Posts Tagueados ‘filosofia’
Desvendando a ilusão do neo ateísmo – Pt. 6 – A origem da picaretagem intelectual

Anteriormente, já falamos da Estratégia Gramsciana, que pode ser definida como uma arquitetura de implementação do marxismo cultural. Movimento que pode ser definido como um dos ícones da subversão. O neo ateísmo é atualmente seu carro chefe. Conforme vimos nesses textos, uma das principais armas dos subversivos é o uso sistemático e estruturado da mentira, inclusive justificável (para eles). Enfim, temos uma nova série de artimanhas que torna-se um novo sistema de agir, direcionado a produzir o maior número de estratagemas possível de forma que o público menos apto não seja capaz de perceber. E até produzir novos estratagemas para o caso dos truques serem descobertos. Um exemplo, como já dito, é a tentativa de atacar os argumentadores oponentes para que o público não perceba que o que eles próprios dizem é uma mentira. Em suma, o que estamos tratando aqui é da prática oficializada da charlatanice, que, conforme confirmou Trostky, era aceitável, pois, contra os inimigos todos os “estratagemas” e “dissimulações” deveriam ser praticados. Trotsky citava Lênin, inclusive.
O que está sendo objeto de estudo aqui é um misto da retórica pura e simples, com a impostura e o blefe, e de como isso tudo se tornou um padrão comportamental para os subversivos, ao passo que para muitos outros deveria ser um ato de vergonha suprema o mero ato de pensar em executá-los.
A partir de agora, neste texto, tratarei todas as iniciativas de falsidade e desonestidade intelectual, desde a retórica até o blefe, desde a trapaça até a divulgação de falsas informação, desde a retirada de textos do contexto até a contra-informação pura e simples, desde a impostura até a fraude, enfim, tudo isso como apenas mentira. Em oposição à busca da verdade. Lembro que aqui trato não só a mentira contada por alguém, com foco em enganar os outros, mas sim também a atitude que ocorre, em vários casos, de alguém aceitar passivamente uma mentira simplesmente por não dar tanta importância à verdade.
Obviamente meu objetivo aqui não é contar a origem da mentira, mas sim entender como o uso da mentira, de forma sistemática e estruturada, se tornou um paradigma comportamental para uma classe de pessoas.
A Bíblia e a Verdade
Antes de tudo, ao tratar da Bíblia aqui, não o farei de forma apologética. Não irei demonstrar que ela é a verdade em cima de outras, e nem tentarei fazer a validação dela aqui, mas apenas analisá-la externamente. Pode até ser considerada uma análise secular, e eu optei por fazê-lo desta forma pois os 10 textos dessa série são na verdade uma iniciativa de estudo científico a respeito de uma ideologia subversiva (o neo ateísmo). Logo, eu não posso tratar o assunto aqui de forma teológica, ou até me apegar à minha religião, que eu claramente considero verdadeira. O tratamento que farei aqui é o tratamento como se fosse de alguém que NÃO fosse um cristão católico, e sim de alguém que avalia a Bíblia de uma forma secular.
Avaliando-a, portanto, de uma perspectiva secular, notamos a vantagem da Bíblia sobre os textos anteriores de cunho religioso, e uma “inovação” que deveria ser motivo de orgulho para todos os que a seguem – notem aqui que não trato do orgulho destrutivo, anti-produtivo, mas sim do reconhecimento do valor de algo a que se é apegado. Esse motivo de orgulho que eu afirmo é o fato da Bíblia conter uma série de trechos em que ela é extremamente clara: a mentira sempre será considerada uma abominação, e a luta pela verdade deverá ocorrer sempre.
Em João 16:13 é dito: “Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir.”. Olhando na perspectiva do que tratamos aqui deve-se notar que quando está escrito “não falará de si mesmo” é a idéia de que a verdade não é aquilo que queremos que seja, mas sim as coisas como elas são. Se notarmos com cuidado, idéias assim estão extremamente alinhadas com o método científico, que é uma forma de descobrirmos, no mundo natural, as coisas como elas se mostram, mas não como alguns gostariam que fosse.
Os filósofos pós-modernos, por exemplo, afirmam que não há coisas como “verdade absoluta”. Isso está em oposição à tudo que é ensinado na Bíblia, em que temos a verdade absoluta, e em nenhum dos casos a verdade absoluta é apresentada como originada da vontade das pessoas. A verdade é apresentada na Bíblia na forma de cinco colunas, conforme estão nas escrituras: “Deus é a verdade” (Isaías 65:16), “Jesus Cristo é a verdade” (João 14:6), “O Espírito Santo é a verdade” (João 16:13), “A Bíblia é a verdade” (João 17:17) e “A Lei de Deus é a verdade” (Salmo 110:142). Essas seriam as cinco colunas da verdade. Espero que os leitores não-religiosos não se incomodem, pois em nenhum momento estou aqui querendo convencer a ninguém de que “O cristianismo é a verdade”, mas sim mostrar a importância da busca da verdade conforme está nas Escrituras, e como em todas as cinco colunas da verdade em nenhum momento ela é tratada como se fosse algo submetido à vontade humana. A única pessoa de carne mencionada como uma das cinco colunas da verdade é Jesus Cristo, e ninguém mais. Isso explica-se pelo fato da vida toda de Jesus ser vivida em coerência com as palavras de Deus.
O que importa, para este momento, não é defender a Bíblia em si, mas sim me atentar aos fatos. Este blog é feito por mim, um católico, mas sob a perspectiva secular. Aqui eu não quero dizer que a Bíblia é melhor que o Corão, ou que somos melhores que os ateus, e nem impor aquilo no que acredito aos outros, mas sim me atentar aos fatos. E estes nos mostram que em uma análise da Bíblia, podemos observar que ela é um livro em notamos a busca incessante pela verdade. Esta busca não é jamais mencionada como algo que estaria condicionado às vontades humanas (ou seja, verdade relativa), mas sim está sempre em um nível acima da mera vontade humana. Essa é a forma que a Bíblia trata a verdade, e é justamente por isso que normalmente me refiro ao cristianismo como uma religião de direção aristotélica. Não é que o cristianismo SEGUE o aristotelismo, mas sim que está em plena consonância com o aristotelismo e em completa oposição ao epicurismo (que é o principal foco deste artigo, como veremos adiante).
Muitos ateus dizem que “A Bíblia é uma mentira” ou contém “historinhas”. Mas, se olharmos até por essa perspectiva deles, poderíamos dizer que a Bíblia seria então baseada uma mentira mas ainda assim foca em dizer que não devemos buscar a mentira? E mais: Será que a Bíblia é uma “armação” de pessoas que queriam o poder? Mas se for assim, por que é que a Bíblia em nenhum momento, com exceção de quando se refere a Jesus Cristo, menciona que a verdade está em pessoas (o que seria um habilitador para que os donos do poder a usassem para dizer “eu sou um emissário de Deus, me sigam” ou coisas do tipo)? Portanto, qualquer idéia anti-bíblica que diga que “não há provas de que Deus existe” ou “a história de Jesus é apenas ficção” não é algo que estou tratando neste texto, embora essas idéias também já tenham sido refutadas brilhantemente por apologetas como William Lane Craig e outros estudiosos.
Portanto, para que tudo seja limpo e cristalino, eis meu interesse aqui: não estou difundindo a Bíblia e nem pregando-a, pois este é um blog secular. Mas sim avaliando o que está lá escrito para mostrar que há motivos para qualquer pós-moderno rejeitar a Bíblia. Aquele que não acredita em verdade absoluta não pode mesmo estar alinhado à Bíblia, e até por isso fica fácil de entender por que tantas pessoas anti-religiosas dedicam seu tempo a atacá-la. Mesmo que muitos não entendam patavinas das mensagens lá. Ou, se entenderam, é muito provavel que a rejeitaram. Para concluir, em João 8:32 temos “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.”
Os três sábios
Eu não quero dizer que a única iniciativa de busca da verdade veio dos autores da Bíblia, mas também temos grandes exemplos dentre aqueles que são chamados de três sabios: Sócrates, Platão e Aristóteles.
O primeiro deles, Sócrates, nasceu em 470 a.C., em Atenas, e dedicou sua vida à filosofia. Segundo ele, os cidadãos deveriam ser sábios e honestos, ao contrário dos sofistas, que eram pensadores que discursavam com a intenção do benefício particular. Desde aquela época, o discurso sofista tinha atitudes de “escravização” mental dos menos capazes (exatamente como a Estratégia Gramsciana planejou, mas sem toda a engenharia de ação prevista por Gramsci), e, como diria Gérson, “levar vantagem sempre, certo?”. Sócrates bateu de frente com esse tipo de pessoas, o que levou a hostilidades contra ele desde o começo. Claro que Sócrates também não era um ser totalmente passivo, e ficou conhecido também por sua ácida ironia e seus questionamentos ferozes, não raro desmascarando picaretas intelectuais. Aliás, aquilo que este blog normalmente traz, que é o desmascaramento de fraudes intelectuais, para Sócrates era uma norma comportamental. As hostilidades para com Sócrates culminaram em uma acusação jurídica movida por ele contra Mileto, Anico e Licon. A acusação dizia que Sócrates corrompia a mocidade e negou os deuses estabelecidos na época (sim, lá se vivia na época do politeísmo). Sócrates negou-se a rever os seus pontos e por isso foi condenado à morte, em uma execução que ocorreu em 399 a.C., quando ele estava com 71 anos de idade.
Sócrates desenvolveu um processo dialético chamado de indução, com o qual comparava vários indivíduos de uma mesma espécie, retirando-lhes as diferenças individuais e as qualidades volúveis, mantendo os elementos em comum, estáveis e permanentes. Embora sem o caráter demonstrativo do processo lógico utilizado atualmente (que vai do fenômeno até a lei), já era um meio de generalização constituindo extrema inovação para a época.
Outro método desenvolvido por Sócrates é o Diálogo Socrático, em que ele propunha questões e depois esboçava respostas. A idéia era fazer com que os indivíduos pensassem por si próprios. Como um estágio anterior à retórica, ele fazia o uso da dialética, que na forma de perguntas e respostas e um debate de oposição de pontos era um método da obtenção da verdade. Para Sócrates, o fim da filosofia era a moral. Tecnicamente, podemos chamar Sócrates até de fundador da ciência, e, além disso, o arquiteto da ciência moral. Ele valorizava a busca contínua da verdade e nesse caminho a busca era sempre em direção à razão, em oposição ao lado animalesco do ser humano.
O trabalho filosófico de Sócrates não foi jamais estabelecido de forma escrita. O que conhecemos de seu legado deve-se principalmente a Platão, também nascido em Atenas, em 428 a.C. em uma família aristocrática. Quando tinha cerca de 20 anos de idade, Platão conheceu Socrátes e tornou-se seu discípulo intelectual. Após a morte de Sócrates, Platão viajou pelo mundo para adquirir conhecimentos, em viagens que foram de 390 a.C. a 388 a.C.. Em 387, Platão fundou a escola de filosofia “A Academia”, cuja missão e objetivos estavam todos já previstos na famosa história “A Caverna”.
Nessa história, é mostrado que a maioria das pessoas vive com um um véu sobre seus olhos, obtendo então apenas uma noção parcial de coisas como Verdade e Beleza. Ele mostrou vários indivíduos acorrentados em uma caverna escura, iluminada somente por uma grande fogueira atrás deles. Esses homens enxergavam apenas sombras deles mesmos, assim como outras imagens trêmulas nas paredes. Mesmo assim, essas pessoas tomavam isso como a realidade. A maioria dessas pessoas não possuiam curiosidade ou imaginação para transcender o que viam. Quando um dos prisioneiros da caverna consegue fugir e descobrir que há muito mais do que imaginavam, a resposta dos outros habitantes da caverna tende a ser a rejeição dessa nova informação. Segundo Platão, os outros habitantes estariam mais propensos a matar este profeta, pois ele seria uma ameaça ao estado já estabelecido das coisas.
Tanto quanto Sócrates, Platão também dizia que a filosofia tinha um fim moral. Segundo ele, é a grande ciência que resolve o problema da vida. Enquanto Sócrates focava seu questionamento e pesquisa ao aspecto antropológico e moral, Platão estendeu essa busca ao campo metafísico e cosmológico. Logo, Platão queria entender toda a realidade.
O terceiro e último dessa grande linhagem de sábios era Aristóteles, nascido em Estagira, colônia grega de Trácia, em 384 a.C.. Em 367, Aristóteles mudou-se para Atenas e juntou-se à Academia, tornando-se um dos pupilos de Platão, durante 20 anos. Aristóteles discordava de Platão em vários pontos, e, depois da morte do mestre, viajou pelo mundo, tendo sido tutor de Alexandre, que, ao invés de adentrar o terreno da filosofia, tornou-se um dos grandes conquistadores da Terra. Aristóteles também criou sua própria academia, denominada Liceu.
Um dos pontos de discordância de Aristóteles com Platão era quanto a Teoria das Formas, deste último. Platão dizia que havia uma outra dimensão, com várias formas, como Verdade, Beleza e Amor, vivendo como entidades que flutuavam. Aristóteles questionou a improbabilidade desta abordagem, e defendeu a idéia de que o substancial observado fisicamente era bastante real, e as formas não seriam elementos separados, mas sim características embutidas naquilo que percebemos com os sentidos.
Explorar toda a grandiosa obra de Aristóteles requereria um livro só para falar dela. A sua obra incluía escritos lógicos (cujo conjunto foi denominado Órganon), escritos sobre a física (incluindo estudos sobre cosmologia, antropologia e física teórica), escritos metafísicos (cuja obra “Metafísica”, composta de catorze livros, é uma compilação feita após sua morte), escritos morais e políticos (incluindo “Ética a Nicômano”) e escritos retóricos e poéticos (incluidno “Retórica”, em três livros, e “Poética”, em dois). As publicações, aliás, não foram feitas pelo próprio Aristóteles, e sim por outras pessoas, após sua morte.
A base da busca da filosofia de Aristóteles era decifrar os últimos enigmas do Universo. Como acreditava também na verdade absoluta, Aristóteles tinha por objetivo buscar a razão última das coisas (o universal), as formas e suas relações. Segundo Aristóteles, a filosofia divide-se em teorética (física, matemática e filosofia primeira, incluindo metafísica e teologia), prática (ética e política), e poética (estética e técnica), com isso abrangendo todo o saber humano obtido pela razão. A lógica aristotélica é basicamente dedutiva, demonstrativa e também apodíctica – sendo esta última a arte de demonstrar um princípio por base do raciocínio, quando não se tem os fatos à mão. O silogismo é um processo essencial no método de Aristóteles. O sistema final de Aristóteles, remodelado a partir das idéias de Platão, é bastante abrangente, e inclui, em uma síntese final: observação fiel da natureza, rigor no método (podemos considerá-lo como o definidor da base do método científico) e unidade de conjunto.
A teoria da potencialidade de Aristóteles dizia que, dentro de tudo (inclusive os indivíduos) existe uma evolução natural tentando efetivar o próprio potencial – em essência, relembrando a teoria das formas de Platão, isso significaria tomar sua própria Forma. O processo, que, segundo Aristóteles é involuntário, atende ao princípio de que um movimento na natureza e nos humanos nos conduz a um estado de imperfeição para um estado de perfeição, ou mais perto possível que se pode chegar da perfeição. Aristóteles definiu quatro causas no processo: causa material (significa que uma força externa está criando ou iniciando o processo), causa eficiente (o processo de criação em si), causa formal (aquele elemento específico em seu estado natural) e causa final (o que pode surgir quando o potencial é realizado). Aristóteles definiu Deus como causa primeira de todas as coisas, e o denominou por Motor Imóvel. Para Aristóteles, sendo a primeira coisa que existiu, Deus é a Forma fundamental e única. São Tomás de Aquino futuramente explorou esse argumento, embora a Teologia cristã, como um todo, trate de uma concepção de Deus diferente da que Aristóteles possuía. Para este, seu Deus não se importava muito com o que ocorria em Terra. Mesmo com essa discordância, a teologia de São Tomás de Aquino é bastante aristotélica, sendo chamada até de aristotelismo cristão.
Enfim, fica claro a partir desta análise que a busca da verdade era uma prioridade para estes 3 filósofos. Já é o momento de, antes de partirmos para a última parte deste texto, relembrarmos o que foi dito na parte 3 (O marxismo Cultural), em que citamos que a grande prioridade dos marxistas era acabar com aquilo que denominaram 3 colunas, sendo, elas: (1) Direito Romano, (2) Filosofia Grega e (3) Moral Judaico-Cristã.
Ora, se a base da revolução incluía o roubo de propriedades e destruição de uma classe por outra, isso não poderia ser feito senão pelo ato de ignorar todas as conquistas do direito romano até então. E, para implementar coisas como a Estratégia Gramsciana, teríamos que nos abster de buscar a verdade. Mas como fazer isso se gente como Aristóteles, Sócrates e Platão, assim como a Bíblia, nos insistem em dizer que a busca da verdade não é só importante, como também um objetivo final?
Fica agora mais claro de entender por que não só marxistas, como subversivos de todo tipo, lutam ardentemente contra a filosofia grega (e por “filosofia grega” entendemos os três sábios, pois, como veremos à frente, Epicuro era até objeto de estudo de Karl Marx) e a moral judaico-cristã. Sem a moral judaico-cristã, solidificada na Bíblia, os ensinamentos desta última seriam varridos da face da terra.
Como a picaretagem foi oficializada OU A Epifania de Epicuro
Para os leitores dos três sábios e da Bíblia, a mentira é algo inaceitável. Isso não implica que não possam mentir. Claro que podem, pois segundo a Bíblia, é dado o livre arbítrio ao ser humano. A diferença é que o ato em si não é ACEITÁVEL moralmente. Ou seja, dificilmente em grupo você, se estiver diante de aristotélicos e religiosos, poderá dizer que vai mentir para enganar alguém e será tratado com um sorriso no rosto. Será um ato de vergonha o mero ato de mentir. Dizer que se está planejando uma mentira para atingir os outros seria uma vergonha muito maior.
Como vimos até agora, no entanto, para os subversivos a mentira não só não é um problema, como também um recurso que eles consideram legítimo. Um exemplo foi quando publiquei este texto, e um neo ateu postou, em uma comunidade de Orkut mensagens de revolta com o simples fato de eu ter exposto quatro mentiras recentes cometidas pela mídia anti-católica. Ao invés dele reconhecer os fatos e reorganizar sua argumentação a partir dela, o sujeito ignora os fatos. Relembrando o que foi dito no texto da parte 2 (Interpretação Delirante e a Mente Revolucionária), para estes não importam os fatos e sim a teoria. É uma visão, naturalmente, completamente oposta à da busca pela verdade.
Para alguém agir, intelectualmente, dessa forma, é preciso que um comportamento, que antes era considerado inaceitável (na época dos três sábios), passasse a se tornar aceitável, ou justificado. Se antes os sofistas não tinham feito isso de uma maneira estruturada, o herói para os subversivos tem um nome: Epicuro, que criou a primeira “base filosófica” para a prática da mentira. Ele nasceu em 341 a.C., e muitas vezes acaba sendo citado como referência para o hedonismo devasso. Algo como alguém que dê liberdades para alguém fazer o que quiser, como estuprar, matar, etc. Nada disso. Isso não é o que Epicuro queria. A vontade de Epicuro era viver de forma contemplativa, conforme trataremos a frente. O grande problema de Epicuro não era o incentivo ao hedonismo devasso, mas sim a definição da mentira como um comportamento intelectualmente aceitável.
Pessoalmente, Epicuro era um sujeito reservado, que vivia a vida filosofando em sua rede. Sua mãe era uma praticante de magia, e não há informações de se ela ensinou algo ao filho. Podemos, é claro, sugerir que algumas idéias como “não há verdade” estão em perfeito alinhamento com algumas idéias ocultistas e pagãs. Idéias mais recentes do ocultismo, que não são mais que releituras das idéias originais, defendem coisas como: “Na Magia do Caos, crenças não são vistas como fins nelas mesmas, mas como ferramentas que criam os efeitos desejados. Entender, totalmente, isto é, encarar uma terrível liberdade na qual nada é verdadeiro e tudo é permitido, é como dizer que tudo é possível. A Gargalhada parece ser a única defesa contra a compreensão de que ninguém possui sequer um Eu real.”. Bastante epicurista, diga-se.
Epicuro foi iniciado no sistema de Demócrito, e em 306 abriu sua escola em Atenas, denominada O Jardim. Ela ficava nos jardins de sua vila, e por isso muitas vezes ela é referida como O Jardim de Epicuro. Ele tinha uma vida aristocrática, e vários membros da aristocracia, na época, gostavam de suas idéias. Segundo Epicuro, os deuses viviam em um lugar sereno, apenas contemplando as coisas, sem nada a fazer. Ele vivia também desta forma, e seu jardim era proposta para ser um lugar semelhante ao que os deuses viviam. Para seus seguidores, Epicuro chegou a ser uma espécie de “quasi-divindade”, pois sua filosofia era considerada redentora.
O epicurismo considera a filosofia dividida em lógica, física e ética, subordina a ciência à moral, e a teoria à prática. Até aí, nada de muito surpreendente, mas a diferença seminal é simplesmente quanto ao objetivo final de sua filosofia. De início, não se nota nada relacionado a busca por devassidão nos interesses de Epicuro, pois ele próprio dizia buscar a serenidade, a paz, a apatia. A questão final é que a moral para Epicuro é exclusivamente hedonista. Sendo o fim da vida o prazer sensível, o critério único de moralidade para ele seria justamente o sentimento. A equação dele é de facílima compreensão. O único bem é o prazer, o único mal é a dor. Para Epicuro, não há nenhum prazer a ser recusado (a não se que cause consequências para quem busca esse prazer), e nenhum sofrimento deve ser aceito. Para o sofrimento ser aceito, deve-se ter em busca um outro prazer. Sendo assim, a busca da verdade se torna inútil, e até o próprio conceito de verdade absoluta perde o sentido, pois o prazer de cada um é simplesmente individual. Logo, se alguém possui várias coisas que lhe dê prazer, esse é o critério de verdade para ele, e não uma verdade externa. Esse é o grande diferencial do epicurismo, que o coloca em oposição ao aristotelismo.
Antes que alguns adeptos de Epicuro possam protestar, eu novamente ressalto minha compreensão de que Epicuro tinha como INTERESSE PESSOAL passar a vida filosofando, conversando com os amigos, e praticando diálogos no jardim. Isso eu sei. Mas é o momento de separarmos os interesses pessoais de Epicuro com a base CENTRAL de sua filosofia. Ora, se Epicuro queria passar o dia no Jardim filosofando, isso é o que lhe dava prazer, portanto era verdadeiro para ele. Se alguém quiser ficar torturando um gato, e isso é o que dá prazer para essa pessoa, então isso seria tratado como verdadeiro. Novamente, se o conceito de verdade é relativo, então não há verdade absoluta. A “verdade” para a ser adotada por questões de conveniência.
Para Epicuro, não há espaço para prazeres espirituais, e sim para os prazeres carnais – é por isso que alguns dizem que Epicuro é o precursor do ateísmo, embora ele fizesse menção à deuses. Realmente Epicuro dizia que o homem vulgar buscava o prazer imediato, mas ele buscava algo além deste prazer, e obteria isso a partir da reflexão filosófica. Mas o sistema filosófico dele não era para aplicação somente dos filósofos, e sim universal. Portanto, quando alguém decide que algo lhe cause prazer, não é preciso ter os mesmos interesses que Epicuro pela reflexão em sua rede no Jardim, mas sim associar diretamente a busca pelo prazer pessoal como critério último de verdade.
Epicuro, pensando em tudo, criou até um “remédio” intelectual para os seus seguidores, que era o Tetrafarmacón. Isso englobava as seguintes quatro máximas da ética epicurista: (1) não temer a divindade, que não se preocupa com o homem, (2) não temer a morte, (3) ter em mente a facilidade do prazer, (4), ter em mente a brevidade da dor. Mas como obter isso? A meditação, com foco em visualização criativa, seria um componente útil para convencer os seguidores da validade das quatro máximas. Quanto mais o seguidor tivesse gravado em sua mente que todos os quatro itens são verdadeiros (ou ao menos percebidos como verdadeiros, o que em termos epicuristas não faz diferença), mais ele vai se sentir bem, e portanto talvez se sinta bem. Sendo que a única forma de admiração que Epicurista possui pelos deuses é pelo ideal estético grego da vida (ou seja, são arquétipos, mesmo que ele não tenha formalizado essa intenção), caberia ao ser humano imitar essas características dos Deuses.
Em resumo, o que podemos entender praticamente é a divisão da filosofia em duas frentes: (a) a busca da verdade (pelos três sábios, em perfeito alinhamento com a busca dos autores das Escrituras), (b) a busca pelo prazer, sendo que a verdade seria uma conveniência para cada um. Epicuro, responsável pela definição de (b) de forma sistêmica, acaba sendo o grande influenciador de uma geração de intelectuais que não buscam a verdade. A partir daí podemos citar gente como Foucault, Derrida, Heidegger, Nietzsche, Rorty, e muitos outros. O próprio pós-modernismo pode ser definido como uma retomada do Epicurismo.
É importante notar que não estou tratando o epicurismo como um habilitador DIRETO da subversão, mas sim como um estágio pelo qual o novo discípulo precisa ter a idéia do conceito de “verdade flutuante” (ou seja, nada é verdadeiro, e tudo é permitido). Tecnicamente, poderíamos citar o epicurismo como a formatação seletiva do cérebro de alguém, sendo que consideraríamos a formatação apenas dos programas relacionados à elementos como verdade absoluta. Após isso, o novo adepto fica susceptível à inserção de novos programas. Por exemplo, o marxismo, o neo ateísmo e qualquer outra coisa. Mesmo com esses novos programas inseridos, o novo subversivo sempre mantém os resquícios de que a luta pela verdade absoluta é algo contra o que ele deve lutar até o fim dos seus dias. A luta contra a religião será uma prioridade. Não deixa de ser revelador lembrar que a tese de mestrado de Karl Marx era baseada em Epicuro. Futuramente, ele ignorou o Epicurismo, mas nunca mais aceitou a idéia de verdade absoluta.
A partir do não aceite da idéia de verdade absoluta, fica mais fácil para os subversivos considerarem a prática da mentira algo tão trivial. Quando algum neo ateu recusa os fatos que derrubam suas alegações (assim como o marxista normalmente faz), ele estaria, de acordo com Epicuro, buscando o prazer (no caso dele, o prazer de atacar um oponente), e fugindo da dor (ou seja, da dor de ver sua tese refutada). Ora, se os fatos apresentados pelo oponente refutam sua tese, então os fatos devem ser ignorados. O critério da verdade é baseado na busca do prazer. Agindo assim, um neo ateu está sendo epicurista.
Conclusão
Essa parte do nosso estudo tentou compreender a origem de um comportamento praticamente mitômano dos diversos tipos de subversivos, principalmente os neo ateus. Conseguimos, por tabela, ter uma explicação interessante para o motivo pelo qual os marxistas culturais (principal conjunto atual de subversivos no Ocidente, ao lado dos neo ateus e anti-religiosos de todo tipo) usam a mentira de forma estruturada e metódica. Foi mostrado também por que a moral judaico-cristã e a filosofia grega se tornaram prioridades dos atos de hostilidade dos marxistas culturais. Obviamente, o neo ateísmo, como carro-chefe no ataque à religião, executa a função de atacar a coluna da moral judaico-cristã. É claro que não podemos dizer que um religioso automaticamente se torna alguém que só diz verdades por ser de uma religião aristotélica. Seria ingênuo afirmar isso. Mas podemos dizer com segurança que a prática da mentira não é um ato considerado digno e aceitável tanto dentro da cultura dos religiosos como dos aristotélicos e socráticos em geral. Entendemos, por outro lado, por que existem tanta falácias e estratagemas erísticos nas obras dos quatro autores do neo ateísmo (Richard Dawkins, Daniel Dennett, Christopher Hitchens e Sam Harris), e por que isso é aceito com tanta facilidade e ausência de senso crítico por seus leitores. Provavelmente, eles atenderam ao público que já tinha tendências anti-religiosas, e, por sua influência subversiva, não ligaram para critérios como busca da verdade. Por isso, fica fácil compreender por que se tornaram praticamente mentirosos profissionais. Esse texto nos dá abertura para as duas próximas partes desse ensaio, em que falarei da lavagem cerebral e do combo da auto-ajuda e PNL para a doutrinação de novos adeptos.
Introdução a Daniel Dennett ou Uma parábola sobre os neo afilósofos

Certo dia um veterano professor, Jorge, revoltou-se. Ele odiava a filosofia. Odiava-a mais do que tudo na vida. A mera existência de filósofos o incomodava. Certa vez ele foi a um dentista arrancar um dente siso e a anestesia não estava fazendo efeito. Como já conhecia o seu paciente, o dentista lhe disse: “tente imaginar alguém filosofando ou lendo filosofia”. Jorge pensou: “é, nada deve ser tão doloroso”. E não é que isso funcionou? O tratamento dentário pôde seguir normalmente.
Noutro dia, ele ligou a televisão e ouviu dois filósofos debatendo o sistema aristotélico de conhecimento. Foi o suficiente para ele quebrar o controle remoto. Realizou: “esse canal de televisão não deve ser de boa índole, pois dá espaço a interessados em filosofia”.
Juliana, sua amiga de faculdade, resolveu fazer uma brincadeira. Como presente de aniversário, lhe deu “A Crítica da Razão Pura”, de Kant. Que pena para Juliana, pois daí em diante ele rejeitou sua amizade. E sem chances de retorno.
Certa vez, caminhando próximo ao metrô, Jorge encontrou um quiosque de livros em promoção. Percebeu ali vários livros de filosofia, de autores diversos, à venda. O horror, o horror! Pois, com livros em promoção, vários poderiam comprá-los, e não só a filosofia o incomodava, como o mero interesse das pessoas no assunto. Para ele, isso tinha que acabar. Era achava inadimissível que, enquanto ele fugisse da filosofia feito o diabo da cruz, muitos outros se aproximavam dela.
Incomodado, começou a assistir programas da National Geographic, e lhe veio uma epifania: em um documentário, ele viu vários animais, de várias espécies, que não possuíam filosofia. E pareciam felizes. Ora, se a filosofia lhe deixava tão transtornado, provavelmente seria a causa da maioria das infelicidades do mundo também. Por que não lutar contra ela? E como fazer isso? Será que estudar a filosofia pelas lentes da evolução não seria a solução? Seja lá como for, Jorge decidiu que a partir daí dedicaria a sua vida a avaliar tudo pela ótica da evolução. Portanto, nessa ótica a filosofia deveria ter um valor evolutivo, e, se ele achasse que não tivesse, ele dedicaria a vida tentando convencer os outros a descartá-la.
Por vários anos, ele concebeu o seu modelo de argumentação para atacar a filosofia. A primeira idéia, naturalmente, seria o estudo da filosofia pela ótica da seleção natural. Ele comemorava, exultante, achando que descobriu a solução para os seus problemas. Se através da seleção natural são avaliadas as características básicas das espécies, ele poderia tratar a filosofia como uma delas (e sem nada de especial), será que isso não seria uma estratégia retórica para convencer os outros de que a filosofia também não era uma coisa boa? Ou ao menos que conseguisse convencer os leitores de filosofia e os filósofos que ela talvez não tivesse nada de especial.
Jorge não pensou duas vezes e preparou vários estudos sobre o tema, sendo que o primeiro era baseado em explicar a teoria da evolução não apenas como uma teoria científica sobre a especiação, mas sim como o paradigma para o absoluto, um doce inigualável, uma maravilha da ciência, uma epopéia do saber, a redefinição do tudo, o alfa e ômega do conhecimento. O problema é que, distante dos seus alunos e amigos, ele não conseguia respaldo científico.
Em seguida, veio um novo estudo, que seria mais facilmente aceito por aqueles doutrinados nessa versão extrapolada da teoria da evolução. Foi ali que Jorge lançou a idéia de que a filosofia deveria ser explicada pela seleção natural, e apenas como um fenômeno natural. Dizia ele: “se estudamos a varíola, ou o suicídio das mariposas, é assim que devemos tratar a filosofia!” Jorge estava cada vez mais orgulhoso de sua criação intelectual.
Em uma aula, Jorge foi questionado por um aluno, que lhe disse: “Mas o epicurismo e o aristotelismo são opostos, assim como o marxismo e o conservadorismo, dentre outros exemplos. Sendo assim, como você conseguirá estudar tudo junto?”. Jorge já tinha uma resposta na ponta da língua: “Meu sistema é abrangente, eu quero ver a filosofia como um todo”. Ele também usou como argumentos a idéia de que a filosofia já causou muitos males à sociedade, como as mortes originadas a partir do marxismo, as mortes na revolução francesa. Portanto, era um dispêndio de energia o ato de filosofar. Este ato teria que ser justificado em termos evolutivos, e portanto Jorge batia o pé e dizia que o estudo da filosofia deveria ser avaliado como um fenômeno natural. O mesmo aluno lhe questionou: “Se você quer estudar a filosofia como fenômeno natural, por que não estudar também o movimento afilosófico, do qual você faz parte?”. Jorge, incomodado, pensou: “Devo tomar mais cuidado da próxima vez, pois ele já é um ser doente, sua doença é a filosofia”.
Entre uma das idéias de Jorge, estava a proposição da idéia do sistema filosófico universal, ou até uma bancada de afilósofos. A idéia seria que as pessoas interessadas em filosofar ou até divulgar um sistema filosófico teriam que se apresentar para essa bancada de forma a demonstrar a vantagem de sua filosofia. Essa bancada, aliás, poderia até criar um novo sistema filosófico, ou sugerir uma mistura de vários, mas não seria permitido que alguém tivesse algo além desse. Claro que Jorge torcia para que o sistema escolhido fosse a afilosofia, a negação total de qualquer iniciativa filosófica. Mas ele não podia deixar que os outros percebessem suas reais intenções. Sendo assim, por que não tentar banalizar os outros sistemas filosóficos com essa atitude? Jorge já tinha a estratégia montada em mãos.
Novas idéias iam sendo incorporadas à estratégia. Uma delas envolvia a apresentação para o público de opções alternativas à filosofia. Jorge tentou estudar o ato de “colocar a mão no queixo, enquanto se está pensando”, conforme viu na imagem de vários filósofos (e exatamente igual à foto do Dennett deste post). Ele chegou a sugerir a idéia de substituir a filosofia por um suporte para o queixo. Riram na cara dele. Menos seus alunos, claro.
Mas ele era esforçado e tentou entender a filosofia por um outro olhar, algo como um ritual que as pessoas faziam de leitura debaixo do abajur. Pensou ele: “será que as pessoas querem é um motivo para ficar debaixo do abajur?”. E então sugeriu a leitura de álbuns de figurinhas de animais (explicando a teoria de Darwin), para substituir a filosofia. Novamente, só funcionou com seus alunos e amigos de doutrina afilosófica. Nessa época, inclusive, Jorge estava querendo definir a si próprio como um dos líderes da neo afilosofia.
Jorge jamais se deixou incomodar pelas críticas, pois resolveu dar aulas e queria sim ensinar aos seus alunos que era preciso estudar a filosofia como um fenômeno natural, e portanto não abriria mão disso por nada deste mundo. Embora seu objetivo fosse divulgar a afilosofia radical, ele poderia se fingir de interessado e aparecer ao mundo como alguém sério, disposto a estudar o assunto. Claro que até o fato de que somente o seu grupo de afilósofos e seus alunos o levarem a sério (e os filósofos saberem que ele nem de perto tratava a filosofia) não era jamais um empecilho. Todas as pessoas interessadas em filosofia, e que riam de sua iniciativa, deviam ser doentes e precisavam de sua ajuda. Jorge queria apenas ajudá-los a se livrarem de um mal.
QUEM É JORGE NA VIDA REAL
Caso você ache que Jorge é um maluco de pedra, recomendo pensar também na possibilidade dele ser principalmente um dissimulado que à primeira vista possa ser visto como doido. E se você compreendeu bem as intenções de Jorge, o modelo de agir, suas iniciativas e estratégias, provavelmente o nome de Daniel Dennett já deve ter surgido em sua cabeça – isso, é claro, se você já teve acesso à obra deste último. Obviamente a história de Jorge é ficcional, e a fúria de Dennett é lançada não contra a filosofia, mas sim contra a religião. Basta substituir filosofia, no texto acima, por religião, que temos uma síntese completa de toda a abordagem tentada por ele em “Quebrando o Encanto”.
Se algum neo ateu ainda tiver alguma alegação a respeito de existir algum espantalho nessa história acima, alusiva à Dennett, possíveis dúvidas a esse respeito serão tiradas com as refutações à obra “Quebrando o Encanto” (*), em que Dennett lança a idéia do estudo da religião como fenômeno natural.
(*) Assim como já estava sendo feito com o livro “Deus, um Delírio”, de Richard Dawkins, os livros “A Morte da Fé” (de Sam Harris) e “Deus não é grande” (de Christopher Hitchens), “Quebrando o Encanto (de Daniel Dennett) serão refutados a partir de agora aos poucos nas páginas deste blog. E, é claro, em breve retornarei com as refutações a “Deus, um Delírio” (até o momento refutei até a seção 5.4, do quinto capítulo, dentre os 10 que o livro possui), mas isso principalmente após a conclusão da série “Desvendando a Ilusão do Neo Ateísmo”.
Livro: “Como Vencer Todas as Argumentações”, de Madsen Pirie

“Como Vencer todas as Argumentações”, de Madsen Pirie, 152 páginas, Editora: Edições Loyola.
Como sempre tenho afirmado neste blog, a participação do teísta em guerras intelectuais (o debate entre teístas X neo ateus é um exemplo de guerra intelectual) pode ser um terreno pantanoso.
Para evitar chafurdar, é necessário o conhecimento de um “set” de técnicas, das quais posso citar, dentre outras: questionamento socrático, checklist de falácias, checklist de dialética erística, investigação de fraudes, etc.
Sem o conhecimento de ao menos parte dessas técnicas, o debatedor pode ficar vulnerável à argumentações tendenciosas e mal intencionadas e ser ludibriado facilmente.
Eis então que chega às minhas mãos o livro “Como Vencer Todas as Argumentações”, de Madsen Pirie, que não cumpre o que promete na capa, mas ainda assim é bem interessante.
A promessa seria de que este é um manual para ajudar o leitor a vencer as argumentações em que participa. Falso, pois o domínio de falácias, tanto para aplicação como prevenção, é apenas uma parte do “core” de conhecimentos necessários – pode-se dizer que o conhecimento da dialética erística tem igual importância, no mínimo. E o livro foca basicamente nas falácias.
Nessa parte é que o livro de Pirie, presidente e fundador do Instituto Adam Smith, se destaca da maioria dos trabalhos a abordarem o tema.
O livro é basicamente um guia bastante completo de toda a sorte de falácias existentes, e faz uso de bastante humor na demonstração dos erros lógicos inerentes à elas, sempre com exemplos bastante espirituosos.
A postura de Pirie em sua obra é quase maquiavélica. Ele mostra como alguém pode ao mesmo tempo aprender a aplicar a falácia para ganhar um debate, como também para entender o comportamento falacioso, e se proteger dele. Naturalmente que este blog defende a segunda opção, e é com essa perspectiva que analisei o livro.
Claro que, como Pirie diz que ensina alguém a cometer falácias, até ele próprio comete algumas, como neste exemplo, quando ele cita os conservadores e sua suposta relação com a falácia ad antiquitatem: “Os conservadores são os maiores usuários do ad antiquitam. Eles o cultivaram e o manterão em nome de Deus. Os valores antigos são os certos O patriotismo, a grandeza nacional, a disciplina – o que quer que se queira: se é antigo, é bom”.
Estranho, naturalmente, pois a maldade humana é antiga, e dificilmente se vê algum conservador dizendo que ela é boa.
Claro que esse tipo de deslize falacioso do livro pode ser um exemplo daquilo que o autor chama de “como aplicar falácias para vencer”. Mas se um leitor já consegue identificar falácias em várias das abordagens, é sinal de que esse tipo de estudo sempre faz bem.
Notem que não estou invalidando o livro, pois aí eu cometeria o estratagema erístico de “Tomar a prova pela tese”. Obviamente o exemplo dele é falacioso, mas a apresentação da falácia que ele faz é bastante correta.
Mais um motivo para mostrar que não só o conhecimento de um checklist de falácias, como é o livro de Pirie, como também da Dialética Erística, é essencial não só para a avaliação dos argumentos dos outros como também dos próprios argumentos.
No caso apenas do estudo do checklist de falácias, “Como Vencer Todas as Argumentações” serve como ótima introdução.
Como a idolatria a Bertrant Russell pode levar a efeitos colaterais

Uma coisa que não é difícil para qualquer religioso que tenha compreendido a religião a fundo é se acostumar com a idéia de que pessoas não devem ser idolatradas.
Eu aprendi que, desde que eu idolatre a Deus, eu não preciso idolatrar pessoa alguma.
Isso nos torna mais céticos e evita que nos decepcionemos, depositando falsas esperanças em outrém.
Por exemplo, entre autores que eu costumo ler está Olavo de Carvalho, mas nem de longe eu concordo com tudo que ele escreve. Outro que citei há tempos é Robert Anton Wilson, mas atualmente gosto de apenas uma parte ínfima do que ele escreveu. E assim por diante…
Nenhum intelectual vivo ou morto merecerá, portanto, minha idolatria.
Entretanto, para quem tem um sistema de pensamento oposto, apto a idolatrar pessoas, deve ser difícil ver um de seus ídolos desmascarado.
Entendo, portanto, como Aurélio deve ter se sentido ao ler um texto meu de refutação a Bertrand Russell. Eu simplesmente atingi o seu ídolo. Como ele não está preparado para viver sem um ídolo, reage como se tivesse sido ofendido.
A reação de Aurélio ao meu texto “A ausência de senso críticos dos dawkinistas na avaliação de Bertrand Russell” foi completamente desproporcional e imatura. A começar pelo título, notem:
O engraçado é que o julgamento de “inépcia” dele foi completamente subjetivo, como mostrarei mais a frente. Todas as tentativas dele me acusar de desonestidade intelectual irão, também, pelo ralo. Mas nada é pior do que ele usar a terminologia pueril “ataque a Bertrand Russell”. Oras, eu não fiz ataque a Russell, mas sim aos argumentos dele.
Vamos então ao “caso” de Aurélio.
Acusação 1 de Desonestidade
Afirma Aurélio que eu teria “selecionado” ou “picotado” trechos de períodos completos, tornando-os isolados do contexto.
Ele corretamente diz que a resposta completa de Russell à questão “Por que você não é um cristão?” é “Porque eu não vejo nenhuma evidência para os dogmas cristãos. Eu examinei todos os argumentos disponíveis em favor da existência de Deus e nenhum deles me parece ser logicamente válido.”. O problema é que em momento algum eu disse que a resposta de Russell havia sido diferente disso.
A acusação de que eu teria desonestamente separado a expressão “não vejo evidência” do resto, para então acusa-lo da falácia de incredulidade, não se justifica, pois QUALQUER SENTENÇA que inclua tal tipo de expressão (ex. “não vi”, “não encontrei”, “não acredito”, etc.), no contexto de histórias pessoais na tentativa de provar um ponto, implica em uma falácia da incredulidade pessoal.
Aurélio ainda diz que Russell DEMONSTROU a razão pela qual não crê em Deus, e portanto isso implica em inexistência da falácia da incredulidade. Obviamente, uma conclusão falsa de Aurélio.
Aurélio confunde dizer que tem uma razão com DEMONSTRAR essa razão. Aurélio confunde dizer que estudou todos os argumentos com efetivamente TER ESTUDADO todos os argumentos.
Não há como escapar: Russell cometeu falácia da incredulidade, pois não demonstrou a razão pela qual não crê em Deus. Russell apenas DISSE que tinha uma razão, assim como poderia ter dito que viu isso em uma bola de cristal. Ambas são alegações subjetivas, e, portanto, qualificam a falácia da incredulidade, e, principalmente, evidência anedota.
Acusação 2 de Desonestidade
Aurélio diz que minha crítica “ignora a forma do discurso de Russell, realizado em uma entrevista não direcionada a especialistas de lógica formal, metafísica e teologia, mas sim para o público em geral”.
Não, minha crítica não ignora nada disso. Na verdade, minha crítica não faz JUÍZO DE VALOR a respeito disso.
Mas já que ele comentou a respeito, eu devo dizer que me solidarizo com qualquer idéia que afirme que a participação de um filósofo em entrevistas de 4 minutos normalmente não faria justiça às idéias de qualquer pensador, pois tais idéias geralmente são complexas em termos de exposição. O detalhe é que ninguém obrigou Russell a ir ao programa. Se ele foi lá, ele era maior de idade para saber dos riscos de não conseguir se expressar com todo o detalhamento necessário.
Sendo assim, a minha crítica, de que a ausência de especificação prejudica Russell, é algo que Aurélio não conseguiu refutar.
Aurélio ainda afirma: “Luciano, portanto, perde o senso de ridículo ao dar a entender que Russell pelo menos especificasse de quais argumentos ele rejeitou em uma entrevista de pouco mais de 3 minutos, de modo algum uma entrevista técnica, mas informal. Eu me pergunto se tal atrocidade é falta de técnica ou pura má fé.”
Na verdade, quem perde o senso de ridículo é Aurélio, ao não perceber que ele no máximo JUSTIFICOU os problemas vistos na entrevista de Russell (no caso, pouco tempo para a entrevista).
De novo, eu até entendo a justificação, mas isso não salva a argumentação de Russell.
Na próxima acusação, Aurélio diz que eu “ignoro” a trajetória intelectual de Bertrand Russell, o que, conforme mostrarei, é um red herring da parte dele.
Acusação 3 de Desonestidade
Aurélio insiste que eu não deveria ter rotulado a declaração de Russell (de que ele teria estudado os argumentos) como evidência anedota.
Sinto desapontar Aurélio, mas ele precisa estudar um pouco mais de ceticismo em debates e muito mais de argumentação lógica.
Para demonstrar isso, vamos avaliar algumas, mas não todas, possibilidades:
(a) Russell pode não ter conhecido argumento algum, e mentiu
(b) Russell pode ter estudado a fundo e seriamente todos os argumentos
(c) Russell pode ter trabalhado apenas com versões espantalho dos argumentos que alega estudar
Das hipóteses acima, todas são possíveis, embora (b) e (c) sejam mais fortes que (a). Explico: a hipótese (a) é refutada pelo fato de que ao menos Russell transcreveu os argumentos, então ao menos um pouquinho ele conhecia.
De qualquer forma, quando Russell afirma (b), obviamente temos aqui uma evidência anedota. Precisaríamos ter FÉ em Russell para acreditar que a resposta definitivamente é (b).
Sendo assim, não adianta Aurélio escrever sobre o passado de Russell em filosofia, e até na questão de críticas à religião, que isso ainda NÃO RETIRA dele a pecha de evidência anedota.
Mais ainda: quando Aurélio afirma que eu possuo “ignorância e amadorismo” a respeito de Russell, é ele quem pratica mais uma falácia: no caso a falácia da credulidade pessoal. Aurélio provavelmente imagina que eu desconheça a obra de Russell na questão anti-religião, e desata a proclamar sua crença, sem o menor traço de ceticismo.
O problema é que este não foi o primeiro texto de refutação a Russell. Há não só “Pérolas da LiHS 2 – As babadas de Russell” como também a técnica “Bule de Russell”. Ademais, até mesmo o texto que ele afirma criticar tinha como sua parte mais importante não o comentário do vídeo, mas a reação de crença cega demonstrada e evidenciada em fãs de Dawkins, na análise do material de Russell, de forma idólatra.
Eu realmente acredito que Russell no passado já criticou argumentos sobre a existência de Deus, mas isso não prova que ele estudou a fundo tais argumentos. Ele poderia, como mostrei, ter trabalhado com versões espantalho dos argumentos. Qualquer tentativa de Russell em vencer a argumentação dizendo que “estudou tais argumentos” é apenas evidência anedota, goste Aurélio disso ou não.
Outro argumento terrivelmente ruim apresentado por Aurélio é o seguinte: “Temos então uma de suas obras mais famosas: História da Filosofia Ocidental, que colocou-o numa posição considerável de historiador da filosofia e de sucesso em vendas.Numa obra como essas, não é preciso ser muito inteligente para perceber que o escritor deve conhecer todo o arcabouço metafísico ocidental, ou seja, todos os argumentos a favor e contra a existência de Deus. Russell comenta todos, seja em Platão, Aristóteles, Epicuro, Agostinho, Boécio, Anselmo, Sto. Tomás, Scot, Descartes, Leibniz, Kant e Hegel. Não é preciso mais comentários: Russell reexamina os argumentos e os comenta, demonstrando sua posição já na idade madura.”
Em relação a isso, Aurélio vocifera: ” Temos aqui, por conseguinte, o zênite do amadorismo, ignorância e desonestidade intelectual de Luciano: alguém que desconhece por completo o legado russelliano e suas críticas aos argumentos.”
Ou seja, uma calamidade argumentativa em todos os níveis, já que:
(a) escrever um livro de história da filosofia ocidental não implica que alguém tenha estudado a fundo os argumentos sobre a existência de Deus
(b) não é também preciso conhecer profundamente todo o arcabouço metafísico ocidental, pois livros de “história da filosofia” são geralmente bastante genéricos
(c) nada impede que alguém que só trabalhe com falácias do espantalho sobre argumentos da existência de Deus escreva uma obra assim
Dessa forma, quando Aurélio afirma que eu “desconheço” o “legado russelliano” e suas “críticas aos argumentos” é apenas uma saída pela tangente dele, mas em que momento algum comprova que eu realmente desconheça as críticas de Russell aos argumentos.
Mais curioso ainda é quando ele comenta o debate de Russell com o padre Copleston. Aurélio, novamente exaltado, diz: “Luciano não sabe nada disso, e é duvidoso que queira saber.”
Sinto de novo desapontar Aurélio, pois eu conheço tal debate, e a tradução do mesmo está nos planos deste blog. [N.E. - Agradeço ao Francisco Razzo pelo envio]
Aurélio conclui essa terceira acusação dizendo que eu não teria “o direito de julgar “anedota” algo que Russell o fez por mais de 70 anos em vida”
Pelo contrário: eu não só tenho o direito, como o dever, em nome da lógica, de mostrar que qualquer declaração de “eu estudei isso a fundo, e portanto posso afirmar” é uma evidência anedota, venha de quem vier. Na questão de Russell, no entanto, a suspeita de fraude é ainda mais forte.
Vejam, por exemplo, a evidência a seguir.
Evidência: As “críticas” de Russell à causa primeira
No livro “Por que não sou cristão”, Russell diz que esse argumento é o “mais simples” de ser entendido.
Engraçado, pois ele comete um erro imperdoável, que é dizer o seguinte, citando John Stuart Mill: “Meu pai ensinou-me que a pergunta ‘Quem me fez?’ não pode ser respondida, já que sugere imediatamente a pergunta imediata: ‘Quem fez Deus?’” Essa simples sentença me mostrou, como ainda hoje penso, a falácia do argumento da Causa Primeira. “
Não é preciso ir muito distante para notar que William Lane Craig esmagou uma tentativa de Dawkins extremamente parecida com a de Russell.
Outro erro é quando Russell afirma “Se tudo tem de ter uma causa, então Deus deve ter uma causa”, entrando em contradição com ele próprio, que anteriormente interpretou o agumento assim: “Afirma-se que tudo o que vemos neste mundo tem uma causa e que, se retrocedermos cada vez mais na cadeia de tais causas, acabaremos por chegar a uma Causa Primeira, e que a essa Causa Primeira se dá o nome de Deus).”
Esperem… de uma hora para outra Russell substitui “tudo que vemos” por “tudo” assim, sem mais nem menos?
É claramente uma estratégia de manipulação semântica, que beira o amadorismo.
Enfim, essa evidência mostra que talvez Russell tenha estudado os outros argumentos (eu duvido), mas e em relação à esse? Talvez ele tenha tomado emprestado versões espantalho já praticadas por outros adeptos da anti-religião. Como cético, temos que questionar, naturalmente, e Russell nem de longe provou que estudou tal argumento, pois cometeu erros imperdoáveis. Talvez ele tenha estudado, mas não entendido. Em qualquer situação, o ceticismo é mantido e a acusação que fiz, de que a declaração de Russell ter estudado todos os argumentos é uma anedota, segue incólume.
Comentários adicionais de Aurélio
- Aurélio diz que Russell “não afirmou em nenhum momento que “Não há Deus” na entrevista”. O problema é que Aurélio teria que jogar fora a frase em que Russel diz “não pode haver razão prática para acreditar no que não é verdade”. Detalhe: o que estava sendo discutida era a crença em Deus. Aurélio tenta salvar a pele de Russell dizendo que “em várias obras que leu, ele nunca afirmou tal coisa’. Capaz. Só que Russell estava em uma entrevista, na qual ele poderia ter cometido o ato falho de dizer que acha que Deus não existe.
- Curiosamente, Aurélio em seguida diz que dou uma “intepretação duvidosa”. Estranhamente, em seguida, Aurélio diz o seguinte: “Concordo com Luciano que Russell não deveria ter dito isso, vide que, de fato, parte do ônus da prova passa a ser do próprio Russell, que deveria ter de demonstrar para o quê exatamente atribuiu o adjetivo ‘falso’.” Mas se ele concorda comigo que ele não deveria ter dito isso, então ele concorda que ao menos um equívoco ocorreu por parte de Russell. Foi esse equívoco o que apontei.
- Ele ainda segue dizendo o seguinte: “Caso Russell tenha utilizado o termo ‘falso’ para se referir aos argumentos acerca da existência de Deus – embora saibamos que, dum ponto de vista mais técnico, se este é o caso, deveria ter usado o termo ‘inválido’ –, então não há qualquer contradição aqui.” Só que Aurélio fugiu do assunto real, pois o que estava sendo discutida era a crença em Deus, e não argumentos específicos a favor da existência de Deus. A defesa de Aurélio só seria válida se a repórter tivesse perguntado a respeito de alguns argumentos específicos que fossem inválidos. Dessa forma, Aurélio tentou inocentar Russell da contradição cometida, mas não conseguiu.
- Quando eu falei a respeito de contradição entre a frase de Russell (“não se deve acreditar em algo por sua utilidade, apenas”) e o epicurismo, Aurélio diz que eu deturpo o pensamento russelliano. Só que ele não demonstra como eu faria tal deturpação. Mas, em todo caso, toda a obra “A Conquista da Felicidade” é baseada no paradigma epicurista (ex. “o que importa é buscar o prazer e fugir da dor”). Russell ainda lançou “The Philosophy of Logical Atomism”, em que levaria as idéias de Epicuro ao paroxismo. Estranho é alguém duvidar de que Russell e Epicuro tinham muita coisa em comum.
- Aurélio, em seguida diz que eu estaria “provavelmente me referindo às crença de âmbito moral, e não filosóficas ou científicas”, dizendo que eu “deveria ter dito crenças morais”, mas em todas as tentativas de imaginar como penso Aurélio fantasiou. Curiosamente, mesmo com tanto delírio da parte dele, Aurélio ainda conclui com “é falta de técnica, Luciano?”. Se é falta de técnica minha, não sei, mas que é falta de ceticismo por parte de Aurélio, isso é um fato.
- Aurélio desafia: “Se Luciano quiser conhecer as posições russellianas sobre a moral judaica-cristã e de outras religiões em que ele alegou ver malefícios, recorra às obras já supramencionadas”. Como já visto, eu citei uma delas, e o resultado não foi nada favorável ao “caso” de Aurélio.
- Para defender uma das idéias de Russell, Aurélio diz, sobre um ateu: “um mesmo ateu pode defender os valores que herdara da tradição judaico-cristã sob à luz unicamente da razão”. Que é possível ele trazer os valores, eu concordo, mas daí a dizer que seria “à luz unicamente da razão” é uma alegação sem evidências. Geralmente, basta desafiar um alegador a dizer que chegou aos valores morais e mensurar a “razão” mensurada (em contraposição à “razão” alegada), que normalmente a coisa não sai da evidência anedota. Em suma, se um ateu tiver os mesmos valores que um religioso, isso não comprova que ele chegou “lá” por mais ou menos razão que um religioso.
- Mais de Aurélio, a la Russell: “Abandonamos, portanto, esse conjunto de superstição antiga na qual os valores clássicos se baseavam: não precisamos desses mitos teológicos antigos”. Engraçado Russell (em versão emulada por Aurélio) tratar a questão por “necessidade”, sendo que antes ele falou que as crenças não deveriam ser avaliadas na questão da “utilidade”. Como eu falei, não é preciso muito para ele entrar em contradição com ele próprio.
- Aurélio ainda cita as supostas “barbáries” da religião e aponta até “permissividade para escravizar índios e negros”. Quanto a isso, eu recomendo o livro “O Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”. Em relação “judeus mortos em Cruzadas” ou “maioria de guerras serem de origem religiosa entre Inglaterra e França”, é o tradicional exagero dawkinista de tentar dizer que várias guerras ocorreram POR CAUSA da religião, mas sem nenhuma demonstração efetiva disto.
- Ele ainda diz que seria possível viver sob os valores judaico-cristãos, dizendo “não precisamos de sua teologia, vide que podemos fundamentá-los na razão”. O engraçado é que quando se exigem as alegações deles (de maior uso da “razão” na sustentação de seus valores), eles costumam fugir para a casinha. Em suma, de novo, não provou que um ateu, ao usar os valores judaicos-cristãos, usa a razão em maior quantidade que os não-ateus.
- Mais evidência anedota, sobre Russell: “Abandonar a superstição que os sustenta é uma coisa, abandonar tais valores, é outra. Russell preferiu a primeira opção ao invés da segunda”. Estranho, pois se ele assumiu marxismo no futuro, ele não aceitou de todo os valores judaico-cristãos, principalmente o direito à propriedade. Detalhes…
- Aurélio tenta defender a repórter, dizendo que ela concorda com a máxima de Políbio: “a religião serve como uma espécie de controle social”. O que é apenas um clichê usado futuramente por marxistas, mas nem de longe um argumento comprovado. Mas ele ainda defende Políbio: “não só Políbio convergiu para a mesma conclusão, mas quantos ao longo da cultura universal o fizeram?”, o que é uma falácia ad populum. Dá para supor que a quase totalidade dos marxistas concordem com esse discurso de Políbio, pois virou clichê de propaganda marxista. Mais divertido é quando Aurélio diz: “Luciano se surpreenderia com o número de grandes pensadores que, desde tempos imemoriais, concluíram que a religião encabresta, em grande parte pelo medo que impõem”. Não, eu não me surpreenderia. O difícil será dizer que são “grandes” pensadores, pois frases de efeito não servem como boa argumentação, e tal discurso não passa de frase de efeito. Depois de conhecer a Estratégia Gramsciana, nada me surpreende.
- Aurélio tenta inocentar Russell da acusação de esquerdismo e anti-americanismo, dizendo: “A comparação não é válida, pois muito antes de Russell ter lido uma linha de Marx (ele refutou algumas posições do materialismo dialético em sua História da Filosofia), ele já tinha posições muito independentes de qualquer conclusão marxista anti-religiosa.” Aurélio erra, pois não estou julgando aqui o que Russell pensava, e sim o que ele ESCREVEU quando começou a pregar contra a religião. Nessa fase, sim, Russell já tinha conhecido Marx.
- Ele ainda tenta salvar a pele de Russell dizendo que ele criticou Lênin. Ué, criticar uma implementação de Lênin até Gramsci já fez. O que não mostra desalinhamento com marxismo, pelo contrário. E sim a busca de uma implementação mais abrangente do mesmo. E mais perigosa.
- Essa parte aqui é bizarra: “Sim, Russell era socialista, mas não um ‘esquerdista’ desonesto”. Difícil saber quais parâmetros Aurélio usou para definir honestidade que não seu gosto pessoal por Russell.
- Esse rodeio de Aurélio é estranhíssimo, pois quando foi perguntado se o ateísmo traria mais “força”, Russell respondeu que “estava apenas engajado na busca do conhecimento”. Eu mostrei que a alegação era apenas, de novo, anedota. Aurélio protesta: “Dizer isso sobre alguém do calibre intelectual de Russell é um ato sórdido, que beira à puriedade. Russell foi, ao longo de quase seus 100 anos de vida, um dos maiores intelectuais do século XX”. Está aí um belíssimo exemplo de Red Herring. Eu estava comentando a postura de Russell em UMA QUESTÃO EM ESPECÍFICO (ateísmo como “força”), e Aurélio tentou falar da vida intelectual de Russell no geral, o que é no mínimo um ato desesperado. Ora, se Russell produziu algo de bom intelectualmente, isso não o salva de ter usado um argumento ruim para responder à repórter. E também não demosntra que NESSA QUESTÃO ele estava “em busca do conhecimento”.
- Aurélio diz que Russell é “um polímata: matemático, lógico, exímio escritor (Nobel de Literatura, em 1950), ensaísta, moralista, historiador e comentador político”. A pergunta: no que isso salva Russell dos erros lógicos cometidos na questão específica de seus argumentos contra a religião? Resposta: nada.
- Engraçado também foi, depois dessa ladainha, Aurélio afirmar: “Quem é Luciano?”. Será que ele está apelando ao famoso argumento infantil de dizer que alguém só pode criticar Russell depois de ganhar um prêmio Nobel? Não sei se é preciso, pois sem prêmios Nobel eu já mostrei a falta de lógica e racionalidade nas alegações russellianas. Imaginem se eu tivesse um Nobel então (risos).
- Já apelando à platéia, Aurélio diz: “O intento de Luciano, evidentemente claro, foi denegrir a imagem do grande intelectual inglês”. Não, não foi. Eu apontei os erros lógicos de Russell em uma declaração específica. Pouco me importa a pessoa do Russell.
- Momento espetacularmente cômico: “Você quer enfrentar o legado russelliano em qual frente, Luciano? O do Russell dos Principhia Mathematica, a maior contribuição às lógicas no século XX? O do Russell filósofo e historiador da filosofia? O do Russell ensaísta e crítico das superstições populares? O do Russell escritor, ganhador do Nobel em 1950? Vai precisar sair da crítica de entrevista de televisão e recorrer a assuntos mais técnicos nos quais, evidentemente, sua competência é duvidosa. Pode começar pela ‘The Bertrand Russell Society’.” Não. Eu só quero refutar o Bertrand Russell nas declarações anti-religiosas dele. Principalmente as que forem irracionais. O resto não me importa.
Conclusão
Está aí um exemplo de como um ateu, que até escreve bons textos por vezes, perde completamente a estribeira quando um ídolo seu é criticado. É importante que ele aprenda (até para evitar decepções), que nenhum intelectual é infalível. Reconheço que Russell pode ter produzido algum material bom, mas isso não o impede de realizar um argumento esdrúxulo e por vezes aparentar bastante ingenuidade. Os outros dois textos que citei aqui, envolvendo Russell, mostram isso. Tentar apelar à crença na honestidade de Russell, ou simplesmente acreditar em tudo que ele diz, independente de julgamento, não é a melhor forma de defender um argumento ceticamente. O que me surpreende, já que Aurélio discutia sobre ceticismo há muito tempo, e defendia o paradigma de James Randi. Hoje, para defender Russell, ele é obrigado a abandonar grande parte de seu ceticismo. Sua tentativa de defender Russell é prejudicada justamente por ser uma análise desprovida de ceticismo. Para mais detalhes, este texto explica como o ceticismo não convive bem com neo ateísmo.
Deus, Um Delírio – Capítulo 3 – Pt. 1 – As Três Vias de Richard Dawkins

O terceiro capítulo de Deus, Um Delírio, é baseado na crítica às vários argumentos sobre Deus.
Dawkins até teria alguma chance com o argumento ontológico, de Santo Anselmo, mas curiosamente optou por por começar seu duelo contra os teólogos justamente contra a argumentação das cinco vias, de São Tomás de Aquino, que é muito mais estruturada que a argumentação de Anselmo.
Nesta seção inicial, o resultado é constrangedor para o biólogo, que comete uma série de erros infantis e até uma fraude.
Dawkins começa…
As cinco “provas” declaradas por Tomás de Aquino no século XIII não provam nada, e é fácil — embora eu hesite em dizê-lo, dada sua eminência — mostrar como são vazias. As três primeiras são apenas modos diferentes de dizer a mesma coisa, e podem ser analisadas juntas. Todas envolvem uma regressão infinita — a resposta a uma pergunta suscita uma pergunta anterior, e assim ad infinitum. 1 O Motor que Não é Movido. Nada se move sem um motor anterior. Isso nos leva a uma regressão, da qual a única escapatória é Deus. Alguma coisa teve de fazer a primeira se mover, e a essa alguma coisa chamamos Deus. 2 A Causa sem Causa. Nada é causado por si só. Todo efeito tem uma causa anterior, e novamente somos forçados à regressão. Ela só é concluída por uma causa primeira, a que chamamos Deus. 3 O Argumento Cosmológico. Deve ter havido uma época em que não existia nada de físico. Mas, como as coisas físicas existem hoje, tem de ter havido algo de não físico para provocar sua existência, e a esse algo chamamos Deus. Esses três argumentos baseiam-se na idéia da regressão e invocam Deus para encerrá-la. Eles assumem, sem nenhuma justificativa, que Deus é imune à regressão. Mesmo que nos dermos ao duvidoso luxo de conjurar arbitrariamente uma terminação para a regressão infinita e lhe dermos um nome, não há absolutamente nenhum motivo para dar a essa terminação as propriedades normalmente atribuídas a Deus: onipotência, onisciência, bondade, criatividade de design, sem falar de atributos humanos como atender a preces, perdoar pecados e ler os pensamentos mais íntimos. Por falar nisso, aos especialistas em lógica não escapou que a onisciência e a onipotência são incompatíveis entre si. Se Deus é onisciente, ele já tem de saber que vai intervir para mudar o curso da história usando sua onipotência. Mas isso significa que ele não pode mudar de idéia sobre a intervenção, o que significa que ele não é onipotente.
O amadorismo de Dawkins é vergonhoso.
Em relação à primeira via, ele simplesmente praticou uma fraude, pois a frase “única escapatória é Deus” foi inventada por Dawkins, e não faz parte do argumento de Aquino.
Ademais, ele afirma que as três primeiras vias seriam modos diferentes de dizer a mesma coisa, podendo ser até analisadas juntas, mas Dawkins sequer faz uma análise, pois tenta “maquiar” o argumento de Aquino dizendo que este teria afirmado que “Deus é imune à regressão”.
Falso, pois Aquina não afirma nada disso, muito pelo contrário.
Aquino estudou três situações, e mostrou argumentos fortes para estas situações, e então usou a expressão “a isso chamamos de Deus”. É diferente de concluir que as premissas levam diretamente a Deus. Pelo contrário, as premissas levam à conclusões que estão ASSOCIADAS com atributos relacionados a Deus.
A substituição da expressão “a esse algo chamamos Deus” pela simulação de que Aquino teria efetuado a conclusão direta “portanto é Deus” poderia também ser catalogada como fraude, embora seja possível considerar o caso de Dawkins meramente como um exemplo de burrice patológica.
Para piorar, ele afirma que “especialistas em lógica” afirmariam que onisciência e onipotência seriam incompatíveis entre si. Quais especialistas? Dawkins não teve sequer coragem de apontá-los.
De qualquer forma, essa análise sobre um suposto conflito entre onipotência e onisciência NÃO TEM ABSOLUTAMENTE NADA A VER com o argumento de Tomás de Aquino.
Como se vê, Dawkins não acertou absolutamente nada já no começo.
A sucessão de erros dele prossegue:
Para retomar a regressão infinita e a ineficácia de invocar Deus para encerrá-la, seria mais parcimonioso conjurar, digamos, a “singularidade do big bang” ou algum outro conceito físico ainda desconhecido. Chamar isso de Deus é na melhor das hipóteses inútil e, na pior, perniciosamente enganador. A Receita Absurda para fazer Filés Esfarelosos, de Edward Lear, convida-nos a “tomar algumas tiras de carne e, depois de cortá-las nos menores pedaços possíveis, prosseguir cortando-os ainda menores, oito ou quem sabe nove vezes”. Algumas regressões chegam, sim, a uma terminação. Os cientistas costumavam ficar imaginando o que aconteceria se se pudesse dissecar, digamos, o ouro nas menores partículas possíveis. Por que não se poderia cortar uma dessas partículas pela metade e produzir um farelo ainda menor de ouro? A regressão nesse caso é encerrada de maneira decisiva pelo átomo. A menor partícula possível de ouro é um núcleo que consista de exatamente 79 prótons e um número ligeiramente maior de nêutrons, acompanhado de um enxame de 79 elétrons. Se se “cortar” o ouro além do nível de um único átomo, qualquer coisa que se obtiver já não será mais ouro. O átomo fornece uma terminação natural ao tipo de regressão dos Filés Esfarelosos. Não está de maneira nenhuma claro que Deus seja uma terminação natural para a regressão de Tomás de Aquino.
Chega a ser desagradável comentar isso acima, pois qualquer duelista gosta de duelar com adversários fortes.
O problema é que, quando comenta São Tomás de Aquino, Dawkins fica em uma linha abaixo do amadorismo. Ele beira uma criança com dificuldades de aprendizado, pois o erro é tão grosseiro que simplesmente compromete toda a suposta refutação dele.
São Tomás de Aquino falou da seqüência de eventos relacionados, como a relação de causa e efeito, e argumentou que tal seqüência, observada retroativamente, não poderia ser infinita.
Segundo Aquino, uma primeira causa deve ter ocorrido, iniciando o processo de causa e efeito. Ou seja, é a “causa não causada”.
Um exemplo atual que mostra que o argumento de Aquino é correto é o Big Bang, que afirma sim que ocorreu um início para o universo, e que a cadeia de seqüência que nós visualizamos no mundo físico teve um início.
Ao invés de refutar isso, Dawkins cita o exemplo de receita absurda para filés esfarelosos, e a idéia de cortar ouro em partículas cada vez menores.
Fazendo isso, se alcança um átomo, e portanto ao se cortar ouro em partículas menores, e a partir dessas partículas ir cortando ouro, obviamente ao final da seqüência não se terá mais ouro.
Assim sendo, o átomo é uma terminação NATURAL para a seqüência, e desde que essa seqüência possui uma terminação natural, a regressão de Aquino também deveria ter uma terminação natural.
E aí que o argumento de Dawkins é natimorto, pois Aquino cita que regressão infinita é impossível, e Dawkins cita um exemplo justamente de regressão que não caminha infinitamente. Ué, mas se Dawkins quisesse citar algo que refutasse Aquino, ele teria que demonstrar que a regressão poderia caminhar infinitamente.
Isso é apenas uma demonstração do baixo nível filosófico de Dawkins, pois qualquer um especialista em argumentação, ao tentar refutar um argumento, tentaria mostrar uma prova em contrário, mas não em consonância com o argumento que tenta refutar.
Mas o desastre de Dawkins não é apenas esse, há algo muito pior… pois a seqüência proposta por Tomás de Aquino é uma seqüência clara de causa e efeito. É a mesma relação que existe entre um filho e um pai. Para existir um filho, há um pai. Sem pai, sem filho. Um filho surge de um pai anterior a ele. Só que a seqüência proposta por Dawkins não tem nenhuma relação igual à pai e filho ou qualquer outro tipo de relação de causa e efeito.
As seqüências de causa e efeito, conforme tratadas por Aquina, são as relações da natureza, que mostram que nada se cria, tudo se transforma. Não tem absolutamente nada a ver com cortar ouro em pedaços ou até a receita de filés esfarelosos. Dawkins teria que necessariamente propor uma seqüência de CAUSA E EVENTO, e estritamente estudá-la.
A seqüência tratada por Aquino é realmente seqüencial. Isso significa que cada passo depende de passos anteriores. Um filho não pode estar no estágio adulto, e ainda estar na placenta da mãe. Entretanto, ele precisa ser adulto, para gerar um novo filho. É esse tipo de seqüência que Dawkins teria que tratar, e não a idéia de cortar ouro em partes.
Ou seja, além de não conseguir refutar Aquino, Dawkins simplesmente não entendeu o que Aquino tratou por cadeia de eventos.
Basicamente, considerando então a seqüência natural de eventos (e não a besteirinha infantil de Dawkins, de filés esfarelosos e ouro particionado), Aquina estava certo em tratar a questão de que a regressão das seqüências de causa e efeito não podem ocorrer para sempre, precisando de um início, uma causa primeira. Essa causa primeira não pode ser causada por si própria, pois, se for, ela não seria a primeira. Isso não pode ser parte do universo natural, pois se fosse ela não poderia ter causado o universo natural.
Ao menos perante as 3 primeiras vias, Dawkins apanhou feio de Aquino. Isso que este último está morto há séculos.
Mas nem é preciso muito esforço para duelar e vencer Dawkins em qualquer discussão fora da Teoria da Evolução (e só a teoria básica, pois quando tenta ampliar para memes e psicologia evolutiva, ele se perde também).
A coisa fede ainda mais para o lado de Dawkins quando ele trata do Argumento de Grau, a quarta via de Aquino:
4 O Argumento de Grau. Percebemos que as coisas do mundo diferem entre si. Há graus de, digamos, bondade ou perfeição. Mas só julgamos esses graus se em comparação a um máximo. Os seres humanos podem ser tanto bons quanto ruins, portanto o máximo da bondade não pode estar em nós. Tem de haver, portanto, algum outro máximo para estabelecer o padrão da perfeição, e a esse máximo chamamos Deus. Isso é um argumento? Também seria possível dizer: as pessoas variam quanto ao fedor, mas só podemos fazer a comparação pela referência a um máximo perfeito de fedor concebível. Tem de haver, portanto, um fedorento inigualável, e a ele chamamos Deus. Ou substitua qualquer dimensão de comparação que quiser, derivando uma conclusão igualmente idiota.
Esse é o famoso argumento “platônico”, que novamente Dawkins nem sequer passou perto de entender.
São Tomás afirma que a idéia de qualquer bem se origina de uma idéia daquele bem em uma forma perfeita.
Aí ele tenta trocar o bem por fedor, que jamais poderia ser chamado de um bem.
E mais: ele troca perfeito por “máximo perfeito”, que não tem nada a ver com perfeito, que é simplesmente algo ausente de defeitos.
Dessa forma, a analogia de Dawkins é completamente inútil, e mais uma vez ele aparenta claramente alguém com seríssimo grau de retardo.
A expressão “qualquer dimensão de comparação” é mais uma evidência de que Dawkins iniciou-se nesse tipo de análise. As dimensões de comparação tem que obedecer o princípio da analogia válida. Portanto, isso de “qualquer dimensão de comparação” é só invenção da cabeça do Dawkins.
E a quinta via? Ah… a quinta via. É aqui que Dawkins se estrepa de novo:
5 O Argumento Teleológico, ou O Argumento do Design. As coisas do mundo, especialmente as coisas vivas, parecem ter sido projetadas. Nada que conhecemos parece ter sido projetado a menos que tenha sido projetado. Tem de haver, portanto, um projetis-ta, e a ele chamamos Deus. Tomás de Aquino usou a analogia de uma flecha avançando para o alvo, mas um míssil antiaéreo moderno guiado a calor teria se adequado melhor a seus propósitos. O argumento do design é o único que ainda é regularmente usado hoje em dia, e ainda soa para muita gente como o argumento determinante do nocaute. O jovem Darwin ficou impressionado com ele quando, estudante de graduação em Cambridge, o leu na Teologia natural de William Paley. Infelizmente para Paley, o Darwin maduro virou a mesa. Provavelmente jamais houve uma derrubada tão devastadora de uma crença popular através de um raciocínio inteligente quanto a destruição do argumento do design perpetrada por Charles Darwin. Foi totalmente inesperado. Graças a Darwin, já não é verdade dizer que as coisas só podem parecer projetadas se tiverem sido projetadas. A evolução pela seleção natural produz um excelente simulacro de design, acumulando níveis incríveis de complexidade e elegância. E entre essas eminências do pseudodesign estão os sistemas nervosos que — entre seus feitos mais modestos — manifestam comportamentos de busca a um alvo que, mesmo num inseto minúsculo, se parecem ainda mais com um míssil sofisticado guiado a calor do que com uma simples flecha indo para o alvo.
Dawkins de novo não entendeu Aquino.
O argumento do design, de Aquino, não tem nada a ver com criacionismo e nem design inteligente.
O mais ridículo é que Dawkins tomou a argumentação de Aquino como algo que pudesse ser colocado em disputa contra a teoria de Darwin. Óbvio que não pode.
Além do mais, a teoria de Darwin não derruba nem sequer a idéia de projeto de Paley – mas, relembrando, isso não era o foco de Aquino.
Aquino afirmava que tudo que existe, inclusive nos corpos desprovidos de inteligência, haveria uma finalidade. O senso de finalidade só poderia ser atribuído por quem tenha inteligência, e portanto haveria uma inteligência que deu finalidade até aos corpos não inteligentes.
A própria idéia de evolução já considera o argumento de Aquino, pois haveria a finalidade em uma especiação, que é a perpetuação de uma mudança para garantir ao objetivo de sobrevivência.
Dessa forma, o argumento da quinta via de São Tomás de Aquino não pode ser refutado pela Teoria da Evolução.
Em todas as 3 tentativas de refutação, Dawkins fracassa retumbantemente.
O que surpreende é que o desempenho dele nesta seção do livro chega a ser pior que o desempenho dele nos 2 primeiros capítulos – e ali não passou de um arremedo de aborrescente marxista ateu radical.
Aqui Dawkins se complicou tanto que em determinados momentos só conseguiu pensar em termos de “palavras”. Sequer entendeu as frases de Aquino por completo.
Só isso explica ele ter lido a expressão “design”, ter confundido com o “design inteligente”, e citado Darwin.
Por isso, temos aqui as 3 vias de Richard Dawkins.
Primeira Via: Dawkins acha que a relação causa e efeito é igual a cortar o ouro em pedaços. A isso chamamos de burrice.
Segunda Via: Dawkins acha que graus de atributos abstratos, como bondade ou perfeição, são iguais a graus de fedor. A isso chamamos de dislexia.
Terceira Via: Dawkins acha que o design citado por Aquino é igual ao design citado por Paley, e portanto Aquino teria sido refutado por Darwin. A isso chamamos de analfabetismo funcional.
Considerando as 3 vias, essas pataquadas só poderiam ter vindo mesmo de uma mente incapaz como a de Richard Dawkins.
Como biólogo, ele até pode abrir a boca.
Mas, para tentar filosofar, ele simplesmente não tem capacidade.
Sam Harris quer que “ciência destrua a religião”

Tradução: Sam Harris é mais um que não sabe nem o que é ciência e nem o que é religião.
Dos “quatro cavaleiros do neo-ateísmo” (Dawkins, Hitchens, Dennett e Harris), ele é provavelmente o menos talentoso.
Agressivo e irritadiço demais, Sam Harris resvala sempre no exagero histriônico e fica em vários momentos à beira da loucura. Resultante disso, surge sua tentativa cômica de opor definitivamente ciência e religião.
A carreira dele, aliás, é obscura: a figura sempre teve formação como filósofo e depois adquiriu um doutorado em neurociência. Hoje ele desanda a falar da neurociência como explicação da espiritualidade (claro, como sempre, ele vai usar isso para tentar negá-la), mas nota-se que nem de neurociência ele conhece.
Chegou, então, o momento de desmascarar Sam Harris…
O texto aqui foi retirado de uma tradução feita pelo blog Ateus do Brasil.
O começo não é nada promissor…
A maioria das pessoas acredita em que o Criador do universo escreveu (ou ditou) um de seus livros. Infelizmente, há muitos livros cuja autoria é considerada divina, e cada um afirma coisas incompatíveis sobre como todos devem viver. Apesar dos esforços ecumênicos de muita gente bem intencionada, estes mandamentos religiosos impossíveis de conciliar ainda causam uma quantidade espantosa de conflitos humanos.
A manipulação semântica de Harris já fica evidente quando ele coloca duas opções, que são “Criador do universo escreveu” ou “Criador do universo ditou”, o que compõe uma falácia do falso dilema.
Harris esquece que a opção que deveria estar ali é a de que pessoas escreveram a Bíblia inspirados pela sabedoria Divina. É bem diferente de uma psicografia, portanto. Só isso já é suficiente para invalidar todo o parágrafo dele, mas há mais erros.
Segundo ele os “mandamentos religiosos” causam uma quantidade enorme de conflitos humanos. Parte ele, portanto, da premissa falsa de que os conflitos humanos tem sua origem na diferença de religião entre os povos. Só que ele não especifica qual mandamento causaria o conflito. Seria o “Não Matarás”? Ou “Não darás falso testemunho contra teu próximo”? Do jeito que está, a crítica de Harris é vaga, pois critica os “mandamentos”, mas não cita quais seriam as fontes de conflitos.
Mas nem seria preciso, pois a alegação dele é evidentemente falsa, pois a iniciativa do estado laico é mais presente em países religiosos. A laicidade é uma iniciativa religiosa.
Só que a China, maior país ateu do mundo, não tem o mínimo respeito por posições religiosas de qualquer tipo. Lá o que vale é o ateísmo como religião oficial do estado, e ai de quem sair meditando (como os Falun Gong) ou rezando (como os cristãos). Praticar religião lá é correr risco de vida.
Ele prossegue:
Em resposta a esta situação, muita gente defende algo chamado “tolerância religiosa”. Embora tolerância religiosa seja melhor que guerra religiosa, tolerância também tem problemas. Nosso medo de provocar o ódio dos religiosos nos impede de criticar idéias que hoje em dia são absurdos comprovados e que, cada vez mais, nos causam problemas. Também nos obriga a mentir para nós mesmos – frequentemente e em várias circunstâncias – sobre a compatibilidade entre fé religiosa e racionalidade científica.
Aqui ele cai em contradição, pois antes aponta religiões diferentes como a causa de conflitos.
Depois critica a “tolerância religiosa”…
Oras, a tolerância religiosa é justamente para evitar conflitos entre pessoas de diferentes religiões. Tolerância religiosa significa não discriminar ou desprezar alguém só por que a pessoa é de outra religião, ou por não ter religião.
A incoerência dele prossegue ao criticar o “medo de provocar o ódio” e diz que isso “nos obriga a mentir para nós mesmos”.
O que dá para traduzir disso é evidente: respeitar o outro é mentir para si próprio quando se tem uma crença diferente do outro. Um belo exemplo da falta de tolerância com o outro. Na verdade, o que gera o conflito não seria a religião, mas sim mentes obtusas como a de Harris.
O pior é quando ele afirma que a “compatibilidade entre fé religiosa e racionalidade científica” é uma mentira.
Naturalmente que é uma mentira, mas não é isso que se propõe.
Se ele fosse honesto intelectualmente, ele só poderia comparar a racionalidade teológica com a racionalidade epistemológica, a racionalidade religiosa com a racionalidade científica, ou, a fé religiosa com a fé científica.
Comparar a fé de um com a razão de outro já é uma estratégia erística, que pode ser melhor visualizada aqui, na Técnica “Seleção do Adversário”.
Fraco, Harris, muito fraco…
E lá vem mais:
Religião e ciência não se somam, ao contrário, praticamente se anulam. Com frequência, o avanço da ciência obriga ao recuo do dogma religioso; a manutenção do dogma religioso sempre implica em danos ao conhecimento científico. Já é tempo de admitirmos uma coisa básica sobre a argumentação: ou a pessoa tem boas razões para acreditar em algo ou não tem. Quando a pessoa tem boas razões, sua crença leva a um crescente entendimento do mundo. Não precisamos fazer distinção entre “ciência popular” e “ciência séria”, ou entre ciência e outras disciplinas baseadas em evidências, como a história. Há boas razões para se crer em que os japoneses bombardearam Pearl Harbor em 7 de dezembro de 1941. Em consequência, faltam motivos para se crer em que foram os egípcios. Qualquer pessoa sensata admite que seria idiota e grotesco usar a fé para se decidir sobre questões específicas envolvendo fatos históricos, isto é, até que a discussão se volte para as origens de livros como a Bíblia e o Alcorão, para a ressurreição de Jesus, para as conversas de Maomé com o arcanjo Gabriel ou qualquer outra besteira santificada que ainda entulhe o altar da ignorância humana.
Dizer que religião e ciência se anulam é uma estupidez sem limites, pois o foco de estudo é diferente (a primeira estuda a espiritualidade, e a segunda o mundo físico e tangível). Isso já foi explicado diversas vezes neste blog, mas é sempre bom lembrar quanto essa patuléia neo-ateísta comete os erros recursivamente.
Em seguida, ele afirma que “a manutenção do dogma religioso sempre implica em danos ao conhecimento científico”. Não há evidências disso, a não ser no caso específico do criacionismo, que, por ter sido já substituído pelo design inteligente, não implica mais em danos ao estudo da evolução.
Aí ele sugere a seguinte bobagem: “ou a pessoa tem boas razões para acreditar em algo ou não tem”, o que é uma besteira. Se ele usa “razões” na questão da escolha pessoal, ele não pode legislar sobre essas “razões”, que seriam similares a motivos. Não é Sam Harris que diz se um motivo é bom ou não para alguém acreditar em algo, pois ele sequer tem bagagem filosófica para tal. A definição do que cada um escolhe acreditar é uma expressão da vontade, portanto não pode ser refutada.
Ele tenta também comparar a interpretação literal da Bíblia com a negação de eventos históricos, o que é mais um indício da proposta vazia do autor.
A interpretação literal é a do cidadão comum. Portanto, não pode ser discutida filosoficamente. Será que ele não aprendeu nem isso na Faculdade de Filosofia?
E tome mais choradeira dele…
A ciência, no sentido mais genérico, abrange todas as teorias razoáveis sobre nós mesmos e o mundo. Se houvesse boas razões para se acreditar em que Jesus nasceu de uma virgem ou que Maomé voou para o céu num cavalo alado, tais crenças necessariamente fariam parte de nossa descrição racional do universo. A fé não passa de uma licença que as pessoas religiosas dão umas s outras para acreditar em coisas contrárias razão. A diferença entre ciência e religião é a diferença entre a predisposição a se analisarem novas evidências e novos argumentos sem envolvimentos emocionais, e uma apaixonada predisposição a não fazê-lo. A diferença não poderia ser mais óbvia, assim como a diferença entre as consequências de uma e outra opção, mas, mesmo entre as pessoas mais instruídas, ela é ignorada.
Aqui ele errou em tudo. Ele disse que ciência abrange “abrange todas as teorias razoáveis sobre nós mesmos e o mundo”, o que é falso, pois a ciência abrange todas as teorias razoáveis sobre o mundo físico E tangível. Se não tiver os dois atributos, não é do escopo da ciência. Como eu falei antes, Sam Harris não sabe o que é ciência.
Em seguida, ele faz uma confusão dos diabos entre dogmas contidos na Bíblia (intepretados literalmente, claro, como todo o vigarista intelectual do tipo dele faria) com aquilo que ele chama de “descrição racional do universo”.
Erro semântico grave, pois se ele critica eventos, ele deveria tratar por “descrição do evento” e não “descrição do universo”.
E como “descrição racional” não é exclusividade da ciência, o discurso dele novamente cai no vazio.
Como sói ocorre nesses casos, ele ainda decreta que “A fé não passa de uma licença que as pessoas religiosas dão umas às outras para acreditar em coisas contrárias à razão”.
Como sempre, a famosa manipulação semântica, em que em um dado momento o sujeito fala de “fé” e depois troca para “religião”, e ainda interpreta a “fé” como se fosse “fé cega”. Aliás, mais uma que o “neurocientista” Harris não sabe: fé é algo inerente a condição humana. Como ele poderia comparar uma condição humana e NATURAL como “licença para permitir crenças em coisas contrárias à razão”? Fato: ele é burro.
Em seguida, ele alucina ao dizer que na ciência existe análise de “novas evidências e novos argumentos sem envolvimentos emocionais”, e na religião existe “apaixonada predisposição a não fazê-lo”.
Aqui o charlatanismo é claro, e injustificável, pois ele já é um neurocientista. Novato, ainda. Mas é.
Então ele não poderia cometer o erro GROSSEIRO de dizer que a área cerebral responsável pelas emoções (sistema límbico profundo) é automaticamente desabilitada com o método científico. Pois é isso que significa a idéia de que não há “envolvimentos emocionais” na análise de novas evidências.
Harris, deixe de ser CHARLATÃO: há envolvimentos emocionais em TODAS as decisões humanas. Vá ler Antonio Damásio e tente aprender uma coisa ou duas.
De todos os parágrafos de Harris, esse realmente foi o pior…
Vejamos se a seguir a coisa melhora:
A religião e a sociedade global e laica que está surgindo vêm se tornando rapidamente incompatíveis. A fé religiosa, ou seja, a fé em que há um deus que se preocupa com o nome pelo qual o chamamos, que um de nossos livros é infalível, que Jesus vai voltar para julgar vivos e mortos, que os mártires islâmicos vão direto para o céu etc., está do lado errado de uma guerra de idéias cada vez mais feroz. A diferença entre ciência e religião é a diferença entre uma sincera simpatia pelos frutos da inteligência humana no século 21 e uma rejeição prematura e dogmática a esta investigação. Eu acredito em que o antagonismo entre razão e fé vai se tornar cada vez mais espalhado e intransigente nos próximos anos. Crenças de tribos primitivas, que viveram há milhares de anos, sobre Deus, alma, pecado, livre arbítrio etc., continuam a impedir pesquisas médicas e distorcer a administração pública. A possibilidade de que os americanos elejam um presidente que leve as profecias bíblicas a sério é real e assustadora. A possibilidade de que um dia tenhamos que enfrentar fundamentalistas islâmicos equipados com armas atômicas ou biológicas é aterrorizante, e aumenta a cada dia. Estamos fazendo muito pouco, no campo intelectual, para impedir essas possibilidades.
É, não melhorou nem um pouco.
No começo do parágrafo, ele já dá a impressão de que religião é incompatível com o estado laico.
Quer dizer, o sujeito compara crenças literais de algumas pessoas em específico com A RELIGIÃO, e depois diz que isso é oposto à ciência.Isso já foi exposto o suficiente na técnica “Seleção do Adversário”.
Aí ele tenta usar outra frase de efeito, dizendo que a diferença entre “ciência e religião é a diferença entre uma sincera simpatia pelos frutos da inteligência humana no século 21 e uma rejeição prematura e dogmática a esta investigação”.
Como sempre, só besteira, pois a ciência não está diretamente associada à frutos de “Inteligência humana” no século 21, já que o empreendimento científico já possui uns 5 séculos.
E ele não pode dizer se há “sincera simpatia”, pois em ciência o que importa é o método científico sendo seguido, sendo irrelevante se alguém possui “simpatia” ou não por qualquer coisa que seja.
E depois inventa uma nova definição de religião, para dizer que esta é “rejeição prematura e dogmática a esta investigação”.
O sujeito é nitidamente um desequilibrado mental, pois ele cria intenções falsas por trás dos religiosos, assume-as como verdade e critica justamente isso. Só se for a religião que o Harris inventou.
Claro que todo o parágrafo dele, assim como tudo que ele escreveu até agora, não sobrevive ao mínimo exame lógico.
Depois, ele tenta a falácia do apelo à ameaça (misturada com preconceito criminoso), dizendo que há um risco que um “presidente seja eleito e leve as profecias bíblicas a sério”.
Se a anta Harris estudasse o estado laico, saberia que isso não é problema algum.
O mesmo direito de um presidente ser eleito e ser religioso é o mesmo de um presidente ser eleito e NÃO ser religioso.
Só que Harris deixa escapar sua intolerância ao implicitamente afirmar: “qualquer um pode ser eleito, menos um religioso”.
E ainda chama isso de ATERRORIZANTE.
Não dá parar julgar isso de outra forma que não um ataque histérico e ofensivo de alguém sem argumentos.
E depois sugere que algo seja feito no PLANO INTELECTUAL para impedir essa possibilidade.
O problema para Harris é que qualquer análise INTELECTUAL derruba, na verdade, todo o discurso preconceituoso dele. Daria até para surgir um processo por preconceito só por essa afirmação dele.
Ele ainda vem com um apelo:
Em nome da tolerância religiosa, a maioria dos cientistas se mantêm em silêncio, quando deveriam estar destruindo as horríveis fantasias de eras passadas com os fatos de que dispõem.
Talvez por que a maioria dos cientistas seja composta de profissionais SÉRIOS, e sabem que religião e ciência não possuem conflito.
Pelo contrário, muitos não são estúpidos como Harris e preferem o diálogo.
Esses sim fazem algo pela ciência. Algo muito mais do que Harris, que propaga uma visão deturpada da ciência, que não tem NADA A VER com o que a ciência realmente é, para entar tentar inventar que existe conflito entre ciência e religião.
Mas o moço é insistente:
Para vencer esta guerra de idéias, cientistas e pessoas racionais terão que encontrar novos modos de falar sobre ética e experiência espiritual. Distinguir entre ciência e religião não é simplesmente nos calarmos sobre nossos conceitos de ética e nossas opiniões sobre estados alterados da mente, e sim uma questão de sermos rigorosos quando discutirmos o assunto. Podemos satisfazer nossas necessidades emocionais sem nos rebaixarmos a aceitar coisas improváveis. Podemos reconhecer a importância e o poder de rituais que nos ajudam a atravessar momentos importantes de nossas vidas, como o nascimento, casamento, morte etc., sem precisar mentir a nós mesmos sobre a natureza da realidade.
É estranho Harris falar sobre “pessoas racionais”, sendo que ele não é um destes.
Toda a pregação de Harris possui traços de irracionalidade tão grandes que nem seria preciso saber algo sobre debate filosófico para refutá-lo. O texto de Harris não é fruto da razão, mas sim de seu instinto.
Ademais, o discurso dele inclui falas como “podemos satisfazer nossas necessidades emocionais”, em uma alegação nem um pouco científica. Que ele vá estudar um pouco sobre neurociência e pare de falar bobagens sobre o que ele não sabe: as emoções humanas.
Ele ainda sugere que não sair pregando ateísmo loucamente feito ele é “mentir a nós mesmos sobre a natureza da realidade”.
Harris precisa primeiro descobrir o que é realidade, pois ele não sabe.
Viver com foco na realidade não é inventar histórias sobre pessoas que pensam diferentemente de si, e depois sair teorizando sobre isso. Isso é o OPOSTO de realidade.
E não poderia faltar o wishful thinking:
Minha esperança é que esta transformação em nosso modo de pensar ocorra medida em que nosso entendimento científico de nós mesmos amadureça. Quando nós tivermos meios confiáveis de fazer os seres humanos mais gentis, menos amedrontados e verdadeiramente encantados por termos surgido no universo, não precisaremos mais de mitos religiosos que só servem para nos dividir. Só então reconheceremos que é obsceno fazer com que nossas crianças acreditem em que são cristãs, judias, islamitas ou hindus. Só então teremos uma chance de curar a mais profunda e mais perigosa fratura em nosso mundo.
A esperança de Harris tende a se esvair justamente por discursos de ódio proferidos por ele.
Ele se lança contra um inimigo (ou que ele considera um inimigo, pois para muitos religiosos o Sam Harris não fede nem cheira) de maneira atabalhoada demais, e nem sequer amadureceu como pessoa. Perante qualquer pessoa com o mínimo de cultura, Harris parece aquele aborrescente de 13 a 14 anos que acabou de ler Nietzsche e ouvir Burzum e sai proferindo qualquer balela anti-religião.
Ele propõe a idéia de que as crenças religiosas SÓ SERVIRIAM para a divisão entre as pessoas. O problema é que ele não demonstra quais são as crenças que geram a divisão…
E pior: o discurso de intolerância é o dele.
É como Lenin, também ateu, já dizia: “Acuse-os do que fazemos”.
Todas as acusações sobre intolerância, feitas por Harris, e tentando atribui-la à religião são na verdade apenas o reflexo do comportamento de gente como Harris e seus amigos.
Justamente por isso Harris não tem moral para falar sobre ciência.
Ele não está preparado sequer psicologicamente e moralmente para ser um cientista.
Mas quem sabe a neurociência não descubra no futuro algum tratamento para eliminar a mente fanático-extremista.
Seria a única forma de curar a patologia de Harris.
A difícil arte de dialogar com os neo-ateus Parte 4 OU Como decifrar alguém que só pratica falácia do espantalho

E continuando a série de textos trazendo alguns recentes diálogos com neo-ateus, aqui está a refutação ao post de Ludwig, “Corrigindo”, em seu Blog “Que Treta!”. Assim como João (do blog Crônica da Ciência), a idéia de Ludwig era tentar refutar os dois textos meus a seguir: “Ciência X Religião: Retardo Mental” e “A Difícil Arte de Dialogar com os Neo-Ateus Parte 2 OU Como Discutir com Aquele Que Não Lê o Que Está Escrito”.
Esse texto aqui foi publicado simultaneamente à outro, entitulado “A Difícil Arte de Dialogar Com os Neo-Ateus Parte 3 OU Mapeando aqueles que tentam validar uma falácia da composição” . Na parte 3, cuidei dos argumentos de João. Nessa parte 4, trato dos argumentos de Ludwig.
Segundo João, Ludwig seria um grande “entendedor de ciência”, e portanto eu deveria me sentir honrado por ele ter dedicado um post a mim.
Mas será que é isso mesmo? Como diria o ceguinho esperançoso, veremos…
A primeira coisa que ele afirma é dizer que eu tenho uma “tese dizendo que ciência não se corrige”.
Vejam abaixo:
“A tese do Luciano é que a ciência não se corrige, e que dizer que a ciência se pode corrigir é «uma besteira inominável, uma estupidez». Demonstra-o assim: «A ciência só poderia se corrigir se a ciência estivesse errada. Mas não estava. A definição de ciência segue a mesma de sempre.» Não sabendo a idade do Luciano não sei se este exemplo já faz sentido, mas pensemos que a professora lhe corrige as contas onde ele se enganou. Seria pouco correcto o Luciano chamar besta estúpida à professora só porque a definição do termo “contas” permaneceu a mesma.”
Ou seja, assim como o seu amigo João, ele não leu nenhum de meus textos. Ou se leu, não entendeu. Não perderei muito tempo com isso aqui, pois a partir de tudo que foi exposto na parte 3, está claro que:
- (1) Na tentativa de falácia de falsa analogia do Ludwig, o correto seria ele comprovar que “a matemática se corrigiu” no momento em que uma conta é corrigida. Ele precisa aprender a fazer analogias válidas;
- (2) O termo “ciência se corrige, no momento em que uma teoria científica é corrigida” é a falácia da composição, ou seja, a tentativa de se aplicar para o todo aquilo que é válido para uma das partes;
- (3) Na aceitação de “ciência se corrige”, somente como metáfora (e só é possível assim mesmo), isso resultaria em uma invalidação do mesmo por lógica, já que a ciência não pode ser mutável e imutável ao mesmo tempo;
- (4) Por fim, tanto as afirmações como “ciência se corrige” e “ciência não se corrige” são inválidas, de novo, por ser falácia da composição.
Eu considero que alguém escrever “O Luciano disse que ciência não se corrige” é no mínimo incapacidade e falta de potencial para a leitura do que está escrito. Se isso for repetido, após essa pessoa ler os quatro itens acima, vou começar achar que já é loucura…
Vamos em frente…
Outro equívoco transparece num exemplo do Luciano, «quando um estúdio traz uma nova técnica que supera uma anterior, isso não significa que “o cinema se corrigiu”. Da mesma forma, uma nova teoria de administração, ou uma inovação, não implica em “administração se corrigindo”. Por isso que dizer “a ciência se corrige” é burrice.» Concordo que se alguém disser que o cinema a cores corrigiu o cinema a preto e branco terá de explicar o que quer dizer, pois não é óbvio em que sentido se pode falar de correcção, neste caso. Mas a ciência é diferente. Se um modelo matemático do sistema solar prevê um eclipse, é evidente que se o eclipse não ocorre na data prevista o modelo está errado. E se alterarmos o modelo para prever correctamente os eclipses então corrigimos o modelo. Neste contexto, as noções de correcto, errado e corrigir não levantam problemas porque é objectivo expresso da ciência que os seus modelos correspondam à realidade. Ao contrário do que se passa no cinema, o que espero não seja novidade para o Luciano.
Mais um exemplo de que Ludwig está redondamente errado. Se um modelo matemático do sistema solar prevê um eclipse e não ocorre o evento, é evidente que o modelo está errado, mas não a ciência.
Alguém poderia contra-argumentar dizendo que o “corpo de conhecimento da ciência” inclui todas as teorias científicas, então a cada vez que uma teoria científica é corrigida, a ciência se corrige.
Só que isso é totalmente falso, pois na verdade o conjunto das teorias científicas é APENAS uma das partes da ciência. É como um almoxarifado. A ciência já prevê que esse almoxarifado (onde residem todas as teorias científicas vigentes, e as não-vigentes também, para obter “lições aprendidas”) terá entrada e saída de bens de consumo (no caso, as teorias científicas), de acordo com a aplicação da METODOLOGIA CIENTÍFICA (que vai além do método científico).
Entende-se, então, que Ludwig tentou se safar praticando uma falsa analogia.
Em seguida ele muda de assunto e questiona a minha afirmação de que ciência e religião é um conflito que só existiria na cabeça de alguém com problemas mentais sérios. Notem:
Por isso é falso que o conflito entre ciência e religião «só existe na cabeça de alguém com problemas mentais sérios.» A origem do conflito é clara. A ciência e as religiões dizem coisas diferentes mas todas pretendem afirmar algo que corresponda à realidade. Não é apenas por serem diferentes que há conflito, nisso estou de acordo. Não há conflito entre as histórias do Batman e do Tio Patinhas. Mas há conflito, necessariamente, entre descrições incompatíveis da realidade. Porque a realidade é só uma. O resto é fantasia.
Aqui a situação de Ludwig fica ainda mais triste, pois ele demonstra não saber o significado do termo realidade. Originado do latim (realitas), significa, no uso cotidiano, tudo que existe. A ciência, por sua própria definição, não abrange tudo o que existe, pois só é possível que ela investigue partes específicas da realidade. Logo, definir algo como “realidade ou não” não é da alçada de nenhuma área de pesquisa científica. Da mesma maneira, as religiões não tem pretensão de afirmar algo que corresponda à realidade absoluta, e sim à realidade espiritual.
Dessa forma, não há conflito entre ciência e religião, pois o domínio de análise é diferente para cada uma delas.
Só que ele ingenuamente cita exemplos de “histórias de Batman e Tio Patinhas”. Ora, se ele mesmo confessou que são histórias, e que ambos são personagens fictícios, nenhum dos dois está no aspecto do estudo espiritual. A função não era essa para os personagens. Dessa forma, Batman e Tio Patinhas não entram em conflito com a ciência e NEM com a religião. Talvez um terceiro domínio, o domínio da arte (assim como existem outros domínios, como Administração, Negócios, Filosofia, etc.).
E no sentido mais livre, realidade inclui tudo que existe, seja OU NÃO visualizado empiricamente ou passível de experimentação e análise pela ciência, teologia, filosofia OU QUALQUER OUTRO sistema de análise.
Um exemplo é que para que um marido confirme se sua esposa o ama, ele não vai usar nem a ciência e nem a religião. Mas também não implica em fuga da realidade.
Ele portanto só conseguiria provar um conflito entre ciência e religião se conseguisse uma comprovação que o principal elemento da religião, Deus, teria sido inventado pelos mesmos princípios que Batman e Tio Patinhas. Mas ele não possui tal prova.
Dessa forma, esse argumento aqui “Porque a realidade é só uma. O resto é fantasia.” dele é refutado fácil. A realidade é só uma, mas nenhum sistema compreende toda a realidade, portanto não dá para afirmar o que é ou não fantasia caso o item avaliado não esteja sob o domínio de análise deste sistema. Um especialista em arte dirá qual arte é melhor que a outra, e nenhum cientista poderá contradizê-lo com o método científico, pois a área do cientista é a ciência, e não a arte. Teses filosóficas não são avaliadas pelo método científico, e podem constituir a realidade observada pela filosofia. E assim sucessivamente… Dessa forma, não é possível para um cientista, usando o método científico, afirmar que um crítico de arte está fugindo da realidade, ou um religioso fugindo da realidade, ou um filósofo fugindo da realidade.
Mas ele ainda prossegue, ferrenhamente:
«E a religião?», pergunta o Luciano, «Originada do latim “religio”, pode ser definida, na visão do todo, como o conjunto de crenças relacionadas ao divino, sobrenatural, sagrado, transcendental, etc. Na visão individual, é o conjunto de práticas religiosas, junto com o código moral, que se deriva dessa crença.» Concordo que o conjunto de práticas religiosas, por si, não cria conflitos com a ciência. Ir a um baptizado é perfeitamente compatível com a teoria da evolução. Mas para evitar o conflito a religião tem de se abster de afirmações acerca da realidade. E este é um preço demasiado alto para qualquer religião, pois implica o desemprego de todos os sacerdotes e teólogos, cuja carreira depende da crença que eles sabem algo que os outros desconhecem.
Notem que ele prossegue proferindo só absurdos sobre religião. Não existe absolutamente nada em religião que implique em se abster de afirmações acerca da realidade. Apenas que o método utilizado é outro, e o domínio de análise é diferente.
Talvez isso ocorra em alguma religião que o Ludwig tenha inventado, que não por coincidência é igual à religião que o Dawkins inventou. Uma religião que nada tem a ver com a religião dos religiosos, mas foi criada por autores ateus, apenas para que ela seja criticada. Não passa de uma variação de falácia do espantalho.
Para piorar, ele afirma que se “abster de afirmações acerca da realidade” seria um preço demasiado alto para qualquer religião. De novo, está errado. Não há esse preço a se pagar, pois a religião não faz afirmações sobre a realidade absoluta (nem a ciência o faz), tanto que até os religiosos é que foram os principais incentivadores da ciência. Quanto mais a ciência evolui, mais ela descobre itens sobre uma área que a religião não aborda, pois ela já está especializada na busca da realidade espiritual e do conhecimento espiritual. A ciência pode cuidar de outras coisas, como o estudo da natureza material. E é só isso que ela faz. E já está bom demais, convenhamos.
Aliás, para concluir, ele cita algo que é quase uma piada: “sacerdotes e teólogos, cuja carreira depende da crença que eles sabem algo que os outros desconhecem”.
Mas que loucura é essa?
É claro que os padres e teólogos conhecem algo que outros desconhecem. Eles são autoridades em suas áreas de conhecimento. Assim como os grandes cientistas conhecem algo que outros (os alunos de Física) desconhecem. Pois, se os alunos de ciências naturais já soubessem tudo que os grandes estudiosos da área já sabem, não seria preciso existir um professor.
Ou seja, Ludwig deu um tiro no próprio pé.
A seguir vem a parte mais deplorável, por ser totalmente falsa e conter alto grau de desonestidade intelectual:
O Luciano também se insurge contra a «arrogância excessiva» dos ateus que apontam as contradições entre o que a ciência nos diz, que somos resultado de um processo natural sem inteligência nem propósito, e o que a religião nos diz, que tudo isto tem um sentido porque, sem explicar o que isso adianta, foi tudo criado por um ser omnicoisas. O Luciano argumenta com duas analogias, uma em que um homem solteiro critica um casado e outra em que um trabalhador por conta própria critica um que trabalha para outrem. Diz que são «exemplos exatamente iguais ao do comportamento neo-ateísta.» mas, em ambos, falha por completo o alvo.
Até aqui, Ludwig estava sendo incapaz de entender o texto escrito, e mostrando desconhecimento completo do que significam definições como ciência, religião, realidade e espiritualidade. Tudo bem, leitores de “divulgação científica” geralmente caem nesse tipo de logro.
O problema é quando ele parte para a fraude. Ele afirma que eu teria dito que os ateus seriam arrogantes POR apontar contradições entre o que “ciência nos diz” e “religião nos diz”.
Ele é mentiroso, pois notem o que eu escrevi: “Sempre achei uma arrogância excessiva a atitude de alguns ateus que leram “Deus, Um Delírio” e após isso tiveram um salto de fé. Após a auto-ajuda obtida com o livro, eles se acham os “divulgadores da ciência” em um mundo de trevas. E acham que precisam “orientar” os teístas em suas ideologias pessoais.”
A diferença entre o que eu escrevi e que Ludwig afirma que eu escrevi é gritante. Na versão dele, eu teria reconhecido os ateus como aqueles que apontam as contradições, e chamando-os de arrogantes por isso.
Errado. O que eu afirmo é o seguinte:
- (a) neo-ateus são arrogantes por tentarem cuidar da vida dos religiosos ao invés de cuidarem de suas vidas, pois não há nada que um neo-ateu possa acrescentar como aconselhamento pessoal a um religioso – e é fato que o entendimento de neo-ateus sobre religião é o entendimento de um religioso de no máximo 10 anos de idade
- (b) neo-ateus são FALACIOSOS ao afirmarem que existe contradição entre religião e ciência
- (c) neo-ateus são CHARLATÃES ao afirmarem que são porta-vozes da ciência (só assim para dizerem o “que a ciência nos diz”), pois não possuem autorização para falar nada em nome da ciência
Notou que os itens (a), (b) e (c) não têm absolutamente nada a ver com o que Ludwig interpretou do que eu disse? A fraude é clara quando ele cita apenas “arrogância excessiva” e o resto da afirmação a seguir é apenas um textinho que ele inventou, mas representa praticamente o oposto do que eu quis dizer.
De qualquer forma, Ludwig foi desmascarado nessa. E errou ao falar que eu “errei o alvo”, pois se foi preciso que Ludwig praticasse tamanha desonestidade intelectual e fraude (exposta aqui para todos lerem), é sinal de que eu acertei o alvo sim, e isso o incomodou muito.
Ele também afirma que eu errei o alvo ao dizer que a comparação feita entre neo-ateus e neo-solteiros feita neste meu artigo “Ateus e o eterno olhar de pidão do lado de fora” é falha.
Ele tenta desenvolver esse raciocínio a seguir
É verdade que não me agrada ir à missa, nem trabalhar num navio pesqueiro e que me sinto bem casado. Mas não tenho problemas em aceitar que outros tenham gostos diferentes. E se assumirem a religião como uma questão de gosto pessoal nada tenho a criticar. O problema, para aproveitar a analogia do Luciano, é se houver uma data de gente convencida que está casada com o Mickey ou com a Minnie, que ensina isso às crianças, que exige que se respeite essa convicção, que a apregoa como um facto e que reclama que a sua relação especial com o Mickey e a Minnie lhes dá acesso a um conhecimento que transcende o que a ciência pode alcançar. Nesse caso parece-me bem avisar que o Mickey e a Minnie não são verdadeiros. São ficção. Bonecos. O que critico nas religiões não é as pessoas gostarem de rezar, de se benzer ou ir à missa. Não tenho nada contra isso, tal como não tenho nada contra quem goste de ser pescador ou solteiro. O problema é não perceberem que a religião é uma questão de gosto e, por isso, levarem demasiado a sério as proclamações de quem diz representar este ou aquele boneco.
Ele aqui apenas tergiversou, pois o que eu tinha comentado nesse artigo em específico era um modelo basicamente assim:
- (a) um religioso assume um valor – o neo-ateu não tem esse valor – o neo-ateu quer definir como é a vida do religioso, mas só tem a visão do lado de fora – o neo-ateu se incomoda muito com o religioso ter o seu valor
- (b) o casado assume um valor – o neo-solteiro não tem esse valor – o neo-solteiro quer definir como é a vida do casado, mas só tem a visão do lado de fora – o neo-solteiro se incomoda muito com o casado ter o seu valor
Será que Ludwig entendeu agora? Ele distorceu completamente o objetivo daquele texto, que era mostrar que os neo-ateus, ao vociferarem em público contra os religiosos, falam sobre o que não conhecem, criticam comportamentos (dos religiosos) que não entendem, a ainda mentem sobre os religiosos. E ainda inventam que falam de ciência, quando na verdade não falam. E ainda, ao falar que “divulgam” ciência, só tratam de um espantalho de ciência. Era esse o objetivo do texto.
E, como uma grande ironia, Ludwig CONFIRMOU tudo o que eu disse naquele texto, vejam:
- (a) ele acredita que Deus é igual Mickey e Minnie (ou seja, ele criou um Deus, que é do mesmo estilo que Mickey e Minnie)
- (b) os religiosos não acreditam em um Deus igual ao que Ludwig acredita, pois o Deus dos religiosos é muito mais complexo, acessível apenas por auto-conhecimento e prática de estudo religioso e filosofia, que nem todos possuem
- (c) ele se incomoda com o fato dos religiosos levarem demasiado a sério os sábios em religião (padres e pastores)
- (d) ele quer pregar o Deus dele, e ofende aqueles que não acreditam no Deus Boneco que ele inventou
Enfim, Ludwig chafurdou definitivamente, pois ele veio criticar algo, e acabou dando suporte total ao texto “Ateus e o eterno olhar de pidão do lado de fora”.
