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Livro: “Como Vencer Todas as Argumentações”, de Madsen Pirie

“Como Vencer todas as Argumentações”, de Madsen Pirie, 152 páginas, Editora: Edições Loyola.
Como sempre tenho afirmado neste blog, a participação do teísta em guerras intelectuais (o debate entre teístas X neo ateus é um exemplo de guerra intelectual) pode ser um terreno pantanoso.
Para evitar chafurdar, é necessário o conhecimento de um “set” de técnicas, das quais posso citar, dentre outras: questionamento socrático, checklist de falácias, checklist de dialética erística, investigação de fraudes, etc.
Sem o conhecimento de ao menos parte dessas técnicas, o debatedor pode ficar vulnerável à argumentações tendenciosas e mal intencionadas e ser ludibriado facilmente.
Eis então que chega às minhas mãos o livro “Como Vencer Todas as Argumentações”, de Madsen Pirie, que não cumpre o que promete na capa, mas ainda assim é bem interessante.
A promessa seria de que este é um manual para ajudar o leitor a vencer as argumentações em que participa. Falso, pois o domínio de falácias, tanto para aplicação como prevenção, é apenas uma parte do “core” de conhecimentos necessários – pode-se dizer que o conhecimento da dialética erística tem igual importância, no mínimo. E o livro foca basicamente nas falácias.
Nessa parte é que o livro de Pirie, presidente e fundador do Instituto Adam Smith, se destaca da maioria dos trabalhos a abordarem o tema.
O livro é basicamente um guia bastante completo de toda a sorte de falácias existentes, e faz uso de bastante humor na demonstração dos erros lógicos inerentes à elas, sempre com exemplos bastante espirituosos.
A postura de Pirie em sua obra é quase maquiavélica. Ele mostra como alguém pode ao mesmo tempo aprender a aplicar a falácia para ganhar um debate, como também para entender o comportamento falacioso, e se proteger dele. Naturalmente que este blog defende a segunda opção, e é com essa perspectiva que analisei o livro.
Claro que, como Pirie diz que ensina alguém a cometer falácias, até ele próprio comete algumas, como neste exemplo, quando ele cita os conservadores e sua suposta relação com a falácia ad antiquitatem: “Os conservadores são os maiores usuários do ad antiquitam. Eles o cultivaram e o manterão em nome de Deus. Os valores antigos são os certos O patriotismo, a grandeza nacional, a disciplina – o que quer que se queira: se é antigo, é bom”.
Estranho, naturalmente, pois a maldade humana é antiga, e dificilmente se vê algum conservador dizendo que ela é boa.
Claro que esse tipo de deslize falacioso do livro pode ser um exemplo daquilo que o autor chama de “como aplicar falácias para vencer”. Mas se um leitor já consegue identificar falácias em várias das abordagens, é sinal de que esse tipo de estudo sempre faz bem.
Notem que não estou invalidando o livro, pois aí eu cometeria o estratagema erístico de “Tomar a prova pela tese”. Obviamente o exemplo dele é falacioso, mas a apresentação da falácia que ele faz é bastante correta.
Mais um motivo para mostrar que não só o conhecimento de um checklist de falácias, como é o livro de Pirie, como também da Dialética Erística, é essencial não só para a avaliação dos argumentos dos outros como também dos próprios argumentos.
No caso apenas do estudo do checklist de falácias, “Como Vencer Todas as Argumentações” serve como ótima introdução.
Deus, Um Delírio – Capítulo 3 – Pt. 7 – Dawkins exagera a aposta de Pascal

Um dos estratagemas mais óbvios e básicos, praticados ad nauseam pela patuléia neo ateísta, é a ampliação indevida. Ele funciona basicamente pelo exagero da declaração de um oponente, e então, diante dessa versão exagerada, é feita uma suposta refutação, fingindo que o argumento original foi refutado.
É basicamente essa a iniciativa de Richard Dawkins ao tratar da Aposta de Pascal.
Vamos então, às evidências:
O grande matemático francês Blaise Pascal achava que, por mais improvável que fosse a existência de Deus, há uma assimetria ainda maior na punição por errar no palpite. É melhor acreditar em Deus, porque se você estiver certo poderá ganhar o júbilo eterno, e se estiver errado não vai fazer a menor diferença. Por outro lado, se você não acreditar em Deus e estiver errado, será amaldiçoado para todo o sempre, e se estiver certo não vai fazer diferença. Pensando assim, a decisão é óbvia. Acredite em Deus.
Para começo de conversa, Dawkins mente ao dizer que Pascal vendia a decisão “Acredite em Deus”. Na verdade, Pascal em nenhum momento busca incentivar o comportamento do leitor, pelo contrário.
O que Dawkins chamou de um argumento para acreditar em Deus, é apenas um raciocínio lógico, e que Pascal escreveu para si próprio, e não para convencer ninguém. Está desmascarada aí a fraude de Dawkins relacionada à ampliação indevida.
Tanto que Pascal não publicou nada durante em vida. Esse pensamento foi publicado, junto com outros, na obra “Pensamentos”, somente após sua morte. Claro que alguns religiosos podem interpretar o argumento, mas é com esses que Dawkins deveria encrespar. E não com Pascal.
Dawkins no entanto se esqueceu de que a análise do raciocínio de Pascal, sem fazer juízo de valor, mostra que ele permanece lógico, tanto que vale para aplicação em quaisquer outros aspectos. Um exemplo é o Aquecimento Global. Vejam: “Se acreditarmos no Aquecimento global e estivermos certos, seremos beneficiados com possíveis medidas de contenção. Se acreditarmos no Aquecimento Global e estivermos errados, não teremos nada a perder. Se não acreditarmos no Aquecimento Global e estivermos certos, não teremos nada a perder. Se não acreditarmos no Aquecimento Global e estivermos errados, vamos todos nos estrepar”.
Ou seja, é um raciocínio meramente lógico, que passa pela cabeça de muitas pessoas. Por que então ele seria automaticamente inválido? Só se tornaria inválido se incluísse Deus? Dawkins não consegue sequer estabelecer um caso para isso.
Como raciocínio pessoal, e não um argumento, a iniciativa de Pascal é natural, assim como a transposição da Aposta de Pascal para o Aquecimento Global.
Tentar usar isso para comprovar o Aquecimento Global ou a existência de Deus seria um equívoco. Mas, de novo, não foi essa a idéia de Pascal.
Mas vejam que curioso:
Há, porém, alguma coisa claramente esquisita no argumento. Acreditar não é uma coisa que se possa decidir, como se fosse uma questão política. Não é pelo menos uma coisa que eu consiga decidir por vontade própria. Posso decidir ir à igreja e posso decidir recitar a novena, e posso decidir jurar sobre uma pilha de Bíblias que acredito em cada palavra escrita nelas. Mas nada disso pode realmente me fazer acreditar se eu não acreditar. A aposta de Pascal só poderia servir de argumento para uma crença fingida em Deus.
Como de costume, Dawkins dá várias voltas mas não sai do lugar.
E, como todo prolixo, Dawkins se estrepa justamente por suas palavras, pois tudo que ele expôs no trecho anterior NÃO é parte do argumento de Pascal, apenas uma intepretação bizarra feita por Dawkins. Para começar, a historinha nonsense de que “acreditar não é uma coisa que se possa decidir”. Como não? Qualquer argumento ou observação com tom de persuasão tem por fim… levar alguém a acreditar ou desacreditar de algo. Essa crença deverá ser por escolha pessoal.
Uma crença aceite por persuasão NÃO É necessariamente uma crença fingida, de forma que ele afirmar que a aposta de Pascal só poderia servir de argumento para “uma crença fingida em Deus” é apenas (mais) um erro lógico de Dawkins.
Vejamos como Dawkins segue:
E é melhor que o Deus em que você alega acreditar não seja do tipo onisciente, senão ele vai saber da enganação. A idéia absurda de que acreditar é uma coisa que se pode decidir fazer é deliciosamente ridicularizada por Douglas Adams em Dirk Gentlys Holistic Detective Agency, em que somos apresentados ao Monge Elétrico, um dispositivo muito prático que se compra para “acreditar por você”. O modelo de luxe é anunciado como “capaz de acreditar em coisas que ninguém de Salt Lake City acreditaria”.
De novo, um esperneio que só teria valia se uma crença aceite após persuasão (ou seja, quase todas) fosse automaticamente fingida. O argumento de Dawkins nem de longe comprova isso. Portanto, Dawkins apelar para um humorista como Douglas Adams para validar a idéia absurda dele de que crença é algo que NÃO se pode escolher não lhe salva a pele.
Mas ainda assim achei divertida a idéia do Monge Elétrico. Ele talvez sirva para acreditar nos argumentos de Dawkins. Pois já que ninguém racional acredita, talvez o Monge Elétrico acreditaria…
Vamos em frente:
Mas por que, então, estamos tão dispostos a aceitar a idéia de que o que é imprescindível fazer, se se quiser agradar a Deus, é acreditar nele? O que há de tão especial em acreditar? Não é igualmente provável que Deus recompense a bondade, ou a generosidade, ou a humildade? Ou a sinceridade? E se Deus for um cientista que considera a busca honesta pela verdade a virtude suprema? Aliás, o projetista do universo não teria de ser um cientista?
As perguntas que Dawkins faz transitam entre o bizarro e o infantil.
Vamos por exemplo, transpor a primeira pergunta do território da crença em Deus, para a crença em uma missão de uma empresa. Imaginando um novo funcionário: será que ele teria que estar disposto a aceitar a idéia de que é imprescindível, se quiser agradar à empresa, acreditar nela? Claro que é uma extrapolação, mas isso mostra que a crença em um empresa, por alguém que faz parte dela, é mais valorizada que a descrença. Suponho que Dawkins tente maquiar o termo “acreditar” por “acreditar cegamente”, o que não é aconselhado pela religião (ao menos a religião cristã).
Aí ele pergunta “o que há de tão especial em acreditar?”. Ora, se alguém não acredita que um estudo é viável, por que investiria tempo nele e não em outro? A necessidade de crença, não só para Deus, como para um investimento, um casamento, a aceitação de um emprego, a contratação de um funcionário, é essencial. O questionamento de Dawkins, de novo, falha o alvo.
Ele também fala que Deus deveria recompensar a bondade, generosidade, humildade ou sinceridade. Mas quem disse que Deus não recompensaria isso? Aliás, o fato de acreditar em Deus não exime o cristão de alimentar as outras virtudes. De novo: Dawkins precisa aprender a quando argumentar, considerar o Deus dos religiosos, e não o Deus que ele inventou. Talvez um Deus que ele tenha inventado diga que se alguém possui crença isso o exime automaticamente de ter outras virtudes. Mas vai ser difícil se Dawkins quiser provar que isso é realmente uma característica do Deus cristão.
As últimas questões são estúpidas, e como sempre falam de um Deus que ele inventou, e que é um problema do Dawkins, não dos religiosos. Um Deus “cientista” teria que necessariamente ser humano, e segundo a religião cristã, Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, o que não significa que Deus é um homem, em carne e osso. As perguntas anteriores foram bizarras, mas esta última foi demente, nada mais que isso. Seria uma pergunta até aceitável em uma pessoa em transe esotérico ou até mesmo durante uma sessão do Santo Daime. Quanto alguém está doidão, não exigimos coerência lógica dessa pessoa. Agora, se a pessoa não está em um estado alterado de consciência, questionamentos como esse do Dawkins merecem no mínimo camisa de força. Ou ao menos um “pedala” na cabeça…
E lá vem mais Dawkins, em sua eterna venda de idéias:
Perguntaram a Bertrand Russell o que ele diria se morresse e se visse confrontado por Deus, exigindo saber por que Russell não acreditava nele. “Não havia provas suficientes, Deus, não havia provas suficientes”, foi a resposta (eu quase diria imortal) de Russell. Deus não respeitaria Russell por seu ceticismo corajoso (sem contar pelo pacifismo corajoso que o colocou na prisão durante a Primeira Guerra Mundial), bem mais do que respeitaria Pascal por sua aposta cautelosa e covarde?
O engraçado é que Russell, assim como Dawkins, acredita em um Deus que iria realizar uma pergunta FORMAL: “Por que você não acreditou em mim?”. Ou seja, ele dá uma resposta para uma suposta pergunta de um Deus que ele inventou, talvez baseado em uma Bíblia em que ele inventou.
Outra coisa: ceticismo não implica em coragem. É só uma negação. Se o sujeito não acredita em Deus, não é um ato de coragem ser cético quanto a ele. Assim como alguém que não acredita em Aquecimento Global, não é um ato de coragem ser cético quanto a ele. Difícil seria acreditar no Aquecimento Global e DIANTE DISSO ser cético quanto a ele. Aí sim seria preciso coragem.
Difícil entender o que Dawkins entende por lógica…
OBS: Dawins afirma que foi o pacifismo corajoso que levou Russell a ser preso durante a Primeira Guerra Mundial. Falso. Foi a atitude baderneira, de distribuir panfletos contra o alistamento para a Guerra. Em período de guerra, atitude assim não é pacifismo, e sim tentativa de sabotagem de seu governo.
E lá vem falácia:
Você apostaria que Deus valorizaria mais uma crença fingida e desonesta (ou mesmo uma crença honesta) que o ceticismo honesto?
Aqui é só a famosa falácia do falso dilema. Inválida, como argumento.
Abaixo é só a ignorância tradicional:
Suponha que o deus que o confrontar quando você morrer seja Baal, e suponha que Baal seja tão invejoso quanto disseram que era seu velho rival Javé. Não seria melhor que Pascal não tivesse apostado em deus nenhum, em vez de apostar no deus errado? O próprio número de deuses e deusas em potencial em que se poderia apostar não corrompe toda a lógica de Pascal?
Ihh… danou-se o Dawkins. Se existir Baal, e ele for invejoso tanto quanto Deus, no qual acredito, então está ótimo, pois Deus não é invejoso. E por acreditar em Deus e conhecer um pouco do assunto, automaticamente eu acredito que outros povos tratam-no da mesma forma. Portanto, não existiria essa possibilidade de eu acreditar em Deus e desacreditar de Baal. Pelo contrário, eu acredito em Deus, que é tratado por Baal por outro povo. Logo, a lógica de Pascal não se corrompe. Detalhe: não estou validando a Aposta de Pascal como argumento, e sim a lógica de Pascal como um pensamento válido que ele poderia ter dito.
Seria o mesmo que duas versões do Aquecimento Global (como é uma teoria, existem variantes) poderiam corromper a lógica aplicada a ele. Claro que não corrompe.
Depois de tanto rodeio, ele talvez tenta não se comprometer, mas aí já é tarde. E mesmo assim, ele ainda escreve besteira:
Pascal estava provavelmente brincando quando promoveu sua aposta, assim como estou brincando para descartá-la.
O problema é que Pascal jamais “promoveu” sua aposta.
Detalhe: descartar uma lógica pessoal (e não um argumento) fugindo do assunto isso qualquer um faz. Mas assim como a Aposta de Pascal não era um argumento, esse esperneio todo do Dawkins TAMBÉM não é. De novo, ele apenas criou um inimigo imaginário e lutou contra ele. Mas um inimigo imaginário é só isso mesmo. Imaginário. Pior para Dawkins.
E por fim:
Será possível, por fim, argumentar em busca de uma espécie de antiaposta de Pascal? Imagine que assumamos que realmente haja uma pequena chance de Deus existir. Mesmo assim, seria possível dizer que você terá uma vida melhor, mais plena, se apostar na sua inexistência, e não na sua existência, para não desperdiçar seu tempo precioso adorando-o, sacrificando-se em nome dele, lutando e morrendo por ele etc.
Pelo menos o questionamento do Dawkins aqui é legítimo, mas ele vale para aplicações da Aposta de Pascal tanto para Deus, como para a pesquisa SETI e para o Aquecimento Global.
Sim, seria uma vida muito mais divertida se não precisássemos agir como se qualquer evento que quiséssemos desacreditar realmente não existisse. Mas isso não é argumento também.
Ah, eu acredito em Deus e não vejo desperdício de tempo algum. Dawkins não foi claro no que seria esse desperdício de tempo. Por exemplo, quando eu fui ateu eu considerei todas as argumentações que eu fazia antes um desperdício de tempo. Outro poderá dizer que as pregações do Dawkins é que são desperdício de tempo.
Sendo então a avaliação do tempo pessoal algo relacionado a uma hipotética Gestão de Tempo Particular, e de caráter subjetivo, o argumento de Dawkins é inútil.
Além do mais, ao final quando Dawkins diz “sacrificando-se”, “lutando por” e “morrendo por” não passa de uma versão estereotipada do teísmo.
Obviamente seria um argumento válido se a maioria dos religiosos fizesse isso, mas nem de longe ele conseguiu provar que fazem.
Isso tudo mostra que Pascal, como sempre, foi um bom pensador (mesmo que não tenha apresentado um argumento para a crença em Deus, e não foi essa a intenção dele), ao passo que Dawkins é medíocre e tem problemas básicos com lógica.
É claro que analisar um texto em que Dawkins tergiversa sobre Pascal iria resultar em uma situação em que não é raro sentirmos vergonha alheia pelo desempenho de Dawkins.
Um modelo para avaliação de maturidade em compreensão da Bíblia: Bible Comprehension Maturity Model (BCMM)

Você, se for religioso, provavelmente já deve ter participado de discussões com anti-religiosos (incluindo marxistas e neo ateus), no qual eles criticavam severamente a Bíblia em todos os aspectos.
Muito provavelmente você também deve ter pensado: “a Bíblia que ele leu deve ser diferente da que eu li, pois de que diabos esse cara está falando?”. Ou ao menos algo semelhante.
O caso é que a Bíblia é a mesma. O problema está no ENTENDIMENTO.
Para ajudar a diminuir esse problema sugiro aqui um modelo entitulado BCMM, para avaliar o grau de maturidade que alguém possui em relação ao entendimento da Bíblia.
O título está em inglês justamente para se alinhar ao modelo original, CMM, que originalmente é conhecido como Capability Maturiy Model. É basicamente um modelo para diagnóstico e avaliação de maturidade em desenvolvimento de softwares nas organizações, mas hoje pode ser utilizado para praticamente tudo que se queira avaliar em termos de maturidade. É possível, de acordo com o ISACA, utilizá-lo até para avaliar o nível de maturidade em implementação da segurança de informação, por exemplo.
Essa adaptação sugerida aqui (BCMM) permite a identificação da maturidade de qualquer um em relação ao entendimento da Bíblia.
A necessidade de um modelo assim deve-se ao fato de vários leigos afirmam entender a Bíblia, para tentar validar suas críticas a ela. Entretanto, o que mais ocorre é um neo ateu com entendimento limitadíssimo criticar o entendimento superior de um outro, e fingir que o outro entendeu da mesma maneira.
E justamente para ajudar a evitar esses problemas, sugiro então esse modelo para avaliar a maturidade de alguém nesse quesito. Se o CMM possui cinco estágios de maturidade, o BCMM sugere 6.
Ao contrário do CMM, os estágios não são necessariamente contínuos, e, de acordo com o modelo são adquiridos de acordo com o empenho e capacidade de qualquer um para a leitura e o aprofundamento.
Os 6 estágios são:
- 0. Inexistente
- 1. Infantil
- 2. Incapaz
- 3. Básico
- 4. Profundo
- 5. Sábio
Abaixo, então, uma descrição dos 6 níveis.
(0) Inexistente: Esse nível de compreensão é pertencente àqueles que nunca leram a Bíblia e nem ouviram falar dela. Para quem está nesse nível, Gênesis é a banda onde Peter Gabriel e Phil Collins cantaram.
(1) Infantil – Esse nível é o das crianças, ao conhecerem a Bíblia. O entendimento é completamente literal. A criança geralmente fica se perguntando como é possível, por exemplo, uma cobra falar, ao ler a narrativa do Gênesis. O entendimento das mensagens da Bíblia é praticamente nulo.
(2) Incapaz – Esse é o nível é praticamente idêntico, em termos de conhecimento, ao anterior. A diferença é que este nível mapeia as pessoas adultas, que mantém o conhecimento similar ao nível 1. É o único nível em que existe uma queda, pois é praticamente inferior ao 1. Todos os neo ateus possuem esse nível de entendimento, por exemplo. Os motivos para um adulto continuar entendendo a Bíblia de forma 100% literal, feito uma criança, pode ser explicado por vários fatores, incluindo incapacidade, analfabetismo funcional, desinteresse, revolta, trauma ou até retardo.
(3) Básico – Esse é o nível em que existe o conhecimento suficiente para interpretar os ensinamentos fundamentais da Bíblia, mas não há detalhamento do conhecimento a ponto de ser fácil para o leitor identificar o que é metáfora ou não. Uma parte do entendimento popular da religião se encaixa no nível 3 de maturidade do BCMM. Tecnicamente, não são bons adversários dos neo ateus em debates, pois mesmo que os neo ateus tenham menor nível de compreensão, as pessoas do nível 3 talvez não tenham habilidade para dar todas as respostas e identificar todos os erros lógicos do neo ateu. Em duelos com neo ateus, há grande chance de empate, e até alguns derrotas. Mesmo que não estejam tão aptos a debates, são capazes de utilizar uma boa parte dos ensinamentos da Bíblia em seu dia-a-dia.
(4) Profundo – A partir desse nível, pode-se dizer que alguém conhece a Bíblia de forma a entender não só as verdades fundamentais que lá estão, como também interpretar todas as lições apresentadas, e possuir um conhecimento suficiente para a aplicação prática de todo esse aprendizado. Não há exemplos de pessoas com esse nível de entendimento que tenham abandonado a religião. Exemplos populares como Dan Barker, Bart Erhlman e Hector Ávalos, que alegam terem sido religiosos e virado ateus ou agnósticos, demonstram um entendimento Nível 2, apenas. Uma boa parte dos religiosos possuem esse nível de entendimento, principalmente os leitores deste blog (e o autor também). Pessoas que estão nesse nível de entendimento raramente perdem um debate para neo ateus. O motivo é claro: os neo ateus estão 2 níveis abaixo, em termos de entendimento. Já é uma distância considerável.
(5) Sábio – O nível de entendimento dessas pessoas é tamanho que elas já nem se preocupam com questionamentos advindos do nível 2. O conhecimento é tamanho que todas as aptidões vistas no nível 4 estão presentes, com a adição do mais essencial, que é entender por completo o motivo pelo qual as passagens estão escritas daquela forma. Raros possuem esse conhecimento.
A utilização de um modelo em estágios dessa forma pode ser muito importante para evitar constrangimentos e desperdício de tempo em debates. Na maioria dos casos, basta solicitar a um debatedor que esteja tentando encontrar “contradições” ou “objeções” na Bíblia para que ele detalhe o seu entendimento, que aos poucos é fácil qualificar o nível de maturidade em que ele se encontra. E não há dúvidas: neo ateus estão sempre no nível 2.
Abaixo 2 exemplos desse nível de entendimento, em uma extrapolação do modelo para discussão sobre Nietzsche, e em uma discussão sobre uma metáfora da Bíblia:
- Exemplo 1: Em uma discussão sobre Nietzsche, pode-se discutir a obra “Assim Falou Zaratustra”. Nela, um leão fala. Alguém que está no nível 2 ficará desesperado procurando evidências de que um leão pode falar, e não vai encontrar. Alguém que está no nível 3, entenderá a mensagem básica de Nietzsche. Quem está no nível 4, compreenderá o texto, e saberá o que cada linha representa. Já no nível 5, aquele que o lê irá entender os motivos pelo qual Nietzsche escreveu tudo. Este seria um sábio em Nietzsche.
- Exemplo 2: Em uma discussão sobre a própria Bíblia, quando se diz a expressão “não se joga pérolas aos porcos”, alguém que está no nível 2 pode ficar ofendido e dizer “você me chamou de porco?”. Só que aquele que está no nível de maturidade 4, por exemplo, vai rir da cara do infeliz, pois ele sabe que suínos (na acepção da palavra relacionada aos animais) sequer estavam em discussão. Este provavelmente saberá que foi citado um código que sugere que não se deve divulgar uma informação para quem não irá aproveitá-la. Ou seja, esse é o significado da metáfora, compreendido por todos que estão no nível 4, e uma parcela dos que estão no nível 3.
Pelo fato dos ateus estarem sempre no nível 2, não há uma discussão proveitosa com eles sobre o tema. A coisa deve ser levada para o desafio e exposição publica da inaptidão dele.
Ou alguém aqui que já trabalhou numa organização CMMI nível 5 tentou explicar o seu modelo de trabalho para alguém que vive (e gosta de viver) em uma organização CMMI nível 1? Em vários casos, encontram-se pessoas que, estando em um nível inferior de maturidade, simplesmente não entendem o que pensa alguém que está em um nível superior. Depois disso, a pessoa que está no nível inferior simplesmente pode FANTASIAR que o pensamento daquele que está no nível superior é igual ao dele. Não, não é.
E isso não é questão apenas de discussão bíblica, mas sim algo que se aplica a todos aspectos da vida em que se requer entendimento em contextos onde há discussões ou debates. Esse, aliás, é um fator primordial para a habilitação da comunicação humana.
Por isso, pode ser útil um modelo para qualificar os debatedores, principalmente aqueles que são críticos da Bíblia.
Não é raro neo ateus pegarem um trecho da Bíblia e citarem-o literalmente, e depois sentenciar “você acredita nisso”. Bem, muito provavelmente eu acredito, mas ele está no nível 2 e eu no 4, portanto ele não tem a mínima idéia do que estou pensando…
Nesse momento, o que importa é que os principais críticos da Bíblia, principalmente os neo ateus, estão no nível 2. E só esse fato é terrivelmente constrangedor para eles.
Mais constrangedor ainda é o fato de que eles, por estarem no nível 2, torcem para que TODOS (inclusive teólogos) estejam no mesmo nível de entendimento, o que é praticamente uma atitude neurótica da parte deles.
Detalhe que não adianta eles ficarem chorando pelos cantos, reclamando de arrogância em existir esse modelo.
Esse entendimento patético e ridículo que eles possuem da Bíblia, inaceitável para um adulto, é fruto da própria atitude deles.
É o livre arbítrio.
P.S.: Esse modelo será especialmente relevante para um artigo que será publicado nos próximos dias sobre um sujeito, chamado Edmund Standing, que alega ser teólogo e ateu, e tentará usar isso (sua “formação em teologia”) para atacar os religiosos. Será que ele consegue? No artigo que será feito sobre ele, o BCMM será utilizado.
Deus, Um Delírio – Capítulo 2 – Pt. 2 – Dawkins tenta confundir monoteísmo com politeísmo

Nessa seção, Dawkins resolve falar do politeísmo, mas o que tenta fazer na maior parte do tempo é mesmo tentar confundir politeísmo com monoteísmo. Antes disso, porém, ele tenta dizer que politeístas e ateístas são tratados da mesma maneira pela religião monoteísta.
Tentando responder a isso, Dawkins cita o autor de “Por que Não sou Muçulmano”, Ibn Warraq:
Ibn Warraq (autor de Why I am not a Muslim [Por que não sou muçulmano]) a conjecturar sagazmente que o monoteísmo está por sua vez fadado a subtrair mais um deus e se transformar em ateísmo.
Alguém precisava ensinar ao Dawkins estratégia de argumentação, pois os estratagemas que ele usa não só são ruins, como também podem ser usados contra ele, na maior parte dos casos.
Primeiro vou falar da ruindade do estratagema quando ele é usado como argumento: não passa de um raciocínio falacioso, que naturalmente é oriundo de uma confusão do que significa ser ateu, que é alguém que não acredita em Deus ou deuses.
Dawkins tenta modificar o conceito de ateísmo, para ser a prática em não acreditar em Deuses de forma, que, considerando todas as definições de Deus ou deuses já conceituados pelo homem, a pessoa se tornaria cada vez mais ateu a cada não-aceitação de um desses conceitos.
O problema que esmaga esse raciocínio de Dawkins é que ele é logicamente inconsistente, pois vejam: imaginem um grupo de pessoas que acredita que partes do cosmos são universos, e, no futuro é substituída por uma nova crença de que não há vários universos, mas sim um só.
Segundo a “lógica” de Dawkins, essa pessoa estaria a caminho de uma crença na idéia de que não há um universo algum? Claro que não.
O que Dawkins tenta implementar não é nada mais que a falácia reductio ad absurdum.
É justamente por isso que o argumento de Ibn Warraq, endorrado por Dawkins (ele afirmou que Warraq foi “sagaz” ao usar o estratagema), é logicamente inconsistente.
Para piorar, o religioso, ao ser monoteísta, AUMENTA O VALOR de Deus, pois a definição de Deus passa a explicar muito mais do que todo o panteão de deuses de qualquer cultura politeísta. Lembremos que para o politeísmo, deuses são apenas arquétipos de algumas virtudes humanas. Para o monoteísmo, Deus é o princípio e o fim de todas as coisas, o criador do universo e de uma moral absoluta, dentre outras atribuições, como onipotência, onisciência e onipresença. Mais um motivo para ridicularizar o reductio ad absurdum do Dawkins.
E quanto ao fato do argumento dawkinista se voltar contra ele? Deixarei para tratar desse assunto um pouco mais à frente…
Antes disso, Dawkins tentará usar a técnica do “Dividir para Conquistar”, e dirá que o politeísmo é discriminado em relação ao monoteísmo, na questão do exame feito para entidades beneficentes:
O chauvinismo monoteísta estava até bem recentemente encravado na lei de entidades beneficentes tanto da Inglaterra quanto da Escócia, a qual discriminava religiões politeístas para garantir o status de isenção de impostos ao mesmo tempo que facilitava a vida de entidades cujo objetivo fosse promover a religião monoteísta, liberando-as do rigoroso exame exigido, com bons motivos, das entidades beneficentes laicas. Minha idéia era convencer um integrante da respeitada comunidade hindu britânica a se manifestar e entrar com uma ação civil para pôr à prova essa discriminação esnobe contra o politeísmo.
Notem como Dawkins não avalia a questão por completo e já sai imputando seu julgamento, como sempre preconceituoso. Ele afirma que as religiões politeístas são discriminadas em sua busca por não pagarem impostos, e diz que as religiões monoteístas são liberadas do rigoroso exame exigido também para as entidades beneficentes laicas.
Só que Dawkins ignora que o mesmo exame existe para as entidades religiosas monoteístas.
A diferença é que algumas entidades politeístas e as entidades laicas são mais recentes, portanto passam pelo exame no momento de sua fundação.
A fundação das entidades principais monoteístas normalmente data de muito tempo atrás, e ninguém mais tem dúvidas de que são realmente entidades beneficentes. Tanto que as contas dessas entidades passam pelo crivo fiscal sempre.
O argumento de Dawkins, portanto, falha em não observar o contexto, que mostra que as entidades laicas e politeístas de beneficência são muito mais recentes que as monoteístas.
Vamos à um exemplo: imagine que uma entidade tenha sido fundada em 1920, e ganho isenção fiscal para doações. Obviamente tal entidade só precisa ser acompanhada. Imagine agora alguém que posteriormente resolva criar uma nova entidade, nos dias atuais, e passe por um rigoroso exame, e, por isso, saia gritando:’Por que eu passo pelo exame e aquela entidade antiga não?”. Motivo: “eles já passaram por esse exame antes”.
Só que, para piorar, Dawkins mostra seu VESTED INTEREST abaixo:
Bem melhor, é claro, seria abandonar de vez a promoção da religião como base para o status de entidade beneficente. As vantagens dessa medida para a sociedade seriam enormes, especialmente nos Estados Unidos, onde as somas de dinheiro isento de impostos sugadas por igrejas, e que enchem ainda mais os bolsos dos televangelistas, atingem níveis que poderiam ser descritos sem remorsos como obscenos. Oral Roberts, que tem um nome bem adequado, disse uma vez a sua audiência que Deus o mataria se ele não lhe desse 8 milhões de dólares. É quase inacreditável, mas funcionou. Livres de impostos! Roberts continua com a corda toda, assim como a “Universidade Oral Roberts” de Tulsa, Oklahoma. Suas instalações, estimadas em 250 milhões de dólares, foram encomendadas pelo próprio Deus, com essas palavras: “Mobilize seus alunos para ouvir Minha voz, para ir aonde Minha luz é fraca, aonde Minha voz soa pequena, e Meu poder de cura não é conhecido, até nos limites mais extremos da Terra. O trabalho deles superará o seu, e com isso estarei satisfeito”.
Como é? Dawkins agora se posiciona contra as entidades religiosas como entidades beneficentes? E com que base lógica ele faria isso? Só se ele conseguisse imputar uma lei com algo assim: “toda beneficência só poderá ser aceita, e os benefícios fiscais correlatos, para alguém que não é religioso”. Isso, é claro, não faz o menor sentido, a não ser a eterna birra de Dawkins contra a religião. A justificativa que Dawkins dá para isso cai na falácia da generalização apressada, ao criticar os trabalhos de Oral Roberts.
É óbvio que todos nós condenamos entidades religiosas que buscam enriquecer alguém através do recebimento das doações, mas daí a dizer que essa é a natureza das doações religiosas não passa de um raciocínio falacioso e, pior, nem um pouco amparado por evidências.
Sem argumentos a seu favor, Dawkins tenta de novo apelar:
Pensando bem, meu litigante hindu imaginário provavelmente entraria no jogo do “Se não pode vencê-los, junte-se a eles”. Seu politeísmo não é um politeísmo de verdade, mas um monoteísmo disfarçado. Há apenas um Deus — Brahma, o criador; Vishnu, o preservador; Shíva, o destruidor; as deusas Saraswati, Lakshmi e Parvati (mulheres de Brahma, Vishnu e Shiva); Ga-nesh, o deus-elefante, e as centenas de outros são apenas manifestações diferentes ou encarnações do mesmo Deus.
A ignorância de Dawkins no assunto fica evidente quando ele rotula o hinduísta de um monoteísta disfarçado. Só que ele se esquece de que na verdade o hinduísmo é um sistema diversificado, portanto a rotulação automática que Dawkins tentou simplesmente não funciona.
É simples: se alguém entender que há apenas um Deus, e as outras entidades são apenas suas manifestações, é um monoteísta. Há também dentro do hinduísmo o henoteísmo, que adora um único Deus, mas acredita que existem outros. Existem escolas hinduístas que admitem o monismo, como outras que admitem o panteísmo, assim como existem escolas dualísticas. Dessa forma, não há “politeísmo disfarçado de monoteísmo”, e sim o fato de que dentro da cultura hinduísta existem monoteístas, politeístas, panteístas, henoteístas, etc… Não que eu ache que os neo ateus compreendam tal diversidade, claro.
Dawkins escorrega de novo, a seguir:
A outra coisa que não posso deixar de ressaltar é a confiança pretensiosa com a qual os religiosos atribuem mínimos detalhes àquilo para o que nenhum deles tem nenhuma prova — nem poderia ter. Talvez seja exatamente o fato de que não há provas que sustentem as opiniões teológicas, para qualquer lado, que alimente a hostilidade draconiana característica em relação a quem tem uma opinião ligeiramente diferente, sobretudo, como ocorre, na área específica da Trindade.
Onde que ele está vendo mínimos detalhes? Se ele se refere à religião cristã em geral, não são atribuídos mínimos detalhes a Deus. Simplesmente, Deus é descrito nos pontos aos quais se chega logicamente.
O grande fato é que este parágrafo de Dawkins é o típico exemplo de quem não diz coisa com coisa, pois nem sequer há hostilidade em quem discorda da Trindade. O estado laico, defendido principalmente por religiosos, implica no respeito a quem tem outras religiões, incluindo religiões que não acreditam na Trindade. A alegação de Dawkins, com isso, cai no vazio.
Outro fator ridículo no argumento de Dawkins é que ausência de provas seria o motivador dessa hostilidade, que nem sequer ele comprovou existir. Isso não passa de leitura mental dele, pois não há evidências de que dúvida em relação à certos elementos da crença cristã resultem em hostilidade.
Nota-se que a partir desse momento já citado, Dawkins começa a apelar para o discurso nonsense:
Jefferson lançou o ridículo sobre a doutrina de que, nas palavras dele, “há três Deuses”, em sua crítica ao calvinismo. Mas é principalmente o ramo católico romano da cristandade que empurra seu recorrente flerte com o politeísmo para a inflação descontrolada. A Trindade é (são?) acrescida de Maria, “Rainha do Céu”, que só não é deusa no nome, mas que certamente coloca o próprio Deus em segundo lugar como alvo de preces. O panteão ainda é inchado por um exército de santos, cujo poder de intercessão faz com que eles sejam, se não semideuses, úteis em seus assuntos específicos. [...] O que me impressiona na mitologia católica é em parte seu kitsch de mau gosto, mas principalmente a tranquilidade com que essa gente vai criando os detalhes. É uma invenção descarada.
Primeiramente, o fato de Thomas Jefferson lançar ridículo em cima de uma coisa não prova validade ou invalidade da mesma. Isso seria a falácia do apelo à autoridade.
Em seguida, Dawkins mostra ignorância quanto ao politeísmo, conforme já citado anteriormente, ao confundir um Deus com mais de uma manifestação com vários deuses. Erro infantil, diga-se.
Mais ainda à frente, ele afirma que nesse “politeísmo”, Virgem Maria faria parte de Deus, o que não faz novamente o menor sentido, e não passa de falácia do espantalho em relação à interpretação de que os religiosos possuem da Virgem Maria (não há na religião cristã a idéia de que ela seria uma “deusa”).
Em seguida, Dawkins continua com o surto alucinatório e chama os santos católicos de parte do “panteão”, chamando-os de “semideuses” ou “úteis em seus assuntos específicos”. Mais uma amostra da ignorância dele, principalmente em relação ao conceito de semideuses (ele deveria estudar a história da religião grega para entender o conceito de semideuses). Não há nada disso na religião cristã, e, para piorar a situação de Dawkins, o fato de um santo ser “útil em algum assunto específico”, não implicaria em nenhum atributo de Deus a ele.
Depois de muita choradeira, Dawkins ainda começa a lançar conclusões tiradas puramente de sua vontade como “o que me impressiona… seu kitsch de mau gosto”, que não valem como argumentação. É apenas esperneio. A questão de “é uma invenção descarada” é apenas um protesto, um desabafo, mas também não serve como argumento.
Como se nota, Dawkins foi 100% irracional neste parágrafo. Não vale nem como piada.
Em seguida, mais um erro argumentativo de Dawkins:
Em nome da concisão, vou me referir a todas as divindades, sejam poli ou monoteístas, como apenas “Deus”. Também tenho consciência de que o Deus de Abraão é (para usar termos leves) agressivamente masculino, e esse fato aceitarei como convenção para o uso dos pronomes. Teólogos mais sofisticados declaram que Deus não tem sexo, embora algumas teólogas feministas queiram compensar injustiças históricas designando-a mulher. Mas, afinal de contas, qual é a diferença entre uma mulher inexistente e um homem inexistente?
Toda a questão da sexualidade de Deus é inútil, pois Deus viria antes da criação dos animais, estes sim que podem ser divididos em sexos. O fato é que Deus é um termo masculino, assim como universo o é. E basta conhecer a própria língua para não cometer erros neste sentido.
Quando Dawkins diz “qual é a diferença entre uma mulher inexistente e um homem inexistente”, ele refuta a si próprio, pois futuramente no livro (e isso será refutado aqui também), ele cria uma escala de 1 a 7, para dizer que ele não tem toda a certeza de que Deus não existe. Só que essa frase dele já atribui Deus como “inexistente”, o que, claro, já refuta qualquer desculpa esfarrapada de Dawkins no futuro.
Nada é mais risível, no entanto, do que ele atribuir o rótulo de “inexistente” quando ele está argumentando sobre o Deus dos religiosos, pois qualquer pessoa experiente em argumentação sabe que ele deve considerar o conceito do seu OPONENTE quando ele vai discuti-lo, e não o seu próprio conceito. Esse é o mesmo erro que Dawkins cometeu no trecho citado ao fim do texto anterior deste blog.
Depois de usar estratagemas suspeitos e facilmente refutáveis, Dawkins já fica na defensiva:
Este é um momento tão bom quanto qualquer outro para antecipar uma réplica provável ao livro, que se não aparecesse aqui surgiria, com certeza absoluta, numa resenha: “Eu também não acredito no Deus em que Dawkins não acredita. Não acredito num senhor de compridas barbas brancas que fica no céu”. Aquele senhor é um elemento irrelevante de distração, e suas barbas são tão tediosas quanto compridas. Na verdade, a distração é pior que irrelevante. Sua bobice é calculada para desviar a atenção do fato de que aquilo no que o autor da crítica realmente acredita não é menos bobo. Sei que você não acredita num senhor barbado sentado numa nuvem, então não percamos mais tempo com isso. Não estou atacando nenhuma versão específica de Deus ou deuses. Estou atacando Deus, todos os deuses, toda e qualquer coisa que seja sobrenatural, que já foi e que ainda será inventada.
O mais patético de um argumentador como Dawkins não é apenas ver ele praticar técnicas infantis como a tentativa de leitura mental. O pior é ver ele praticar a leitura mental e ERRAR nesta leitura. Mais um indício de que clarividência não é nada científica.
Ele não antecipou nada, pois mesmo que se diga que não se acredita no Deus de Dawkins (e eu não acredito), não é pelo fato de que eu ache que o Deus de Dawkins é um “Senhor de barbas compridas”. Como se pode ver no texto anterior, o Deus inventando por Dawkins é parte do processo de seleção natural, o que é ridículo.
Nesse caso, a idéia de que um suposto crítico, que não acredite no Deus de Dawkins, acreditaria em algo “que não é menos bobo” é apenas credulidade e fé cega do autor inglês. Pois, como ele pode atribuir “bobice” à definição de Deus que alguém acredita se ele sequer a conhece?
A confissão de Dawkins ao final o compromete, definitivamente, pois ele diz que não quer saber qual é a definição de Deus: ele ataca todas. Um raciocínio nem um pouco científico.
Seria o mesmo que não considerar uma interpretação da Teoria da Evolução, mas atacar todas, ou não considerar uma interpretação de uma tese administrativa, mas atacar todas. Justamente essa falta de especificação é o que ajuda a demolir o castelo de cartas de Dawkins. Quando MENOS ESPECÍFICO, menor é o resultado de uma acusação.
Imaginem só: o que é mais fácil? Acusar um réu, ou acusar todos os réus? Ou mais, aprovar um projeto ou aprovar todos os projetos? É claro que a primeira opção é sempre a mais fácil, e a mais inteligente, pois é focada. Dawkins toma uma opção estrategicamente inviável.
O fato é que esta parte do livro, em que ele fala do politeísmo, é uma das mais nonsense de todo o livro, principalmente por que ele não sabe o que quer dizer, não sabe as diferenças entre politeísmo e monoteísmo, mostra que ele não é específico na definição de Deus que quer atacar, mistura opiniões de expressão da vontade com argumentos, e, do nada, lança conclusões sem sentido.
Em suma, isso aqui praticado por Dawkins é no mínimo dadaísmo.
Não consegue acusar a ninguém, e ao mesmo tempo permite que os seus oponentes lhe vejam como maluco.
Além da auditoria: o self-assessment religioso para debates

Que este blog transcende a perspectiva do mero ceticismo para o âmbito da auditoria e da investigação de fraudes, isso já deve ter ficado notório aos leitores.
Ademais, um dos objetivos aqui é mostrar práticas de auditoria para que os religiosos possam AUDITAR os argumentos apresentados pelos neo-ateus, e então apresentem refutações estruturadas destes.
Mas o foco deste post é outro: é buscar olhar um pouco para nós mesmos.
E mostrar como a aplicação de uma “pré-auditoria” pode ser útil até internamente. Isso significa que o teísta poderá investigar os seus próprios argumentos a serem apresentados, ANTES que os argumentos sejam publicados ou divulgados.
É o princípio do self-assessment, também utilizado (muito) nas organizações.
Nas empresas, o self-assessment se baseia em uma revisão compreensível e sistemática das atividades da organização, e seus resultados, em comparação com um modelo de excelência (para referência). Isso tudo realizado pelos próprios responsáveis pelas atividades, antes que chegue à alçada da auditoria interna ou externa.
Transcendendo isso para o mundo dos debates, é basicamente checar e avaliar os seus próprios argumentos antes de apresentá-los.
O motivo para isso é um só: assim como você pode refutar fácil muito dos argumentos neo-ateus, um neo-ateu (ou até um ateu tradicional) pode refutar os seus argumentos, caso você tenha incluído neles componentes facilmente refutáveis. Esses componentes são erros argumentativos básicos, falácias e estratégias erísticas, além da divulgação de informações fraudulentas.
Notem como eu pego um texto de um neo-ateu (há vários exemplos neste blog). Geralmente o sujeito aparece com o textinho dele e acha que vai passar pela checagem. Quando eu começo a encontrar os erros no argumento, o neo-ateu começa a fraquejar, e logo vai para a lona. A partir daí, torna-se presa fácil.
O mesmo pode ocorrer caso um teísta apresente argumentos com tais tipos de falhas lógicas.
Notem esse exemplo, em que um teísta tentou dizer que a ciência não substitui a religião:
A ciência consegue mudar a vida de uma pessoa pra melhor? Consegue converter o coração de uma pessoa má e torná-la melhor? Consegue dar a paz que as pessoas precisam em um mundo tenebroso como o que enfrentamos hoje? Vocês deviam ler por exemplo as Bem-Aventuranças, que é a maior lição que Jesus deu a todos.
É correto o fato de que a ciência não substitui a religião, mas ele deveria ter feito isso apresentando os OBJETIVOS tanto de ciência como de religião.
Ele optou pelo caminho inverso e recheou o seu discurso de falácias e erros lógicos.
Vamos a eles:
- (1) A ciência consegue mudar a vida de uma pessoa pra melhor?: A pergunta dele perde o efeito, pois a ciência consegue mudar a vida de não só uma pessoa para melhor como também de muitas pessoas. E de forma diferente que a religião, mas consegue. Logo, isso não ajuda em nada o argumento dele.
- (2) Consegue converter o coração de uma pessoa má e torná-la melhor?: A questão do “coração de uma pessoa” é subjetiva, e não poderia ser alegada. Seria melhor considerar governos com ou sem religião, e observar os efeitos em larga escala, até de forma científica. Mas o questionamento à ciência aqui é também inútil, e apela a um objetivo que NÃO é da ciência. Erro grosseiro.
- (3) Consegue dar a paz que as pessoas precisam em um mundo tenebroso como o que enfrentamos hoje?: A questão da “paz” é também subjetiva, portanto não deve ser alegada. Carl Sagan dizia que olhar para as estrelas do universo lhe dava a “paz de coração” que necessitava. Logo, qualquer um pode dizer que retira tal “paz” de onde quiser. Não serve como argumento.
- (4) Vcs deviam ler por exemplo as Bem-Aventuranças, que é a maior lição que Jesus deu a todos.: Eu sou católico, e acho que realmente é a maior lição. Mas nem todos são cristãos, então o argumento dele só seria válido se o outro interlocutor fosse cristão.
Mas o pior de tudo é que o argumentador ainda por cima ASSUMIU que ciência e religião eram opostos, e portanto deveria haver uma ESCOLHA.
Ele caiu na armadilha desejada por qualquer neo-ateu: aquela que diz que há conflito entre ciência e religião.
Obviamente que eu afirmei ao debatedor ANTES que qualquer neo-ateu se expressasse: “você já perdeu esse debate”. E perdeu mesmo. Qualquer um refuta isso fácil, e não demorou meia hora para o refutarem.
E, detalhe, não era preciso que o outro fosse neo-ateu para ter vontade de refutar isso tudo que o teísta escreveu. Até um ateu tradicional iria fazê-lo. EU MESMO já me disponibilizei para refutar.
A lição que fica é: o direito de cometer erros lógicos e ser ignorante em relação aos conceitos básicos do que é ciência e religião, além do que é lógica e argumentação, é democrático: tanto pode acontecer com um religioso ou com um ateu.
E todos se tornam vulneráveis no debate após cometê-los.
Por isso, o conhecimento básico antes de qualquer debate que envolva religião e ciência é:
- (1) Saber o que é religião e teologia
- (2) Saber o que é ciência e epistemologia (mas nada de Carl Sagan, por favor, e sim Popper, Kuhn, Descartes…)
- (3) Saber o básico de lógica e argumentação
- (4) Conhecer o ceticismo e seus limites
- (5) Saber auditar e investigar fraudes de possíveis argumentos oponentes
- (6) Praticar o self-assessment
Até por que, independente do responsável por um argumento ser teísta ou ateísta, meus olhos ou ouvidos não são penico.
Um novo limite para a auto-humilhação neo-ateísta: um presente do pessoal do Que Treta

O quão baixo um neo-ateu pode chegar?
Eu achei que já tivesse visto de tudo desde que iniciei este blog, pois eu tinha a noção exata de que a reação de alguns fanáticos do ateísmo seria realmente irritadiça.
Já vi, por exemplo, um neo-ateu tentar cometer fraude contra este blog, como pode ser visto nesse link aqui.
Este mesmo neo-ateu apareceu junto de uma camarilha de fakes. Todos, claro, atacando este blog.
Em seguida, foi reclamar no Portal Ateu, chegando a ser repreendido por lá. Detalhe: algumas pessoas do Que Treta (blog neo-ateu até a medula) foram lá chorar juntinhos.
Tudo isso em menos de 2 meses de blog.
Sinceramente, eu não esperava um impacto tão grande nas hordas neo-ateístas.
Hm, na verdade, eu esperava sim. Mas não tão cedo.
E em relação a limites de humilhação, será que 2 blogueiros neo-ateus que alegam fazer “divulgação de ciência” se rebaixariam tanto a ponto de publicar um artigo basicamente com desabafos em relação a este blog? Parece impossível?
Pois é o que ocorreu quando Ludwig Krippah publicou este post: “Um Delírio de Refutações”.
O nível de todo o post dele é baixíssimo, e a quantidade de erros absurda. Demonstrarei todos aqui.
Antes de iniciar o esmagamento, não posso deixar de dizer o quanto ri ao ver Ludwig sugerindo que João (Jonas), do blog Crônica da Ciência, tentasse suas investidas:
João… Era também uma boa, inventar uma data de nomes para as técnicas do Luciano.
Eis que João, servil feito um cachorro, se prontificou a tentar salvar Ludwig:
Hee. Havias de ver a trepa que lhe dei ontem. Apliquei os contra-ataques da “tecnica do refutador zarolho”, depois “tecnica da argumentação coxa”, e quando terminei com a defesa da “tecnica da escolha do espantalho”, ja não sobrava nada do homem. Ainda lhe apliquei o golpe de mesericoridia que se chama “onde está o teu Deus agora”. Mas so depois do “não vale apelar prá maezinha”.
Isso aqui é argumento?
Nota-se, então, que eles estão atirando para todo lado.
Não me surpreende, pois notem a previsão que fiz, no post de 8 de setembro (essa era relativa ao Argo, que tentou cometer a fraude):
Para finalizar, uma mensagem especial à esse neo-ateu: se você se irritou até agora com as postagens em meu blog, você ainda não viu nada. Em duas semanas publicarei aqui um GUIA DE REFUTAÇÃO às técnicas neo-ateístas, de forma que a partir disso todos os religiosos que acessarem aqui possam refutar os neo-ateus da mesma forma que faço. Se os posts até agora te deixaram irritado, esse artigo irá te fazer entrar em colapso!
Obviamente, eu já sabia que quando começasse a mapear as técnicas dos neo-ateus, eles REAGIRIAM. Esse “Guia de Refutação” na verdade é a seção “Conhecendo o Inimigo”.
Motivo para essa previsão: através da extensa experiência adquirida em auditoria corporativa (com base em ceticismo absolutamente científico), adquire-se uma experiência em investigação e mapeamento de FRAUDES cometidas por pessoas de má fé. Uma das formas de atuação é MAPEAR os comportamentos similares de pessoas que COMETEM fraudes. E então consolidar as técnicas (e os antídodos) em uma base de conhecimento. A tendência dos adeptos de FRAUDE é naturalmente atacar, através de engenharia social, os mecanismos de controle, implementados justamente em cima das técnicas de fraude já mapeadas.
Ludwig e João apenas seguiram um padrão previsto.
Detalhe: o mesmo ceticismo que aplico na investigação dos neo-ateus é o MESMO que o ateu James Randi usava para investigar as fraudes dos médiuns.
Claro que além disso adiciono ao ceticismo científico o modelo de investigação de fraudes adquirido com as práticas de Auditoria e Perícia Forense. Mas isso só torna a análise de fraudes mais COMPLETA ainda.
Se fossem realmente adeptos da “ciência” (conforme alegam) eles deviam apoiar a aplicação de ceticismo contra fraudes, e não sair com choradeiras.
Mas não demorou para que um sujeito da patota de Ludwig viesse tentar “cantar vitória” após o post de Ludwig.
Em resposta, afirmei-lhe que existiam no mínimo 10 erros no post de Ludwig.
Eis que João desafiou:
Venham lá esses “10 erros naquele texto curtinho”, se os identificaste com facilidade, com a mesma facilidade os partilhas aqui. Refutação que é bom, nada. Logo o que dizes até apresentares argumentos vale menos que ZERO.
Aha, um desafio!
Aqui a coisa começou a ficar divertida. Será que não adivinharam que um Auditor ADORA receber um desafio da parte responsável por fraudes? Mas… a escolha foi deles. Livre arbítrio.
Pois eis que segue a análise dos erros de Ludwig, sendo que cada erro encontrado será marcado entre colchetes.
Vamos começar…
Mas o Luciano tem uma forma intrigante de demolir o ateísmo [1]. Como «fã da aplicação do método científico para resolução de problemas corporativos» e auto-proclamado «especialista em ceticismo empresarial», de um fardo de palha inventa um conjunto de técnicas que diz refutar facilmente [2].
1 – Eu não tenho forma intrigante de demolir o ateísmo. Não tenho nada contra o ateísmo. Aqui neste blog o que é demolido é o NEO-ateísmo.
2 – Este erro deriva da identificação vaga de uma falácia (fardo de palha é uma menção à falácia do espantalho). Todos os diálogos das técnicas são baseadas em textos extraídos DIRETAMENTE dos livros dos autores neo-ateus, e de diálogos vistos na comunidade “Contradições do Ateísmo”, em que neo-ateus exibem tais diálogos. Já citei-os várias vezes. Logo, o erro de Ludwig é a FALSA identificação de falácia.
E as refutações do Luciano são tão boas que se refutam a elas próprias [3]… Segundo o Luciano, a «Leitura Mental consiste em agir tomando como premissa de que se tem o poder de telepatia de forma a conseguir ler o pensamento de outra pessoa». À letra, a definição aplicar-se-ia apenas a quem se dissesse telepata, o que é pouco útil [4]. Mas o uso que o Luciano lhe dá sugere que se refere a quem quer que forme uma opinião acerca daquilo que o interlocutor pensa. Precisamente o que o Luciano faz, se bem que diga ser sem querer: «Como não quero “ler a mente” dos neo-ateus, afirmarei várias possibilidades para o uso da Leitura Mental, podendo ser desonestidade intelectual, fanatismo, raciocínio de auto-ajuda, credulidade pura e/ou então ingenuidade argumentativa.» [5]
3 -Uma refutação só refutaria a si própria se existisse algo como, por exemplo, uma contradição dentro dela. O que não ocorre com nenhuma das refutações para as técnicas, pois estas refutações são baseadas simplesmente na correção dos erros lógicos e fraudes cometidos diretamente por um neo-ateu em seu discurso.
4 – Aqui Ludwig afirma que telepatia não é o caso. Mas ele está errado, pois a definição de telepatia é “Transferência de pensamentos e emoções de pessoa para pessoa, sem o emprego dos sentidos conhecidos”. Oras, se na refutação a pessoa está questionando se o neo-ateu possui ou não PROVAS de que o pensamento dele (ou dos teístas em geral) é aquele mesmo, é evidente que os pensamentos e emoções não foram transmitidos através dos sentidos, seja por carta, declaração, piscadela, etc. Ludwig ainda tenta se safar dizendo que uma possibilidade alternativa à telepatia seria que o neo-ateu “forme uma opinião acerca daquilo que o interlocutor pensa”. Mas ainda assim segue sendo uma evidência anedota, pois o neo-ateu continuaria sendo refutado no exemplo apresentado, pois seria apenas uma adivinhação (ao invés de telepatia), igualmente pseudo-científica. Portanto, a refutação apresentada por mim segue incólume.
5 – Em relação à essa alegação do Ludwig, mais um erro dele, pois não pratiquei leitura mental. Já que o “e/ou” abre um “range” grande de possibilidades. Bastaria que eu acertasse uma delas, que o argumento meu seria válido. Ora, se um sujeito inventa que uma pessoa teve um pensamento, o neo-ateu pode levar à frente a afirmação mas nem ele acreditar o que o outro pensa. Aí seria desonestidade intelectual. Mas se ele acreditasse, a qualificação de desonestidade intelectual não seria aplicada, e sim a da credulidade pura. Sendo essas duas opções englobadas, minha refutação segue sólida. Mas, ainda assim as outras 3 possibilidades podem ser afirmadas, caso pertinentes, pela análise direta do discurso. Só seria uma leitura mental se eu escrevesse algo nesse estilo: “O neo-ateu cometeu tal estratagema, pois ele está motivado pela leitura de Michael Onfray, e tomou essa decisão por ansiedade e angústia”. Como se nota, a leitura mental é bem diferente da observação de características vistas diretamente no discurso.
Outra técnica que o Luciano diz refutar é a da «Seleção do Adversário», que «funciona basicamente da seguinte maneira: por medo de falar sobre interpretações corretas de ciência e religião, eles afirmam que ciência e religião estão em luta, e então colocam um componente da entidade que dizem defender (ciência) em duelo com um componente falso (ou mal associado) do adversário (religião)». À parte de se esquecer de não ler a mente do adversário [-], descaindo-se ao dizer que é por medo, o Luciano esquece-se também que, nas religiões, o que uns crentes dizem falso outros dizem verdadeiro [6].
[-] – Incrível! O Ludwig pode soltar os rojões, se quiser, pois isso não é um erro. É uma crítica razoável e que portanto irá gerar uma atualização do “verbete” Leitura Mental, pois, como toda base de conhecimento, ela é passível de atualização. O problema é que isso não INVALIDA a refutação feita por mim.
6 – Já aqui ele afirma que eu me “esqueço” (leitura mental feita por ele, de novo) de que na religião alguns religiosos dizem falso o que outros dizem ser verdadeiro. O problema é que isso seria um conjunto de contestações DENTRO da religião, portanto nada a ver em relação a conflitos entre ciência X religião. No máximo seria um conflito religião x religião (assim como a disputa entre duas teorias científicas seria teoria científica x teoria científica). Aqui, portanto, Ludwig errou o alvo retumbantemente.
E, ao contrário da ciência, as religiões não têm maneira de saber quem tem razão [7]. Cada um diz que o seu deus é que é infalível, que o seu livro é que é perfeito e que a sua fé é que é fonte de sabedoria. Ninguém se entende [8]. Além disso, nesta “refutação” o Luciano faz precisamente o que refuta: «Muitos neo-ateus NÃO SÃO CIENTISTAS (raros deles são) e fingem serem “representantes da ciência” [9]. Eles costumam ficar irritados quando se descobre que eles não são o que afirmam ser.» Ou seja, coloca um componente da entidade que diz defender em duelo com um componente falso (ou mal associado) do adversário. Conheço muito mais ateus cientistas que ateus que se digam “representantes da ciência” [10] ou que, não sendo cientistas, fiquem irritados quando se descobre que não são [11].
7 – Esse argumento dele é completamente falso, pois na religião há formas de se definir quem está com a razão, e é justamente pela… razão. Justamente por isso citei a teologia. Naturalmente existem religiões diferentes, o que, de forma alguma, comprova que todas as religiões estariam erradas ou “sem razão”. Até por que as religiões podem ser interpretadas em um contexto maior, onde todas as principais religiões (judaísmo, cristianismo, islamismo) não são inválidas, apenas abordam aspectos diferentes das revelações divinas.
8 – Esse erro chega a ser infantil, pois as principais religiões do mundo não afirmam algo como “meu Deus é o correto, e os outros deuses são errados”, pois simplesmente as religiões vigentes (que substituíram o politeísmo) afirmam que há um único Deus. Logo, seria ilógico ter que dizer que “seu Deus é melhor que o outro”.
9 – Nessa refutação eu não faço “precisamente o que me refuta”, pois simplesmente afirmei que muitos (não citei todos) neo-ateus NÃO SÃO cientistas e portanto “fingem” serem representantes da ciência. Conforme mostrei aqui, até a NAS já discordou da panfletagem neo-ateísta. Nem os quatro principais cavaleiros dos ateísmo são “representantes” da ciência. E, curiosamente, Ludwig não é um representante da ciência, e muito menos o João e o Pedro Amaral (as duas outras figuras do “time” do Ludwig). Nenhum dos 3 em questão é cientista. Como se vê, foi uma avaliação minha, feita em cima da amostragem COMPORTAMENTAL, e que se comprovou posteriormente como correta.
10 – Ele afirma que o seguinte: “Conheço muito mais ateus cientistas que ateus que se digam “representantes da ciência”. O que é uma falácia da evidência anedotal.
11 – A irritação quando são desmascarados como “pessoas que não representam a ciência” tem sido vista nesta blog, mas apenas por análise do comportamento. E já citei o exemplo do Argo, e até os posts do João, Ludwig e Pedro Amaral, portanto, este é o décimo primeiro erro do Ludwig.
Estas restrições podem parecer estranhas. No fundo, o Luciano condena que se escolha as teses contra as quais se argumenta ou que se tente perceber o que o outro está a pensar. Quando saber com quem estamos a dialogar e perceber o que o nosso interlocutor pensa são peças fundamentais de qualquer diálogo produtivo [12]. Mas há que considerar o contexto das refutações do Luciano. Imaginem. Sábado de manhã. Toca a campainha. Duas pessoas bem vestidas à porta, de livrinho debaixo do braço. Uma pergunta uma banalidade qualquer, começando por “Jovem…”. Independentemente da resposta que dermos, olha para longe e começa a recitar uma lengalenga acerca de Jesus, da salvação, da fé, da Palavra e assim por diante. E evita qualquer destas grandes falhas de considerar a quem se dirige, o que o interlocutor possa pensar daquilo ou sequer de pôr o cérebro a trabalhar (afinal, ao Sábado não se pode trabalhar). [13]
12 – Não existe absolutamente nada, no argumento de Ludwig, que dê sustentação à conclusão de que “saber com quem estamos a dialogar e perceber o que o nosso interlocutor pensa são peças fundamentais de qualquer diálogo produtivo”, e além disso saber com quem se está a dialogar é independente de saber as MOTIVAÇÕES SUBJETIVAS do interlocutor. Portanto, é possível saber com quem se está dialogando, SEM precisar adivinhar ou descobrir as motivações subjetivas desta pessoa, sem qualquer prejuízo ao debate. Toda a justificativa do Ludwig, nesse caso, carece de uma base argumentativa que a solidifique.
13 – O exemplo de Ludwig é absurdo e não possui absolutamente nada a ver com quaisquer refutações minhas. Quando uma Testemunha de Jeová bate à porta dele e afirma o que PENSA, não existe a aplicação da Leitura Mental, pois a informação foi passada através de um dos SENTIDOS (ou seja,a fala).
Outra pérola, e um monumento à ironia, é a técnica da «Defesa associada à fragilidade». O Luciano explica que os ateus acusam os crentes de só tentarem atacar os argumentos dos ateus por não terem fundamento para as suas crenças [14]. Como fazem os criacionistas, que tentam baralhar a teoria da evolução como se isso provasse que Jesus fez cada animal e planta [15].
14 – Eu não digo “que os ateus acusam os crentes de só tentarem atacar os argumentos dos ateus por não terem fundamento para as suas crenças”. Note que eu escrevo no primeiro parágrafo da técnica comentada: “em especial quando estes querem simular um falso conflito entre ciência e religião.”. Ou seja, eu não faço acusação quanto aos ateus. E sim cito apenas os NEO-ateus QUANDO querem simular um falso conflito entre ciência e religião. Se por acaso um neo-ateu NÃO quiser simular o conflito entre ciência em religião, ele não está portanto referenciado na técnica. Esse erro do Ludwig é falha de interpretação de texto pura.
15 – Essa é a falácia tu quoque, e ainda por cima aplicada com um misto de falácia do espantalho. Eu não sou criacionista, aliás. Se um criacionista cometer tal erro, basta que o Ludwig refute-o. O fato é que a refutação de técnica feita por mim permanece incólume caso o criacionista cometa o erro alegado por Ludwig ou não.
Conclusão
Para refutar Ludwig, não é preciso nem um auditoria mais formal. Basta uma simples “análise preliminar”. E, novamente reitero, novas técnicas serão apresentadas, mapeando todas as possíveis tentativas de fraudes intelectuais neo-ateístas. Se Ludwig tinha esperanças de refutar quaisquer das técnicas apresentadas aqui, ele fracassou. Para piorar, o texto de Ludwig não passa de uma coleção de falácias, com mistura de estratégias erísticas (principalmente a manipulação semântica), além de uma demonstração de ausência completa de lógica. Não é preciso muito esforço para, usando de ceticismo com uma visão básica de investigação para encontrar fraudes, descobrir a verdade: Ludwig é uma FRAUDE!
Tim Keller e a mensagem do novo ateísmo
Neste vídeo, Tim Keller, pastor presbiteriano e autor de vários livros, fala sobre o novo ateísmo.
Aqui ele mostra uma análise inteligente sobre o movimento da patota de Dawkins.
E sugere que a abordagem a ser usada seja uma só: escrever, de volta, livros que mostrem que esses argumentos neo-ateus são na verdade ruins demais. E são mesmo. Claro que escrever artigos em blog atende ao mesmo princípio.
Ele ainda lança um alerta: o de que não se reaja na mesma moeda, ou seja, ofendendo como eles fazem.
Concordo com Keller, pois o ideal é partir para a REFUTAÇÃO direta, utilizando-se de ceticismo e questionamento de auditor, além de investigação no modelo de perícia forense, em TODOS os argumentos anti-religiosos usados por essa turma.
De outro lado, a ofensa seria um erro, pois é cair no mesmo nível, e seria uma vitória deles.
Já que a turminha neo-ateísta tem um padrão: não possuem moral alguma, e nem sequer um padrão ético.
Como eles já não possuem imagem nenhuma a zelar, em uma troca de ofensas com eles, só o teísta vai se dar mal, pois este tem algo a perder (a moral). Já o neo-ateísta? Este não possui uma moral, portanto não irá perdê-la.
É quase como discutir com prostituta de rua. Sempre é mal negócio.
Mas notem bem: evitar o bate-boca não é o mesmo que evitar a ARGUMENTAÇÃO.
Esta sim deverá ser feita energicamente, de forma racional e com extremo ceticismo.
E, ao menos por experiência pessoal, posso garantir que o teísta só tem a ganhar com isso.
Técnica: Inversão de Planos

Última atualização: 18 de setembro de 2009 – [Índice de Técnicas] – [Página Principal]
Essa técnica se baseia em algo que pode ser definido também como “Simulação do Falso Entendimento”, o que é uma variação mais elegante da famosa falácia do espantalho.
Importante ressaltar que quando se diz “simulação”, pode ser que isso não se aplique em todos os casos, já que é possível que existam situações em que o neo-ateu seja apenas um ignorante a respeito de filosofia. Neste caso não dá para dizer que o erro do neo-ateu é feito de forma dissimulada.
O que importa, no entanto, é que tal técnica ocorre com alta frequência.
Para entender o que é a inversão de “planos”, basta entender que existem vários planos de discussão, ou domínios de discussão.
Exemplos:
- ciência – evidências físicas, objetivas
- amor – evidências subjetivas, dependentes da impressão pessoal
- negócios – evidências diretas, mas advindas do mercado (e não peer review)
- matemática – provas
- lógica – evidências lógicas
- teologia – evidências lógicas, sob discussão utilizando-se de filosofia (é aqui que a questão Deus é discutida)
A tática de inverter os planos significa tentar jogar algo que está sendo discutido em um plano e lançá-lo a outro, no qual a refutação será feita fora do domínio em que a discussão deveria ocorrer.
Basta dizer que se o debatedor teísta permitir que um oponente desonesto intelectualmente execute tal técnica, e este não for advertido, o debate está perdido.
Para evitar que esse logro se mantenha, basta apenas intervir e informar ao oponente que ele está fugindo do plano de discussão.
Por exemplo, a questão Deus não pode ser discutida da mesma forma que o Bule de Chá proposto por Russell. Pois o bule é físico, portanto deverá ser estudado pela ciência tradicional. Deus não é afirmado como físico, e a discussão sobre ele é lógica (isso que nem estou aqui afirmando sobre sua existência ou não, apenas sobre o tom de discussão). Quando Bertrand Russel tentou aplicar a técnica “Bule de Russell” dentro de seu argumento, ele estava praticando a técnica da “Inversão de Planos”. E é justamente com essa técnica que ele inicia o seu argumento.
Refutação:
A refutação se baseia simplesmente em explicar ao oponente que ele está saindo do plano de discussão.
(1) O exemplo abaixo mostrará a tentativa de sair do domínio da teologia e pular para o domínio das artes:
- NEO-ATEU: Deus é igual um boneco.
- REFUTADOR: Me explique isso melhor…
- NEO-ATEU: Certo dia Mickey e Minnie foram inventados, por alguém dos estúdios Disney. Se Deus foi inventado, então é igual o Mickey e Minnie.
- REFUTADOR: Mas Mickey e Minnie são personagens, e não foram assumidos como tendo existência real. E nem se sabe se Deus foi inventado.
- NEO-ATEU: Mas se foram inventados, são iguais, e você tem que assumir que Deus é igual Mickey e Minnie.
- REFUTADOR: De jeito algum.
- NEO-ATEU: Como não?
- REFUTADOR: A discussão sobre existência de Deus é lógica. Não está no âmbito artístico, onde tudo se assume a priori que é fictício e não são feitas argumentações lógicas para estudar sua existência ou não.
(2) Outro exemplo de refutação, agora mostrando um debatedor neo-ateu tentando fingir que a questão Deus é científica, ou seja, saindo do domínio da religião (teologia) e indo para o domínio da ciência.
- NEO-ATEU: Ok. Se Deus não é um boneco, então temos que prová-lo.
- REFUTADOR: De que forma você quer provar?
- NEO-ATEU: Com um teste científico.
- REFUTADOR: Mas quem disse que a questão Deus é uma questão científica?
- NEO-ATEU: Senão é questão científica, então não existe.
- REFUTADOR: Nada mais falso. Algo pode ser definido logicamente, ou baseado em experiência pessoal (como o amor), ou até como princípio que dê sustentação à ciência, e não ser necessariamente inexistente.
- NEO-ATEU: Não, pois a ciência cuida da realidade.
- REFUTADOR: Não, a ciência trata de pequenos recortes da realidade. Somente aqueles acessíveis pelo método científico.
- NEO-ATEU: Mas se Deus não está nisso, então não existe.
- REFUTADOR: Nonsense! Várias coisas não são testáveis pelo método científico, e não necessariamente não existem. Nem a ciência existiria sem alguns fundamentos, não testáveis pelo método científico.
[aqui foi mostrado ao neo-ateu que ele estava tentando "inverter os planos" e levar a discussão sobre Deus para o domínio do método científico, e ao mesmo tempo ele queria dizer que tudo que não está no domínio do método científico é falso]
Conclusão:
É uma das mais hábeis técnicas de enganação, pois não são muitos que se interessam em estudar filosofia, área que explica exatamente como inversão de planos é um erro lógico grosseiro. Sem esse conhecimento, muitos teístas são enganados quando um neo-ateu aplica essa técnica. A única forma de se precaver contra isso é realmente estudar filosofia ou pelo menos a estrutura básica de uma argumentação, pois sem isso dificilmente o debatedor irá perceber com facilidade a tentativa da inversão de planos.
