, não surpreende, pois essa é a tônica de seus textos.
Mas nesse parágrafo de Dawkins há vários outros erros, que explorarei agora, falando diretamente dos responsáveis pela “pesquisa”.
Para conhecer a fonte, basta acessar o link a seguir: http://www.stephenjaygould.org/ctrl/news/file002.html. Neste link, está o artigo da Nature citado por Dawkins.
E a coisa já começa errada com o título, pois o título fala o seguinte: “principais cientistas ainda rejeitam Deus”. O problema é que basta ler o restante do texto para descobrir que a pesquisa fala dos cientistas… dos Estados Unidos. Estranho o título não ser, então, “Principais cientistas americanos ainda rejeitam Deus”. Isso já é uma mostra de que até a Nature pode errar feio, e publicar material que não vale um peido.
Como já disse anteriormente, a pesquisa está errada ao citar o item “Deus pessoal”.
Um exemplo desse erro seria se eu quisesse demonstrar que só uns 10% dos torcedores do Rio são flamenguistas (embora os números digam que a torcida flamenguista chegue aos 50%). Embuído de má intenção, eu não perguntaria “Você torce para o Flamengo?” e sim “Você inclui o Flamengo como ideologia principal?”. Claro que isso reduziria absurdamente o número de pessoas que respondesse afirmativamente. Com isso, seria fácil conseguir um resultado com 10% de flamenguistas, ou seja, o time passaria a ser o de menos torcida no estado. Só que tudo isso seria causado por uma “maquiagem” na pergunta, que é forçada para que poucos a respondam de maneira afirmativa.
A pesquisa já é inválida por ter usado a questão baseada em “Deus pessoal”. A pesquisa só seria válida se a pergunta fosse: “você acredita em Deus?”. Até porque a definição de ateu é “aquele que não acredita em Deus ou Deuses” e não “aquele que não acredita em Deus pessoal ou Deuses pessoais”.
Outro erro é na segunda tabela, em que se questiona a imortalidade. A pergunta, também maquiada, é a seguinte: “Você acredita em crença na imortalidade humana?”. Errado. Nenhum teísta acredita em crença na imortalidade humana, e sim na imortalidade da… alma.
Mesmo com os erros na estrutura das questões (que categorizam a pesquisa como no mínimo fraudulenta), ainda há outras falhas que podem ser apontadas.
Notem os resultados para crença no “Deus pessoal”, em três datas:
- 1914 – 27.7%
- 1933 – 15%
- 1998 – 7.0%
A primeira pesquisa, foi feita, por James H. Leuba, um psicólogo. Na pesquisa, foram incluídos os “principais cientistas”, e a seleção foi pelos que participavam da AMS, ou seja, American Men of Science. Na pesquisa mais recente, de 1998, a pesquisa foi feita por Edward J. Larson, um historiador, e Larry Witham, um jornalista. Ambos, que são conhecidos por pregação ferrenha contra a religião, também selecionaram os “principais cientistas”, mas aí, segundo eles próprios, optaram por escolher membros da NAS, ou National Academy of Science.
O engraçado é a justificativa da dupla Larson-Witham para explicar o motivo por escolher as pessoas da NAS:
Our chosen group of “greater” scientists were members of the National Academy of Sciences (NAS).
O que significa que a escolha dos “principais cientistas” foram por membros da Academia Nacional de Ciências. Mas o texto da Nature só traz essa explicação. Quer dizer, os caras simplesmente escolheram ALEATORIAMENTE um outro grupo de estudo e definiram deliberadamente esses como “principais cientistas”.
A idéia da duplinha, assim como Leuba tentou fazer, era dizer que, quanto maior a qualificação do cientista, menor era a crença em Deus.
Só que a fraude é descoberta fácil: quem disse para a dupla que os membros da Academia Nacional de Ciências são necessariamente os mais “qualificados”?
Vejam, direto do site da Academia Nacional de Ciências, o processo de eleição dos membros desta academia:
Members and foreign associates are elected annually in recognition of their distinguished achievements in original research; election is considered one of the highest honors that can be accorded a scientist or engineer. Currently, as many as 72 members and 18 foreign associates may be elected annually. Although many names are suggested informally, formal nominations can be submitted only by an Academy member. Nomination materials and candidate lists are confidential. The nomination and evaluation process occurs throughout the year, culminating in a final ballot at the Academy’s annual meeting in April. The names of newly elected members and foreign associates are announced in a press release, available on our web site. Because membership is achieved by election, there is no process by which an individual may apply for membership.
Resumindo, os membros são eleitos anualmente de acordo com o reconhecimento em pesquisas originais. As nominações formais só podem ser submetidas por um membro atual da Academia, embora muitos nomes sejam sugeridos informalmente. Os materiais de nomeação e listas de candidatos são confidenciais. O processo é tratado como eleição.
Como se vê é um processo muito similar ao Oscar, com quase nenhum critério para auditoria do processo (de forma a garantir que os melhores sejam realmente tratados como os melhores). Isso, somando-se ao fato da dupla Larson-Witham não explicar a metodologia para seleção da amostra de maneira detalhada (e que fosse passível de auditoria), a informação de que a pesquisa trata dos “principais cientistas” não vale nada. Não há nada, absolutamente nada, garantindo que realmente são os “principais” cientistas ou “melhores” cientistas. Ressalto também que Leuba cometeu o mesmo erro em sua pesquisa original, sendo então que nem os resultados originais de Leuba e nem os resultados de 1996 de Larson-Witham não significam absolutamente nada.
Sendo a pesquisa repleta de viés e erros metodológicos, ela não é capaz de dizer que existe uma “elite intelectual ateísta”.
Um conselho aos neo-ateus: se quiserem realmente fazer uma pesquisa do tema, que estudem sobre uma matéria chamada Análise de Sistemas de Medição, que é básica para estudantes de estatística. Estudem também sobre mecanismos de auditoria para validar as amostras.
Em suma, aprendam a fazer pesquisas REALMENTE científicas. Pois essa pesquisa da Nature (endossada por Dawkins) é tudo, menos ciência.
E portanto, qualquer um com o mínimo de conhecimento sobre o método científico ridiculariza com extrema facilidade qualquer declaração baseada nesta “pesquisa”.
