Neo-Ateísmo, Um Delírio

Ceticismo e racionalidade na demolição da ilusão neo-ateísta

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Técnica: Jogando na conta da ciência

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Última atualização: 12 de fevereiro de 2010 – [Índice de Técnicas]- [Página Principal]

Se o Capitão Nascimento mandou botar na conta do papa, com esta técnica os neo ateus mandam botar na conta da ciência.

Essa técnica é usada principalmente quando neo ateus usam o disfarce de “divulgador da ciência”. Por tabela, muitos dos leitores desses autores acabam seguindo pelo mesmo caminho.

A técnica envolve transferir para a ciência todas as responsabilidades que estariam sobre si próprio.

O neo ateu pode tentar isso quando estiver, por exemplo, defendendo qualquer tipo de alegação contra a religião. Geralmente essa alegação pertence à ele, em termos filosóficos. Em outros casos, a alegação pode ser também oriunda de um filósofo, que o inspirou. De qualquer forma, como a alegação é endossada pelo neo ateu, devemos entendê-lo como um das partes na discussão (sendo a outra parte o religioso).

A técnica envolve em, como se fosse um truque de mágica, substituir a si próprio pela ciência, fazendo com que sua declaração aparentemente se torne uma declaração da ciência (e não dele).

Exemplos incluem:

  • Transformar a alegação “Digo que Deus não existe” por “A ciência diz que Deus não existe”
  • Transformar a alegação “Eu digo que acredito só em evidências” por “A ciência só aceita evidências”

E daí por diante.

Naturalmente, é uma técnica covarde, em que o neo ateu foge da responsabilidade pelos seus argumentos e suas alegações, e tenta transferi-las todas para a “ciência”. E, como não seria inteligente questionar “a ciência”, o neo ateu aparentemente espera que com esse estratagema ele e sua alegação fiquem livres do julgamento e da avaliação pela outra parte.

Obviamente eu concordo (e creio que quase todos aqui fariam o mesmo) que a ciência (assim como a auditoria, a perícia, o sistema judiciário, etc.) foca em evidências. Em relação a alegação de existência ou nao de Deus, a ciência não traz esse tipo de juízo.

De qualquer forma, o fato de que a ciência é baseada em evidências, não implica que um cientista, ou um cientista wannabe, ou um leitor de divulgador de ciência, sejam focados em evidências.

Uma coisa, naturalmente, é a entidade a que se dá o nome de ciência. Outra coisa é um sujeito, falível, que se diz cientista ou “adepto de ciência” (seja lá que diabos ele queira dizer com isso).

Mesmo que a pessoa seja um cientista (e na maioria dos casos não é), os atos de qualquer ser humano, incluindo suas alegações, não podem ser julgados pelos mesmos filtros que se julga a ciência. O motivo é evidente: a ciência, como um todo, é um grande processo, que transcende a subjetividade de seus participantes. O cientista, quando avaliado no todo de suas decisões, é completamente passível de possuir falhas de julgamento e vícios, como qualquer ser humano em qualquer profissão.

Como é um estratagema basicamente de confusão, é importante prestar muita atenção no momento em que o neo ateu pratica a “mudança” de personagem (substituindo ele pela ciência). Não raro isso ocorre, durante um debate em que o neo ateu tenta provar seu ponto, e passa a dizer coisas como “a ciência diz” ou “a ciência faz”, normalmente sem muita relação direta com o argumento que ele originalmente defendia. Mesmo que não exista tal relação direta, o neo ateu poderá fingir que há.

Refutação

A refutação é extremamente simples e se baseia em interromper o oponente, mostrando que ele está tentando enrolar a platéia quando ele tenta fingir que ele seria “a ciência” ou então um representante dela.

Segue o exemplo abaixo:

  • NEO-ATEU: Eu não acredito que Deus existe, pois não há provas científicas da existência de Deus, e assim a ciência não afirma que Deus existe. Logo, ela não acredita que Deus exista.
  • REFUTADOR: Sim, eu sei, mas você não é a ciência. [N.E. - Aliás, nem é da alçada da ciência dizer se Deus existe ou não]
  • NEO-ATEU: Eu não sou a ciência, você está correto. Mas o que a ciência nos diz…
  • REFUTADOR: O que a “ciência nos diz” eu já sei, e não tem nada a ver com o que você disse. Agora, diga o seu argumento. Os argumentos em relação ao que a “ciência diz” eu posso procurar em livros de Karl Popper, Thomas Kuhn, etc.

Durante a refutação, outro ponto curioso é que não raro você conseguirá notar que aquilo que o neo ateu diz ser uma “alegação da ciência” muitas vezes nem sequer é suportada pela ciência em si. Isso ocorre muitas vezes em argumentos de Carl Sagan e Richard Dawkins, que são baseados no cientismo, que nada tem de científico na realidade.

Conclusão

Como é uma técnica de fuga da responsabilidade (o neo ateu tenta erradamente jogar nas costas da ciência uma alegação que é exclusivamente dele), é importante sempre impedi-lo de fugir desta responsabilidade que lhe é inerente. Um argumento de militância ateísta feito por um neo ateu, mesmo que ele alegue ser cientista, divulgador de ciência ou leitor de divulgação da ciência, não implica em uma posição da ciência, salvo ele prove com argumentos que é (raramente é). Em alguns casos, para refutar com maior propriedade todas as tentativas, é recomendável um bom estudo sobre filosofia da ciência.

Escrito por lucianohenrique

fevereiro 12, 2010 em 12:01 am

Como se responde a um neo ateu

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Isso aqui tem 10 anos já, e vem do site Montfort.

Orlando Fedeli ali mostrou como se trata um neo ateu (embora ele tenha chamado-o de ateu, nota-se que o discurso é praticamente aquilo que hoje identificamos como neo ateísmo.

Primeiramente, a mensagem do neo ateu, Luiz Fernando Fabris:

Prezados Senhores,

Li “ad nauseam” a maioria do conteúdo de vosso site.

Ao fazê-lo, constatei como o gênero humano pouco evoluiu filosoficamente, em milênios de existência.

Não creio que este seja o forum adequado para discussão de temas polêmicos, tais como a existência da divindade, coisa em que eu, pessoalmente, não acredito

Por outro lado, o site contém uma interessante resenha de tópicos que, por séculos, são a causa da intolerância do homem para com seu semelhante.

Como pode um site dito religioso fazer apologia da pena de morte, da inquisição, da inferioridade das mulheres, da infalibilidade papal (como se Galileu não houvesse existido) e outros temas de igual jaez, que já deveriam ter sido banidos ou superados em uma sociedade sadia e evoluída.

Causa-me espanto, também, que um professor de história “esqueça-se” de mencionar os milhões de mortos das cruzadas e da inquisição.

A igreja católica, mais do que outras instituições, tem as mãos profundamente manchadas com o sangue de inocentes, cujo único crime foi discordar da posição oficial.

A igreja católica adora mencionar seus mártires, mas, propositalmente, esquece-se de mencionar suas vítimas.

Luiz Fernando Fabris

PS.: Não acredito que vocês tenham coragem de publicar este mail. A covardia moral sempre foi uma característica da igreja.

Eis, então, a resposta de Fedeli: 

“Ilustre”, intolerante e contraditório ateu, sr. Luis Fernando Fabris.
Salve Maria, a mulher que é a maior glória da humanidade.

Apressei-me em lhe responder, passando sua carta adiante de outras. Fiz isso porque sua carta é … “saborosa”…

O senhor me desafia a publicar sua missiva, dizendo-me:
“Não acredito que vocês tenham coragem de publicar este mail. A covardia moral sempre foi uma característica da igreja.”

Pois faço questão de publicar o que o senhor nos escreve. E, publicando sua missiva, esse seu último desafio já cai no ridículo.
Quem é que o senhor pensava ser covarde, seu Fabris?

Agora, passemos a analisar suas acusações.

O senhor me assegura que leu a maioria dos textos de nosso site “ad nauseam”.
Fico contente por ter-lhe causado náuseas. Preocupar-me-ia se eles tivessem agradado uma pessoa atéia e tão tolerante quanto o senhor se revela. Pois fique sabendo que escrevo para agradar a Deus e causar ódio em seus inimigos.
Causar-lhes raiva e náusea.
Sua queixa me demonstra que atingi meu objetivo.

O senhor se espanta que haja pessoas católicas como meus amigos da Montfort e eu mesmo.
Pois saiba que pessoas católicas assim, sempre existirão, porque a Igreja Católica é indestrutível, e ela sempre gera novos filhos.
Como, aliás, sempre existirão pessoas atéias como o senhor que, em nome da tolerância, são extremamente intolerantes contra o verdadeiro catolicismo. Em nome da tolerância, o senhor, se pudesse, nos faria ir para a arena, para a guilhotina, ou, mais modernamente, para o “paredón” cubano…

A intolerância é uma característica essencial de todos os tolerantes.
E essa é uma primeira contradição sua.
Chamei-o de contraditório, sim. E é facil de dar-lhe novas provas disso.

Todo ateu é contraditóorio. Mas, um ateu furioso cai ainda mais facilmente em contradição.
Quer que lhe prove?
Pois vá lá.

O senhor começa sua “tolerante” missiva, dizendo que: “… constatei como o gênero humano pouco evoluiu filosoficamente, em milênios de existência.”

E com isso me lança, com todo o gênero humano, filosoficamente pelo menos, ao tempo dos trogloditas.

Mas, poucas linhas depois, o senhor contraditoriamente se espanta de que temas como os que defendo sejam publicados, pois que eles “já deveriam ter sido banidos ou superados em uma sociedade sadia e evoluída.”

Portanto, o senhor supõe que nossa sociedade seja “sadia e evoluída”. Como então afirmou que o gênero humano pouco evoluiu filosoficamente?
E esta é sua segunda contradição.

Para o senhor, uma sociedade “sadia e evcoluída”, não deveria tolerar, mas deveria banir “os temas” que defendo.

Confesse, ó atualizado Robespierre: não são os temas que o senhor quer banir. O senhor quer é banir quem, nesses temas, defenda a Igreja Católica.

E onde ficou a tolerância em sua sociedade sadia e evoluída, ó candidato a tirano?

O senhor, se pudesse, instalaria uma Inquisição — no estilo em que o senhor pensa que a Inquisição teve, e não como ela realmente foi — para impor o ateísmo.

E o senhor me dá a lista dos temas que desejaria banir:

“Como pode um site dito religioso fazer apologia da pena de morte, inquisição, da inferioridade das mulheres, da infalibilidade papal (como se Galileu não houvesse existido) e outros temas de igual jaez, que já deveriam ter sido banidos ou superados em uma sociedade sadia e evoluída.”

Pois um site que expõe o que pensa de modo católico tem que defender a pena de morte que foi defendida pelos santos, pela filosofia tomista, e pelo próprio Cristo. O senhor deve ter lido as citações comprovantes do que afirmo, pois eu as escrevi ad nauseam.

E a Inquisição só é atacada de modo tão grosseiro por pessoas que, como o senhor, desconhecem a sua história, pois o senhor chega ao absurdo de dizer que foram milhões os mortos pela Inquisição e pelas Cruzadas.

E se atreve a dizer:
“Causa-me espanto, também, que um professor de história “esqueça-se” de mencionar os milhões de mortos das cruzadas e da inquisição.”

Quem lhe forneceu essa estatística, ó preclaro historiador?
De onde o senhor tirou esses milhões de mortos?
O senhor os tirou de sua imaginação e de seu ódio.

E quem disse que a mulher é inferior ao homem? Onde o senhor leu isso em nosos site?
O que dissemos é que a mulher é essencialmente igual ao homem, e que tem os mesmo direitos essenciais e naturais que o homem.
O que não significa defender o feminismo que propugna uma igualdade acidental do homem e da mulher, que vai contra a evidência.

Finalmente, o senhor vem carregando o “espantalho” Galileu, pensando me assustar com ele.
Pois não me assusto nem um pouco.
Pelo visto o senhor deve estar saturado dos slogans que a mídia repete — ad nauseam — sobre o caso Galileu. Vai ver que pensas que Galileu foi queimado vivo pela Inquisição, como muitos ignorantes acreditam.
Pois saiba que ele morreu na cama.

Recomendo-lhe que leia o livro “Galileu Herético”, de Pietro Redondi, sobre o caso Galileu, cujo nó central foi uma questão metafísica e não astronômica.

E que tem a ver o caso Galileu com a Infalibilidade Papal?
O Papa é infalível sim, quando fala “ex cathedra” — já expliquei o que é ex cahedra no site, se o senhor ainda não aprendeu, explico-lhe de novo — e, no caso Galileu, nunca houve um pronunciamento papal “ex cathedra”.

Pois está aí, ó valente e destemido ateu, sau carta publicada e refutada. É uma primeira lição. Se quiser mais, escreva-me, ó valente Fabris, que o ajudarei na medida de minhas forças.

In Corde Jesu, semper,

Orlando Fedeli.

Em suma, sem meias palavras e sem aquele comportamento manso que alguns religiosos (por sorte, não todos) acabam mostrando em duelos contra neo ateus na web.

O mesmo respeito que o neo ateu fornece aos religiosos é o que deve ser fornecido a eles. Questão de justiça.

Quanto mais os religiosos responderem dessa forma, sem baixar a cabeça para crianças mimadas que fingem arrogância (mas não têm cacife suficiente para mantê-la quando são retrucados), mais respeito se estará obtendo.

A questão é simples: não devemos pedir que os outros nos respeitem. E sim EXIGIR.

E a melhor forma é o revide à altura.

Escrito por lucianohenrique

fevereiro 3, 2010 em 1:28 pm

Deus, Um Delírio – Capítulo 4 – Pt. 6 – Derrubando o Boeing 747

com 112 comentários

Um de meus filmes preferidos é “Meu Ódio Será Tua Herança”, dirigido por Sam Peckinpah em 1969 (título original: The Wild Bunch). No filme, uma quadrilha de assaltantes, após um roubo a banco, vai ao México e resolve fazer um trabalhinho adicional ao General Mapache (interpretado por Emilio Fernandez), que comanda uma revolução. Mapache é temido pelos seus subalternos.

Em uma das cenas, durante um jantar, os bandidos estão à mesa, enquanto chega o general, caindo bêbado pelas tabelas. Um dos bandidos diz o seguinte: “É esse aí o tal?”.

Essa foi exatamente a minha sensação que tive ao ver esse argumento de Dawkins. É esse aí o tal líder dos neo ateus? Aquele que teria trazido um argumento “demolidor” que, segundo ele, aniquilaria definitivamente a crença em Deus? A primeira impressão ao ver o argumento foi a de espanto, tamanho a ponto de me deixar atônito. A segunda impressão foi a seguinte: ou eu perdi o juízo, ou foi Dawkins quem perdeu. Na leitura seguinte, entretanto, a impressão foi a que ficou definitivamente: Dawkins se iludiu tanto, mas tanto, com sua auto-suficiência, que perdeu o senso crítico de si próprio, e, como os Napoleões de sanatório, acham que estão abafando quando na verdade qualquer pessoa lúcida sabe que está diante de alguém que não fala coisa com coisa.

Eis, então que está, na íntegra, e em versão resumida, o “argumento definitivo” de Dawkins contra Deus, que ele entitulou de Boeing 747 Definitivo.

  1. Um dos grandes desafios para o intelecto humano, ao longo dos séculos, vem sendo explicar de onde vem a aparência complexa e improvável de design no universo.
  2. A tentação natural é atribuir a aparência de design a um design verdadeiro. No caso de um artefato de fabricação humana, como um relógio, o projetista realmente era um engenheiro inteligente. É tentador aplicar a mesma lógica a um olho ou a uma asa, a uma aranha ou a uma pessoa.
  3. A tentação é falsa, porque a hipótese de que haja um projetista suscita imediatamente o problema maior sobre quem projetou o projetista. O problema que tínhamos em nossas mãos quando começamos era o da improbabilidade estatística. Obviamente não é solução postular uma coisa ainda mais improvável. Precisamos de um “guindaste”1, não de um “guincho celeste”, pois apenas um guindaste é capaz de avançar de forma gradativa e plausível da simplicidade para a complexidade, que de outra maneira seria improvável.
  4. O guindaste mais engenhoso e poderoso descoberto até agora é a evolução darwiniana, pela seleção natural. Darwin e seus sucessores mostraram como as criaturas vivas, com sua improbabilidade estatística espetacular e enorme aparência de ter sido projetadas, evoluíram através de degraus gradativos, a partir de um início simples. Podemos dizer hoje com segurança que a ilusão do design nas criaturas vivas não passa disso — uma ilusão.
  5. Não temos ainda um guindaste equivalente para a física. Alguma teoria do tipo da do multiverso pode em princípio fazer pela física o mesmo trabalho explanatório que o darwinismo fez pela biologia. Esse tipo de explicação é, na superfície, menos satisfatório que a versão biológica do darwinismo, porque faz exigências maiores à sorte. Mas o princípio antrópico nos dá o direito de postular uma dose de sorte bem maior que aquela com a qual nossa intuição humana limitada consegue se sentir confortável.
  6. Não devemos perder a esperança de que surja um guindaste melhor na física, algo tão poderoso quanto o darwinismo é para a biologia. Mas, mesmo na ausência de um guindaste altamente satisfatório equivalente ao biológico, os guindastes relativamente fracos que temos hoje são, com a ajuda do princípio antrópico, obviamente melhores que a hipótese contraproducente de um guincho celeste, o projetista inteligente.

Aha, e isso são apenas as premissas, pois a conclusão é basicamente a que dá o título do argumento, ou seja: “Logo, Deus quase com certeza não existe”.

Notem como Dawkins completa:

Se o argumento deste capítulo for aceito, a premissa factual da religião — a Hipótese de que Deus Existe — fica indefensável. Deus, quase com certeza, não existe. Essa é a principal conclusão do livro até agora.

Ou seja, a partir daqui não há mais volta. Dawkins assume que essa é a principal conclusão de seu livro. E, lembrando que ele alimentou as expectativas a um nível altíssimo (algo como a campanha pré-lançamento de alguns blockbusters no cinema), é assim que o avaliarei. Será que ele cumpre a promessa? Ou será uma decepção retumbante?

Como diria o ceguinho esperançoso, veremos…

William Lane Craig disseca o Boeing 747

Em uma palestra, divulgada em um vídeo na Internet, o filósofo da religião William Lane Craig encontrou espaço para avaliar criticamente o argumento de Dawkins. Essa é a principal refutação de que trato aqui.

Logo no começo, Craig é perspicaz o suficiente para lembrar que o próprio argumento de Dawkins é o “coração do livro”. E, se ele falhar, a o próprio núcleo da defesa do Dawkins tornaria-se vazio. Isso de novo ressalta o quão confiante Dawkins estava em seu argumento. Para Dawkins, isso era simplemsente a peça central de sua defesa em seu caso contra a existência de Deus.

Após narrar as 6 premissas de Richard Dawkins, que levariam à conclusão “Deus quase com certeza não existe”, Craig diz o seguinte:

O que é incrível neste argumento é que a conclusão “Logo Deus, quase com certeza, não existe” aparece “do nada”! Sem qualquer preparação em qualquer uma das premissas do argumento. Você não precisa ser um filósofo para perceber que a conclusão não segue das 6 premissas2, ainda que as premissas fossem verdadeiras! Se nós pegarmos estas seis afirmações como premissas que supostamente implicam na conclusão de que “Logo Deus, quase com certeza, não existe”, então o argumento é patentemente inválido! Não há nenhuma regra da lógica que permite que você chegue, de maneira válida, à conclusão, a partir das seis premissas.

Esse poderia ser apenas aquilo que chamamos de “morte limpa”, pois seria a morte rápida do argumento de Dawkins. Mas Craig ainda fez uma interpretação “caridosa” do argumento, de forma a tentar ver se dali alguma coisa se salvava.

Craig pegou cada uma das seis afirmações não como premissas de um argumento, mas tomou-as como um sumário de afirmações dos seis passos naquilo que Craig rotulou de uma possível “defesa cumulativa” de Dawkins. Ele nota, no entanto, que mesmo nessa interpretação caridosa, ainda assim a conclusão não deriva desses seis passos. E isso mesmo que todos concordassem que cada uma da premissas seria verdadeira e justificada.
Craig ainda diz que na melhor das hipóteses tudo que se pode concluir é que não se deveria concluir a existência de Deus nos baseando na aparência de Design do universo. Em outras palavras, nós não deveríamos acreditar na existência de Deus com base no design do universo.

O problema, que Craig ressalta, é que esta conclusão é compatível com a existência de Deus! Ou mesmo para acreditar justificadamente em Deus. Segundo ele:

Talvez nós deveríamos acreditar com base no Argumento Cosmológico, ou o Argumento Ontológico ou o Argumento Moral, ou mesmo acreditar baseado simplesmente em nenhum argumento. Talvez baseado em experiências religiosas, ou baseado na revelação divina. Talvez Deus queira que nós acreditemos nEle simplesmente por pura fé. A questão é: a rejeição do Argumento de Design para a existência de Deus não faz absolutamente NADA para provar que Deus não existe! Nem mesmo mostrar que acreditar em Deus não é justificável. Na verdade, muitos teólogos cristãos já rejeitaram certos argumentos para existência de Deus sem concluir que, com isto, deveria se comprometer com o ateísmo! O argumento de Dawkins me parece então totalmente falho. Mesmo que nós concordássemos, a título de caridade, que os seis passos são corretos. Simplesmente eles não levam a conclusão final de que “Deus não existe” ou que acreditar em Deus não é justificável. No máximo mostra que nós não deveríamos acreditar com base no Argumento do Design.

É importante ressaltar que Craig trata a questão meramente do ponto de vista especulativo, portanto quando ele afirma que “no máximo” seria possível mostrar que nós não deveríamos acreditar com base no Argumento do Design, nem isso elimina essa perspectiva.

Ele segue:

Mas de fato eu penso que é pedir muito. A mim me parece que vários dos passos deste argumento são falsos. Por exemplo, 5 e 6, quando Dawkins está falando sobre uma explicação equivalente para a física, ele está se referindo à extraordinária sintonia fina das condições iniciais do universo para abrigar vida. Nós últimos anos, cientistas tem se surpreendido com a descoberta de que a existência de vida, em qualquer lugar no cosmos, depende de um grupo de condições inicias complexas e delicadas surgidas no Big-Bang. As vezes refere-se a isso como a “sintonia fina do universo para a vida’. Mas é exatamente isto que ele está admitindo no ponto 6: ‘Nós não temos nenhuma teoria, comparável a de Darwin, para explicar esta sintonia-fina do universo’. Então mesmo se o Darwinismo for bem sucedido para explicar a complexidade biológica, ele diz, isso não ajuda em nada para explicar a sintonia fina do universo, que é necessária para que a vida exista. Mas o ponto 6 diz: ‘Não devemos perder a esperança de que surja algo comparável ao darwinismo na física’. Mais uma vez, me parece que cinco e seis são plausivelmente falsas.

Também ressalto aqui a extrema polidez e educação de Craig, pois quando ele afirma “me parece que cinco e seis são plausivelmente falsas” isso na verdade não é apenas uma impressão, mas um fato. Mas, como bom filósofo que é, Craig naturalmente sempre tem que dar margem à outras perspectivas durante a sua análise, e nisso ele segue impecável.

A seguir, ele fala do passo 3:

Pegue o passo 3, por exemplo, que diz: ‘A tentação é falsa, porque a hipótese de que haja um projetista suscita imediatamente o problema maior sobre quem projetou o projetista’. A afirmação de Dawkins aqui é que você não tem justificativa para inferir design, como a melhor explicação para a ordem complexa no universo, porque um novo problema aparece, que é ‘Quem projetou o projetista?’. Logo, a inferência do projetista é falha. Agora, aqui me parece que a conclusão de Dawkins é defeituosa em pelo menos dois pontos. Primeiro, para reconhecer que uma determinada explicação e a melhor, você não precisa ter a explicação da explicação! Essa é uma questão muitíssimo elementar em filosofia da ciência, com relação à inferência de qual é a melhor explicação. Por exemplo, se arqueólogos encontram artefatos escavando o solo, e eles se parecem armas, arcos, cerâmicas, eles certamente estão autorizados a deduzir que estes objetos não são o resultado dos processos de sedimentação, etc., mas sim o produto de design inteligente. Foram criados por agentes inteligentes. E esta explicação seria a melhor mesmo que eles não tivessem NENHUMA idéia de quem eram essas pessoas ou de onde vieram! Outro exemplo: imagine astronautas indo a lua e descobrindo no lado oculto um conjunto de máquinas lá. Obviamente eles estão justificados em deduzir que isto é o resultado do trabalho de algum agente inteligente, talvez estra-terrestre. E esta dedução seria a melhor mesmo que eles não tivessem absolutamente a menor idéia de QUEM seriam estes agentes, ou de onde vieram, ou como chegaram até o lado oculto da lua. Então, para que possamos reconhecer uma explicação como a melhor nós não precisamos a explicação da explicação! Na verdade, dizer que é preciso uma explicação da explicação obviamente leva a uma regressão infinita, pois aí será necessária uma explicação da explicação da explicação, e assim sucessivamente até o infinito. Então nada jamais poderia ser explicado e a ciência seria destruída. Então, ironicamente, este princípio que Dawkins parece assumir ou concordar aqui iria na verdade ser destrutivo para a própria ciência. Neste caso em questão, para que se possa reconhecer que um projet inteligente é a melhor explicação para a aparência de projeto no universo, você não precisa estar apto a explicar o projetista. Segundo ponto: Dawkins pensa que no caso de um projetista divino do universo, o projetista deve ser tão complexo quanto a coisa a ser explicada. Então, nenhum avanço na explicação é feita. Esta objeção levanta todos os tipos de questões difíceis sobre o papel que a “simplicidade” tem na análise das explicações científicas. Simplicidade é apenas UM dos critérios que cientistas usam para decidir entre hipóteses que competem entre si. Ainda mais importante que simplicidade há o poder explanatório, como exemplo o escopo explanatório. Há também coisas como o grua de “ad hocs’, o qual que isso é natural ou artificial, a plausibilidade e assim por diante. Simplicidade é apenas uma de uma lista de critérios que devem ser balanceados entre si na comparação entre hipóteses. Algumas hipóteses podem ser menos simples do que outras mas podem ter muito mais escopo explanatório ou poder explanatório e logo serem mais preferíveis apesar de serem menos simples. Você não pode simplesmente descartar uma hipótese usando o critério da simplicidade sem equilibrá-la em conjunto com os outros critérios.

O que deixa bem claro o que venho abordando durante essa refutação, que é a absoluta distorção de ciência que Dawkins faz.

No próximo item, Craig fala daquele que seria o erro mais fundamental de Dawkins, que é a suposição de que um projetista divino é tão complexo quanto o universo contingente. Deixemos que Craig prossiga:

[…] eu acho que isto é claramente falso. Como uma mente incorpórea, Deus é uma entidade notavelmente simples. Sendo uma entidade não física, uma mente é incrivelmente simples porque ela não possui partes. Uma mente não é composta por partes diferentes para ser uma composição. E sobre as propriedades de uma mente como autoconsciência, racionalidade e vontade, elas são essenciais para uma mente. Uma mente não pode deixar de ter essas propriedades e continuar sendo uma mente. Em contraste então com um universo contingente e muito complexo, com todas as suas diferentes, propriedades, constantes, quantidades e inexplicável aparência de projeto, uma mente divina é surpreendentemente simples. Claro que esta mente pode ter idéias complexas, isso é verdade. Esta mente pode contemplar o cálculo infinitesimal, que é muito complexo, mas a mente em si é uma entidade muito simples sendo uma entidade imaterial não composta por partes. Eu acho que Dawkins evidentemente confunde as IDÉIAS de uma mente, que podem ser muito complexas, com a mente EM SI, que é uma entidade incrivelmente simples. Logo, postular uma mente divina por detrás de um universo complexo e contingente quase certamente representa de fato um avanço considerável na simplicidade de uma explicação, qualquer que seja o uso.

Basta lembrar que o diferencial da abordagem de Craig não é o brilhantismo, pois as conclusões a que ele chega são naturalmente óbvias, mas sim o didatismo e a clareza na exposição.

Ele conclui:

[…] este argumento não faz nada para enfraquecer a inferência baseada na complexidade do universo. E certamente não serve como qualquer tipo de justificativa para o ateísmo. Não faz absolutamente nada para provar que “Deus não existe”. Logo, me parece que bem no centro do livro de Dawkins há um vazio. O livro é realmente é posto abaixo por ter este argumento vazio, claramente falacioso e completamente inválido.

Ou seja, de uma forma mais ferina: o Boeing 747 foi derrubado. Que peninha, Dawkins!

Mas não é só isso, pois Craig não abordou todos os defeitos, pois talvez estava com compaixão no momento, mas há pontos adicionais que podem ser explorados.

Defeitos adicionais no Boeing 747

No passo 2, Dawkins fala de uma suposta “tentação natural” de se atribuir a aparência de design a um design verdadeiro. Nisso, ele tenta dar a impressão de que as pessoas não chegam à conclusão de design através da lógica e sim e uma “tentação natural”, o que seria talvez para Dawkins um resquício evolutivo (ou alguma bobagem do tipo). O problema é que tal abordagem implicaria nele ter que COMPROVAR que realmente essa tentação natural existiria, e, como vocês verão na refutação ao capítulo 5, em que ele tentará explorar isso a fundo, ele não conseguiu. Sendo que ele fracassa nessa tentativa, a abordagem dele não passa aqui da falácia genética, na qual ele tenta dizer que algo é “natural, portanto inválido” (em muitos casos a falácia também é apresentada da seguinte forma: “algo é natural, portanto válido”).

No passo 3, conforme Craig já afirmou, Dawkins dá excessiva atenção ao “design”, mas como demonstrei na refutação à esse capítulo (consultar o texto [3] da refutação ao Capítulo 4), isso só foi possível através de uma extrapolação INDEVIDA da teoria da evolução. Extrapolação esta que está longe de ser válida. Ou seja, é uma tentativa, mas nem um pouco científica, portanto esse é mais um motivo para rejeitar facilmente esse passo do argumento dawkinista.

No passo 4, há apenas a sequências dos itens que também abordei no texto 3, pois, conforme lá mostrei a teoria da evolução, por si só, não serve para invalidar o design, e sequer emitir juízo de valor sobre o design. Existindo ou não design nos seres vivos, a teoria da evolução não possui escopo para se chegar à essa conclusão ou invalidá-la.

O ponto que considero mais engraçado, no entanto, está nos passos 5 a 6, mas é um ponto que Craig curiosamente não tratou, que é a falácia da esperança (wishful thinking). Ora, se Dawkins tem esperança de que na Física exista NO FUTURO uma explicação similar ao que o darwinismo é na Biologia isso não deixa de ser apenas… uma esperança. Ou seja, o mero componente falacioso existente nesses dois passos já é suficiente para fulminar essa parte do argumento.

Conclusão

Como visto, todo o cirquinho que Dawkins armou para criar altas expectativas em torno do seu argumento do Boeing 747 (quem quiser “entrar no clima” sugiro que revejam os textos (1), (2), (3) e (4) em sequência) deu em água. Observando-o como representação de um argumento, o capítulo 4 do livro de Dawkins, como um todo, tem o mesmo valor de um chiclete mastigado. Que Dawkins é um hábil programador neurolinguístico isso eu reconheço (o que, aliás, não é mérito para alguém que se declara cientista, pois isso alimenta ainda mais suspeitas sobre a pessoa dele), mas ele comete erros científicos (como colocar o critério de simplicidade como se fosse único, mas ainda assim errar na descrição de simplicidade do objeto de estudo) inaceitáveis para alguém que se declara “divulgador de ciência”.

A comédia de erros de Dawkins também é observada simplesmente na pobreza da estrutura argumentativa, tanto que ele não teve sequer o trabalho de criar um argumento que derivasse logicamente em sua conclusão.
Que alguns adeptos de Dawkins tenham comprado a idéia desse argumento por si só já é motivo de preocupação a respeito de como anda a educação acadêmica atualmente, pois somente com total falta de senso crítico e ausência de cultura (e também inteligência) é possível acreditar na validade do Boeing 747 Definitivo, que, como visto, está mais para um Boeing 171 Definitivo.

P.S.: A refutação de William Lane Craig já tinha sido apresentada neste blog, mas não no contexto de todo o Capítulo 4, justamente por isso ela foi abordada novamente durante esta refutação.

Escrito por lucianohenrique

janeiro 13, 2010 em 3:44 am

Um teólogo ateu tenta ajudar Dawkins… e vai para a vala junto com seu ídolo

com 11 comentários

Um blog neo ateu chamado Godless Liberator apareceu “comemorando” um possível ataque à religião, mas o seu dono, Elizandro Max, foi precipitado demais. [N.E. - Depois descobri que o post era antigo, de 2007, mas não vai diferença, ele vai tomar um chute nos fundilhos do mesmo jeito]

Para começar, como sempre (provavelmente ele aprendeu com seu mestre, Dawkins), ele comete uma sucessão de erros em sua introdução ao alegado ataque de Edmund Standing. Elizandro, aliás, foi o tradutor do texto de Standing. Azar de Edmund, pois a publicação dele atiçou o meu interesse.

Notem o que Elizandro afirma:

O que é preciso saber (sem interrogação)
Ontem eu havia perguntado o que alguém precisa saber para estar apto a criticar a religião. Pela visão dos religiosos, seria preciso um ateu formado com mérito em teologia. E adivinhem só: essa criatura existe, chame-se Edmund Standing e escreveu um dos artigos mais incisivos que li ultimamente. Ele confirma tudo aquilo que, sem estudar teologia, eu e a maioria dos ateus já desconfiávamos: a teologia é uma não-saber sobre algo que não existe, e é falaciosa a idéia de que a fé é uma coisa por demais profunda, que nunca pode ser compreendida pelos ateus. Uma resposta à altura para qualquer um que diga que os ateus não podem criticar a religião. É um pouco longo, mas garanto que vale a pena.”
Aqui ele tenta introduzir o texto malicioso de Edmund Standing.
Ele disse que “ontem havia perguntando o que alguém precisa saber para estar apto a criticar a religião”.

Ele não disse onde, e nem para QUAIS REPRESENTANTES da religião a pergunta foi feita. Esse é o primeiro erro da apresentação de caso dele.

Em seguida, ele disse: “pela visão dos religiosos… seria preciso um ateu formado com mérito em teologia”.

Aqui ele continua chafurdando, pois ele afirma que “na visão dos religiosos”. Quais religiosos? Sem demonstrar quais foram, e o nível de representatividade de cada um para a religião, a alegação não vale nada.

Em seguida, ele parece confundir “crítica a religião” com “pregação neo ateísta”, o que é totalmente diferente. Um espírita pode criticar a religião e a Bíblia, e não necessariamente seria ateu.

Ele afirma que o artigo é um dos “mais incisivos” que ele leu ultimamente. O diacho é que a enorme quantidade de erros de Edmund Standing mostra que o nível de exigência do Elizandro é muito baixo. O texto de Standing é infantil, praticamente disléxico.

Segundo Elizandro, o texto de Standing é uma confirmação de que “a teologia é uma não-saber sobre algo que não existe, e é falaciosa a idéia de que a fé é uma coisa por demais profunda, que nunca pode ser compreendida pelos ateus.”

Erradíssimo, pois o texto não aborda NADA sobre teologia, e sim sobre o Credo de Niceno e uma citação maquiada da Bíblia. Resumir teologia a isso é coisa que só seria aceitável em pessoas acometidas de analfabetismo funcional. Por isso, o texto não confirma essa alegação do Elizandro.

Desesperado, Elizandro tenta a última cartada dizendo que o texto é “Uma resposta à altura para qualquer um que diga que os ateus não podem criticar a religião”.

Pelo contrário, os ateus podem criticar a religião e até a Bíblia.

Mas podem ser ridicularizados pelo seu entendimento infantil dela. Assim como Standing, com um entendimento típico de um deficiente mental.

Vamos então ao texto ridículo de Standing, que deixou o pobre Elizandro emocionado…

Os “novos ateus” estão evitando os “argumentos de verdade”? (por Edmund Standing – original em inglês)
O mais recente ataque [a livros de Dawkins e Hitchens] veio de Rowan Williams, arcebispo de Canterbury. Segundo Williams, nas discussões sobre cristianismo, a religião criticada por Dawkins, Hitchens e outros não é a mesma que ele reconhece como sua, e que estes autores, errônea e arrogantemente, dizem aos cristãos “eu sei o que você quer dizer”, quando na verdade não sabem, e isso aparentemente o “incomoda”.

Tecnicamente, Rowan Williams está correto, pois qualquer tentativa de telepatia é uma pseudociência e deveria incomodar não só ao Williams, como a qualquer pessoa racional (suponho que Standing não seja uma pessoa racional).

Ora, um neo ateu afirma ao religioso “eu sei o que você quer dizer” e o religioso responde “não, você não sabe”, a única forma que o neo ateu teria para se salvar de imediato seria proclamar a validade da telepatia, dizer que com esse recurso LEU A MENTE DO OUTRO (ou então consegue expor o resultado da mente do outro em um vídeo, como no filme “Minority Report”), e então ele provaria, definitivamente, que sabe o conteúdo da mente do outro com um grau previsto de confiabilidade.

Mas Standing não fez nada disso, e portanto já se deu mal.

Vamos então ver mais à frente o que Standing nos promete (a promessa dele é fortíssima, e por isso deve ser investigada):

O argumento básico de Williams e outros é que esses escritores simplesmente não se dispuseram a estudar um pouco de teologia e dirigir-se aos “argumentos de verdade”. Como eu sou formado com mérito em Teologia e Estudos Religiosos, presumo que Williams não pode alegar que não tenho idéia do que estou falando, embora eu concorde com as conclusões de Dawkins e Hitchens.

O fato de Standing ser formado com mérito em Teologia e Estudos Religiosos não implica que ele conheça os argumentos que vai criticar. Mas mesmo que conheça os argumentos que vai criticar, isso não implica que ele possua honestidade intelectual ao criticá-los. É possível, por exemplo, que Standing tenha lutado para obter uma graduação em Teologia apenas para tentar usar um apelo à autoridade posteriormente e tentar validar suas críticas. Como céticos, temos que investigar as possibilidades, e tudo é possível.

O fato é que a graduação de Standing em questão não mostrará que ele está certo, pois a proposta de acusação que ele faz a Rowan Williams e a todos religiosos é uma alegação extraordinária. E as evidências que ele traz são inúteis.

Mas vejamos como Standing segue:

A seguir, delinearei brevemente as bases da crença cristã, mostrando o que Williams considera como sendo verdade, usando suas próprias palavras. Minha conclusão é que Dawkins e companhia não erraram muito na sua representação da fé cristã, e sua falta de estudo teológico não afeta em nada a veracidade de seus argumentos.

É aqui que Standing faz a sua alegação extraodinária, que ele tentará manter até o final do texto. A alegação de Standing é desmontada, pois o máximo que ele poderá mostrar é o entendimento DELE a respeito do que ele supõe ser as bases da crença cristã, mas não o entendimento do Williams. E mesmo com a narrativa básica falsa (pois ela não é uma citação da Bíblia, mas sim uma citação particular e manipulada, fabricada por Standing), ele não comprova que esse é o entendimento do outro.

Notem o que Standing diz que é “narrativa bíblica básica”:

Vamos dar uma olhada rápida na narrativa bíblica básica: [N.T.: pode pular este parágrafo se quiser] Existe um ser incrivelmente poderoso e inteligente chamado Deus, cuja existência precede o próprio tempo. Por alguma razão, ele decide criar o universo, dando uma atenção especial ao planeta Terra [1]. Tendo criado o universo, a Terra e todas as espécies nela contidas (“criando” o Big Bang [2] e “guiando” a evolução [3], no estilo de interpretativo de Williams [4]), ele decide focar toda sua atenção a alguns grupos tribais do Oriente Médio, em particular os israelitas [5], o “povo escolhido” que se torna sua obsessão [6], ao mesmo tempo tempo que aparentemente ignora o resto da população mundial [7]. Ele baixa numerosas, primitivas e arbitrárias leis morais e cerimoniais [8], e então se envolve em disputas políticas tribais internas e disputas de terras, incitando atos de brutalidade, crimes de guerra, genocídio e estupro no processo [9]. Aí pulamos para o Oriente Médio sob Ocupação Romana, e Deus decide que é hora de dar as caras [10]. Por meios místicos, ele vêm à Terra em forma humana [11], nascido de uma virgem, encarnado como um judeu que peregrina pelo atual território Israel-Palestina [12], fazendo uma forte crítica social (mas nunca dando nenhuma explicação sistemática de como suas idéias poderiam ser úteis politicamente [13]), praticando a cura pela fé (exorcizando “demônios”), truques de magia (como andar sobre a água e ressuscitar um homem morto [14]), e discursando insistentemente sobre pecado, punição eterna para a maioria da população mundial e o iminente fim do mundo [15]. Ele acaba crucificado, a fim de oferecer-se em sacrifício a si mesmo [16], para o nosso bem. Alguns dias depois ele sai andando de sua tumba e perambula com alguns de seus seguidores (aparentemente não se preocupando em aparecer para ninguém que já não acreditasse nele [17]), antes de “ascender” ao “Paraíso” a fim de esperar a hora de retornar para ressuscitar todo ser humano que já tenha vivido, a fim de julgá-los e jogar a maioria num lago de fogo, selecionando alguns poucos para seu “reino” eterno, onde viverão felizes para sempre [18].

Selecionei alguns pontos da alegação de Standing, e mostrando que ele possui um entendimento que nos faz ter pena, muita pena, de seus pais, que tiveram um filho tão incapaz. Dificilmente uma criança de 10 anos possui um entendimento tão patético da Bíblia quanto Standing. Vejam:

1 – A questão de planeta Terra é irrelevante na questão.
2 – A Bíblia não fala sobre a criação do Big Bang, e sim de uma noção que também é explicada no Big Bang.
3 – A Bíblia não fala nada sobre o processo evolutivo. Apenas compreende-se, por outras fontes, que o processo evolutivo não contradiz a Bíblia.
4 – Nenhuma das citações que ele apresentou no caso contra Williams confirma que esse é o estilo interpretativo de Williams, de forma que estamos claramente diante de uma falácia do espantalho.
5 – Erro grosseiro. A atenção era dada a todos…
6 – Não há evidência alguma de “obsessão” por um povo. Standing não acerta uma…
7 – Não há evidência de que qualquer povo teria sido ignorado, a partir dos textos bíblicos.
8 – Palavras como “árbitro” e “arbitrariedade” só podem ser utilizadas para se falar da ação de um ser humano.
9 – Não seria possível Deus se “envolver” em disputas tribais, até pelo significado da expressão “envolvimento” no contexto de guerras. Da mesma forma, não há evidências de incitação a genocídios e estupros.
10 – Outra expressão burra de Standing. Não é preciso “dar as caras” na questão de um Deus. Ele novamente confunde Deus com uma pessoa.
11 – Quem veio a Terra não foi Deus, e sim uma manifestação de Deus. Em outro contexto, não é a ENERGIA que está na Terra (na questão de “A Energia”, como o todo), e sim manifestações da energia ou porções de energia. Se ele tenta mudar o modo de tratamento a Deus no meio da discussão, isso demonstra falta de base filosófica. Ele precisaria fazer duas acusações diferentes, pois ele trata de conceitos diferentes.
12 – A questão de se é “atual Israel-Palestina” é irrelevante para o caso dele, pois naquela época não havia o estado de Israel. A Bíblia não tinha obrigação de prever que essa região seria de conflitos atualmente.
13 – Quem foi que disse que idéias com foco no espiritual deveriam ser ensinadas no contexto de utilidade política?
14 – Como ele provaria que os eventos seriam “truques de magia”? Detalhe: há outras explicações que não “truques de magia”. Falta o conceito básico de evidência para Standing.
15 – Iminente fim do mundo? Standing está cada vez mais perdido.
16 – Mais um erro de mudança de modo grosseiro. Não foi Deus que se sacrificou. E sim ele enviou o seu filho para sacrifício.
17 – Ele não sabe com que Jesus se preocupou ou não no momento. O sujeito é tão neurótico que tentou agora aplicar leitura mental em Jesus? Risos.
18 – Não existe nenhuma expressão semelhante a essa na Bíblia.

Bom, uma coisa eu tenho certeza: não sei quanto a Williams, mas a religião na qual eu acredito é PRATICAMENTE OPOSTA àquela que Edmund Standing acredita. Ufa, sorte a minha…

Mas segundo ele isso seriam os “tijolos” com os quais a teologia cristã é erigida.

Vejam:

Esses são os “tijolos” com os quais a teologia cristã é erigida. Williams e outros obviamente protestarão que eles não vêem a coisa de maneira tão simplista, mas essa narrativa sustenta a Bíblia, os credos e liturgias da Igreja, e séculos de especulação teológica.

Agora eu tenho certeza: eu não acredito em qualquer coisa na qual Standing acredite, e tenho certeza de que meu entendimento é muito diferente do dele. Obviamente qualquer pessoa com o mínimo de racionalidade também possui um entendimento totalmente diferente daquele que Standing possui.

Standing está claramente no nível 2 do modelo que sugeri, BCMM, portanto jamais, de forma alguma, ele vai conseguir compreender a minha concepção de religião.

O mais terrível para Standing (que, como o nome dele próprio diz, NÃO SAI DO LUGAR) é que para provar que eles não vêem a coisa de maneira tão simplista, ele teria que usar um “Scan mental”, no mínimo igual ao mostrado no filme “Minority Report”.

Sem isso, quando ele diz: “é assim que você entende a Bíblia”, e lhe é retrucado “não, idiota, não é, você é que é um imbecil e não entendeu a forma como eu compreendo a Bíblia”, ele NÃO PODE FAZER NADA.

É por isso que esse é um jogo no qual é possível vencer Standing em TODOS os duelos, pois se ele não tem acesso à uma FILMAGEM da mente de seu oponente, ele NÃO PODE DIZER NADA a respeito de como o oponente entende algo, a não ser que este oponente DECLARE FORMALMENTE que o entendimento dele é da forma que seu inimigo alegou que seria.

Sendo assim, cabe a nós, religiosos, rir do entendimento que Standing fez da Bíblia, e notar que, no BCMM ele está no nível 2, e muito provavelmente Williams está no nível 4 ou 5. Só isso já mostra que:

(a) na discussão sobre a Bíblia, quando se fala em ressurrreição, ele provavelmente pensa em zumbis tipo o filme “Madrugada dos Mortos” ou “Extermínio”
(b) na discussão sobre Nietzsche, quando se fala em um leão proclamando algo, ele questiona se os animaizinhos de zoológico são cientificamente capazes disso
(c) na discussão sobre o Big Bang, ele fica procurando a galinha que botou o ovo cósmico

Dessa forma, não adianta, para Standing, dizer “está escrito” e então “o entendimento é esse, que é o máximo que eu consegui”, que isso não vai salvar a pele dele.

Vamos ver mais a frente…

Williams alega que “quando nós, crentes, lemos Dawkins e Hitchens, eis como nos sentimos ao virar as páginas: ‘Está tudo errado. Seja qual for a religião atacada aqui, não é a mesma em que acredito’”. Talvez nós ateus tenhamos entendido Williams mal, e alguma profundidade tenha sido perdida. Então, vamos ver o que Williams declara acreditar, e ver se é o caso.

É simples… Se Williams declara que a religião na qual ele acredita é muito diferente daquela que é atacada por Dawkins e Hitchens, é mais evidente que o nível de maturidade de Williams é diferente do nível de maturidade de Dawkins e Hitchens.

Simples assim.

Mas, vejamos até o final do texto, onde darei uma segunda chance à Standing. Pois, se pela tentativa de telepatia, ele fracassou, faremos um teste de “alinhamento” para provar ou não a alegação de Standing.

Vocês notarão que ele repetirá a alegação em seu “caso”.

Antes disso, vejam a “evidência” de Standing contra Williams:

Williams declara que “seria totalmente errado e destrutivo declarar do púlpito algo em que eu não acreditasse” e que “oferecer-se para a ordenação requer tomar a responsabilidade pela totalidade da fé da igreja, e não pedacinhos dela”. O que é “a fé da igreja”? Há alguma relação com a crua narrativa supracitada? O Credo Niceno serve, para muitas das grandes denominações cristãs, como uma declaração unificada de fé, tendo emergido de debates sobre a natureza da fé cristã, nos primórdios da igreja. Ele é lido por padres e congregações todo domingo eucarístico. Se Williams concorda com esse texto – o que ele claramente faz, já que também o recita alegremente – e, como vimos, ele acha que seria “totalmente errado” proclamar algo que ele não considerasse verdadeiro, então podemos tomar o Credo como um reflexo preciso de sua visão da realidade.

Standing é realmente fraquíssimo demais em seu caso. Para quem tem entendimento nível 3, provavelmente muitas declarações de Williams serão ALUSIVAS, o que é óbvio para qualquer um teólogo.

Só que o fato de alguém acreditar em algo não IMPLICA que essa pessoa possua o mesmo ENTENDIMENTO  de alguém inferior.

Muito provavelmente Williams acredita no Credo Niceno, mas o entende de forma muito, mas muito, superior à forma que Standing entende. Logo, qualquer declaração envolvendo simplesmente “acredito no Credo Niceno”, não implica em uma declaração DETALHADA de como alguém entende o Credo Niceno.

Standing deveria começar a estudar mais sobre Dialética de tribunal, pois ele tenta acusar um oponente e não se preocupa com itens básicos como dimensionamento da acusação. Ele simplesmente diz que “leu a mente de Williams”, e NÃO MOSTRA QUE CONSEGUIU.

Portanto, acreditar no Credo Niceno, não implica em entender o Credo Niceno da forma infantil que Standing entende. Motivo: Williams está no nível 4 (Profundo), Standing está no nível 2 (Incapaz).

E vejamos o que seria a “evidência” do Standing:

Eis a íntegra do Credo Niceno [N.T.: pode pular se quiser]: Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis. Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por Ele todas as coisas foram feitas. E por nós, homens, e para nossa salvação desceu dos Céus. E encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria e se fez homem. Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras; e subiu aos Céus, onde está sentado à direita do Pai. De novo há de vir em sua glória para julgar os vivos e os mortos; e o seu Reino não terá fim. Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele que falou pelos Profetas. Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica. Professo um só batismo para a remissão dos pecados. E espero a ressurreição dos mortos e vida do mundo que há de vir. Amém.

Mas isso é apenas a íntegra do Credo Niceno. Ou seja, não prova nada sobre o entendimento do Williams.

A coisa complica para Standing, principalmente pela frase “pode pular se quiser”. Espere. Ele tenta apresentar uma prova CONTRA o seu adversário, e depois afirma “pode pular se quiser”. (Obs: ele fez isso anteriormente, neste mesmo caso)

Ele está simplesmente dizendo que sua EVIDÊNCIA é irrelevante para a acusação dele.

Isso é coisa de amador. Nenhum debatedor focado em investigação cética cometeria um erro tão estúpido. Desqualificar a própria evidência? Putz…

E voltando ao Credo Niceno, que em si não implica em nenhum entendimento similar ao que Standing possui. Isso, é claro, é óbvio para qualquer pessoa racional e inteligente.

Mas notem o que ele tenta sentenciar baseado UNICAMENTE na interpretação dele do credo de Niceno.

Estas são as coisas básicas em que alguém deve crer para ser um cristão. Esta é “a fé da igreja”, a qual Williams acredita ser “responsável” por defender e proclamar. Vemos a história de um deus criador que “fala pelos profetas” israelitas e coloca informações importantes e precisas sobre o futuro nas “Escrituras” (ou seja, o Antigo Testamento); um deus que “desceu” de (e “subiu” a) um lugar real chamado “os Céus”, nasceu de uma mãe virgem, foi crucificado “por nós”, ergueu-se dos mortos, e um dia deve retornar “dos Céus” para ressuscitar os mortos, a fim de julgá-los, e ele levará os crentes para um “Reino” eterno. Deve estar bem claro que eu não li mal ou interpretei de forma errada as alegadas verdades da Cristandade, e que Dawkins ou qualquer outra pessoa poderia razoavelmente ler essa declaração de fé e decidir se a acha plausível , ou se a considera um nonsense fictício e fantasioso.

Não são “as coisas básicas”. São algumas delas, mas não todas.

Mas de novo:

  • (a) acreditar no Credo Niceno não implica entendê-lo da maneira infantil que Edmund Standing entendeu
  • (b) acreditar no Credo Niceno não implica em acreditar na mesma religião atacada por Dawkins e Hitchens (*)

(*) Essa é a acusação de Standing contra Rowan Williams, e até agora ele não provou nada em favor de sua acusação.

Vamos ver mais à frente se Standing melhora um pouco? Pois não…

Uma alegação-chave é que, como os “novos ateus” nunca estudaram teologia, eles não sabem realmente do que estão falando. Talvez algo importante tenha sido perdido. Talvez o Credo precise de alguma reflexão teológica para que seu “verdadeiro significado” possa ser discernido. Tomemos, por exemplo, a suposta ressurreição de Jesus. Se Dawkins estudasse teologia, por acaso ele entenderia algo diferente de um evento histórico literal sobre um corpo sem vida acordando e saindo andando do túmulo? Mas não é o caso de Williams. Quando o bispo ultraliberal John Shelby Spong sugeriu que Williams não acreditava realmente em cadáveres que saem andando, Williams declarou que isso o deixa “bastante irritado”, porque: “Sou genuinamente bem mais conservador do que ele gostaria que eu fosse. Tomemos a ressurreição. Acho que ele disse foi que obviamente eu sei tudo o que os estudiosos pensam sobre o assunto, e portanto quando eu falo em “ressuscitado” eu falo de algo diferente de um túmulo vazio. Mas não é o caso, e não sei como persuadi-lo disso.” Então, Williams acredita, sim, em cadáveres que andam. Mas e todo aquele papo sobre Jesus ser Deus encarnado? Talvez Dawkins e companhia, se tivessem estudado teologia, descobririam que Williams e seus pares têm uma interpretação mais criativa e poética, e menos literal. Mas, de novo, parece que não: “Alguns dos padrões fundamentais dos ensinamentos cristãos – a criação do mundo a partir do nada, o envolvimento total de Deus, Jesus e o Espírito Santo – são para mim a gramática de tudo que dissermos. Não me espanto quando alguém diz que deveríamos ser criativos sobre estes padrões; eles são aquilo que nos cria, são as realidades que tornam possível que sejamos os seres humanos que Deus deseja. Não consigo imaginar querer ser criativo a respeito a isso mais do que eu faria com o ar que respiro.”

Pelo visto, o que se nota pelo acima é que Rowan Williams acredita na ressurreição dos mortos, mas jamais citou a expressão “cadáveres que andam”.

Mais um indício de que, mesmo que Rowan Williams acredite na ressurreição, literalmente, isso não implica na validação de que ele acredita que “cadáveres andem por aí”.

O grande drama para Standing é que ele está apelando à interpretação literal, mas em NENHUM MOMENTO demonstrando o entendimento de Rowan Williams alinhado com aquilo que ele alegou. Pelo que se nota, é causa perdida para Standing.

E tenta espernear um pouco mais, e aí que ele se afunda definitivamente…

Pode-se perguntar de novo de que forma exatamente Dawkins e outros supostamente fizeram uma caricatura, um espantalho da fé cristã, e como Williams pode achar que “Seja qual for a religião atacada aqui, não é a mesma em que acredito”, dado sua clara concordância com as noções mostradas no Credo.

Como ele tenta usar a falácia do ad nauseam para acusar Rowan Williams, e ele não conseguiu até o momento LER A MENTE do seu adversário, temos que usar um segundo modelo para investigar a alegação de Standing.

Vamos usar aqui uma “medição de alinhamento”. É algo que se usa, corporativamente, para avaliar o quanto gerentes/diretores, por exemplo, estão alinhados com a estratégia da empresa. É basicamente para ver se o gerente ou diretor ACREDITA naquilo que os acionistas ACREDITAM.

Vamos então à religião conforme Richard Dawkins diz que é:

(a) É preciso acreditar em um Deus que é ciumento, e com orgulho; controlador mesquinho, injusto e intransigente; genocida étnico e vingativo, sedento de sangue; perseguidor misógino, homofóbico, racista, infanticida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista, malévolo.
(b) Essa crença não pode ser questionada, e nem analisada racionalmente.
(c) Essa crença deve ser contra a ciência, e também contra o método científico.
(d) Deve-se aprender, com a Bíblia, que matar os outros é bom.
(e) A utilidade da religião é para confortar as pessoas e aliviar do medo da morte.
(f) Religião implica em ser contra Darwin.

Segundo Richard Dawkins, essas seriam as “bases” da religião.

Cada empresa é diferente, mas aceita-se 85% de alinhamento como um valor bom em vários casos. Por CARIDADE com Standing, farei o teste considerando apenas 70% de alinhamento.

Vamos então às regras de validação, considerando esse “baseline” para investigação

  • Se Rowan Williams mostrar alinhamento com a religião, segundo Dawkins, em um valor igual ou acima a 70%, Standing está correto e ele vence
  • Se Rowan Williams mostrar alinhamento com a religião, segundo Dawkins, em um valor inferior a 70%, Standing está errado e eu venço

Lembremos: a alegação de Standing é a de que Rowan Williams acredita na religião que Richard Dawkins DESCREVE. Segundo Standing, ainda, não é lícito que Rowan Williams diga a frase “Seja qual for a religião atacada aqui, não é a mesma em que acredito”. Esse é o caso aberto por Standing.

O problema é que após avaliar os parágrafos que Standing trouxe aqui, como EVIDÊNCIA desse alinhamento de Williams, o “score” de alinhamento marca… 0%.

É isso mesmo!

Considerando os fatores (a) até (f), retirados diretamente do livro “Deus, um Delírio”, de Richard Dawkins, o alinhamento entre Rowan Williams e a religião DESCRITA por Richard Dawkins é zero.

Em suma, todo o texto de Standing CAI POR TERRA simplesmente por que está provado, sim, que Williams está correto ao afirmar a frase: “Seja qual for a religião atacada aqui, não é a mesma em que acredito”.

Depois disso, Standing vai ter que se virar para montar um novo caso, mas se ele não é muito bom nem em Teologia, também não tem muito conhecimento de Avaliação de Alinhamento, mas também não conhece Lógica e Argumentação Jurídica. Enfim, é um bocó de mola.

Como é que alguém parte para acusar um adversário e não se preocupa nem em levantar esse tipo de informação?

Seria descuido? Burrice? Fanatismo? Ou tudo junto?

Vamos então ao resto, pois agora é só o “restinho” mesmo que sobra para ser comentado.

Nesse ponto, sou obrigado a admitir que, para que certos aspectos do Credo poderem ser totalmente entendidos, seria necessária ao menos uma leitura rápida de teologia patrística. Algumas das frases têm um significado muito técnico, ao qual muitas vezes se chega depois de acalorado debate. Três conceitos que se destacam são os seguintes: “nascido do Pai antes de todos os séculos”, “consubstancial ao Pai”, e que o Espírito Santo “procede do Pai e do Filho”. Entretanto, o cerne da mensagem da cristandade não é dependente desse obscurantismo e pedantismo teológico. Essas frases são derivadas de reflexões posteriores, sobre as quais embasei o que chamei de “tijolos” da fé cristã. Não é necessário entender as meditações teológicas dos pensadores dos primórdios da igreja para concluir que um nascimento a partir de uma virgem, anjos, demônios, milagres, sacrifício de sangue divino, cadáveres que saem andando, céu e inferno, são conceitos sem sentido. Vemos aqui um exemplo claro da natureza da teologia, e porque este estudo é genuinamente desnecessário para que a fé cristã seja rejeitada.

* bocejos *

Dizer que algo é “sem sentido” somente por que o sujeito ACHA que é sem sentido ou tem um entendimento infantil do conceito não PROVA que algo é sem sentido.

Como eu disse, o sujeito não sabe apresentar um argumento e nem se prepara para solidificar suas alegações. Fraco demais. Acho que o Elizandro vai ter que arrumar um novo ídolo…

Aliás, o desempenho pífio de Standing, tentando desesperadamente salvar Dawkins, mostra que não só o estudo é genuinamente necessário para duelar com a religião cristã, mas também o ENTENDIMENTO e, é claro, além de alguma dose de inteligência. Coisa que nem Dawkins nem Standing possuem.

E vamos em frente…

Em princípio, qualquer um é capaz de julgar as alegadas verdades da cristandade unicamente a partir da leitura da Bíblia, pois toda a reflexão teológica posterior assume que essas narrativas são um reflexo preciso da história do mundo e da derradeira realidade. Tire as narrativas, e todo o edifício teológico desmorona. Eis o que se encontra na teologia: durante séculos, pessoas eruditas tentam fazer suas crenças claramente irracionais parecerem coerentes e lógicas, mas tudo baseado no mesmo conjunto pequeno de crenças básicas.

Essa de “qualquer um é capaz” é algo que enrola ele próprio.

Se “qualquer um é capaz” por que ele fez o fricote de dizer “eu fui formado com mérito em Teologia, acreditem em mim, por favor”?

Ou seja, ele se queimou a si próprio.

O problema, como sempre, é que ele não entendeu ainda que não só para a Bíblia, como para qualquer assunto complexo, o que importa não é a descrição literal, mas sim o ENTENDIMENTO dessa descrição.

Essa frase aqui é mais uma prova de que ele é um ser inferior revoltado com o conhecimento de pessoas superiores à ele: “Eis o que se encontra na teologia: durante séculos, pessoas eruditas tentam fazer suas crenças claramente irracionais parecerem coerentes e lógicas, mas tudo baseado no mesmo conjunto pequeno de crenças básicas.”

Mas e argumentos que sustentem isso? Ele não tem nada.

E lá vem mais discurso de derrota:

A essência da teologia é definida de modo conciso numa frase de Santo Anselmo de Canterbury (1033-1109): fides quaerens intellectum (fé em busca de entendimento). De fato, foi a primeira definição que me ensinaram, quando estudante de teologia. A noção de “fé em busca de entendimento” demonstra claramente o quanto a teologia é intelectualmente vazia, e quão baixa deveria ser sua credibilidade como objetivo acadêmico (no sentido de engajar-se ativamente em produção teológica, em contraste com o seu estudo acadêmico puro como parte da história das idéias).

Quer dizer, o cara não sabe nem o que é fé, e quer discutir?

Fé não implica em ausência de razão, mas no contexto religioso implica em “consonância” e “alinhamento”.

Aliás, notou um ponto que o coitado não entendeu?

“Fé em busca de entendimento”… e é justamente esse o drama que aflige o Standing. Ele NÃO POSSUI entendimento, e esperneia por isso. Em todo caso, ele só tem fricote, e não comprovou nada de vazio na Teologia.

Aliás, até o momento ele SEQUER abordou teologia, apenas citou o Credo Niceno.

Isso mostra que ele, em termos de Teologia, é também um picareta.

E lá vem:

A Teologia vira de cabeça para baixo o método científico que seguimos desde o Iluminismo. A pesquisa científica pode iniciar com uma proposição razoável baseada em evidência existente (hipótese), e então coleta e examina dados para ver se a proposição é realisticamente precisa, ou pode simplesmente levar à descoberta de dados que ninguém havia previsto. Já a teologia começa com a aceitação de idéias sem base factual, ou para os quais a evidência é espantosamente fraca, e orgulhosamente proclama a aceitação dessas idéias com base na “fé” como uma virtude, e então continua a tentar fazer essas crenças a priori parecerem racionais e inteligíveis.

Se o sujeito não conhece nem Teologia, o cenário dramático dele teria que ser completo mostrando que ele possui a mesma ignorância em relação à ciência que Richard Dawkins possui.

É revelador ele dizer que Teologia “vira de cabeça para baixo o método científico que seguimos”.

Quem disse que ele segue o método científico? O discurso de Standing não tem nada de científico.

De resto, a definição dele diferenciando teologia de pesquisa científica não passa de um discurso decorado com o mestre dele, Dawkins, mas que é totalmente nonsense, conforme já mostrado aqui várias vezes. Não passa de desconhecimento dos limites da ciência.

Mas ele segue:

Em outras palavras, chega-se aos “resultados” da teologia antes de ser feito qualquer estudo para confirmá-los. O teólogo não usa as doutrinas básicas da fé cristã como possíveis verdades cuja consistência lógica deve ser testada; em vez disso, ele começa com a conclusão que , pela fé, são verdadeiras suas “crenças”, uma série de afirmações internamente incoerentes, pré-científicas e fantásticas, e então tenta revesti-las com credibilidade intelectual.

Notaram que ele só repete a mesma ladainha aprendida com Dawkins mas não apresenta UMA PROVA SEQUER evidenciando que a teologia é isso mesmo?

O tal do Standing é completamente maluco. Primeiro por ter sofrido quatro anos estudando algo que ODEIA (a teologia), somente para depois brincar de apelo à autoridade. E, depois, para sair da faculdade e sair dizendo besteiras sobre a teologia, mostrando que gosta de fazer papelão em público.

Em suma, físico, arquiteto, engenheiro frustrado encontra-se por aí à rodo. Aliás, em toda profissão existem tipos assim. Standing apenas mostra que um teólogo pode ser um frustrado, fracassado, recalcado, e sair falando besteiras sobre a área. Sendo assim, de nada adiantaram os 4 anos para ele. E não serve para validar os argumentos que ele apresentou.

O argumento dele é mais ou menos assim: “Eu sou formado em [disciplina], portanto posso afirmar a respeito, logo, a [disciplina] é vazia e sem sentido!”.

Bastaria substituir [disciplina] por qualquer área de conhecimento acadêmico que quiser. Portanto, é estratagema de quinta categoria, facilmente mapeado e inútil para Standing.

Mas lá vem:

Nesse sentido, a Teologia não é uma busca acadêmica adequada, mas uma tentativa de mascarar a superstição numa névoa de verbosidade pseudo-intelectual. Williams é bom nisso. Já sabemos em que ele acredita sobre Deus, Jesus e tudo mais a partir de suas próprias palavras e por sua concordância com a doutrina da igreja; mas quando fala em público, ele tenta “turvar a água” com uma retórica insípida como numa palestra recente: “O religiosos diz que integridade moral, introspecção, honestidade e confiança são estilos de vida que se conectam com o caráter de um agente eterno e livre, que a maioria das religiões chama de Deus. Podem concordar ou não, mas aviso aos críticos: ao menos saber do que exatamente estamos falando. Muitas vezes os ateus parecem estar falando sobre uma coisa diferente.” Não, Dr. Williams, os ateus não estão “falando sobre uma coisa diferente”, mas sim das crenças que você proclama como verdadeiras. Revestir as idéias cristãs sobre Deus com termos como “agente livre e eterno”, é criar uma cortina de fumaça com jargões sem sentido, tentando fazer a superstição parecer algo sofisticado.

Mas olhem só como o sujeito tem problemas mentais sérios.

Se a Teologia não é uma busca acadêmica adequada, por que o imbecil ficou quatro anos estudando a matéria?

É óbvio que o cara é suspeito, e por isso na investigação do alinhamento de Williams, ele foi desmascarado.

O fato é que as declarações de Williams estão corretíssimas, e Standing é apenas uma fraude.

Ah… e na investigação de alinhamento, essa afirmação do Standing cai por água abaixo: “Não, Dr. Williams, os ateus não estão “falando sobre uma coisa diferente”, mas sim das crenças que você proclama como verdadeiras.”

Não, Standing, os neo ateus, se forem como você estão falando de uma coisa totalmente diferente, e gente estúpida desse tipo jamais vai entender como Rowan Williams pensa. E nem como eu penso. Burros como Standing não tem a mínima noção das crenças que eu proclamo como verdadeiras. Pois são burros e limitados para entendê-las. Simples assim.

E vamos em frente…

Pelas palavras de Williams, parece bem provável que ele não tenha se dado ao trabalho de ler os escritos que ele critica. É incrível que ele tenha a desfaçatez de associar a fé cristã à “integridade moral, introspecção, honestidade e confiança”, sem atacar as duras críticas feitas por Dawkins em “Deus, um Delírio” à noção de moralidade e religiosidade derivadas da Bíblia. Parece que o que estamos vendo é apenas a repetição de argumentos de séculos de idade, tão fracos que mesmo uma criança do primeiro grau poderia desmanchar: a noção de que a crença em Deus é integralmente ligada a padrões éticos, com a implicação que ateus são incapazes de serem morais, já que não acreditam em um vigia divino que um dia nos levará a julgamento.

Eu não sei se os ateus são imorais, mas que o Dawkins e o Standing não possuem ética alguma, isso é fato.

Mas não há problema: auditores ADORAM encontrar pessoas sem ética pela frente. Eles vão lá, investigam, e acham algo que desmascare esse tipo de gente.

Contra Standing, eu mostrei que toda a alegação dele contra Williams é fraude. O próprio Standing é uma fraude.

E, lembrando o comportamento do Standing, vou só repetir o que eu escrevi no texto sobre o BCMM: “Ou alguém aqui que já trabalhou numa organização CMMI nível 5 tentou explicar o seu modelo de trabalho para alguém que vive (e gosta de viver) em uma organização CMMI nível 1? Em vários casos, encontram-se pessoas que, estando em um nível inferior de maturidade, simplesmente não entendem o que pensa alguém que está em um nível superior. Depois disso, a pessoa que está no nível inferior simplesmente pode FANTASIAR que o pensamento daquele que está no nível superior é igual ao dele. Não, não é.”

Ou seja, o cara NÃO DEMONSTROU alinhamento do Williams com a religião citada por Dawkins, e não provou nada contra a teologia. Aliás, até agora, ele NÃO CITOU NADA de teologia.

Engraçado é ele dizer o seguinte: “é apenas a repetição de argumentos de séculos de idade, tão fracos que mesmo uma criança do primeiro grau poderia desmanchar: a noção de que a crença em Deus é integralmente ligada a padrões éticos”.

Os argumentos teístas, nesse caso, não são fracos. Aliás, Standing sequer tratou desses argumentos. Mas confesso que seria divertido ver ele apresentar outro CASO. Se for no mesmo nível dessa apresentação frustrada contra Williams e a favor de Dawkins/Hitchens, vou me divertir bastante.

E mais:

Será que Dawkins, Hitchens e vários outros pensadores ateus fizeram uma representação grosseira da cristandade? Será que os cristãos tem alguma razão para dizer que a religião citada por esses pensadores é diferente daquela que eles pelo menos dizem seguir? A reposta para as duas perguntas é não. Será que, para rejeitar a crença religiosa, Dawkins e outros precisam mergulhar em séculos de falastrice teológica? Claro que não.

Pelo que mostrei, na investigação do alinhamento de Williams, que resultou em 0, CLARO QUE SIM. Claro que a resposta para as duas perguntas é sim.

Não adianta o Standing espernear…

O fricote continua:

As declarações de Williams e outros como ele não passam de reações de reflexo contra o racionalismo. Eles se queixam que sua fé foi mal entendida, quando o que parece é que eles mesmos é que estão representando mal suas reais crenças. Como é que o Arcebispo de Canterbury, um homem que por sua própria posição crê em todos os ensinamentos centrais da fé cristã, pode declarar que as críticas dos ateus evitam os ditos “argumentos de verdade”, é algo que me escapa.

Como sempre Standing está errado. Nas declarações de Williams, não há nenhum juízo de valor sobre o racionalismo, portanto ele não pode ser declarado nem a favor nem contra. Pelos exemplos mostrados aqui, está evidente que a religião

(a) ou foi mal entendida

(b) ou foi reinventada pelos adversários, neo ateus, com intuitos difamatórios.

Em todos os casos, no entanto, é fato que não é a religião que Rowan Williams acredita.

E ESSE era o caso de Standing. Ele PERDEU. Não conseguiu validar sua acusação. Simples assim.

O Rowan Williams não está representando mal a crença dele. Na verdade, nenhuma das acusações de Standing contra Williams é válida.

Mais erros de conceito, ao final:

A verdade é a seguinte: não há “argumentos de verdade” [1]. No fundo, a própria Teologia é uma questão de fé [2], e não argumento intelectual genuíno[3]. Os teólogos podem continuar escrevendo livros imensos e artigos usando um tom denso e erudito, mas realmente não é preciso que os ateus os leiam, já que no fim eles se reduzem às mesmas derradeiras crenças [4], que os ateus – corretamente, a meu ver – rejeitam, por falta de credibilidade intelectual e moral [5].

Como sempre, só besteiras, vamos à elas:

  1. Essa conclusão não é suportada por nenhum argumento do Standing. Ele simplesmente não falou de “argumentos” aqui, e apenas tratou de uma posição do Rowan Williams, e fracassou completamente em sua acusação. Williams está certo em dizer que “a religião em que ele acredita não é a religião tratada por idiotas como Dawkins, Hitchens e… Edmund Standing”.
  2. Errado, Teologia é uma disciplina que não é uma questão de fé. O princípio que é estudado por ela talvez, embora seja também discutido racionalmente, mas isso não implica que a própria disciplina o seja. A Teologia é baseada em argumentos racionais. Chore o Standing o quanto quiser.
  3. Errou de novo, pois nem Teologia e nem Epistemologia são “argumentos intelectuais” e  sim são DISCIPLINAS onde argumentos intelectuais são abordados. O cara não sabe o básico nem do que é Teologia. Ou sabe e se finge de besta dizendo um conceito errado. Eu não me importo com o que ele acredita ou não, ou se ele finge ou não. O fato é que avalio o argumento dele. Pelo argumento, Standing é uma besta completa no assunto.
  4. Errado, pois mesmo as crenças tratadas aqui, não implicam no entendimento delas igual os teólogos possuem (lembremos que mesmo com formação em teologia, Standing NÃO É teólogo). Um erro adicional de Standing: as crenças de Williams, tratadas e citadas aqui como evidências dele, não são exemplos da teologia.
  5. Dizer que algo possui “falta de credibilidade intelectual e moral” somente por ser expressão da vontade de Standing não é um argumento. Ele não provou ausência de credibilidade intelectual e moral. Ele praticou apenas a falácia da incredulidade pessoal, mas irrelevante.

Somando todos esses exemplos, chega a dar pena ver que Edmund Standing se esforçou para estudar Teologia por uns 4 anos.

Mas, em seu primeiro ataque à Teologia, ele não apresentou um argumento bom sequer. Todos foram facilmente refutados.

O mais patético, no entanto, foi ver a proposta ousada dele de acusar Rowan Williams de ter a MESMA RELIGIÃO conforme proclamada por Dawkins. O fracasso de Standing aqui foi retumbante, humilhante até.

E assim caminha a mediocridade neo ateísta…

P.S.: Quem sabe o Elizandro não se anima e traduz o meu texto para o inglês e mande para o Edmund Standing. Será que ele conseguiria fazer um novo caso de acusação melhor? Eu sinceramente duvido…

Escrito por lucianohenrique

dezembro 17, 2009 em 1:40 am

Livro: O Delírio de Dawkins, de Alister McGrath e Joanna McGrath

com 7 comentários

Livro: “O Delírio de Dawkins ” (The Dawkins’ Delusion), de Alister McGrath e Joanna McGrath, 160 páginas, Tamanho 14×21, Editora: Mundo Cristão.

Eis que começa aqui uma seção do blog focada em discutir livros interessantes ao leitor, que podem ajudar a complementar o material aqui publicado.

Antes de tudo, devo dizer que o livro de McGrath, que é doutorado em biofísica molecular e atualmente é teólogo na Universidade de Oxford (a mesma onde Dawkins leciona), possui um tom diferente deste blog. Ainda assim, é uma obra bastante interessante.

A principal diferença entre McGrath e o meu estilo é que o teólogo não usa as armas do adversário. Eu uso.

Aprendi, desde a infância, que sempre que estivesse diante de um adversário que fosse me atacar, o meu modelo de ação seria duelar com a mesma proporção de força (ou até maior) que ele.

Um exemplo: se alguém me chamar para uma briga, e esse adversário quiser uma luta com facas, obviamente eu vou usar uma faca também. E, de preferência, que seja mais afiada que a faca dele. Não vou brigar de mãos limpas, senão eu acabarei derrotado mais fácil.

Por isso, o meu estilo é de atacar o neo ateísmo NO MESMO TOM que o Richard Dawkins ataca a religião. Se ele desrespeita os religiosos, eu desrespeito os neo-ateus. Se ele usa de ofensas, eu o ofendo. E faço isso sem o menor peso de consciência. É assim que eu sou, é assim que eu consegui todos os resultados de minha vida, e não mudarei o meu estilo.

Só que McGrath é partidário de outro estilo: ele não usa as mesmas armas de Dawkins. Ele é polido, educado, praticamente um gentleman. E mesmo assim, ele também possui argumentos muito bons.

Outra diferença é que as refutações de McGrath não são tão detalhistas como as que tenho feito na seção “Index Reverso”.

O livro possui apenas 160 páginas, e não tenciona refutar TODOS os argumentos de Dawkins. Um exemplo disso é quando McGrath comenta os erros de Dawkins na análise do argumento de São Tomás de Aquino, mas não fala muito dos erros de abordagem que o biólogo cometeu na análise de argumentos de Anselmo e no “argumento da beleza”.

Noto, por isso, que McGrath não tem por intenção AUDITAR E INVESTIGAR Dawkins, e sim refutar alguns pontos que ele considera importantes, de forma a aniquilar alguns pontos centrais do “caso” dawkinista.

Isso explica-se pelo fato de que meu background é da auditoria e da investigação de fraudes para a Governança, ao passo que McGrath é um professor e teólogo. Eu sou acostumado a lidar com gente barra pesada, e ele provavelmente vive em um mundo mais “light’. Antes de virar consultor, eu já investiguei e reuni várias evidências contra pessoas que cometiam fraudes corporativas. Em vários casos, o material produzido resultou, nas situações mais amenas, em demissão por justa causa, e, em cenários mais graves, processos judiciais. É por isso que sou acostumado com análises detalhadas, ponto-a-ponto. McGrath, aparentemente pelo background acadêmico, provavelmente não está avaliando Dawkins da mesma forma que se investigasse um suspeito. E, para mim, Dawkins, é avaliado como um suspeito.

Isso tudo acima foi para mostrar o que você poderá encontrar no livro de McGrath que não encontra neste blog, e o que se encontra neste blog, que você não encontrará no livro de McGrath. É por isso que eu sugiro tal obra como leitura complementar, e não referência básica.

Entre os destaques está a parte em que McGrath mostra que as tentativas de Dawkins ridicularizar a religião (comparando-a com a crença em Papai Noel, por exemplo) são erros argumentativos básicos, a ridicularização de teses como vírus da mente e memética, as comparações entre o modelo de dicotomia entre ciência e religião com a doutrinação soviética feita nos anos 50 pelos marxistas, e daí por diante.

Em geral, é uma avaliação simples e direta.

Como já dito, o objetivo de McGrath não é o de uma AUDITORIA, portanto não espere que Dawkins esteja 100% refutado em “O Delírio de Dawkins”, só que o livro é útil como um material de APOIO a qualquer um que queira saber como refutar o biólogo neo ateu.

Entre os pontos negativos, creio que o fato de McGrath tratar o ateísmo em si como fundamentalista um equívoco, pois eu prefiro a estratégia de atacar APENAS o neo-ateísmo, sem focar em ataques ao ateísmo como um todo.

Mas não se pode ter tudo.

No geral, o livro está aprovado.

Escrito por lucianohenrique

dezembro 5, 2009 em 4:11 am

Deus, Um Delírio – Capítulo 3 – Pt. 2 – O Anacronismo de Dawkins em seu duelo com Anselmo

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Após Dawkins implementar suas 3 vias sobre o argumento de Aquino e tropeçar vergonhosamente, esta é a seção do livro em que ele trata do argumento ontológico, proposto por Santo Anselmo em 1078.

Curiosamente, o argumento de Anselmo é bastante polêmico, e Dawkins poderia facilmente ter conseguido uma pontuação.

E nem com essa facilidade toda, ele consegue se dar bem.

Nota-se que Dawkins pode até ter alguns talentos para a Biologia, mas para discutir Teologia ele é incapaz.

Em grande parte da análise de Dawkins, a estratégia dele se baseia no estratagema erístico de ampliação indevida da argumentação do oponente. Esse estratagema é baseado em exagerar a declaração de um oponente, para então refutar esta versão exagerada, fingindo que refutou o argumento original.

De resto, Dawkins teria que torcer para que os leitores não percebessem sua implementação de erística.

Duvido que os leitores dele tenham notado, mas qualquer pessoa com visão cética e com conhecimentos em lógica descobre o logro.

Vamos então ao que Dawkins afirma sobre o argumento ontológico.

O mais famoso dos argumentos a priori, aqueles que se baseiam na pura racionalização teórica, é o argumento ontológico, proposto por santo Anselmo de Canterbury em 1078 e reeditado de formas diferentes por vários filósofos desde então. Um aspecto bizarro do argumento de Anselmo é que ele não se dirigia originalmente aos seres humanos, e sim ao próprio Deus, na forma de uma oração (e você que achava que uma entidade capaz de ouvir uma oração não precisaria ser convencida da sua própria existência). É possível conceber, disse Anselmo, um ser sobre o qual nada de melhor possa ser concebido. Até mesmo um ateu consegue conceber um ser tão superlativo, embora negue sua existência no mundo real. Mas, prossegue o argumento, um ser que não existe no mundo real é, exatamente por esse fato, menos que perfeito. Portanto temos uma contradição e, presto, Deus existe!

Somente esse parágrafo acima já seria suficiente para derrubar Dawkins em todo o seu “caso” contra Anselmo.

Uma análise detalhada sobre o argumento de Anselmo mostra que o teólogo NÃO PRETENDEU provar que Deus existe, mas sim explicar Deus a partir de premissas aceitas.

Ele é um argumento a priori, que por sua natureza é focado na pura racionalização teórica.

O argumento ontológico não é feito, portanto, para provar a existência de Deus, mas sim para explanar um raciocínio na qual Deus já estaria pré-definido, portanto isso não poderia ser exigido do argumento de Anselmo.

A frase de Dawkins “Portanto, temos uma contradição e, presto, Deus existe!” é o caso do estratagema erístico de ampliação indevida.

Dawkins critica Anselmo por algo que ele não tentou fazer.

Não é, portanto, intenção de Anselmo na direção de evidenciar Deus, mas sim fazer uma análise a partir de uma conceituação a respeito de Deus.

Sinceramente, não dá para entender como Dawkins se complicou tanto, pois qualquer pessoa que vai investigar um argumento deve usar o seguinte framework:

  • O que autor X tentou alegar?
  • Sendo essa alegação identificada, a refutação será feita em cima dessa alegação.
  • Sem uma alegação identificada, não há o que refutar.

É extremamente simples, portanto o erro de Dawkins é imperdoável.

É um tipo de erro tão crasso que muitos leitores dele poderiam até alegar que foi erro de digitação, mas essa hipótese é derrubada pois ele repete o seu erro a seguir:

Deixe-me traduzir esse argumento infantil para a linguagem apropriada, a linguagem do parquinho: “Aposto com você que consigo provar que Deus existe.” “Aposto que não consegue.” “Tudo bem, então. Imagine a coisa mais perfeita, perfeita, perfeita possível.” “Tá bom, e agora?” “Agora, essa coisa perfeita, perfeita, perfeita é de verdade? Ela existe?” “Não, está só na minha cabeça.” “Mas se ela fosse de verdade ela seria ainda mais perfeita, porque uma coisa perfeita perfeita de verdade teria que ser melhor que uma coisa imaginária boba. Então provei que Deus existe. Nananananã-ã. Os ateus são uns insensatos.” Fiz meu sabichão infantil escolher a palavra “insensatos” de propósito. O próprio Anselmo citou o primeiro verso do Salmo 14, “Diz o insensato em seu coração: Deus não existe”, e teve a ousadia de usar a palavra “insensato” (no latim insipiens) para seu ateu hipotético: Assim, até mesmo o insensato está convencido de que existe algo no entendimento, pelo menos, maior que o qual nada pode ser concebido. Pois, quando ouve isso, ele entende. E qualquer coisa que seja entendida existe no entendimento. E seguramente aquilo maior que o qual nada pode ser concebido não pode existir apenas no entendimento. Pois suponha que ele existe apenas no entendimento: então se pode conceber que ele exista na realidade; que é maior. A simples idéia de que conclusões grandiloqüentes possam ser derivadas de tamanhos truques de logomaquia já me é uma ofensa estética, portanto tenho de tomar cuidado para não sair brandindo palavras como “insensato”.

E aí que está o grande drama que aflige Dawkins.

Não há logomaquia alguma.

Ingenuamente, Dawkins imaginou uma situação em que um duelista argumentativo estaria tentando provar a existência de Deus, e, de novo, NÃO É ESSE O FOCO no argumento de Anselmo.

Portanto, no exemplo do parquinho, a única criança é Dawkins. Além disso, ele é uma criança com cara de choro. Ninguém mais entrou no parquinho. Só ele.

E a entrada no parquinho foi confirmada a partir do momento em que Dawkins imaginou que o argumento de Anselmo era uma tentativa de provar a existência de Deus.

Não sei se o personagem da historinha do parquinho de Dawkins era insensato, mas quanto ao biólogo inglês, ele é insensato com certeza.

É importante notar que o argumento de Santo Anselmo, que foi apresentado pela primeira vez no livro “Proslogion”, define Deus como “alguma coisa maior do que a qual nada se pode pensar” (aliquid quo nihil maius cogitari possit).

A dimensão mencionada por Anselmo não se referia a tamanho, mas sim de maior valor ou mais alto grau de perfeição que pode ser pensada.

Detalhe que não há nada definindo os atributos de Deus, pois nessa argumentação de Anselmo isso é irrelevante.

A diferença na argumentação de Anselmo é que ele diz que Deus tem todas as virtudes que podemos conceber em grau absoluto.

A seguir, Anselmo considera que algumas pessoas dizem que Deus não existe. Essas pessoas não poderiam negar a existência, ao menos conceitual, de Deus na mente.

Logo, é óbvio que para alguém dizer que “Não há Deus”, é preciso alguém ter em mente a idéia de Deus.

É aí que Anselmo recupera sua definição de “alguma coisa maior do que a qual nada se pode pensar”, e então diz que se há este ente na mente, ele existe também na realidade.

É aqui que há um nó górdio no argumento de Anselmo, que naturalmente o levou a ser bastante criticado.

Estranhamente, Dawkins não notou este ponto, que tratarei no próximo comentário.

Vamos ao próximo parágrafo…

As refutações mais definitivas do argumento ontológico costumam ser atribuídas aos filósofos David Hume (1711-76) e Immanuel Kant (1724-1804). Kant identificou a carta escondida na manga de Anselmo na frágil pressuposição de que a “existência” é mais “perfeita” que a inexistência.

Notem a tentativa de armar uma “arapuca” aos teístas.

Dawkins define como os principais refutadores de Anselmo Kant e Hume.

E por que ele excluiu São Tomás de Aquino da lista de refutadores?

Simples, pois se incluísse Tomás de Aquino, Dawkins não teria um “caso” contra a religião, principalmente a teologia católica.

Sendo que a Igreja católica jamais oficializou um apoio ao argumento de Anselmo, e o principal teólogo católico não aprovou o argumento, o potencial de ataque do argumento de Dawkins se esvai completamente.

O ataque só teria sido possível se Anselmo tivesse recebido APOIO da maioria dos teólogos religiosos, e principalmente da Igreja Católica, em seu argumento.

O problema é que até o momento (e nem daí para frente), Dawkins conseguiu perceber quais os pontos de crítica no argumento de Anselmo, que é justamente a premissa, que poderia ser discutível, e o uso da redução ao absurdo, que é justamente isso aonde se enquadra o argumento de Anselmo.

Só que Dawkins não conseguiu perceber isso, e, mais ainda, partiu para uma série de analogias totalmente estúpidas.

Antes disso, ele comenta seus percalços quando esteve presente em uma reunião de teólogos e filósofos:

Esqueci os detalhes, mas uma vez causei revolta numa reunião de teólogos e filósofos por ter adaptado o argumento ontológico de forma que ele provasse que os porcos sabem voar. Eles se sentiram impelidos a recorrer à Lógica Modal para provar que eu estava errado.

Mas o que isso importa?

Se usaram a Lógica Modal para tratar a questão, fizeram corretamente.

O que importa é que Dawkins foi refutado.

E é natural que Dawkins cause revolta, mas não pelos motivos que ele pensa. A revolta pode ser causada pelo fato de alguém tão incapaz no raciocínio filosófico querer discutir um argumento filosófico.

Não é diferente do comportamento que Dawkins teria se visse alguém totalmente ignorante quanto à teoria da evolução se predispondo a criticá-la.

Um exemplo da insanidade filosófica de Dawkins fica de novo evidente a seguir:

Infelizmente, a famosa história de Diderot, o grande enciclopedista do Iluminismo, e Euler, o matemático suíço, é duvidosa. De acordo com a lenda, Catarina, a Grande, promoveu um debate entre os dois, no qual o pio Euler lançou ao ateu Diderot o desafio: “Monsieur, (a + bn)In = x, portanto Deus existe. Rebata!”. O ponto essencial da lenda é que Diderot não era matemático e, portanto, teve de se retirar, intimidado. Contudo, como B. H. Brown salientou no American Mathematical Monthly, em 1942, Diderot era realmente um bom matemático, e teria sido improvável que sucumbisse ao que pode ser chamado de Argumento para Cegar Usando a Ciência (nesse caso, a matemática).

Dawkins, como sempre, está errado.

A tática de Euler foi a estratégia erística do Argumento ad auditores (estratagema número 28 da Dialética Erística, de Schopenhauer, ao passo que o argumento de Anselmo é um reduction ad absurdum.

Portanto, é irrelevante Dawkins ter trazido o caso do debate entre Euler e Diderot na questão na análise do argumento de Anselmo.

Essa analogia de Dawkins foi completamente estúpida e irracional.

Mais um desvio de foco de Dawkins vem a seguir:

David Mills, em Atheist universe, transcreve uma entrevista de rádio que concedeu a um representante religioso, que invocou a lei da conservação da massa-energia numa tentativa inútil e estranha de cegar usando a ciência: “Como somos todos compostos de matéria e energia, aquele princípio científico não empresta credibilidade à crença na vida eterna?” Mills respondeu com mais paciência e mais educação do que eu teria respondido, porque o que o entrevistador estava dizendo, traduzido, não passava de: “Quando morremos, nenhum dos átomos de nosso corpo (e nenhuma energia) se perde. Portanto, somos imortais”. Nem eu, em minha longa experiência, tinha encontrado um pensamento positivo tão bobo.

Engraçado que isso não tem nada a ver com o argumento de Anselmo.

E é um pensamento similar ao argumento do gene egoísta, criado pelo próprio Richard Dawkins, para dizer que “nossos genes são imortais”.

Será possível que Dawkins tem problemas de concentração?

Só pode, pois de uma hora para outra ele começou a FUGIR de comentar o argumento de Anselmo.

O desespero dawkinista, no entanto, vem ao final:

Já cruzei, no entanto, com muitas das maravilhosas “provas” reunidas em http://www.godlessgeeks.com/LiNKS/GodProof.htm, uma lista engraçadíssima de “Mais de Trezentas Provas da Existência de Deus”. Leia uma hilária meia dúzia, começando com a prova número 36. 36 Argumento da Devastação Incompleta: Um avião caiu matando 143 passageiros e tripulantes. Mas uma criança sobreviveu só com queimaduras de terceiro grau. Portanto, Deus existe. 37 Argumento dos Mundos Possíveis: Se as coisas tivessem sido diferentes, as coisas seriam diferentes. Isso seria ruim. Portanto, Deus existe. 38 Argumento do Puro Desejo: Creio mesmo em Deus! Creio mesmo em Deus! Creio, creio, creio, creio. Creio mesmo em Deus! Portanto, Deus existe. 39 Argumento da Descrença: A maioria da população do mundo é de pessoas que não acreditam em Deus. Isso era exata-mente o que Satã queria. Portanto, Deus existe. 40 Argumento da Experiência Após a Morte: A pessoa X morreu atéia. Hoje ela percebe seu erro. Portanto, Deus existe. 41 Argumento da Chantagem Emocional: Deus o ama. Como você pode ser tão insensível e não acreditar nele? Portanto, Deus existe.

Notem a forma melancólica que Dawkins escolheu para terminar um texto argumentativo.

Simplesmente colando uma série de argumentos espantalhos, que supostamente teriam sido escritos por teístas, mas na verdade NÃO FORAM.

Isso não é jeito de alguém adulto tratar um “caso” argumentativo.

E querem ver como é fácil usar esse estratagema?

Vejam todos os argumentos “traduzidos” para versão ateísta: “Mais de Trezentas Provas da Inexistência de Deus. Leia uma hilária meia dúzia, começando com a prova número 36. 36 Argumento da Devastação Incompleta: Um avião caiu matando 143 passageiros e tripulantes, e só sobreviveu uma criança com queimaduras de terceiro grau. Portanto, Deus não existe. 37 Argumento dos Mundos Possíveis: Se as coisas tivessem sido diferentes, as coisas seriam diferentes. Isso seria bom. Portanto, Deus não existe. 38 Argumento do Puro Desejo: Creio mesmo que Deus não exista! Creio mesmo que Deus não exista! Creio, creio, creio, creio. Creio mesmo que Deus não exista! Portanto, Deus não existe. 39 Argumento da Descrença: A maioria da população do mundo é de pessoas que não acreditam em Deus. Isso era exatamente o que Marx não queria. Portanto, Deus não existe. 40 Argumento da Ausência de Experiência Após a Morte: A pessoa X morreu atéia. Hoje ela não percebe nada, pois não há vida após a morte. Portanto, Deus não existe. 41 Argumento da Chantagem Emocional: Deus não o ama. Como você pode ser tão insensível e acreditar nele? Portanto, Deus não existe.”

Agora, uma pergunta: ficar criando espantalhos de argumentos e fingindo que eles são do oponente é uma forma adulta de apresentar um “caso” de acusação?

Obviamente que isso é o que ajuda a destruir a peça de argumentação de Dawkins.

E o mais constrangedor é que ele tentou atacar um argumento que não é muito difícil de ser atacado, mas todas as objeções encontradas por Dawkins foram inválidas.

Quer dizer, até os pontos passíveis de crítica no argumento de Anselmo, que realmente existiam, não foram encontrados por Dawkins.

Sinal de que ele não foi muito atento. Ou não está preparado para esse tipo de auditoria investigativa em argumentos.

Aposto na segunda opção.

Ademais, Dawkins ataca o argumento de Anselmo com séculos de atraso, muitos séculos depois de São Tomás de Aquino já tê-lo refutado (e o mesmo Kant fez, mas somente depois de Aquino), ou seja, um caso grave de anacronismo.

Portanto, qualquer crítica ao argumento de Anselmo não serve mais como uma crítica à religião.

Escrito por lucianohenrique

dezembro 3, 2009 em 12:05 am

Técnica: Não se prova inexistência

com 63 comentários

Última atualização: 25 de novembro de 2009 – [Índice de Técnicas]- [Página Principal]

Essa é uma técnica usada várias vezes por neo ateus em debates, na tentativa de transferir o ônus da prova ao teísta, e, em seguida, simular uma falsa declaração de vitória, afirmando “Deus não Existe”.

O estratagema inicia-se por uma declaração absurda, geralmente praticada desta forma: “não se prova inexistência, somente existência”.

Quem já atuou com auditoria e já forneceu relatórios de inexistência de gaps em um cenário sabe que a afirmação é impraticável. Tecnicamente, podemos observar existência ou inexistência de um dado fator em análise em qualquer cenário. O que pode DIFICULTAR é a AMPLITUDE de um cenário. Mas isso é um encargo a ser tratado pelo PROPONENTE da alegação, e não a audiência.

Exemplo: dizer que não há gaps em um processo, na empresa, é fácil. Basta uma auditoria simples. Dizer que não há gaps em todos os processos da empresa é bem mais difícil. Dizer que não há gaps em todos os processos de todas as empresas do Brasil então, é muito mais difícil ainda.

Mas nada disso é impossível. A dificuldade vem apenas da PROPOSTA.

Portanto, se alguém quiser afirmar inexistência de qualquer objeto sob análise, a pessoa pode fazer, mas apenas deve estar CIENTE de que o nível de dificuldade AUMENTA de acordo com a amplitude do cenário.

Com isso, a afirmação “não se prova inexistência” mostra-se não só filosoficamente, com também empiricamente falsa.

Prova-se inexistência SIM, da mesma forma que se prova existência.

Só que se o outro debatedor não perceber o logo, o neo ateu poderá tentar concluir o seu estratagema da seguinte forma: “Não se prova a inexistência, só se prova a existência, você tem que provar que Deus existe, e se você não provar, Deus não existe”. Ao final, ele irá proclamar a vitória no debate.

Mas, de novo, tal estratagema só é aplicável pela inserção da afirmação falsa “não se prova a inexistência”.

Essa é a premissa falsa do argumento, e cabe ao debatedor teísta mostrar que a premissa é falsa, incluindo o uso de exemplos.

Uma outra tentativa do neo ateu, para então justificar o uso da afirmação “Não se prova a inexistência” seria o fato de que se provar a existência é mais fácil do que se provar a inexistência.

E nisso ele está correto. Realmente é mais fácil provar a existência do que se provar a inexistência.

Só que a facilidade em se provar uma crença não tem qualquer relação com a veracidade ou não dessa mesma crença.

E, novamente, isso não muda o ônus da prova.

Refutação

Basicamente, o importante é mostrar ao neo-ateu que a afirmação “Não se prova a inexistência” é insensata.

  • NEO-ATEU: Você tem que provar que Deus existe!
  • REFUTADOR: Não, quem está duvidando é você, é você que deve provar que Deus não existe.
  • NEO-ATEU: Claro que não, pois não se prova a inexistência, somente a existência.
  • REFUTADOR: Errado. Prova-se tanto uma como a outra…

[A partir daí, os exemplos são suficientes para derrubar a argumentação ateísta]

Conclusão

Técnica que é basicamente uma especialização da “Solicitação de Alegação”, sendo principalmente uma argumentação para continuar defendendo o uso daquela técnica, cuja natureza era focada em transferir o ônus da prova. E, da mesma forma, não passa da mistura da falácia da transferência do ônus da prova com o apelo à ignorância.

Escrito por lucianohenrique

novembro 26, 2009 em 12:08 am

Deus, Um Delírio – Capítulo 1 – Pt. 3:1 – E começa a pregação a favor do desrespeito…

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Esse é o terceiro artigo da série de textos para refutar o capítulo 1 do livro “Deus, Um Delírio”.

Os dois textos anteriores ([1] e [2]) falavam de trechos até amenos do livro, em que Richard Dawkins tentou implantar sua idéia (boba) de que Stephen Hawking, Ursula Goodenough e Albert Einstein estavam distantes de Deus e da religião. Mas lá era só o comecinho, ele estava provavelmente em ponto morto…

A partir de agora é que Dawkins começa a meter o pé na jaca.

Basicamente é o começo da diatribe contra a religião.

A meta de Dawkins é afirmar que o respeito que a sociedade possui pela religião é EXCESSIVO, e daí ele tentará justificar o seu DESRESPEITO com a religião. Esse, aliás, é o principal “caso” do primeiro capítulo.

Não passa, na verdade, de uma justificação para a intolerância dele.

Vamos começar…

É possível que leitores religiosos fiquem ofendidos com o que tenho a dizer, e encontrem nestas páginas um respeito insuficiente por suas crenças específicas (se não às crenças cultivadas por outras pessoas). Seria uma pena que essa ofensa os impedisse de continuar a ler, por isso quero esclarecer o problema aqui, logo de saída. Uma pressuposição disseminada, aceita por quase todos em nossa sociedade — incluindo os não religiosos —, é que a fé é especialmente vulnerável às ofensas e que deve ser protegida por uma parede de respeito extremamente espessa, um tipo de respeito diferente daquele que os seres humanos devem ter uns com os outros.

Hmm… o que se nota é algo bem diferente.

Alguns religiosos realmente ficam ofendidos, mas não é isso que causaria desmotivação para a leitura.

Teoricamente, o ser humano, quando ofendido, procura investigar o seu ofensor, para então acusá-lo ou atacá-lo.

No caso, uma outra alternativa, a que escolhi, é partir para a refutação, que acho muito mais divertida e agradável de se fazer, e ainda assim exponho a argumentação ruim e as fraudes de Dawkins à todos.

Só que Dawkins cria um espantalho, ao dizer que os religiosos pedem um tipo de respeito DIFERENTE daquele que os seres humanos devem ter uns com os outros. Mostrarei aqui, ao longo deste texto (e do seguinte, que juntos compõem um artigo só), que não há tal solicitação por vantagens adicionais vindas de religiosos. O caso é que Dawkins não quer dar à religião nem o mesmo o respeito que é ofertado a outros seres humanos. Dawkins quer OFENDER a religião e os religiosos.

Mostrei aqui, no artigo anterior, como ele cita a “mente religiosa” pejorativamente. Assim como várias vezes usará termos ofensivos, e também citará a “mente teológica”. Também usará termos como delírio (mal utilizado, diga-se) para se referir aos religiosos. E isso é só o começo…

Não passa de um precedente perigoso, que abre espaço para uma retaliação devida. Já que todo ser humano tem o direito (a meu ver além disso tem o DEVER) de não ser ofendido.

As várias ofensas que Dawkins faz à religião são respondidas principalmente com argumentos, mas o fato é que muitas ofensas são dirigidas aos religiosos também.

Isso pode acontecer pelo fato de que Dawkins não consegue abrir seus “casos” de maneira convincente.

O caso dele é contra o respeito à religião? Ou respeito à qualquer crença?

Pois eu posso usar o precedente aberto por Dawkins e então SOMENTE tratá-lo (e a seus leitores) somente a partir desse novo paradigma? Sendo assim, a partir daí eu poderia ofender um neo ateu sem qualquer limite?

Mas não me rebaixarei ao nível de Dawkins. Melhor refutar, pura e simplesmente, e expor a fraude dawkinista.

Mas vamos em frente:

Douglas Adams explicou tão bem, num discurso de improviso que fez em Cambridge pouco antes de morrer, que nunca me canso de divulgar suas palavras: A religião [...] tem determinadas idéias em seu cerne que denominamos sagradas, santas, algo assim. O que isso significa é: “Essa é uma idéia ou uma noção sobre a qual você não pode falar mal; simplesmente não pode. Por que não? Porque não, e pronto!”. Se alguém vota em um partido com o qual você não concorda, você pode discutir sobre isso quanto quiser; todo mundo terá um argumento, mas ninguém vai se sentir ofendido. Se alguém acha que os impostos devem subir ou baixar, você pode ter uma discussão sobre isso. Mas, se alguém disser: “Não posso apertar o interruptor da luz no sábado”, você diz: “Eu respeito isso”. Como é possível que seja perfeitamente legítimo apoiar o Partido Trabalhista ou o Partido Conservador, republicanos ou democratas, um ou outro modelo econômico, o Macintosh e não o Windows — mas não ter uma opinião sobre como o universo começou, sobre quem criou o universo [...] não, isso é sagrado? [...] Estamos acostumados a não questionar idéias religiosas, mas é muito interessante como Richard causa furor quando o faz! Todo mundo fica absolutamente louco, porque não se pode falar dessas coisas.

Isso mostra que Douglas Adams só servia para escrever livros de ficção.

Quando saiu deste território, sua declaração sobre religião foi um desastre.

Para começar, é falaciosa. Ele afirma: “Essa é uma idéia ou uma noção sobre a qual você não pode falar mal; simplesmente não pode. Por que não? Porque não, e pronto!”

Mentira deslavada.

Isso pode ser comprovado em nossa sociedade, em que católicos podem criticar o protestantismo, e os protestantes podem criticar os católicos. Dificilmente alguém vai ser morto ou preso por isso. Até ateus podem questionar os religiosos. Todo mundo pode questionar todo mundo, aliás. A única coisa que se pede, é claro, é que não se usem questionamentos ofensivos, cínicos, falaciosos, etc. De resto, a liberdade de questionamento é tamanha que a origem dos estados laicos veio oriunda das nações… religiosas.

Olhem quando ele diz que não é possível “ter uma opinião sobre como o universo começou, sobre quem criou o universo”.

Mentira de novo, pois Douglas nunca foi proibido de escrever sobre isso. Nem Dawkins. Ninguém foi.

Mas dá para notar a “agenda” escondida de Adams.

Querem ver?

Adams é desmascarado, definitivamente, quando diz: “Estamos acostumados a não questionar idéias religiosas, mas é muito interessante como Richard causa furor quando o faz!”

Aha… Quer dizer então que todo o cirquinho de Adams era para PROTEGER Dawkins em sua cruzada?

Mas de novo não passa de mentira de Adams.

Richard Dawkins não causa mais furor aos religiosos do que os revisionistas do Holocausto causam aos judeus. Ou então o furor que os adeptos da Ku Klux Klan causam à comunidade afro-americana.

Simplesmente, as reclamações contra Dawkins são por questões de ofensa e DIFAMAÇÃO.

A desonestidade intelectual de Adams fica evidente quando ele usa 3 mentiras seguidas relacionadas à religião somente para defender sua “agenda” particular.

É… eu avisei.

Eu falei que ia avaliar os textos de Dawkins com a visão de um consultor em auditoria especializado em identificação de fraudes. Uma das partes mais comuns da auditoria especializada em investigação é identificar se alguém tem uma “agenda”, na tentativa de proteger outras pessoas com os mesmos interesses, ou até mesmo seus interesses particulares. É vital para identificar situações de conflitos de interesses.

Eu suspeitei logo de cara quando vi que tinha muito espantalho na declaração de Adams.

Acho que não foi uma boa idéia de Dawkins citar o Douglas Adams…

Ah, antes que eu me esqueça: que raios significa essa declaração de que “Todo mundo fica absolutamente louco, porque não se pode falar dessas coisas”?.

Vamos lá: é todo mundo mesmo? Ou 80%? Não seria 70%? Que tal 33,56%? Desse percentual, eles ficam loucos porque não se pode falar de religião ou só ficam indignados com ofensas?

Mais uma informação anedótica de Douglas Adams, portanto. Se as outras 3 eram mentiras esfarrapadas, vou dar um desconto a ele e catalogar esta quarta “informação maliciosa” somente como anedota.

Tudo isso em um parágrafo só.

Que beleza, não?

Se é para mentir, Dawkins também estava inspirado neste capítulo:

De longe o meio mais fácil de obter permissão para ser dispensado do serviço militar em tempos de guerra é por motivos religiosos. Você pode ser um filósofo brilhante da moralidade, com uma tese de doutorado premiada sobre os males da guerra, e mesmo assim pode ter dificuldade diante dos avaliadores para ser dispensado por motivos de consciência. Mas, se você disser que seus pais são quakers, consegue fácil, mesmo que seja completamente iletrado e desarticulado quanto à teoria do pacifismo ou até quanto ao próprio quakerismo.

De onde foi que Dawkins tirou a idéia estapafúrdia de que há mais facilidade por esse aspecto? Quais os dados que sustentam essa alegação?

Não aparenta mais que a birrinha de alguém que quer pregar a teoria de um suposto privilégio da religião, mas que não consegue provar como. É só sair proclamando contra a religião, e torcer para que ninguém audite seu texto. Não foi desta vez, Dawkins…

Simplesmente não é nem preciso comentar a alegação, pois Dawkins apenas tem em mãos uma evidência anedota, não sustentada estatisticamente, portanto é irrelevante do ponto de vista do “caso” dele.

Abaixo segue o momento que esse pessoal neo ateísta geralmente usa para provocar o “ohhh…” e apelar para a emoção fácil da platéia mais inocente.

Notem o dramalhão:

No outro extremo do espectro do pacifismo, temos uma relutância pusilânime em usar nomes religiosos para facções de guerra. Na Irlanda do Norte, católicos e protestantes ganham os nomes eufemistas de “nacionalistas” e “legalistas”, respectivamente. A própria palavra “religiões” é censurada e transformada em “comunidades”, como em “guerra intercomunidades”. O Iraque, em conseqüência da invasão anglo-americana de 2003, entrou numa guerra civil sectarista entre muçulmanos sunitas e xiitas. É claramente um conflito religioso — mas no The Independent do dia 20 de maio de 2006 tanto a manchete de primeira página quanto a notícia o descreviam como “limpeza étnica”. “Étnica”, nesse contexto, é mais um eufemismo. O que estamos vendo no Iraque é uma limpeza religiosa. Também é possível argumentar que o uso original do termo “limpeza étnica” na ex-lugoslávia tenha sido um eufemismo para limpeza religiosa, envolvendo sérvios ortodoxos, croatas católicos e bósnios muçulmanos.

A regra, nesta parte do livro, parece ser a mentira deliberada mesmo.

Dawkins tenta abrir três “casos”, sobre os conflitos na Irlanda do Norte, no Iraque e na Iugoslávia, respectivamente.

Só que Dawkins precisa MENTIR para dar avanço nos “casos”.

Vamos aqui desmascarar mentira por mentira.

(1) Na questão da Irlanda do Norte, realmente existe um traço cultural ORIGINADO da religião, isso é um fato. Mas daí a dizer que é POR CAUSA da religião que o conflito ocorre, é preciso de uma credulidade acima de qualquer limite aceitável. O fato é que por fatores políticos, os protestantes e unionistas se aliaram ao domínio britânico, ao contrário dos que lutavam pela independência, do lado nacionalista e conservador, com forte apoio católico. É óbvio, portanto, que o conflito foi originado pelo domínio britânico na região, sendo que existiam pessoas que rejeitaram o domínio.  Transformar isso em ‘conflito religioso” é de uma ingenuidade ímpar. Claro que Dawkins, que é inglês (opa, não seria um VESTED INTEREST aí, não? – ele livraria a cara do governo britânico para jogar a culpa na religião… ), tenta maquiar a realidade e talvez queira esconder o fato de que o governo de seu país ocupou militarmente o Ulster em 1969, e em seguida dissolveu o Parlamento de Belfast, assumindo as funções políticas e administrativas. Qual seria a proposta do Dawkins? Será que ele quer dizer que, sem religião, não existiriam opositores ao domínio britânico? Ah, Dawkins, vá plantar batatas!

(2) Na questão do Iraque, desde os tempos dos curdos, a limpeza étnica era um mantra do governo de Saddam Hussein. Nesse caso, os curdos eram considerados um fator de desestabilização do equilíbrio entre os Estados Unidos e a União Soviética. Como eram um “perigo” ao governo do Iraque, e os Estados Unidos e a Rússia não tinham interesse nenhum em protegê-los, tornaram-se vítimas fáceis. Ou será que Dawkins quer que ingenuamente acreditemos que Saddam Hussein acordou um dia e disse: “ah, eles não são de minha religião, vamos acabar com eles”. De novo, a ingenuidade necessária para acreditar nisso ultrapassa qualquer limite lógico. E o mesmo vale para a Guerra Civil do pós-guerra em 2006, em que novas limpezas étnicas ocorreram, e em alguns casos até contra cristãos, o que, no caso, não passou de rejeição à cultura ocidental. Será que Dawkins acha que se viesse uma fadinha e fizesse “plim”, transformando todo mundo em ateu, não iriam existir os conflitos? De novo… vá enrolar outro!

(3) A mesma coisa ocorria na Iugoslávia, claramente não só um conflito étnico, como também um conflito por independência. Em meados da Segunda Guerra Mundial, durante a ocupação nazista, os croatas massacraram a população civil sérvia, matando cerca de 40.000 pessoas. Após a Guerra, o Partido Comunista Iugoslavo assumiu o controle das montanhas, expulsou os nazistas e unificou todos os reinos da Iugoslávia, incluindo Sérvia, Croácia e a Bósnia. Só que isso só foi garantido por uma forte ditadura, e além do mais o rancor dos tempos da guerra uma hora iria explodir. Foi o que ocorreu quando primeiramente a Eslôvenia, e depois a Croácia e a Bósnia, declararam unilateralmente suas independências. Os sérvios foram com tudo para cima dos povos que tentaram suas independências, e partiram primeiro para cima dos croatas, que foram vítimas de limpeza étnica pelos sérvios. Ver motivação religiosa nisso é naturalmente um delírio.

Fica evidente nos 3 casos que Richard Dawkins mentiu vergonhosamente para imputar culpa à religião.

Notaram o modus operandi dele?

É assim que funciona a lógica darwinista: se há guerra entre dois povos, e estes são de religiões diferentes, a culpa é da religião.

É uma falácia grosseira de generalização apressada, que não é sustentada após qualquer avaliação cética sobre a história dos eventos.

Mas sempre é importante lembrar que o “caso” de Dawkins é dizer que as guerras são JUSTIFICADAS por causa da religião.

Só uma coisa: qual dessas guerras foi considerada JUSTIFICÁVEL por religião?

Que eu saiba, nenhum desses conflitos obtém justificação por esse motivo.

Vamos realizar a situação… será que Dawkins imagina que se a religião fosse eliminada dos cenários, as pessoas parariam de lutar? A Inglaterra iria desistir de ter a Irlanda como colônia? Ou será que os irlandeses não iriam ter motivação para lutar pela independência? Será que Sadam Hussein não teria vontade de jogar armas químicas nos curdos? E não existiria uma guerra civil posteriormente? Será que os croatas não iriam ter motivação para trucidar os sérvios na fase da unificação? Quem sabe talvez os sérvios não iriam pensar em vingança na época das independências dos reinos da Iugoslávia?

Bom, será que Dawkins imagina que todos iriam ficar ouvindo a música “Imagine”, de John Lennon, e a partir daí não lutariam mais?

A molecada tem que ser muito ingênua para COMPRAR ESSA IDÉIA…

Imaginem só a cabeça de um aborrescente altamente influenciável: “Ohh…. veja os curdos que foram exterminados, tudo por causa da religião. Se não existisse a religião, sérvios e croatas jamais brigariam. Todos viveriam em paz. Assim como na Irlanda, que jamais revidaria ao Império Britânico.”

Aí o sujeito contabiliza as mortes em todos esses conflitos e sai pregando: “está vendo como a religião é má?”.

Agora entende-se um dos principais motivos pelos quais os neo ateus lutam tão FERRENHAMENTE contra a religião.

É com manipulação de informação deste tipo que os leitores de Dawkins saem incentivados a pregar contra a religião e os religiosos.

Aos leitores religiosos: atenção, não duvido que eles nos chamem de CÚMPLICES de massacres sérvios, massacres croatas, massacres contra curdos e sunitas, ou até dos atentados do IRA. Ao menos cúmplices morais, claro.

Ou de onde surgiria tanto ódio contra religiosos?

Um dos motivos está nesse tipo de apelo emocional que o Dawkins tentou fazer, manipulando informações, e tentando jogar a platéia ateísta (ao menos os que debandaram para a campanha neo ateísta) contra os religiosos.

Como eu falei, a partir dessa parte do livro é que Dawkins começa a meter o pé na jaca.

Esses trechos comentados nesse artigo, em sua maioria, não passam de DIFAMAÇÃO, pura e simples, com informações evidentemente falsas, grande apelo emocional, como foco na DEMONIZAÇÃO do oponente.

Fica claro que o Richard Dawkins joga sujo.

E olhe que ainda há mais dois textos pela frente só para refutar o restante do Capítulo 1.

P.S. – Sim, anteriormente seriam quatro textos para refutar o Capítulo 1. Entretanto, para evitar textos excessivamente longos, este terceiro artigo foi dividido em duas partes, sendo a primeira delas esta que você leu. A parte 3:2 será publicada provavelmente na próxima atualização deste blog. Ainda nessa semana, publicarei a parte 4 (e última) da refutação, o que contabilizará 5 textos (sendo 2 relacionados ao artigo nr. 3) refutando o primeiro capítulo de “Deus, Um Delírio”.

Escrito por lucianohenrique

novembro 11, 2009 em 12:06 am

Técnica: Alegação de passado religioso

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Última atualização: 06 de novembro de 2009 – [Índice de Técnicas]- [Página Principal]

Técnica que está atualmente virando moda entre alguns neo-ateus do mercado. Em especial, Bart Erhman, Hector Avalos e Dan Barker.

A idéia deles é afirmarem que foram ex-religiosos, talvez com o objetivo de que suas declarações anti-religião adquiram maior respaldo por sua experiência.

O problema é que tal alegação só seria aceita se os interlocutores não fossem nem um pouco céticos, pois a declaração de que alguém viveu uma experiência não implica em que a descrição da experiência é a real. [N.E. - Detalhe: é exatamente esse um dos principais princípios que eles usam para negar a religião]

Por exemplo, imaginem alguém que tenha tido um casamento e saiu do mesmo, alegando decepção, e decidiu daí para frente viver solteiro.

Seria esta pessoa a mais ideal para definir como é o casamento? Claro que não.

Da mesma forma, imaginem alguém que resolveu ser gerente de projetos, e depois abandonou a profissão, indo para uma área totalmente diferente.

Seria esta a pessoa a mais ideal para definir como é a gestão de projetos? Novamente, claro que não.

Não que a experiência em si deva ser descartada, mas é possível que esteja maquiada por experiências desalentadoras, em muitos casos amostras não representativas.

Como agravante, ainda existe o problema de que a declaração é uma evidência anedota.

Por exemplo, eu já fui ateu. Mas não saio declarando coisas contra o ateísmo especificamente por causa disso. Justamente pelo meu treino em ceticismo, que automaticamente sinaliza que a evidência não serve. O máximo que eu poderia descrever seria minha experiência com o ateísmo, e não o ateísmo em si. Só que qualquer um poderia dizer que minha experiência com o ateísmo “não é amostra representativa”, e, portanto, descartá-la.

Aparentemente, para pessoas facilmente sugestionáveis, o estratagema obtém algum efeito. Não é raro algum neo ateu chegar e afirmar “ohhh… ele já foi religioso, portanto ele pode criticar com propriedade”.

Existe até a variação em que o próprio neo ateu declara ele próprio ter sido religioso, e, assim como os autores já citados, provavelmente tenta obter o mesmo efeito psicológico sobre pessoas pouco céticas.

O detalhe é que, somando-se os dois fatores (evidência anedota + declaração com viés), qualquer declaração deste tipo tem valor nulo em termos de evidência.

Refutação

Basta explicar para a pessoa que tal tipo de declaração é apenas evidência anedota, e, para piorar, é uma declaração com viés. Existem duas situações relevantes:

(1) Debatendo com um neo ateu educado e respeitoso

Neste caso, a reciprocidade recomenda que orientemos o neo ateu em relação ao seu erro. Como exemplo:

  • NEO-ATEU: Já fui religioso, e a experiência não foi nada agradável.
  • REFUTADOR: Talvez para você. É sua opinião, claro, mas não reflete a religião.

[E daí por diante, respeitosamente, seguir o diálogo]

(2) Debatendo com um neo ateu arrogante e desafiador

Nessa situação, a melhor alternativa é desafiar o neo ateu da mesma forma. Veja:

  • NEO-ATEU: Estou aqui para desmascarar essa coisa nojenta chamada religião. E olhem: já fui religioso (!!!). [N.E. - Nesse momento, caso o debate seja público, talvez a platéia faça um som similar a "oohhhh", que aparenta um golpe quase letal aplicado pelo neo ateu no debate]
  • REFUTADOR: Você apenas afirma que foi religioso. Mas não prova. Portanto, isso que você afirmou não vale nada. É apenas uma anedota.
  • NEO-ATEU: Como você ousa duvidar de mim? Eu posso provar com fotos que já fui religioso.
  • REFUTADOR: Mesmo que você mostre fotos mostrando que já foi religioso, isso ainda não provaria muitas de suas declarações quanto à religião. Pode ser que você não tenha tido experiências negativas, mas esteja MENTINDO dizendo que teve experiências negativas. De novo, é evidência anedota. Vale tanto quanto um peido.[N.E. - Nesse estágio, o "golpe letal" do neo ateu já foi reduzido a pó]

[E assim, sucessivamente, sempre colocando o neo ateu em seu devido lugar]

Conclusão

Uma das mais eficientes maneiras de se derrubar um adversário em um duelo cético, conforme já mostrado pelo estrategista cético James Randi, é expor ao público que o adversário não possui nada além de evidências anedotas em sua declaração. Curiosamente, esse estratagema de declarar em público ter tido um passado religioso, para em seguida ofender a religião, não passa também de uma estratégia principalmente focada em evidência anedota. Portanto, pode ser tratada exatamente da mesma maneira que se trata a história do caseiro do sítio que alega ter visto um lobisomem ou a mula sem cabeça. É o ceticismo simples e direto.

Escrito por lucianohenrique

novembro 6, 2009 em 3:12 am

Deus, um Delírio – Os Prefacios da Baixaria 1 – Rejeição à crença na crença e erros sobre fundamentalismo

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fundamentalismo

Última atualização: 26 de outubro de 2009 – [Index Reverso][Página Principal]

Se você já leu, neste blog, a crítica ao livro “Deus, Um Delírio”, de Richard Dawkins, poderá talvez se interessar em conhecer profundamente todos os erros e bizarrices contido em tal obra.

Nesse texto, comentarei parte das esquisitices cometidas no “Prefácio à Edição de Bolso”, que está na mais recente edição do livro. Não comentarei o segundo Prefácio, pois ele aborda todos os temas deste no decorrer dos capítulos do livro (que serão criticados aqui também, em seu devido tempo).

Dawkins começa criticando aqueles intelectuais que “acreditam na crença”.

Essa idéia veio de Daniel Dennett, e Dawkins apenas faz uma emulação dela.

Quem “acredita na crença”, segundo a dupla, é alguém que mesmo não tendo uma crença, consegue respeitá-la.

Notem o que Dawkins escreve:

[...] um número desconcertantemente grande de intelectuais “acredita na crença”, embora não tenham eles mesmos a crença religiosa. Esses fiéis de segunda mão são frequentemente mais zelosos que os originais, o zelo inflado pela tolerância simpática: “Ora, não tenho a mesma fé que você, mas respeito-a e me solidarizo com ela” [...] “Sou ateu, mas…” A continuação é quase sempre inútil, niilista ou – pior – coberta por uma negatividade exultante.

A crítica de Dawkins é explícita: o respeito à crença de outrém é um erro.

Ele chega a chamar estas pessoas de “fiéis de segunda mão”.

Seria o mesmo que chamar alguém que não é Administrador de Empresas, mas respeita a profissão, de um Administrador de Empresas de segunda mão. Ou alguém que não é casado, mas respeita o casamento, de um casado de segunda mão.

Como se vê, falta lógica a Dawkins em sua tentativa pífia de xingamento.

Além do mais ele afirma que a tolerância em si destes “fiéis de segunda mão” traria mais ZELO do que os “fiéis originais”.

Particularmente acho difícil, mas se Dawkins trouxesse alguma evidência disso, a coisa ficaria mais clara.

Só que Dawkins não traz NENHUMA evidência a seu favor. Assim fica difícil.

A conclusão também é bizarra, pois ele diz que a afirmação “Sou ateu, mas…” acaba trazendo uma “negatividade”.

Claro que não, pois em muitos casos afirmar que não se é parte de algo e incluir um “mas” pode simplesmente significar que esta pessoa queira afirmar que mesmo diferente, respeita o outro.

Qual a negatividade, por exemplo, em dizer que “não se é gay, mas respeita os homossexuais”?

Dawkins não consegue sustentar nenhum argumento em favor de que incluir o “mas” seja algo intrinsecamente negativo.

O começo, como pode se notar, mostra que Dawkins mais usa o instinto do que a razão para escrever.

Mais pífio ainda é o seguinte:

[...] a maioria de nós desqualifica sem problemas as fadas, a astrologia e o Monstro Espaguete Voador, sem precisar afundar em livros de teologia pastafariana, e assim por diante [...]

Isso foi escrito em complemento a um texto de um amigo de Dawkins, PZ Myers, que teorizou ironicamente a respeito do seguinte: para Myers (assim como para Dawkins) não é preciso ter conhecimento de uma área para criticá-la.

Em seguida ele afirma que muitos “desqualificam” as fadas, a astrologia e o Monstro Espaguete Voador.

Ridículo, claro, pois muitos sequer PRESTAM ATENÇÃO à existência de tais entidades.

Muito diferente de Richard Dawkins, que PRESTA EXCESSIVA ATENÇÃO (embora não aprenda nada sobre) a Deus.

Qualquer que seja a relação de um religioso ou ateu tradicional com as fadas,  a astrologia e o monstro espaguete voador, ela não possui nenhum componente de OBSESSÃO assim como é a relação de Dawkins com Deus.

Em relação à essas entidades, os religiosos simplesmente as IGNORAM.

A desculpinha de Dawkins, portanto, é inútil.

Deve-se notar, também, a ignorância do autor ao citar ao fato das pessoas não se “afundarem” a respeito da “teologia pastafariana” (a do Monstro Espagueti Voador).

Como se afundar em algo que sequer existe?

Seria impossível estudar textos que não existem, até por que o Monstro Espagueti Voador não passa de piadinha. Não há estudo teológico sobre piadinha.

E, de novo, não fazemos campanha contra o Monstro Espaguete Voador.

Simplesmente o desprezamos. Como fazemos com qualquer piadinha infantil.

A seguir, Dawkins justifica a sua “ferocidade” contra os religiosos afirmando que os religiosos “fanáticos” são maioria.

Vejam:

Se o predomínio fosse só dessa espécie sutil e amena de religião, o mundo sem dúvida seria um lugar melhor, e eu teria escrito outro livro. A melancólica verdade é que esse tipo de religião decente e contido é numericamente irrelevante. Para a imensa maioria de fiéis no mundo todo, a religião parece-se muito com o que se ouve de gente como Robertson, Falwell ou Haggard, Osaba bin Laden ou o aiatolá Khomeini. Não se trata de testas-de-ferro; são todos influentes demais e todo mundo hoje em dia tem de lidar com eles.

Mas que porra é essa?

O sujeito afirma que defende a razão e o ceticismo e vem afirmar que “a imensa maioria dos fiéis” é radical ou fanática e não traz NENHUMA amostragem estatística disso?

A irracionalidade está, portanto, na alegação de Richard Dawkins.

Por enquanto, o autor inglês não comprovou a “imensa maioria”.

Mas a obra prima da irracionalidade do pensamento de Dawkins vem no próximo parágrafo. A quantidade de estultíces é tão grande que não é possível analisar o  parágrafo sem apontar, com números, os pontos contestáveis em seu argumento. Dessa forma, incluí os números entre colchetes para facilitar o acompanhamento.

Divirtam-se quando Dawkins comenta sobre o questionamento sobre ele ser também um fundamentalista:

Não, por favor, é fácil demais confundir uma paixão capaz de mudar de opinião com fundamentalismo, coisa que nunca farei [1]. Cristãos fundamentalistas são apaixonadamente contra a evolução [2], e eu sou apaixonadamente a favor dela. Paixão por paixão, estamos no mesmo nível. E isso, para algumas pessoas, significa que somos igualmente fundamentalistas [3]. Mas, parafraseando um aforismo cuja fonte eu não saberia precisar, quando dois pontos de vista contrários são manifestados com a mesma força, a verdade não está necessariamente no meio dos dois [4]. É possível que um dos lados esteja simplesmente errado. E isso justifica a paixão do outro lado [5]. Os fundamentalistas sabem no que acreditam e sabem que nada vai mudar isso [6]. A citação de Kurt Wise, na página 366, diz tudo: “[...] se todas as evidências do universo se voltarem contra o criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, mas, continuarei sendo criacionista, porque é isso que a Palavra de Deus parece indicar. Essa é a minha posição”. A diferença entre esse tipo de compromisso apaixonado com os fundamentos bíblicos e o compromisso igualmente apaixonado de um verdadeiro cientista [7] com as evidências é tão grande que é impossível exagerá-la [8]. O fundamentalista Kurt Wise declara que todas as evidências do universo não o fariam mudar de opinião. O verdadeiro cientista, por mais apaixonadamente que “acredite” na evolução, sabe exatamente o que é necessário para fazê-lo mudar de opinião: evidências [9]. [...] Cunho aqui minha própria versão contrária ao manifesto de Kurt Wise: “Se todas as evidências do universo se voltarem a favor do criacionismo, serei o primeiro a admiti-las, e mudarei de opinião imediatamente[...] Minha paixão baseia-se nas evidências. A deles, que ignora as evidências, é verdadeiramente fundamentalista”. [10]

1 – Começou mal, pois a afirmação “coisa que nunca farei” não prova absolutamente nada. É uma evidência anedota. O fundamentalismo é observado a partir de comportamento, e não por declaração do que se fará. Outra coisa: talvez Dawkins tenha confundido fundamentalismo com fundamentalismo religioso, o que seria manipulação semântica. Notem aqui, no Wikipedia, como é possível o fundamentalismo ser secular também. Observação: o fundamentalismo, em si, não fala nada de IMPOSSIBILIDADE de se mudar uma idéia.

2 – Aqui ele afirma que cristãos fundamentalistas são apaixonadamente contra a evolução. Não há sentido nisso, pois é possível que um cristão até liberal seja contra a evolução. Por vários motivos. Um deles pode ser a absoluta falta de necessidade da pessoa lidar com a teoria da evolução, então ela poderá negá-la somente por orgulho. Algo como dizer que “o universo surgiu quando eu nasci, e vai terminar quando eu morrer e BUM”. Isso pode ser dito mesmo sem uma pessoa ser fundamentalista. Outra possibilidade é que alguém diga que é contra a evolução apenas por não conhecer a teoria da evolução. Mais uma possibilidade é que alguém negue o evolucionismo impressionado pelo falatório fundamentalista de gente como Dawkins e Dennett sobre darwinismo, e então negue isso, achando que isso representa a evolução (quando, na verdade, não representa). Ou seja, existem vários motivos que podem levar à negação da evolução sem que seja o cristianismo fundamentalista.

3 – A questão é que realmente são fundamentalistas da mesma forma, considerando o fundamentalismo como aderência ESTRITA a princípios de uma doutrina, ideologia, etc.

4 – Isso aqui não tem absolutamente nada a ver com ser ou não fundamentalista. Existindo possibilidades de acerto ou erro (como em teorias), a declaração de Dawkins é ÓBVIA, mas não implica que a paixão por qualquer uma das possibilidades teóricas seja automaticamente livre da acusação de fundamentalismo somente por isso.

5 – A conclusão não é suportada pelas premissas. Qualquer coisa pode justificar uma paixão. A declaração de justificativas de paixão é aberta, baseada em declarações de crença pessoal, e não seguem a princípios estritos de investigação. Logo, a paixão sempre se justifica por si própria. O melhor é dizer que a paixão NÃO PRECISA de justificação. E não deixa de livrar a cara de alguém ou não de acusações de fundamentalismo. É importante que Dawkins não entendeu que o fundamentalismo não é baseado em motivos subjetivos, e sim no COMPORTAMENTO observado. Ficar justificando ad aeternum os motivos ou contar historinhas como ‘ah, eu mudarei de opinião se vier evidência em contrário’ não mudam absolutamente nada a acusação de fundamentalismo de alguém.

6 – Essa declaração de Dawkins é totalmente baseada em crença pessoal dele, NÃO É VERIFICÁVEL. Até por que todo fundamentalista pode alegar que NÃO é fundamentalista, e apenas segue o que as evidências lhe dizem.

7 – A questão de “verdadeiro cientista” é uma alegação totalmente anedótica, e portanto irrelevante. O que já desqualifica o argumento de Dawkins. O método científico existe INDEPENDENTE do fato de um cientista decidir OU NÃO mudar de opinião. Vejam o exemplo de Dawkins. Não há evidências a favor da teoria da memética, e ele acredita nisso há mais de 30 anos. Crença por crença, não é crença diferente das crenças cegas e inquestionáveis de alguns religiosos mais radicais (que, convenhamos, não representam a totalidade dos religiosos).

8 – A afirmação de que é “impossível exagerar” o compromisso de um cientista é completamente falsa. Basta ver os trabalhos de Dawkins e Dennett, que exageram a teoria da evolução além de qualquer limite aceitável por alguém racional. Quanto mais Dawkins tenta se engasgar para dizer que não é fundamentalista, MAIS FICA EVIDENTE o quanto ele não possui argumentos em favor de sua tese de que ele NÃO é fundamentalista (“só os outros”, segundo Dawkins).

9 – Não há evidências de que um cientista mude de opinião quando surjam evidências em contrário. Tanto que nenhuma teoria científica possui “consenso” absoluto. Sempre há dissidentes, justamente pelo fato de que cientistas podem ficar APEGADOS às suas crenças. O exemplo em questão, que falseia a alegação de Dawkins, nem sequer seria necessário, pois depois do item [7], o argumento dele já está demolido. Mas sempre dá para dar um chutinho a mais nos castelos de areia do autor inglês.

10 – Declaração de como funcionará a mente de Dawkins ante a possíveis evidências contra sua crença são IRRELEVANTES como argumento. Não há evidências de que a paixão de Dawkins se baseie em evidências (lembrem-se que Dawkins não defende só o evolucionismo e sim um evolucionismo EXAGERADO, que inclui até sandices como gene egoísta, fenótipo extendido e memética, nem um pouco suportados por evidências).

Quer dizer, Dawkins não consegue em momento algum provar que NÃO é fundamentalista, e para piorar o COMPORTAMENTO dele é tipicamente fundamentalista.

A justificativa dele, em forma de argumento, é recheada de erros lógicos, falácias de evidência anedota e manipulações semânticas (confusão entre “paixão” com “fundamentalismo” foi a pérola-mor).

É assim que começa o prefácio da edição de bolso de “Deus, Um Delírio”.

E é importante notar: esses foram os comentários referentes somente à PRIMEIRA METADE do prefácio – quando nos adentrarmos em cada um dos 10 capítulos do livro, a quantidade de erros é até maior. É por isso que o total dos artigos de refutação à esse livro estão planejados para superar o número de 30.

Em tempo: o próximo artigo falará sobre os “consolos” alegados por Richard Dawkins para a religião. Só se forem os “consolos” para o Dawkins.

Escrito por lucianohenrique

outubro 26, 2009 em 12:07 am

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